Caindo na Braquiária

 

450 kg de peso vivo ou 450 kg de carcaça?

Alexandre Zadra

Depois de um justo recesso profissional, voltei às minhas leituras habituais e, quando dei por mim, lá estava eu lendo sinopses de alguns filmes clássicos. Dentre eles, um me chamou muito a atenção; Rashomon, filme escrito e dirigido por Akira Kurosawa em 1950 e que trata de um estupro e um assassinato, sendo relatados pelos quatro envolvidos na trama (inclusive o próprio samurai assassinado que através de um médium conta o que ocorreu ).

Esse filme mostra diferentes prismas e versões para o mesmo fato, demonstrando que nem sempre existe uma verdade absoluta, me levando a questionar novamente nosso sistema de produção, chegando à indagação de maior debate no meio pecuário: qual seria o peso ideal de abate da boiada? Tal tema volta à tona ao meu cotidiano depois de presenciar nos últimos meses duas realidades extremas.

O primeiro ato se passa na fazenda do Jorge, no Paraguai, muito bem assistida tecnicamente pelo agrônomo José Roberto e pela veterinária Rose, o qual possui quase 10.000 vacas, sendo grande parte Nelore bem selecionada em um programa Ceip com o objetivo de produzir carne premium através do cruzamento absorvente de Bonsmara. Nesse sistema visitado por mim em dezembro, a convite do Rubão, um dos melhores criadores de Bonsmara que conheço, me deparei com um programa de produção de carcaças precoces na idade e com peso vivo médio ao abate de 450 kg, em que todos animais são castrados ao nascimento.

De acordo com o agrônomo Jose Roberto – “O bovino nasceu para ser ineficiente com o passar da idade, devendo ser abatido o mais cedo possível, pois sua conversão alimentar piora consideravelmente após atingir a puberdade, ademais, somente e tão somente através do fornecimento de animais novos e castrados ao nascimento é possível produzir carcaças com maciez e acabamento que atenda o mercado premium”.

Como ele mesmo alega, mesmo não havendo prêmio extra pago pelos frigoríficos locais, a fazenda quer estar preparada para fornecer esse tipo de carne quando houver a premiação, agregando valor a sua boiada precoce.

Já no 2º ato, vimos uma realidade completamente diferente, onde encontramos carcaças dos bois pesando quase [email protected] todos afirmaram que a eficiência alimentar para se produzir carcaças pesadas é muito melhor para animais inteiros que castrados., abatidos com zero ou dois dentes (20 a 24 meses de idade) e as novilhas com pesos acima de [email protected] também na mesma idade. Essa é a fazenda administrada pelo Vicente, experiente e criterioso agrônomo, o qual depois de fazer muitas contas, definiu priorizar uma dieta rica em grãos a animais ½ Angus e também ½ Charolês produzidos também com matrizes Nelore geneticamente superiores. Quanto ao sêmen, Vicente escolhe touros Angus de alto frame e que possuam valor genético (DEP) para ganho em peso entre os melhores do mundo, além de Charolês provado, não economizando na compra desse produto, a fim de se produzir essa carcaça pesada.

Como o próprio Vicente afirma: “Temos um sistema nutricional que nos permite produzir mais carne no mesmo animal, sem perder a eficiência, pois como são levados inteiros até o abate e possuem genética favorável, temos de aproveitar e colocar peso, o que vem gerando altos rendimentos no gancho”.

Com dieta correta e suplementação para alto desempenho já no creep, Vicente vem produzindo bois com acabamento mediano ou uniforme e novilhas com quase 100% de acabamento uniforme, resultado que vem gerando elogios do frigorífico. “E para nossa surpresa, as novilhas cruzadas com Charolês apresentaram carne com alto mármore, demonstrando ser possível fazer carne de qualidade também com raças continentais.

E agora? Qual dos dois sistemas é o mais eficiente? Qual o peso ideal de abate? Vale a pena matarmos nosso gado no Brasil com 450 kg ?

Abordei o tema entre os colegas especialistas em produção e nutrição do grupo Beefradar, do Rodrigo Albuquerque. Foram colocações muito assertivas dos colegas Marcelo Pimenta, Mateus Arantes, Marcelo Manella, Neto Sartor, Sérgio Morgulis e Gustavo Resende, da Apta de Colina, os quais, no âmbito geral, foram unânimes em afirmar que cada sistema tem suas particularidades e alguns aspectos que devem ser levados em conta. São eles mercado a ser atendido (Paraguai paga melhor por carcaças menores e animais castrados, já no Brasil se preferem carcaças mais pesadas), valor de reposição para os invernistas definirem que peso final de abate diluirá o custo da reposição desse animal, custo do milho x preço da arroba. No entanto, todos foram unânimes em dizer que a eficiência alimentar para se produzir carcaças pesadas é muito melhor para animais inteiros que castrados.

Agora, como fazer carne de qualidade com animais inteiros? Vale a lógica.... “cada um no seu quadrado; o criador precisa de eficiência na fazenda, por isso, faz animais inteiros, e o frigorifico precisa de animais castrados e bem terminados”.

A todos um ano de 2017 muito lucrativo!

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]