Caprinovinocultura

 

Qualidade do campo até a mesa

Projeto investe na produção de cordeiros a partir de cruzamentos para atender mercado que valoriza cortes especiais

Denise Saueressig
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Bastante valorizada nos últimos anos, a carne de cordeiro precisa chegar à mesa do consumidor com características que agradem os paladares mais exigentes. O trabalho para que isso aconteça, no entanto, começa no campo. É com atenção a esse mercado que pesquisadores do Instituto de Zootecnia (IZ) da Secretaria de Agricultura de São Paulo se dedicam a um estudo que avalia a qualidade da carne de cordeiros oriundos de cruzamentos com raças específicas.

O projeto “Produção de cordeiros para abate superprecoce de raças maternas brasileiras Santa Inês e Morada Nova” iniciou há cerca de dois anos, a partir de uma tese de doutorado apresentada no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP), pelo aluno Juliano Issakowicz.

Os ovinos Santa Inês representam a raça deslanada mais utilizada em rebanhos comerciais de corte no Brasil. Adaptáveis a qualquer sistema de criação e a diferentes condições, os animais estão presentes em propriedades de todas as regiões do País. “Já a Morada Nova, embora tenha características similares, está concentrada em criatórios do Nordeste e em quantidade bem reduzida”, informa o zootecnista Mauro Sartori Bueno, pesquisador do IZ.

A parte prática do estudo envolveu cruzamentos de ovelhas Santa Inês com carneiros Dorper e de ovelhas Morada Nova com carneiros Dorper. Também foram realizados cruzamentos Santa Inês x Santa Inês e Morada Nova x Morada Nova. O objetivo foi gerar cordeiros que pudessem atingir os 35 quilos de peso vivo em um período máximo de 130 dias. O pesquisador explica que, depois do nascimento, os animais foram desmamados com tempo de vida entre 60 e 70 dias e mantidos em confinamento para terminação por um período entre 50 e 60 dias.

Pesquisador Mauro Sartori Bueno, do IZ: sabor e qualidade da carne de animais jovens atendem demanda crescente de consumidores

Os melhores resultados foram obtidos com os cordeiros oriundos de cruzamentos entre raças, com destaque para os filhos de mãe Santa Inês e pai Dorper, que chegaram aos 35 quilos com tempo de vida entre 115 e 120 dias. “Estávamos em dúvida quanto aos animais Morada Nova, que geram cordeiros pequenos, mas o desempenho do cruzamento com Dorper também foi positivo, com os cordeiros chegando ao peso proposto com idade em torno de 120 dias”, descreve o zootecnista.

Resgate genético

A pequena presença de ovinos Morada Nova no Brasil é outra motivação dos pesquisadores para trabalharem em estudos com a raça, que é considerada bastante rústica e resistente a problemas sanitários. Entre as qualidades desses animais também está a grande habilidade materna das fêmeas. Segundo Bueno, o projeto do IZ não deixa de ser uma tentativa de resgate da raça, que é um patrimônio genético do País. Ele menciona que a Embrapa Caprinos e Ovinos, com sede no Ceará, realiza um importante trabalho de melhoramento e conservação desses ovinos.

Cordeiros oriundos de cruzamento entre fêmeas Santa Inês e carneiros Dorper atingiram os 35 quilos entre 115 e 120 dias de vida

Sabor e qualidade nutricional

A pesquisa realizada no campo tem como objetivo prioritário a qualidade da carne. O pesquisador Mauro Bueno ressalta que está bem claro que o consumidor urbano tem preferência pelo alimento de sabor mais leve e que é produzido a partir de animais jovens. “Existe um nicho bastante interessante de alta gastronomia que é formado por restaurantes e butiques de carne que comercializam cortes especiais, como carré, picanha e filé”, sustenta.

Porém, o sabor não é o único argumento a favor da carne de cordeiro. Uma etapa do projeto desenvolvido no IZ se dedicou a avaliar o perfil dos ácidos graxos que compõem a gordura dos cortes oriundos de animais superprecoces. A linha de pesquisa, que também contou com a participação do pesquisador Ricardo Lopes Dias da Costa, indicou que animais abatidos entre 100 e 130 dias geram uma carne magra e com gordura de boa qualidade nutricional. “Esse tipo de estudo ajuda a desmitificar a ideia que muitas pessoas ainda têm sobre a ingestão da carne. Vivemos em um momento de excesso de informação, mas nem sempre é a informação correta que chega até o consumidor”, constata Bueno.