Confinador

 

PONTO DE ABATE: QUAL É O IDEAL?

Amanda Oliveira*

Uma das principais formas de avaliar a rentabilidade da fazenda é analisando a produtividade por hectare. Nos dias de hoje, para que a pecuária seja competitiva, esse número deve estar acima de [email protected]/ ha/ano, segundo analistas da área. A média brasileira ainda está muito abaixo desse número, em torno de [email protected]/ha/ano. Sabemos das dificuldades para atingir esse número considerado ideal, mas com o avanço das técnicas de intensificação, isso está cada vez mais tangível. Uma das formas de torná-lo realidade na fazenda é através da terminação dos animais em confinamento.

Cada vez mais, a pecuária tem feito uso do confinamento e é adotado como parte da estratégia da fazenda, fazendo- -se indispensável para tornar a pecuária mais rentável. Porém, mesmo com o efeito claro na produtividade por hectare da fazenda, alguns pecuaristas ainda acreditam ser uma atividade de difícil retorno, principalmente em tempos de insumos com os custos tão altos como o que estamos vendo atualmente.

Não se pode negar que a atividade envolve riscos elevados e que, em função disso, requer um estudo financeiro complexo para que a tomada de decisão seja assertiva em todos os pontos, e os riscos financeiros da operação sejam reduzidos. O importante é ter em mente todas as análises das variáveis que podem impactar na rentabilidade antes de iniciar a operação.

São vários os gargalos que o pecuarista deve atentar para tornar a operação do confinamento mais segura em termos de investimento financeiro. Fatores relacionados a manejo, nutrição, mercado, planejamento de insumos, mercado futuro, perfil de animal, genética, entre outros, interferem diretamente no resultado. Alguns desses fatores que impactam diretamente na rentabilidade fogem do controle do pecuarista, como o valor de negociação do boi gordo, por exemplo. Porém, vários outros fatores são de domínio do pecuarista e podem ser controlados por ele, como, por exemplo, o custo da arroba produzida, que requer maior atenção. Mas é importante ter em mente que o conhecimento, o controle e a análise de todos os processos envolvidos na operação é o que propiciará maior probabilidade de lucro. A avaliação individual de qualquer indicador, seja ele nutricional, de manejo ou financeiro, pode levar a um resultado ruim ou com rentabilidade inferior à que a operação poderia proporcionar.

Um dos pontos determinantes para maior ou menor lucratividade da operação é o ponto ideal de abate dos animais terminados. Em todas as formas de praticar a atividade, seja como negócio ou quando avaliada como estratégia dentro da fazenda o grau de acabamento, bem como o peso dos animais ao abate, merece atenção na avaliação da operação.

No último ano, o custo do animal magro atingiu patamares muito elevados, chegando quase a inviabilizar o confinamento.

Além disso, a relação de troca do boi gordo pelo bezerro vem piorando gradativamente, sendo comum que os pecuaristas optem por abater animais mais pesados, aproveitando melhor as carcaças.

Para Amanda, o custo do animal magro atingiu patamares muito elevados que quase inviabilizaram o confinamento

Muito se ouve falar que segurar animais no cocho esperando recuperação do preço da arroba do boi gordo no mercado pode significar prejuízo. Isso com certeza tem grande chance de tornar a operação inviável. Porém, e quando a deposição de carcaça ainda ocorre? Qual o ponto ideal de abate?

Claro que tal decisão depende de vários fatores como genética, nutrição, peso de entrada, custo da diária, entre outros. O importante é sabermos que nos dias atuais temos tecnologias que nos permitem abater animais mais pesados que a média observada no País, que segundo o IBGE é em torno de 18 arrobas. E aproveitar a carcaça dos animais para abatê-los mais pesados é sim uma possível forma de aumentar lucratividade, desde que a nutrição e a genética adotada propiciem esse perfil de animal. A questão é: até quanto é viável economicamente para o produtor aumentar o peso das carcaças produzidas?

É difícil responder a esse questionamento. O que sabemos é que em dias atuais, quando o custo com alimentação tem grande impacto no custo de produção, o sucesso da operação está na busca do equilíbrio entre eficiência biológica e eficiência econômica.

Vamos analisar apenas sob o ponto de vista técnico. Animais mais pesados tendem a ter maior exigência e menor eficiência. Quanto maior o peso corporal, maior a exigência de energia para mantença. Isso significa que o animal mais pesado precisa comer maior quantidade de energia para manter suas atividades vitais (figura 1).

Figura 1. Exigência líquida de energia de mantença (ELm) por kg de peso vivo corporal para bovinos Nelore, puros e mestiços, não castrados, em confinamento (Freitas et al., 2006)

Além da maior exigência de mantença, já é sabido que animais, após atingirem o máximo de deposição, apresentam menor eficiência, o que implica em maior custo. Ou seja, animais abatidos mais pesados propiciam carcaças mais pesadas, porém, com menor eficiência de ganho (Pazdiora et al., 2013). Isso significa que o animal está mais pesado, comendo mais (proporcionalmente em relação ao peso corporal) e obtendo menor ganho em carcaça, consequentemente, custando mais caro.

Agora, se extrapolarmos as análises dos dados publicados por Pazdiora et al., 2013, para os custos de produção atuais (R$ 650,00/tonelada de matéria seca) e de arroba do boi gordo (R$155,00/@), vamos ter o cenário da figura 2:

Apesar de a melhor eficiência biológica ser obtida com animais abatidos mais leves (16,6 arrobas), a melhor lucratividade foi observada nos animais abatidos com peso de 20,6 arrobas. Entretanto, os animais abatidos mais pesados, apesar da pior eficiência observada entre os pesos de abate, não foi o que teve o pior retorno. Ou seja, o melhor tecnicamente nem sempre tem o melhor retorno econômico.

Figura 2. Lucro operacional líquido de animais em diferentes pesos de abate, considerando apenas as arrobas produzidas no confinamento (custo da tonelada de matéria seca) de R$ 650,00 e custo da arroba do boi gordo de R$ 155,00)

É fato que os valores de mercado da arroba do boi gordo vão interferir nessa avaliação. Porém, fica claro que postergar a venda dos animais já terminados em função de preços ruins de arroba no mercado será, na maior parte das vezes, uma decisão errônea.

Claro que não existe regra e o ponto ideal de abate vai variar de ano para ano, em função dos parâmetros como custo da tonelada de matéria seca, custo do boi magro, preço da arroba de venda, genética e eficiência biológica. Ou seja, não tem receita de bolo.

O objetivo com a análise é mostrar que a decisão do ponto ótimo de abate deve ser tomada considerando não só a melhor eficiência biológica, mas o custo da diária alimentar e o valor da arroba negociada. Avaliando dessa forma, a decisão será em função da rentabilidade e não do custo mínimo de produção.

Outro ponto que vale a pena ressaltar é que o pecuarista deve sempre ficar atento a sinais de declive na curva de consumo e consequentemente no ganho em carcaça dos animais. Cada perfil de animal terá uma curva de produção em função do perfil da dieta e das características genéticas. Ou seja, o ponto de abate deverá ser analisado em função de todas as variáveis envolvidas no processo.

É importante lembrar que a remuneração do pecuarista é sobre o peso da carcaça, não do animal vivo. O pecuarista deve utilizar métricas que avaliem desempenho relacionadas à deposição de carcaça e, assim, terá maior assertividade na tomada de decisão.

*Amanda Oliveira é zootecnista, doutora em Nutrição Animal e Coordenadora de Confinamento na Premix

DEMANDA PELA CARNE REAGE À OFERTA. E O BOI?

Alberto Pessina*

Ao analisarmos o gráfico 1, podemos perceber que houve, sim, redução na oferta de carne ao mercado. Algo ao redor de 860 mil t de equivalente carcaça em agosto (projeção) contra 878 mil t em junho, ou seja: redução de apenas 1,9% entre o pico em junho e agosto. Podemos perceber também que, apesar da queda, os preços caíram ao invés de subir.

No entanto, ao analisarmos o gráfico 2, no qual observamos as cotações diárias, percebemos que a partir de meados de agosto a carne começou a reagir à redução na oferta e vem subindo fortemente desde então. Isso nos indica que o efeito da redução na oferta, que se manteve de forma mais significativa em setembro, já está impactando fortemente sobre os preços da carne. Essa redução na oferta deve ter se acentuado ao longo do mês de outubro, pois os preços da carne já ultrapassaram o seu último pico de R$ 155/@ em jan/16 e de R$ 154/@ em mar/16. Destacando que a arroba do boi gordo também atingiu seu último pico a R$ 159,49/@ em abr/16.

Esse movimento também nos dá um bom sinal em relação à demanda, pois indica que o consumidor aceitou pagar mais caro com a redução na oferta. Se esse movimento não ocorresse, seria um sinal muito ruim em relação à demanda.

Porém, os preços do boi gordo ainda não reagiram ao aumento dos preços da carne, movimento que já ocorreu no passado, conforme pode ser visto em alguns momentos do gráfico 2 (linha azul ultrapassa a linha vermelha). Esse movimento não é comum, pois a correlação entre a carne e o preço do boi é muito forte. Isso nos indica que os preços do boi devem reagir ao longo dos próximos meses, caso a oferta de animais continue reduzida.

Gráfico 1 – Produção de Carne (SIF) X Preços da Arroba do Boi Gordo (Esalq)

Gráfico 2 – Preços do Equivalente Físico (carne sem couro nem sebo), Índice Esalq (coluna à esquerda) e Dólar (coluna direita) - Esalq

Os patamares da carne ao redor de R$ 157/@ no mercado físico (Equivalente Físico no gráfico 2) já permitem à arroba do boi elevar-se para patamares atingidos em abr/16, algo ao redor de R$ 158 a 160/@.

No entanto, temos que estar atentos ao movimento do dólar versus o valor da tonelada de carne exportada. No gráfico 3, podemos perceber que, quando transformamos a tonelada de carne vendida ao mercado externo em R$/t, essa apresentou perda em reais, devido à valorização da moeda. Nos últimos meses, a indústria teve perdas em volumes vendidos devido à tentativa de repasse desses valores, porém recentemente, com a queda na oferta, os mesmos estão melhorando. Porém, ainda não retornaram aos patamares anteriores.

Esses cenários indicam que a demanda, tanto interna quanto externa, tem reagido à redução na oferta, mas ainda não indica uma melhora da mesma. E, que um aumento na oferta pode voltar a trazer preços mais baixos.

Dessa forma, há apenas dois pontos que podem proteger de uma eventual retomada da oferta de gado. Em primeiro lugar, a retomada da economia brasileira traria impacto maior sobre a demanda e, dependendo da força, poderia sustentar ou até elevar os preços da arroba. Em segundo lugar, a abertura de novos mercados auxiliaria a reduzir a oferta interna e também traria alívio na pressão sobre os preços. Na falta dos dois pontos, um aumento na oferta de carne voltaria a pressionar os preços para baixo.

*Alberto Pessina, presidente do Conselho de Administração da Assocon