Bem-Estar Animal

 

VISÃO SISTÊMICA

Maria Eugênia Andrighetto Canozzi*, Odilene S. Teixeira**, Izabela P, Pereira*** e Júlio Barcellos****

As previsões evidenciam que o aumento da população, da urbanização e da renda vem desencadeando maior demanda por produtos de origem animal. Conforme a FAO, o mundo terá que alimentar 9 bilhões de pessoas em 2050. Concomitantemente à necessidade, a produção de alimentos de origem animal está em crescimento, graças à maior eficiência produtiva, decorrente dos avanços genéticos, nutricionais, sanitários e de manejo. Ao mesmo tempo, existe um aumento da percepção pública sobre o bem-estar dos animais de produção, com uma visão distorcida de que essa melhor eficiência é, muitas vezes, desfavorável ao bem-estar. Diante desse paradoxo, fica evidente que os princípios éticos relativos à produção animal devem embasar as mesas de discussões de profissionais, pesquisadores, criadores, enfim, de todos os envolvidos no processo produtivo.

Porém, a pergunta que fica é: e o que é o bem-estar animal (BEA)?

Expressão que passou a ter importância com a intensificação da agricultura, após a II Guerra Mundial, e posterior publicação de livros sobre aspectos negativos da produção intensificada (Animal Machines, por Ruth Harrison; Animal Liberation, por Peter Singer; e The Case of Animal Right, por Tom Regan), hoje é uma fusão de questões éticas, acadêmicas e legais. Quando se pensa em BEA, considera-se que faz referência ao indivíduo, não ao grupo, e tem como base i) as emoções experimentadas pelos animais; ii) a facilidade com que os animais se adaptam ao ambiente; e iii) a possibilidade que os animais possuem para mostrar seu comportamento natural.

O BEA nos remete, diretamente, às práticas de manejo na fazenda e no pré-abate (período que inclui o embarque na fazenda até o abate). Apesar de a aplicação ser focada no processo produtivo, as exigências partem do consumidor. No momento da compra, esse consumidor – urbano, consciente, informado - faz ponderações e questionamentos sobre a produção, sendo que as questões de BEA - manejo, práticas de criação, instalações, potencial impacto no ambiente, mesmo recentes, já são realidade, principalmente em países da União Europeia e nos Estados Unidos. Nas cadeias de produção mais intensificadas, como a de suínos e aves, empresas já estão se antecipando às futuras exigências: na próxima década, fornecedores não devem usar gaiolas de gestação na produção de leitões, e a produção de ovos por poedeiras deve ser realizada fora de gaiolas. E a indústria frigorífica, qual o seu papel? É ela a responsável por transformar o músculo em carne. O método de abate que faz uso de princípios do comportamento animal, com insensibilização do bovino prévio à sangria, é conhecido como “humanitário” e é o realizado com maior frequência. Outros métodos, conhecidos como “abate religioso” (Kosher e Halal), são controversos sob o ponto de vista do bem-estar: ao evitarem o atordoamento, maximizam o sofrimento decorrente do estresse da contenção, da dor e do desconforto à sangria. Contudo, apesar de proibido em alguns países europeus (Dinamarca e Polônia, por exemplo), está em expansão no mercado internacional, pelo aumento da população muçulmana e judaica e consequente agregação de valor ao produto final.

Frente a essa realidade, o manejo dos animais em fazendas de gado de corte e em frigoríficos vem sendo conduzido com o uso das boas práticas, que incluem questões de manejo, instalações e equipe, com o objetivo de reduzir a incidência de procedimentos agressivos e perdas produtivas. Um manejo que não preserva o bem-estar dos bovinos aumenta a ocorrência de animais e colaboradores estressados e a probabilidade de acidentes de trabalhos, de danos aos animais e às instalações.

A aplicação dessas práticas é simples, o difícil é alterar os hábitos da equipe de colaboradores. As boas práticas fundamentam-se no conhecimento do comportamento e das particularidades dos bovinos. Por exemplo, a resposta de medo é característica de todos os animais e, por isso, cada bovino possui uma “zona de fuga”, que corresponde à máxima aproximação tolerada à presença de um predador, de um dominante ou de um estranho. Considerar que a sua visão é diferente da humana é determinante para um manejo tranquilo e eficiente: os bovinos possuem visão tridimensional somente à frente, dois amplos setores laterais com visão distorcida e uma “zona cega” na região da cola. Devem-se ponderar as distrações presentes no solo, como sacolas plásticas, poças de água, papéis, contrastes de luz, que podem resultar em curiosidade e medo. O uso indevido do bastão elétrico, em substituição ao uso de “bandeirinhas”, pode estressar os bovinos e retardar o manejo. Por isso, considerar o deslocamento e intervir quando necessário, orientar para a direção desejada e considerar uma velocidade de acordo com o impulso do próprio animal são quesitos imprescindíveis durante o manejo do gado.

A construção das instalações deve ser planejada para facilitar os trabalhos operacionais. Estudar a incidência do sol nas diferentes horas do dia e considerar a possibilidade de aumentar a iluminação em determinadas áreas é uma maneira de evitar contrastes entre claro e escuro. Evitar construir curvas ou cantos muito fechados e fazer uso de formas arredondas facilita a condução dos bovinos.

E essas práticas têm impacto na qualidade do produto final? Imediatamente após o abate, ocorre a queda do pH na carcaça e isso influencia a qualidade da carne. O decréscimo do pH depende da reserva de glicogênio nos músculos. Em animais estressados, essa reserva pode se exaurir, com a possibilidade de comprometer a carcaça inteira. Além disso, a presença de hematomas, cortes, fraturas, contusões e abscessos pode condenar as regiões afetadas, com prejuízos econômicos evidentes para toda a cadeia.

Por isso, cuidados devem ser tomados durante o manejo pré-abate. Antes do embarque, evite a mistura de lotes e, com isso, a tentativa de definição de uma nova ordem social e a movimentação de animais individualmente (lembre-se, os bovinos são animais gregários). Tanto no embarque como no desembarque, deve- -se dar preferência a embarcadouros com paredes sólidas e lisas (sem saliências de pregos ou parafusos), para evitar lesões e distrações; evitar espaço entre o caminhão e a rampa de embarque; e fazer uso de piso da rampa antiderrapante. Durante o deslocamento, a super e a sublotação são prejudiciais, a condição das estradas e a velocidade influenciam na estabilidade dos animais (os quais devem permanecer em pé) e o clima com altas temperaturas e umidade, típico da região tropical brasileira, maximizam o estresse do gado.

Como podemos ver, em todas as etapas de produção, deve haver a valorização do comportamento e do bem-estar dos bovinos. Lembre-se que se os animais vivenciam experiências agradáveis, o manejo é facilitado. Contudo, um manejo correto só é possível com instalações adequadas e equipe de colaboradores qualificados. Todos esses quesitos, presentes nas boas práticas de manejo, se considerados, só tenderão a aumentar a eficiência da atividade pecuária, não somente aquela medida em produtividade, mas também em tempo de trabalho e de satisfação dos colaboradores.

Conceitos de bem-estar animal ajudam a otimizar manejo na propriedade

O que esperar do futuro?

A busca por melhorias na área do BEA só é possível com educação e conscientização da população. A necessidade da inclusão da ciência de bem-estar animal, de ética e legislação no currículo dos profissionais da área das ciências agrárias é cada vez mais valorizada em todo o mundo. Todos os profissionais estão em uma posição-chave para compartilhar seu conhecimento e entendimento sobre o tema com as próximas gerações. O treinamento formal, a educação empírica e a distribuição de manuais práticos para diferentes grupos que trabalham com bovinos, como funcionários de frigoríficos e trabalhadores rurais, têm mostrado resultados positivos em países da América Latina, onde inúmeras iniciativas (técnicas, legislativas e políticas) estão em desenvolvimento. Por fim, mas não menos importante, a difusão de campanhas de conscientização na mídia deve ser utilizada como um recurso valioso para a demonstração da importância das questões de BEA.

E as legislações, onde estão? Leis e políticas públicas, com o objetivo de proteger os animais, têm sido adotadas, principalmente, em países desenvolvidos, como aqueles que compõem o Reino Unido e a União Europeia, os quais possuem um dos regulamentos mais influentes sobre o BEA. Por outro lado, no Brasil, apesar da existência de leis e normativas que regulamentem as práticas com animais, as mesmas são pouco específicas e pouco fiscalizadas. Por isso, o problema não é a falta de legislação, mas sim o cumprimento das mesmas, havendo, portanto, a necessidade de instrumentos de fiscalização eficazes e a aplicação de punições adequadas. Caso isso não seja repensado, a não adequação a questões de bem-estar dos animais de produção pode provocar barreiras aos produtos brasileiros, como é o caso da carne bovina, impossibilitando alcançar mercados exportadores tão desejados pelos produtores rurais.

Melhorias no manejo e na produção pecuária, de maneira geral e, claro, no tocante ao BEA, são consequências das pesquisas científicas, de inovações tecnológicas, do desenvolvimento de soluções práticas, da compreensão sobre as percepções do consumidor e da criação de estratégias educacionais. Avanços assim têm como pilar instituições de pesquisa e ensino que, mesmo carentes de recursos e apoio, estão conseguindo dar visibilidade e aplicabilidade aos estudos aqui produzidos.

*Maria Eugênia Canozzi é médica- -veterinária, doutora, Posdoc, Capes/ PNPD - Nespro/UFRGS

**Odinei Teixeirá é zootecnista, Mestre - Nespro/UFRGS

***Isabela é graduanda em Medicina Veterinária - Nespro/UFRGS

****Júlio Barcellos é médico-veterinário, Doutor - Nespro/UFRGS Contato: [email protected]