Irrigacao

 

MAIS PRODUTIVIDADE

Aspectos econômicos do uso da irrigação na bovinocultura de corte

Jean C. R. Soares, Júlio O. J. Barcellos e Maria E. A. Canozzi*

Nos últimos anos, o uso crescente de tecnologias mais intensivas resultou em aumento da produtividade na bovinocultura de corte. No Brasil, tal incremento em sistemas de engorda de bovinos é dependente da utilização de técnicas que melhorem o principal recurso alimentar – as pastagens – para tornar a atividade mais competitiva. Entre as tecnologias, a irrigação do pasto tem sido utilizada para intensificar a produção ou para manter mais estáveis os rendimentos ao longo do ano.

Por isso, constitui, possivelmente, uma das principais alternativas para a produção intensiva de carne em regiões onde a disponibilidade de terras, a temperatura e a luminosidade não são fatores limitantes. Entretanto, o aumento na produtividade nem sempre é sinônimo de lucratividade, devendo sempre ser analisado pontualmente cada sistema produtivo. Nas atividades zootécnicas, essa análise é um procedimento fundamental para gestão do sistema, por permitir melhor predição e maior conhecimento dos resultados. Por essa razão, foi realizada uma primeira avaliação das respostas econômicas de sistemas de engorda em pastos irrigados.

Durante um ano, foram analisados três sistemas de terminação de bovinos de corte (S1, S2 e S3), com 99 ha de pastagens hibernais irrigadas por pivô central, localizados na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. No sistema 1 (S1), a pastagem foi de azevém (Lolium multiflorum Lam.) e trevo-branco (Trifolium repens Lam.), implantados com 400 kg/ha de adubo MAP (monoamônio fosfato), e na manutenção, um total de 200 kg/ha de ureia (45-00-00) aplicado duas vezes durante o ano.

Foram utilizados machos castrados com idade de 24 a 36 meses e vacas de descarte, ambos com predomínio da raça Braford. Já no sistema 2 (S2), a pastagem era de trevo-branco, trevo- -vermelho (Trifolium pratense Lam.), cornichão (Lotus corniculatus Lam.), azevém e aveia-preta (Avena strigosa Schreb.), estabelecidas com 240 kg/ha de NPK (05-25-25) e 300 kg/ha de MAP, além de uma aplicação de 100 kg/ha de ureia (45-00-00) para manutenção.

Tabela 1 - Parâmetros zootécnicos e econômicos da terminação de bovinos em pastagens irrigadas1

1. Para atualizar os valores ao tempo presente, atualize os custos pelo IGP do período compreendido a partir de 1 de janeiro de 2012 e o preço do boi pelos valores presentes.

Nesse sistema, foram manejados machos castrados de 24 a 36 meses de idade da raça Braford e suas cruzas. No terceiro sistema (S3), foi azevém, cornichão, trevo-branco e trevo-vermelho, fertilizado com 230 kg/ha de NPK (04-22- 22) no estabelecimento da pastagem e, para manutenção, foi aplicado, em dois momentos, um montante de 190 kg/ha de ureia (45-00-00). Foram terminados machos castrados (novilhos) e novilhas de 18 a 24 meses de idade, oriundos de cruzamento com as raças Angus e Hereford.

Os sistemas de irrigação utilizados eram do tipo pivô central e apresentavam entre cinco e 10 anos de uso. Além disso, as regas eram acionadas entre 21h30 e 6h para maximizar o aproveitamento do desconto no preço da energia elétrica para produtores irrigantes. A avaliação econômica iniciou com um diagnóstico dos sistemas, seguido da coleta mensal dos dados e do processamento em planilhas eletrônicas do Microsoft Excel®.

Tabela 2 - Custos de produção na terminação de bovinos em pastagens irrigadas

O custo dos insumos e das operações para formação das pastagens foi calculado com base no levantamento da quantidade e do respectivo valor praticado na época da avaliação. O custo final da implantação das pastagens foi dividido por uma vida útil de três anos e os indicadores econômicos utilizados foram: margem bruta (MB; R$) = receita total – CD; margem operacional (MO; R$) = receita total - CO; lucro total (LT; R$) = receita total - CT; lucratividade (LUC; %) = MO / receita total x 100; rentabilidade do capital investido (RCI; %) = MO / capital investido x 100; ponto de equilíbrio físico (PEF; kg) = CF / (receita unitária - custo fixo unitário); ponto de equilíbrio monetário (PEM; R$) = PEF x receita unitária; payback (PB; anos) = capital investido / MB; e capital investido.

RESULTADOS

O maior CT foi identificado no S2, seguido pelo S3 e S1, sendo o percentual mais significativo atribuído aos custos de oportunidade, o que representa, em relação ao CT, 30,4%, 31,6% e 28,4% para S1, S2 e S3, respectivamente.

Os principais custos operacionais foram: implantação da pastagem: R$ 486,35/ha (36%); energia elétrica, R$ 308,70/ha (23%); manutenção de pastagens, R$ 200,04/ha (15%); depreciação, R$ 154,69/ha (12%); e mão de obra, com R$ 66,06/ha (5%). Os demais custos referentes a produtos veterinários, manutenção geral, sal mineral e seguro somaram R$ 119,39/ha (9%). O ponto de equilíbrio foi avaliado somente para os sistemas que obtiveram resultados positivos para margem operacional (S2 e S3). O PEF do S2 foi alcançado na produção de 37.317 kg, representando uma exigência de produtividade na ordem de 377 kg/ha. Para o PEM, foram encontrados valores de R$ 1.168,50/ha para o S2, o que representa um valor unitário respectivo de R$ 1,86/kg (Fig. 1).

Figura 1 - Ponto de equilíbrio físico para um sistema de produção com pasto irrigado

Os parâmetros encontrados nos sistemas devem-se, fundamentalmente, às características individuais, estratégicas e operacionais relacionadas a cada unidade estudada. Essa variação justifica- -se, principalmente, pelas diferenças relativas à categoria animal, à raça, ao tipo de forrageira utilizada e ao manejo imposto em cada um dos sistemas. Os maiores valores de produtividades foram registrados nos sistemas S2 e S3, consequência da maior eficiência no processo produtivo, da maior qualidade das pastagens utilizadas e das categorias animais com alto desempenho (novilhos de 24 meses).

Em relação ao ganho médio diário dos animais, obteve-se um desempenho de 0,789 kg, 0,831 kg e 0,671 kg, respectivamente, para os sistemas S1, S2 e S3. No entanto, o desempenho individual dos animais não refletiu os resultados globais do sistema de produção. Nesse sentido, a carga animal e a produtividade/ha foram eleitas para indicar a melhor relação sistema de produção versus eficiência.

Na análise do custo total, as contas com maior percentual foram a remuneração do capital (COC) e da terra (COT), a implantação de pastagens e a energia elétrica. No custo médio (operacional) dos três sistemas produtivos, o item mais representativo foi o estabelecimento da pastagem, sendo os fertilizantes e a mecanização as despesas mais relevantes. A manutenção da pastagem, a adubação de cobertura e a mecanização agrícola foram a terceira maior conta que, somada ao custo de estabelecimento, representou 51% do custo operacional médio. Esse percentual reflete a representatividade dos custos com pastagens nesse tipo de sistema produtivo, pois permite afirmar que apenas a presença do sistema de irrigação não assegura maior produção de massa de forragem se as pastagens não forem de alto potencial para crescimento, e o solo devidamente corrigido e fertilizado.

Júlio Barcellos explica que a carga animal e a produtividade por hectare foram eleitas para indicar a melhor relação sistema de produção versus eficiência

A energia elétrica representou o segundo maior valor do custo operacional médio. Essa conta tem valor significativo e constitui um dos principais componentes na composição dos custos de produção em sistemas irrigados. Apesar de ser uma despesa variável, é dependente da eficiência do sistema e da energia necessária para transportar água do local de captação até a área irrigada. De outra parte, a maximização do uso da energia em relação aos horários de uso pode ser um elemento importante na composição do custo final desse fator.

Na avaliação financeira, todos os sistemas registraram resultados positivos para a MB, o que evidencia que a remuneração foi suficiente para pagar os custos desembolsáveis, constituindo um indicador de eficiência do sistema no curto prazo. Na avaliação da MO, os sistemas S2 e S3 apresentaram valores positivos, mostrando que houve remuneração dos custos desembolsáveis e da depreciação. Esses resultados indicam a eficiência da atividade sob uma perspectiva de médio prazo. Os valores encontrados para o custo total por kg produzido e por hectare (Tab. 1) mostram a magnitude do custo de oportunidade, sobretudo sobre o S1. Quando se retira esse indicador de eficiência econômica, os custos diminuem consideravelmente, fazendo com que a lucratividade dos sistemas aumente.

A LUC e a RCI são importantes indicadores na avaliação financeira da atividade pecuária. Ambos os parâmetros foram obtidos somente para os sistemas que apresentaram resultados positivos para MO (S2 e S3). Os valores encontrados da LUC são satisfatórios e demonstram que a tecnologia avaliada pode ser uma alternativa economicamente viável, possibilitando a capitalização do empresário. Na análise do tempo de retorno do capital investido (payback), os valores encontrados foram de 4,21 anos para o S2 e 6,99 anos para o S3. O ponto de equilíbrio ou nivelamento reflete a igualdade entre os custos operacionais e as receitas, sendo um importante parâmetro para avaliação econômica de projetos. Nos sistemas estudados, o ponto de equilíbrio indicou viabilidade dos sistemas produtivos a partir das produções de 37.317 kg para o S2 e 36.231 kg para o S1. Ou seja, representa o momento em que a atividade começa a ter lucro financeiro e ultrapassa o custo operacional. Na segunda simulação, a receita unitária mínima para igualar os custos operacionais e evitar prejuízos é de R$ 1,86 e R$ 2,25/kg, respectivamente, para o S2 e S3 (Fig. 2). Essa informação é relevante para o empresário rural, pois mostra exatamente qual o preço mínimo que pode trabalhar para que a sua atividade obtenha lucros.

IMPLICAÇÕES

A viabilidade econômica da irrigação de pastagem para a terminação de bovinos foi comprovada com o resultado de lucro total encontrado no sistema S3. No entanto, os resultados dos sistemas S2 (margem operacional) e S1 (margem bruta) remetem para a importância de se obterem altas produtividades a fim de compensar os elevados custos da tecnologia. Apesar de ser de alto risco, a irrigação é uma ferramenta importante para a intensificação da produção animal, devendo o seu uso ser bem planejado.

Além disso, há a necessidade de conhecimento prévio de algumas variáveis que influenciam o resultado final, tais como: manejo de pastagens, irrigação, escolha de animais com elevado potencial produtivo e capacidade gerencial. A análise econômica é fundamental para avaliar a sustentabilidade das empresas rurais, não sendo diferente para tecnologias inovadoras, como é o caso da irrigação de pastagens. É relevante que outros trabalhos também avaliem o seu retorno econômico para validar a sua adoção e para a melhor e mais adequada utilização dos recursos.

*Jean, Júlio e Maria são professores e pesquisadores do Nespro/UFRGS – [email protected]