Encontro de Analistas

 

Mais do mesmo?

Em relação ao consumo interno de carne bovina não deve ocorrer grandes surpresas, mas um grande mercado ensaia emergir

Adilson Rodrigues
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Na virada de 2015 para 2016, muitos analistas apostaram em uma possível valorização da arroba do boi gordo, acima da inflação, mas não contavam que a crise político- econômica atingiria com tamanha violência o consumo doméstico de carne bovina. Desta vez, os especialistas foram mais comedidos e o consenso é que 2017, pelo menos até a metade do calendário, seja uma continuação de 2016, quando faltou boi no pasto e sobrou carne nas prateleiras dos supermercados e nos balcões dos açougues.

Tanto é que a margem de lucro do varejo despencou de 130% para 50%, algo nunca antes inimaginado. No lado mais fraco, o pecuarista ainda amarga pífios 3-4% e os frigoríficos cerca de 15%. Entre outras tantas constatações possíveis durante o Encontro de Analistas da Scot Consultoria, realizado em meados de novembro passado, na capital paulista, o fato é que não há fôlego para reverter esta situação no curto prazo. Salvaguarda dos frigoríficos em 2016, ajudando a escoar a produção, as exportações de carne bovina devem começar em ritmo morno.

“Egito, que comprava US$ 20 milhões em carne bovina, não consegue adquirir mais nada, devido ao enfraquecimento da moeda; China não importa tanto quanto se esperava e as exportações para os EUA só devem engrenar no segundo quadrimestre, consolidando apenas em 2018”, adverte Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne, sem dar chance para maiores expectativas. Um possível estrangulamento na cotação da arroba do boi gordo também é atribuído ao próprio ciclo pecuário. “Analisando as curvas dos gráficos, fica evidente que 2017 será mais um ano de retenção de fêmeas”, lembra Alex Lopes, consultor da Scot.

Como um mercado puxa o outro, espera-se uma oferta maior de animais e a tendência é de bezerros mais baratos. Um alívio para os confinadores, que têm na categoria 70% dos custos de produção, e que esperam desembolsar menos com ração à base de milho. Segundo comunicado da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), estima-se uma produção de 12,86 milhões de toneladas, volume 61,1% maior do que as 7,98 milhões de toneladas em estoque no final de 2015/2016.

Apesar do prognóstico mais otimista para a pecuária intensiva, é preciso cautela com São Pedro, pois especialmente em Goiás, Minas Gerais, parte da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), entre outras praças produtivas ou potenciais, a seca foi severa. “A chuva é quem determina se haverá muito ou pouco bezerro”, aponta o atento expectador Fernando Antônio Nunes de Carvalho, que é médico-veterinário, produtor rural e técnico da Matsuda. Por outro lado, o analista Leandro Bovo aposta em um volume de chuva mais normalizado em 2017.

E quem comprou bezerro de R$ 1.300 na safra passada e vai vendê-lo em 2018, lucra nessa operação? Uma resposta plausível à pergunta do moderador e anfitrião do Encontro de Analistas Alcides de Moura Torres depende de algumas variáveis importantes. Pelo cálculo dos debatedores do evento, além dos R$ 1.300, o confinador deve gastar outros R$ 1.200 para abater esse animal com peso de [email protected] no ano que vem (aos 30 meses de idade), projetando um custo total de R$ 138/@. A tendência é que haja margem para ganhar dinheiro, mesmo se a arroba crescer abaixo da inflação.

Fábio Dias, diretor da área de Relacionamento com o Pecuarista do JBS, pondera e faz um adendo para lembrar que o mencionado custo de produção pode ter sofrido impacto dos ciclos anteriores de produção. Se a operação já se arrastou negativa, o ganho REAL tenderá a ser menor. O professor Sérgio De Zen, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), informa que o resultado também depende do perfil do produto. “Pode acontecer de o bezerro de R$ 1.300 gerar mais lucro no abate do que um bezerro de R$ 1.000. Tudo depende da qualidade do produto”, ressalta.

De acordo com De Zen, o produto-bezerro é o que mais passou por transformação nos últimos anos. “Dez anos atrás tínhamos uma média produtiva de 45 bezerros com peso de 175 kg a cada 100 vacas, hoje, é de 65 bezerros com peso de 200 kg a cada 100 vacas”, explica. Ou seja, todos os fatores citados até aqui podem influenciar na produção pecuária e afetar a rentabilidade do pecuarista. Já em relação aos frigoríficos, os mesmos estão reféns do consumo da população, mas devem enfrentar uma escassez de matéria-prima menos severa. Para o varejo, é cada vez mais necessário apresentar novos cortes ao consumidor.

Carne de qualidade

Enquanto o consumo não decola, os holofotes apontam para o filão da carne de qualidade, seja para o churrasco do fim de semana ou para pratos gourmet nos restaurantes ou fast- -foods, um mercado no qual os agentes envolvidos vão buscar matéria-prima fora do Brasil. Falamos de um volume de importações da ordem de 1.100 toneladas ou R$ 30 milhões por mês, segundo dados apresentados por Camardelli. Esse é o fator que tem colaborado para estreitar a relação entre pecuaristas e frigoríficos e que já tem resultado em bonificações para o pecuarista na escala de 3, 6 ou 10%, em média, acima do valor de mercado.

Sempre pode ser melhor, todavia, a própria dificuldade da indústria conseguir carcaças bem acabadas e carne com marmoreio tem inviabilizado o pagamento de um plus mais constante e consistente, além do fato de que apenas 18% de uma carcaça são destinadas a esses mercados. O recado dado pelos analistas aos criadores presentes no Painel de Qualidade de Carne foi claro: antes de brigar por maiores gratificações, o pecuarista precisa garantir escala, além da oferta de matéria-prima de melhor qualidade. Entenda-se por qualidade com regularidade. De nada adianta ter 500 cabeças jovens e terminadas em confinamento se no próximo mês não há nada a oferecer.

“A chave para alavancar o mercado de carne de qualidade está nas mãos do pecuarista”, avalia Antônio Miranda, diretor da VPJ Alimentos, uma das empresas pioneiras na verticalização da cadeia produtiva da carne bovina. Uma questão igualmente importante é a definição dessa tão almejada qualidade. Hoje, há um bom mercado para marmoreio, aquela gordura que derrete e deixa a carne mais saborosa e suculenta após ser submetida ao calor, e também para o churrasco, que sem gordura na picanha não encanta ninguém.

Entretanto, “para o consumidor final do varejo, gordura ainda é vista como desperdício”, relembra o consultor Marcelo Shimbo. Ele define que qualidade não é só o produto. Significa atender uma especificação com regularidade de fornecimento e previsibilidade de preço. E saindo mais da área do criador, tempo e temperatura de congelamento são os grandes vilões da qualidade dentro do frigorífico. Soma-se ainda a questão da padronização. “Há produto excelente vendido barato e produtos péssimos vendidos absurdamente caros. E, pior, tudo isso dentro de uma mesma etiqueta”, aponta Roberto Barcellos, consultor na Beef & Veal.

Independentemente de tais fatores, diretrizes mínimas são necessárias atualmente, como gordura de acabamento de 4 mm ou mais, para atenuar os necessários choques térmicos que a carcaça será submetida; maciez, primeira qualidade sensorial notada pelo consumidor; e redução da incidência de DFD – Dark, Firm and Dry, sigla em inglês que denomina a carne escura que a dona de casa tanto já rejeita no açougue e no supermercado. É normalmente causada por uma reação hormonal do animal a situações intensas de estresse, em virtude de falhas no manejo e no transporte do gado até o abatedouro ou até mesmo atribuído ao próprio temperamento reativo do animal.

Uma forma de atenuar essa questão é castrar o boi, mas essa discussão o leitor verá na matéria de capa da edição de março da Revista AG. E se o mercado de qualidade de carne bovina veio para ficar? A frase de Marcelo Shimbo responde muito bem: “Paladar não retrocede.”