Caindo na Braquiária

 

Pecuária autofinanciável

Alexandre Zadra

No momento em que Ronan Levy, zootecnista nascido em Cáceres, me disse que iríamos visitar uma fazenda em Pontes e Lacerda fiquei entusiasmado por se tratar da minha primeira visita em um dos maiores polos pecuários do estado do Mato Grosso.

Lendo sobre a formação dessa cidade de pouco mais de 40.000 habitantes e 360.000 cabeças de gado, fiquei surpreso ao saber que Pontes e Lacerda inicialmente era um distrito da Vila Bela da Santíssima Trindade, sendo fundada apenas em 1979, sendo que, na época, a mineração e a madeira formavam a base da sua economia.

Já haviamos cortado 45 km de estradão, metade da distância que tínhamos que percorrer para chegar à Fazenda Nossa Senhora do Amparo, quando começamos a avistar ao longe a majestosa Serra de Santa Barbara, cordilheira que abriga a Serra do Monte Cristo, ponto culminante do estado, atingindo 1.118 m de altura.

Tão logo chegamos a Nossa Senhora do Amparo, fui apresentado a um senhor de vestimenta humilde e chapéu surrado da lida do campo, era o Zé Dias, proprietario da fazenda, de origem do Leste mineiro que desembarcara naquelas terras há mais de 30 anos a fim de criar gado de corte, formando uma das mais produtivas fazendas da região.

Zé Dias, como todo mineiro tradicional, “não gosta de pegar dinheiro em banco”, como ele mesmo frisa, tendo o próprio gado, o qual foi produzido com todo suor do mundo, como o financiador de galpões de confinamento, sua leiteria e toda fábrica de ração e silo, bem como o maquinário para a lavoura que agora surge com o intuito de reformar as pastagens já degradadas, engordando novilhos e vacas com alta lotação.

Aliás, quando surge uma nova tecnologia no campo, todos sabem que o primeiro a usar na região é Zé Dias. Basta dar um pulo na Nossa Senhora do Amparo que verá a novidade sendo testada.

Zé Dias, que já produziu muito bezerro através da Inseminação Artificial, faz parte da escola do experiente Armando Leal do Norte, criador de Carlos Chagas, no Nordeste mineiro e, como não poderia deixar de ser, usou inúmeras raças de corte no cruzamento com sua vacada.

Nos dias atuais, Zé Dias mudou o foco, pois como ele fala, “quero mais tranquilidade e por hora vou trabalhar com engorda de vacas e garrotes comprados na região”. Para tanto, tem melhorado suas pastagens, adubando com o esterco recolhido no confinamento, bem como arrendado outras pastagens degradadas para plantio de soja, onde comprou a plantadeira para os arrendatários usarem em um esquema de permuta de serviços.

Como a fazenda precisa ser suprida por bezerros de qualidade, Zé Dias, por vezes, compra sêmen de touros Angus americanos provados, estimulando o seu uso pelos vizinhos, onde garante a compra dos ½ sangue Angus para recriar no pasto melhorado e engordar no confinamento.

Outra atitude interessante do nobre pecuarista foi dividir suas terras em vida para seus filhos, onde Kenia, sua filha, e seu genro Rodrigo vêm trabalhando com cria em 1.000 vacas, inseminando-as com Angus, também com sêmen de touros americanos provados.

Com um professor como Zé Dias, Kenia produzirá seus bezerros e fará as melhorias na fazenda sem qualquer tostão de fora, seguindo os passos do pai, um mineiro ao mesmo tempo tradicional e moderno.

Fui embora satisfeito com mais esses aprendizados que tive com o Zé Dias, principalmente com o capítulo “Uma agropecuária rentável pode crescer com suas pernas e com os próprios recursos originados na fazenda”

Alexandre Zadra - Zootecnista
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