Raças

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Brangus, uma raça universal que cresce com vigor em um cenário econômico
adverso e, ao mesmo tempo, austero

Ivaris Júnior

O que determina o sucesso e a perenidade de um produto no mercado é a sua demanda. Nada sobrevive sem que o consumo o garanta. E há, ainda, aqueles que, volta e meia, tornam-se o que se chama a bola da vez, em função de uma conjuntura específica. O mercado é dinâmico, às vezes cíclico, e gera oportunidades distintas em momentos diferentes. Na pecuária, essas leis também são válidas. Por isso, é preciso retratar o que acontece com a raça Brangus nos últimos anos. Fatos mostram seu revigoramento nos negócios, enquanto números abrem perspectivas cada vez mais promissoras.

Ao leitor mais atraído por números, seguem alguns deles. Em um período de estagnação econômica, no qual já ganha quem não perde, reprodutores e fêmeas da raça, segundo empresários e leiloeiros rurais, registrarão um incremento de até 10% nos preços médios na temporada de 2018, em relação ao ano passado. Aliás, em 2017, e no mesmo sentido, dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) mostram que o Brangus foi a terceira raça que mais comercializou sêmen no País, perdendo apenas para Nelore e Aberdeen Angus.

Aliás, o mesmo Index permite outra análise importante. O volume de sêmen comercializado pela raça expandiu 16%, comparativamente a 2016, enquanto que quase a totalidade dos rivais, no mesmo período, encolheram no relatório. E aqui vale, ainda, destacar que a comercialização de todas as raças somou 8,071 milhões de doses, em 2017, apenas 49 mil doses a mais do que no ano anterior. Desse volume extra, o gado Brangus, sozinho, respondeu por 44 mil delas; ou seja, 90%.

De posse dos números iniciais, é possível, então, enfileirar alguns fatos conjunturais do mercado. O interesse pelo gado Angus é crescente e bastante justificável. Em função dos seus mais de 200 anos de seleção, a raça é consolidada por imprimir precocidade reprodutiva e produtiva, habilidade materna, padronização de pelagem, homogeneidade de carcaças e carne de padrão gourmet, com acabamento de gordura, marmoreio, suculência e maciez. Seu problema, porém, é trabalhar nos trópicos. E é justamente aí que entra o Brangus. Seus 5/8 de genética Angus que a sintetiza traz todas as habilidades conquistadas, porém somadas à adaptabilidade do zebu – no caso brasileiro, do Nelore –, consequência direta dos 3/8 restantes da genética que a compõe.

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Renata informa que, nos últimos dez anos, o número de machos registrados no Brasil cresceu 45%

Essa disposição confere ao gado Brangus o único capaz de fornecer a carne que se quer para nichos de valor com a capacidade de exploração no Centro-Norte do País, exatamente onde está a grande escala da produção nacional de proteína vermelha. Os touros Brangus respondem muito bem no serviço a campo, ainda estratégia predominante no modelo de reprodução do rebanho. A inseminação artificial, ferramenta pela qual o Angus se apresenta fora do Sul do Brasil como recurso para multiplicação no cruzamento industrial, não atende 12% das matrizes bovinas do País.

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Para Kaju, o Brangus atual oferece diversas formas para abertura do rebanho

E um outro cenário vem valorizando ainda mais o Brangus. No eterno dilema de o que fazer com a boa fêmea F1 (Angus x Nelore), o gado sintético tem mostrado valor ímpar na produção de uma F2 (tricross) com as mesmas habilidades de sua geração anterior, além da capacidade de oferecer a mesma qualidade de carne. A descoberta tem garantido, hoje, a presença da raça em produção comercial em todas as regiões do País, em quase todos os estados da Federação, segundo informações da Associação Brasileira de Brangus (ABB).

Em função dessas habilidades do Brangus em vários modelos de cruzamento industrial, o presidente da Asbia, Sérgio Saud, relata que “a maioria das centrais de inseminação artificial do Brasil ampliou sua bateria de touros Brangus, de modo a melhor atender à atual demanda”. Na análise do executivo, “a raça vem tomando o espaço de muitas raças sintéticas e adaptadas na formação do tricross, pois ela é a única que mantém o perfil de qualidade valorizado no produto final carne”.

Universalidade

Para João Paulo Schneider da Silva, conhecido por Kaju, presidente da ABB, outras características do produto Brangus vão ao encontro da conjuntura de mercado. A raça tem mais de 100 anos de seleção, desde seu surgimento, em Louisiana, nos EUA, em 1912, e 40 anos de Brasil, desde 1979, a partir de Bagé/RS. Essa contingência histórica garante à raça atributos fixados e variabilidade genética, de forma a sempre haver inúmeras possibilidades para a abertura do rebanho. Kaju ainda reforça “o grande número de indivíduos que a raça disponibiliza para o trabalho, bastante adaptados pelo tempo de Brasil e pela genética do Nelore”.

Segundo informações oficiais da ABB, cedidas por Renata Pereira, superintendente do Serviço Registro Genealógico da entidade, nos últimos dez anos, o número de machos registrados no Brasil apontou crescimento de 45%, enquanto o de fêmeas, 24%; comprovando a demanda crescente. É preciso ressaltar que muitos animais Brangus sem registro trabalham em rebanhos comerciais pelo País, diretamente na produção de bezerros diferenciados para recria e terminação, principalmente, ao se considerar que os vários graus de sangue obtidos no cruzamento do Angus com o Zebu são bovinos previstos nos vários modelos de obtenção do Brangus.

Já as garantias para características fixadas e o contínuo melhoramento genético têm origem nos programas Natura, Promebo e Embrapa Geneplus, entre outros. Em função da seriedade desse trabalho de seleção e da disponibilidade de reprodutores de qualidade, o interesse internacional pelo Brangus brasileiro é crescente, prejudicado apenas por barreiras sanitárias – “muitas delas, mais políticas que sanitárias”, segundo o presidente da ABB –, mas que estão caindo uma a uma por um intenso esforço do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) nos últimos três anos.

O Brangus está em todas as regiões pecuárias não temperadas do planeta, com variabilidade genética que supera a oferecida pela britânica Angus, oferecendo a mesma padronização e qualidade nos seus cortes. Marcadamente, o brasileiro ainda desenha indivíduos de umbigo corrigido, pelos curtos, circunferência escrotal (CE) superior, mais precoces à reprodução e na produção, com capacidade de terminação a pasto, porém, enfaticamente, no cocho do confinamento. Tal desenho reforça a capacidade da raça de encurtar o ciclo pecuário em diversos modelos de exploração.

Respaldo técnico

Essa perenidade e oportunismo da raça também deve ser associada à qualidade dos criadores que estão por trás dela. Em nível de Brasil, são dezenas deles, atuantes em todas as regiões do País. Cristiano Leal é um desses técnicos com várias experiências para contar. No seu entendimento, a raça Brangus é “extremamente eficiente” e tem como provas disso os resultados de campo.

“Há fazendas no Centro-Oeste que estão levando todo o seu rebanho para vacas Brangus devido à sua maior eficiência produtiva, pois é possível emprenhar as novilhas um ano antes que as de origem zebuína, com índice de prenhez em torno de dez pontos percentuais superior, por se tratar de uma raça bastante maternal. Na desmama, suas crias apresentam peso médio 15% maior”, reforça Leal, que também não deixou de destacar como de “suma importância” a precocidade de terminação desses bovinos.

Já como exemplo de um pecuarista tecnificado de médio porte que obtém no Brangus uma excelente parceira, podemos citar Álvaro Borges, com propriedades em Lavínia e Paulistânia, ambas cidades do Oeste paulista. Seu rebanho é de, aproximadamente, 800 matrizes e sua especialidade é a cria de bezerros comerciais. Ele produz uma F1 com Nelore x Angus e uma F2 com as melhores fêmeas cruzadas com Brangus. Dessa forma, fixa o grau de sangue Angus na segunda geração. A reprodução é assistida por Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), desde 2002.

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Ângela aponta que o Brangus cresce na pecuária comercial e também entre os criadores interessados na produção de genética

Borges explica que ele consegue melhor remuneração pela bezerrada do que se voltasse a F1 para o Nelore, mantendo, ainda, um alto índice de prenhez. Seus clientes são criadores e recriadores. Um outro filão que o tipo de gado resultante do seu modelo permitiu conquistar é o mercado exportador de gado em pé, para quem comercializa quase que a totalidade de machos. Borges não negocia seus produtos diretamente com frigoríficos, a não ser as fêmeas de descarte.

O empresário é titular da Agropecuária Estrela do Céu, empresa que também cede áreas para o cultivo da cana-de-açúcar. Com a clientela fiel que conquistou e os bons ares que batem à porteira, Borges pretende aumentar o número de matrizes na estação de monta, novamente. “Houve temporadas que trabalhei com 1,5 mil. O momento favorece retornar a um rebanho maior de fêmeas em reprodução. Com o tempo, quero utilizar somente matrizes Aberdeen Angus e Brangus preto”, reforça.

Vozes de peso

Há uma verdade inquestionável no velho ditado “diga com quem andas, e eu direi quem és”. Em companhia do Brangus existe uma série de personalidades da pecuária moderna praticada no País. É o caso de José Luiz Niemeyer dos Santos, do Nelore Terra Boa e Brangus JT, e da família Linhares, da GAP Genética. O primeiro está em São Paulo, porta de entrada para a forte produção de carne do Centro- Norte do Brasil. Já o segundo, a história praticamente se funde com a do Brangus, e carrega, hoje, a condição de um dos principais celeiros da raça no Rio Grande do Sul.

Em 2003, a pecuária de Niemeyer adquiriu um rebanho comercial da raça Brangus no Mato Grosso do Sul. Mesmo sendo manejados em uma região de cerrado arenoso e seco, percebeu que os animais apresentavam bom desempenho. O pecuarista, tradicional selecionador de Nelore – chegando até a presidir sua entidade maior nos anos 1990, a Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) – ficou impressionado com as qualidades da raça (muito precoce, boa habilidade materna, fértil, rústica e de boas características funcionais) e, em 2008, levou a cabeceira das novilhas para a Terra Boa, em Guararapes/ SP, dando início ao trabalho de seleção do Brangus JT – iniciais de seu pai, José Travassos dos Santos, seu grande incentivador.

Os primeiros resultados desse trabalho surgiram em 2013, quando o Brangus JT, na Exposição Nacional de Brangus, realizada em Londrina/ PR, ganhou os campeonatos de Bezerra Menor e Bezerra Maior. O impulso foi decisivo e, atualmente, é uma das principais grifes da raça. Niemeyer comercializa seus animais na fazenda e em leilões bastante tradicionais no mercado. Sua seleção traz genealogia brasileira, argentina e norte-americana. José Luiz Arpiza foi o técnico responsável pelas diretrizes na Brangus JT.

O rebanho atual de fêmeas Brangus da Fazenda Terra Boa está saltando de 150 para 200 cabeças em reprodução, enquanto que a do Nelore está em 300 delas. Para o experiente criador, “por sua correção e eficiência, a raça tem imenso potencial na pecuária praticada no Brasil Central, exatamente por trazer na genética dois ícones na produção mundial de carne: o Nelore, com sua adaptação aos trópicos, e o Angus, produtor da considerada ‘melhor carne do mundo’”.

Um outro expoente da pecuária brasileira que trabalha intensamente com o Brangus é a GAP Genética. Trata-se de um modelo em seleção e comercialização de reprodutores das raças Brangus, Angus, Braford e Hereford, além de ovinos e equinos. O início desta história começa em 1906, quando o médico João Vieira de Macedo deu início à formação da Cabanha Azul, um dos nomes mais importantes da agropecuária gaúcha, hoje conduzida por Ângela Linhares.

Marca toda essa trajetória o fato de a administração do grupo sempre manter uma busca “incansável pela novidade e por realizações que os permitam chegar primeiro em grande parte dos critérios que avaliam eficiência produtiva”. O profundo amor pela terra e a responsabilidade em lidar com a natureza, cultivados desde o princípio, garantiram o crescimento da, antes, “Azul” – hoje, “GAP” –, servindo de exemplo a tantas outras empresas do setor.

A GAP trabalha com 3,5 mil fêmeas Brangus no Rio Grande do Sul e com outras 1,5 mil no Mato Grosso. O objetivo é produzir touros para o Brasil Central, capazes de oferecer carne de qualidade com adaptação na cobertura a campo. A grife também é celeiro importante para selecionadores de raça pura e possui mais de 40 reprodutores em coleta de sêmen. Para Ângela Linhares, à frente de um trabalho com a raça de mais de 30 anos, “o Brangus cresce na pecuária comercial e também entre os criadores que a exploram para a produção de genética”. Ela cita, por exemplo, que, no Rio Grande do Sul, o Brangus “está ganhando preferência e tomando lugares de outras raças, por exemplo, pela sua resistência a carrapatos e a capacidade de suportar altas temperaturas” (referindo-se ao rigoroso verão gaúcho).

Mas a pecuarista também desfila as inúmeras características já fixadas no Brangus. “São elas que respondem ao fato de a raça oferecer padronização de crias, em termos zootécnicos, com alto desempenho frigorífico.” Ângela faz questão de frisar que a GAP possui produção própria de carne, na qual sua genética é testada o tempo todo.

Os rebanhos comerciais estão no na venda de touros Brangus Uruguai e no Mato Grosso, além do Rio Grande do Sul. A preocupação é produzir animais com pelos curtos, prepúcio levantado e grande resistência a carrapatos.

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Marcelo Silva observa que há nomes importantes da seleção de Angus migrando para a de Brangus

Na batida do martelo

Marcelo Silva, herdeiro do legado de Trajano Silva, compartilha da avaliação de Ângela Linhares. Para ele, o crescimento do Brangus entre os selecionadores de gado puro no Rio Grande do Sul se deve à resistência ao carrapato e à tolerância ao calor intenso. “Temos nomes importantes da seleção de Angus migrando para a de Brangus”, reforça. O empresário e leiloeiro rural também tem clientes cativos no Centro-Norte do País, onde a genética da raça tem mostrando excelente desempenho. “É a única raça que cresce a olhos vistos”, ressalta.

Para ele, a valorização dos machos em leilões da temporada de 2018 bate em 15%. Contudo, destaca outro ponto positivo e sinal de crescimento numérico dos indivíduos Brangus, que é a valorização das fêmeas, em torno de 10%. Marcelo Silva ainda associa o crescimento da exportação de gado vivo, na faixa de 20% a 25% no RS, como fator de estímulo à expansão do Brangus no estado gaúcho, uma vez que é exigido animais sem cupim para terminação em terras bastante hostis.

Outro empresário do setor e também leiloeiro rural é Lourenço Miguel Campo, da Central Leilões (Araçatuba/SP). Ele analisa o mercado da raça como “bem definido” em opinião muito próxima da de Marcelo Silva, estimando uma valorização dos touros em 2018 na faixa de10%. “O Brangus explodiu para a produção do tricross, muito em resposta ao programa de carne certificada Angus. A raça sintética garante produtos com a qualidade de carne exigida e o grau de sangue necessário.

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Sérgio Saud confirma que a maioria das centrais de inseminação ampliou a bateria de touros Brangus

De acordo com Campo, o Brangus é uma raça de seleção madura, cujos reprodutores mostram-se capazes de trabalhar a campo com grande capacidade de impor suas características já fixadas. Para ele, “a versatilidade permite trabalhar em vários modelos de exploração e de ambientes, com valorização de todos os produtos que assina”.

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Tradicional selecionador de gado Nelore, José Luiz Niemeyer aposta na venda de touros Brangus

Então, entre fatos, fotos e números, a receita de sucesso do Brangus está disposta: conjuntura de mercado favorável, em função de seu desempenho zootécnico, da qualidade de carne (o produto final) mais demandas de nichos importantes e crescente de negócios, como a exportação de animais vivos; a resposta perene ao cruzamento industrial – falando aqui do uso da raça na produção de um tricross mais eficiente e desejado –, além de ter, por trás de sua performance, técnicos, criadores e empresários sensíveis às necessidades da pecuária nacional, com muita disposição para o trabalho e transparência, acima de tudo.


Dica da AG para o produtor de carne

Caso o pecuarista retenha matrizes F1 Angus x Nelore para serem cobertas com Brangus, é importante verificar a característica de peso ao nascer do touro escolhido. Por ventura, se a decisão for segurar fêmeas tricross para reprodução – essa prática não é comum, mas está sendo vista em algumas propriedades no mercado brasileiro –, também é aconselhável monitorar a característica de pelo fino.