Raça do Mês

 

PENSANDO GRANDE

A raça cosmopolita Santa Gertrudis pede passagem para impulsionar a bovinocultura de corte brasileira através da sua variabilidade genética

Erick Henrique
[email protected]

odo projeto agropecuário de sucesso começa, antes de tudo, com uma boa iniciativa. O surgimento de muitas ideias de caráter objetivo é fundamental para o desenvolvimento contínuo e ininterrupto de uma fazenda. Com esse intuito, pecuaristas brasileiros resolveram investir no gado Santa Gertrudis para alavancar os índices de produtividade e lucratividade, como visto na Fazenda Mangabeira, do criador Gustavo Barretto da Cruz, que realiza um trabalho de destaque com o gado sintético no município de Japaratuba/SE. O criatório é uma referência na região Nordeste por intermédio do longo trabalho de melhoramento genético com o plantel Santa Gertrudis.

“A Fazenda Mangabeira começou sua história com a raça, em 1978, quando meu pai (Eduardo Rodrigues Porto da Cruz) trouxe os primeiros exemplares para o estado de Sergipe. Na época, ele iniciou a linhagem adquirindo exemplares de renomados criatórios do Brasil (King Ranch, Campos Sales, Carson Geld, Luiz Bannwart e Jorge Rudney Attala), sendo reprodutores e fêmeas”, lembra Barretto.

Através do pioneirismo de seu pai, no ano seguinte, nasceram os primeiros animais no estado. De lá para cá, a fazenda foi investindo no desenvolvimento do Santa Gertrudis. Porém, em 2009, o proprietário da Mangabeira faleceu e Barreto assumiu a gestão da propriedade, dando continuidade ao projeto.

“A gente sempre teve rebanho puro Santa Gertrudis e também comercial de Nelore e Tabapuã, e fazíamos o cruzamento industrial com essas raças. Nós chegamos a ter 600 animais Santa Gertrudis e a vacada branca era a base do cruzamento. Antigamente, a Fazenda Mangabeira fazia o ciclo completo, mas, em 2004, começamos a produção de cana-de-açúcar, então foi necessário reduzir muito a área de pastagem, bem como o plantel de animais PO. Assim, decidimos tocar o empreendimento apenas com rebanho sintético”, diz o pecuarista sergipano.

Segundo Barretto, as divisões das atividades ficaram em 700 hectares para produção da cana-de-açúcar e 150 hectares para criação dos 250 bovinos, sendo touros, fêmeas e bezerros. Os exemplares são comercializados de vento em popa na Bahia, em Alagoas e Pernambuco. A alimentação do rebanho é a pasto de braquiária.

“Nós temos duas fazendas, uma fica no município de Carirá/SE, região semiárida, e a outra está localizada perto do litoral, em Japaratuba/SE. Desse jeito mostramos ao mercado que a raça se adapta muito bem. Em suma, o manejo do Santa Gertrudis, aqui, é o mesmo que foi realizado com os zebuínos no passado, com vacinação, sal mineral, vermifugação e forragem”.

Investimento certo

O produtor recorda que durante o processo sucessório, ele fortaleceu o criatório comprando animais de São Paulo. Também investiu em dois touros para catalisar, de vez, a genética. Um exemplar adquirido foi Justus, filho de um reprodutor sul-africano x matriz brasileira. Para Barretto, é um animal que representa a nova geração do Santa Gertrudis.

“A seleção genética no Brasil do novo Santa Gertrudis é composta com sêmen da Austrália e embriões da África do Sul”, informa o criador Gustavo Barretto da Cruz

“Como acontece com todas as raças, o Santa Gertrudis evoluiu muito. No passado, o sintético era um bovino grande, padrão norte-americano, de animais mais tardios e, por isso, nós reduzimos o tamanho. Dessa forma, a seleção genética no Brasil do novo Santa Gertrudis é composta com sêmen da Austrália e embriões da África do Sul”, informa o selecionador.

O touro Justus está há dois anos na CRV Lagoa, em Sertãozinho/SP, é fruto de uma aquisição entre os pecuaristas Juracy Bertin, Djalma do Amaral, Gustavo Barretto e Décio Antônio de Gouveia Pedroso. Eles avaliam que o reprodutor é um animal moderno, com excelente acabamento de carcaça, ganho de peso e precocidade, algo que a pecuária nacional tanto anseia. Somente na região de Vilhena/RO, foram vendidas 1.500 doses de sêmen do animal.

Agora, retornando aos investimentos em reprodutores da Mangabeira, o segundo animal é Choice, genética 100% da propriedade, um exemplar destinado a quem deseja atender o mercado de carne de qualidade. O touro possui um índice de marmoreio muito bom, padrão Angus, com excelente acabamento de carcaça.

“O touro foi avaliado por ultrassonografia, visto que, em 2016, nós realizamos, junto à DGT Brasil, avaliação de carcaça em todo o rebanho. Antes, a Associação Brasileira de Santa Gertrudis (ABSG) já promovia tais análises. Contudo, nessa nova fase da entidade, a Mangabeira foi a primeira a avaliar 100% o plantel, exatamente para aferir os acasalamentos com base tanto no Embrapa/Geneplus quanto na avaliação por ultrassom”, explica o criador que também é diretor de Marketing da ABSG.

Na análise do presidente da ABSG, Luiz Fernando Doneux Júnior, a instituição e seus associados trabalham com o programa de melhoramento genético da Embrapa/Geneplus, para identificar os reprodutores que transmitam resultado genético objetivo, além de promover importações de outros países que produzem uma genética diferenciada.

“A África do Sul vem realizando um trabalho fascinante com o Santa Gertrudis. Embora não possuam uma multiplicação tão rápida, os criadores sul-africanos propiciam uma seleção massal e, por esse motivo, nós estamos trazendo essa genética de qualidade. Além disso, outros países que a ABSG procura com o intuito de incrementar a variabilidade sanguínea do Santa Gertrudis são os Estados Unidos e a Austrália”, afirma Doneux.

Cruzamento industrial

Dentre tantas histórias relacionadas ao bovino sintético, a Fazenda Ana Luíza, do pecuarista Décio Antônio de Gouveia Pedroso, demonstra que a raça que está no Brasil há mais de 60 anos merece um olhar mais atento do mercado, posto que o produtor encaixa com destreza a produção de animais puros e o rebanho comercial meio-sangue Santa Gertrudis, no município de Chupinguaia/RO.

De acordo com o médico-veterinário e responsável técnico da propriedade, Anderson Fernandes, o complexo é formado por três fazendas: sendo duas próprias e uma arrendada, que juntas englobam 4 mil hectares; no entanto, como estão localizadas no bioma amazônico, são utilizados apenas 30% de área útil para pastagem.

“Então, nas fazendas próprias, nós fazemos cria e, na propriedade arrendada, efetuamos a recria e engorda, em base 100% Nelore x Santa Gertrudis. Esses cruzamentos são feitos através da IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) e repasse com touros Santa Gertrudis”, diz Fernandes.

Em pouco tempo já foram vendidas 1,5 mil doses de sêmen do raçador sul-africano

Para garantir o refrescamento genético da fazenda, o médico-veterinário utiliza a cada ano uma linhagem nova, também através da IATF, e, em 2015, ele começou a empregar touros sul-africanos nas matrizes brasileiras. Na avaliação de Fernandes, a raça mudou muito nos últimos anos e agora estão buscando animais compactos, com maior rendimento de carcaça.

A fazenda passou pelo processo de recuperação de pastagens, em 2009, e, após esse período, em 2010, começaram a inseminar o rebanho zebu utilizando genética Santa Gertrudis. “Com a pastagem reformada, trouxemos os primeiros touros de São Paulo, cerca de 20 exemplares, depois algumas fêmeas, e, paralelamente ao sistema de gado comercial, iniciamos a produção de animais puros. Hoje, a fazenda possui 140 animais e comercializamos tourinhos de três anos”, destaca Fernandes.

Segundo o gestor da Fazenda Ana Luíza, a demanda na região está aquecida por reprodutores Santa Gertrudis. Ele calcula que teria, hoje, 20 exemplares vendidos, entretanto, não há como disponibilizar no momento. “O mercado é muito favorável. Os clientes gostaram do produto e estão recomprando, e, com isso, vão informando seus colegas pecuaristas sobre os resultados positivos do investimento”.

Fernandes esclarece que o rebanho comercial da propriedade, composto por animais meio-sangue Santa Gertrudis, possuem conversão alimentar acima dos zebuínos, chegando mais rápido ao cocho, ganhando mais peso, sendo terminados, em média, aos 28 meses, com 55% de rendimento de carcaça, dependendo do lote. A fazenda possui 2.300 bovinos meio-sangue Santa Gertrudis, 650 matrizes Nelore e 40 doadoras Santa Gertrudis.

“Um fato importante a destacar sobre o cruzamento industrial é que tanto faz a raça utilizada, se não houver disponibilidade de alimentação para os bovinos cruzados. Eles serão inferiores ao gado zebu. Todavia, a partir do momento que o criador oferece condições para os animais ganharem peso, os mesmos serão invariavelmente superiores aos zebuínos”, alega o responsável técnico da Ana Luíza.

Fazenda Ana Luíza comprova a qualidade do cruzamento industrial Santa Gertrudis

Conforme Fernandes, a vantagem da criação da raça na região Norte do País é a seguinte: “no meu mercado de touros, eu não tento disputar a venda de sêmen com Angus. Então, indicamos para aqueles pecuaristas que desejam trabalhar no cruzamento industrial, que eles inseminem com Angus e façam o repasse com touros Santa Gertrudis, pois o animal é sintético, adaptado ao clima tropical, resistente a ecto e endoparasitas, e, portanto, viabilizará a produção da fazenda”.

Horizonte

Na avaliação do diretor de Marketing da ABSG, os esforços da associação durante mais de 50 anos foram direcionados ao melhoramento genético da raça. Eles passaram por um longo período sem investir em propaganda porque estavam debruçados em promover a evolução da raça, buscando genética do exterior, participando de congressos na Oceania, África e América do Sul.

“A ABSG vai participar do Congresso Mundial Santa Gertrudis, em Bloemfontein/ África do Sul, nos dias 1 a 5 de maio, para conhecer de perto um dos principais criatórios no mundo. Enfim, o mercado vai ouvir falar muito do gado Santa Gertrudis porque é uma raça que evoluiu profundamente e a missão da associação está focada na parte técnica: avaliação de carcaça, provas de ganho de peso, programa de melhoramento genético”, conclui Barretto.

Já o presidente da associação lembra que a raça exibirá seu potencial também no Brasil, no dia 25 de março, durante o 33º Concurso e Leilão da Novilha do Futuro, na Fazenda Pau d’Alho, do casal de selecionadores Carson e Ellen Geld, de Tietê/SP. Enquanto no município de Ituiutaba/MG haverá, em junho, a 27ª Exposição Nacional de Santa Gertrudis. E a ABSG está com planos de participar da Beef Expo, na capital paulista, no fim do semestre, esperando apenas o aval de alguns criadores para confirmar presença.

No balanço do presidente da ABSG, o que chamou a atenção foram as comercializações dos touros, registrando uma valorização de 10%, em 2016. Doneux avisa que os estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso estão na cabeceira das aquisições dos exemplares sintéticos nos últimos anos.

“O mercado de sêmen Santa Gertrudis foi razoável no último ano. Pensei que haveria uma demanda mais vigorosa, mas, atualmente, é muito complicada a negociação desse material genético no País, já que é mais fácil para as centrais vender sêmen de Angus, que não precisa de muito esforço, tendo em vista que a demanda está consolidada. Então, para ofertar o produto de uma raça diferente, é necessário que ocorra um trabalho mais incisivo do vendedor”, finaliza o dirigente.