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ILP

Adoção de sistemas integrados: as mudanças e os desafios envolvidos

Gabriela Geraldi Mendonça1, Jeferson Garcia Augusto2, Pedro Bonacim3, Flávia Fernanda Simili4, Augusto Hauber Gameiro5

Os profissionais envolvidos nas cadeias de produção animal e vegetal se deparam com um cenário atual de contradições. De um lado, o aumento pela demanda de alimentos, de outro, pressões sociais, questionando o modo como conduzimos a produção. Assim, muito embora a cadeia esteja sendo taxada como grande contribuinte para impactos ambientais negativos, a grande questão não está na quantidade produzida e sim na qualidade e na eficiência da produção.

Surge a necessidade, portanto, de que estratégias sejam definidas e alternativas sejam validadas nesse contexto de escassez de recursos não renováveis versus eficiência na produção de proteínas animal e vegetal. Avanços obtidos através de pesquisas e tecnologias aplicadas nas áreas de nutrição, melhoramento genético e sanidade, foram e continuam sendo determinantes. Contudo, é preciso ir um pouco além, pensando no modo como os sistemas produtivos são implantados e conduzidos, ou seja, pensar em um novo tipo de delineamento, minimizando os impactos causados ao meio ambiente, sem, no entanto, esquecer os aspectos produtivos e econômicos.

Nesse contexto, os sistemas integrados podem ser uma importante ferramenta. A integração lavoura- -pecuária (ILP) consiste na implantação de diferentes sistemas produtivos de grãos, fibras, carne, leite e energia, na mesma área, em plantio consorciado, sequencial ou rotacional. O objetivo é conseguir obter, em uma mesma área, o cultivo de pastagens anuais ou perenes para a produção animal e produção vegetal, principalmente grãos.

Os benefícios mais divulgados em relação aos sistemas ILP são os denominados agronômicos, ou produtivos, que se baseiam nas melhorias de propriedades físicas, químicas e biológicas do solo. A ciclagem de nutrientes acontece de maneira promissora, sendo que os resíduos de uma das culturas podem beneficiar a outra cultura e vice e versa. A fertilidade no ecossistema também pode ser garantida pelo maior acúmulo de matéria orgânica, que por sua vez promoverá melhor estruturação de agregados do solo, facilitando o desenvolvimento de raízes e a maior infiltração de água. Também ocorre a diminuição do risco de doenças e pragas, bem como redução do aparecimento de plantas invasoras. Tais aspectos são decisivos para obtenção de bons resultados produtivos, ou seja, há a possibilidade de uma cultura em um sistema integrado ser tão produtiva quanto em um sistema de monocultivo.

Capim na entrelinha do milho, quando o grão já estava na época da colheita

A opção entre as culturas que serão integradas dependerá de fatores climáticos, características do solo, disponibilidade de insumos, preços de mercado e aporte tecnológico. A complexidade de um sistema que contempla a produção vegetal e animal pode ser fator determinante no momento de decidir entre o monocultivo ou a integração. A questão de como gerenciar um sistema integrado, embora seja raramente abordada, é decisiva. Assim, esse texto busca abordar alguns aspectos essenciais para a migração de um sistema de monocultivo para um sistema integrado, bem como questões gerenciais envolvidas nessa transição.

O que está realmente envolvido?

As experiências compartilhadas neste texto são baseadas em um projeto chamado “Impacto ambiental, produtividade e viabilidade econômica de sistemas de monocultivo e integrado de lavoura-pecuária”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Trata-se da implantação de sistemas ILP de milho grão e capim Marandu para a engorda de bovinos, que está sendo desenvolvido no Centro Avançado de Pesquisa em Bovinos de Corte de Sertãozinho, pertencente ao Instituto de Zootecnia/APTA/SAA.

A ideia de integrar uma nova atividade dentro da empresa rural pode parecer promissora, incialmente, baseada nos benefícios produtivos (produtividade de grãos, por exemplo) e econômicos (diversificação de atividades, por exemplo). Entretanto, se buscamos a adoção em escala desse tipo de sistema, é preciso ultrapassar o pensamento encontrado nas universidades e institutos de pesquisa e considerar a realidade das propriedades brasileiras. Em sistemas produtivos comerciais, é preciso considerar que, ao migrar do monocultivo para a integração, as exigências em relação a mão de obra capacitada, maquinário, novos mercados e novas técnicas de manejo serão desafios enfrentados.

Antes de pensar no que é necessário para a adoção de um sistema integrado, é preciso levar em consideração que existem dois tipos de visões possíveis para essa discussão: a visão de um agricultor e a visão de um pecuarista. Levando em consideração que a prática de sistemas ILP pode ser encarada como uma possibilidade de recuperação de pastagens, o mais comum é que tenhamos o perfil de pecuaristas extensivos, buscando aderir a sistemas integrados. Esse perfil é caracterizado por práticas menos intensas, com a adoção de menor quantidade de maquinário e tecnologia. A visão exposta neste texto se aproxima da visão de um pecuarista, considerando que o grupo de pesquisa que conduz o projeto sempre realizou trabalhos na área da produção animal.

Pastejo de outono em sistemas integrados, após a colheita do milho

Uma das principais dificuldades enfrentadas para a migração de um sistema de pecuária extensiva para um sistema de ILP, provavelmente, será a necessidade de maquinário e nível tecnológico utilizado. As experiências mais desafiadoras, nesse sentido, enfrentadas pela equipe do projeto, aconteceram no momento da regulagem de máquinas e implementos agrícolas, bem como no momento da colheita do grão. O mais provável é que a adoção inicial de uma cultura vegetal não justifique a aquisição de maquinário e implementos agrícolas. Nesse caso, existe a opção do aluguel desse tipo de tecnologia, que parece uma opção viável.

Outro fator seria a mão de obra. As particularidades de implantação e condução de uma cultura vegetal exigirão conhecimentos diferentes do que aqueles necessários para a pecuária. O desafio da escolha das técnicas envolvidas, como híbridos adequados, fórmulas químicas e manejos necessários, é facilmente encarado com o auxílio de assistência técnica especializada ou capacitação de funcionários. Pode ser considerada, também, a possibilidade de terceirização desse tipo de serviço, o que geralmente acontece quando as tecnologias envolvidas são alugadas. Para a condução do projeto de pesquisa citado, havia dois grupos de funcionários, os que trabalhavam com o maquinário agrícola e os que trabalhavam com o manejo animal, o que indica uma dificuldade de misturar as atividades.

Pastejo de verão, após a colheita do milho, utilizando uma taxa de lotação maior nos pastos de sistemas integrados

A infraestrutura da propriedade teria que ser ajustada, provavelmente. A construção de benfeitorias, como galpões, para maquinário adicional, fórmulas químicas (adubos, herbicidas, inseticidas) e, eventualmente, os grãos, seriam as modificações mais básicas.

No caso de um agricultor que desejasse integrar a pecuária em seu sistema produtivo, a primeira decisão seria o objetivo a ser atingido. Considerando a escolha pela pecuária de corte, a próxima decisão seria a categoria animal, considerando vantagens e facilidades de mercado regional (compra e venda de insumos e produto final, por exemplo). Há indícios de que a recria é a categoria animal mais fácil para quem iniciará a atividade.

O aspecto da mão de obra também deve ser pensado. Será necessário pessoal habilitado à montaria, bem como alguém capacitado para orientações sobre manejo de pastagens e manejo animal. A infraestrutura da propriedade também precisará ser alterada, com a construção de cercas, reservatórios de água, cochos e curral para manejo.

As mudanças citadas podem parecer de difícil execução, contudo, serão mais facilmente colocadas “na ponta do lápis”, ou seja, o produtor saberá o custo que elas irão representar. Porém, o aspecto gerencial é mais difícil de ser quantificado. Não se trata de saber quanto custa a mão de obra especializada para lidar com a lavoura e/ou pecuária, ou saber o preço de tecnologias que deverão ser adotadas, vai muito além disso. Trata-se de saber se todo o esforço gerencial embutido em um sistema integrado será compensado financeiramente, ao final de um ciclo produtivo. Quando se fala em aspecto gerencial, faz-se referência à capacidade de planejamento, organização e administração (de finanças e recursos físicos, naturais e pessoais disponíveis), possibilitando que as duas atividades escolhidas sejam conduzidas da forma mais eficiente possível.

Antes mesmo de implantar o sistema integrado, o produtor rural deve ter conhecimento de mercado. Por exemplo, o pecuarista terá que decidir qual cultura vegetal vai produzir, baseado no objetivo que deseja atingir. No caso de se fazer a opção pelo milho, a pergunta é se a produção será destinada para grãos ou silagem. A opção de produzir silagem para alimentação animal na época das secas pode parecer promissora, desde que haja um planejamento em relação ao armazenamento desse produto e possíveis compras, no caso de falta ou problemas na produção. Outra questão é tomar a decisão se a implantação da cultura vegetal vai acontecer em apenas uma safra, com o objetivo de reformar o pasto e, consequentemente, por quantos anos a condução da pecuária extensiva vai acontecer. Ou ainda, se a produção do grão acontecerá na safra e na safrinha, para que depois os animais sejam inseridos no sistema.

O planejamento deve ser constante, baseado nas tomadas de decisão a curto, médio e longo prazos. Por exemplo, caso a pecuária seja inserida no sistema, logo após a colheita da cultura vegetal, cercas, bebedouros e cochos devem ser implantados em tempo hábil.

Ao longo do tempo, ações como a realização de amostragem de solo para tomada de decisão em relação a adubação e/ou técnicas de preparo do solo, ou tomada de decisão por sistema de plantio direto ou convencional, também farão parte da rotina, exigindo planejamento prévio.

Inevitavelmente, conhecimentos sobre gestão financeira precisam fazer parte da rotina do produtor que decide assumir uma nova atividade em sua propriedade. Conseguir se organizar em relação aos custos e retornos de cada atividade, de maneira separada, facilitará a alocação de recursos e possibilitará afirmações acerca dos lucros e investimentos futuros.

De maneira informal, é afirmado que os agricultores apresentam menor resistência para adoção de sistemas integrados, embora tenham sido citadas mudanças e riscos para ambos os tipos de produtores. O que vai ser essencial para a tomada de decisão e para a consolidação de um sistema integrado será o planejamento, o aspecto gerencial e o nível de organização da equipe envolvida.

Os retornos econômicos obtidos com a diversificação das atividades na fazenda, bem como os benefícios reprodutivos, acontecerão no médio e longo prazos, o que demonstra que será necessário que os produtores interessados assumam novos riscos, como altos custos inicias, novos tipos de conhecimentos e atuação em novos mercados. Em contrapartida, os sistemas integrados são muito flexíveis, podendo ser adaptados a qualquer tamanho de propriedade e utilizando vasta opção de culturas vegetais e animais. Assim, é possível que os produtores rurais consigam, com o passar do tempo, equilibrar a produção nas duas atividades escolhidas, atingindo níveis satisfatórios em ambas e, consequentemente, o retorno financeiro desejado.

1 Gabriela Mendonça é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Produção e Nutrição Animal, USP, Pirassununga, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected] hotmail.com

2 Jeferson Garcia é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Produção Animal Sustentável – Instituto de Zootecnia – Sertão - zinho, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]

3 Pedro Bonacim é pesquisador científico - Instituto de Zootecnia - Centro de pesquisa em Bovino de Corte, Sertãozinho, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected] yahoo.com.br

4 Flávia Simili é doutora em Produção Animal e Pastagem. E- -mail: [email protected]

5 Augusto Gameiro é professor da Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, Departamento de Produção e Nutrição Animal, Pirassununga, São Paulo, Brasil. E-mail: [email protected]

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