Na Varanda

 

G-Y conquista medalha de ouro em Gramado

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira [email protected]

A bela abertura dos Jogos Olímpicos no Rio desatou o nó do pessimismo que tinha permeado todos os cantos da alma brasileira. Por acaso ou não, o agro foi destaque nos efeitos especiais que iluminaram o Maracanã, para o encanto dos 2 bilhões de expectadores. Poucos dias depois, durante o congresso da Abag, a ainda frágil plantinha de otimismo ganhou força. Cientistas, produtores e políticos demonstraram que o País, como um todo, e o agro em seu papel de protagonista, recuperaram as energias e já iniciaram a caminhada pela retomada do crescimento. A bolsa de valores e o câmbio responderam e a confiança na robustez do Brasil inspirou empresários, consumidores e investidores.

É através de sinais que o produtor constrói seu cenário de expectativas, base para a tomada de decisões sobre o rumo e a velocidade de seus investimentos. O seminário A Voz do Campo, que reuniu durante três dias um grande número de produtores de vários Estados, acrescentou outro elemento positivo. Dessa vez, no entanto, surgiu uma nova voz, a voz daqueles que podem e devem construir a agropecuária do futuro. Lideranças da Geração Y assumiram o papel de vanguarda. Segue um pequeno relato da estrutura e dinâmica do evento.

O lema do encontro “A Família do Agro Reunida” ressaltou a saudável simbiose entre os valores do passado e as oportunidades do futuro. Palestrantes e debatedores traçaram a trajetória do agro desde os tempos do Brasil importador de alimentos dos anos 1970 até a atual performance de um dos principais fornecedores de comida para o mundo. Foram apresentados os cenários tecnológicos que revelam que o País poderá atender todo tipo de demanda, tanto em volume como no quesito qualidade, desde que os produtores adaptem seus modelos de negócio à nova realidade da competitividade global.

Já que existe mercado, tecnologia, fatores naturais vantajosos e uma sólida tradição no uso da terra, restam apenas duas questões: como transitar da atual prática individualista para novos conceitos mais integrados, seja na cadeia produtiva, seja entre os produtores de ponta, em seus respectivos setores ou regiões. E, a seguir, quem vai conduzir esse salto qualitativo para esse novo patamar de competitividade?

Em geral, são as palestras dos especialistas que abordam as soluções relativas à incorporação contínua de novas tecnologias e de boas práticas gerenciais. Assim, o como está resolvido, pelo menos em teoria. Resta a dúvida sobre quem será o principal motor da inovação espiral. Espiral, sim, pois a evolução de técnicas, normas legais, práticas comerciais e de novas configurações financeiras não só ocorre em ritmo exponencial, mas também através da interação desses elementos, fazendo com que todo o complexo sistema de produção rural encontre-se constantemente em um desequilíbrio dinâmico. Tudo muda o tempo todo! Assim, ganha quem melhor consegue sincronizar os sinais dos cenários para o setor com a realidade concreta de sua fazenda.

Será a geração dos atuais donos ou serão seus sucessores que comandarão a travessia para a agropecuária de precisão? Para obter mais clareza sobre essa dúvida, o seminário reservou uma manhã para o chamado Painel Y. Juntaram-se 22 jovens no palco, na maioria filhos de produtores, para debater sobre o que eles consideram relevante. E logo se percebeu que o padrão mental dos jovens é bem diferente das manifestações dos pais. Pareceram bem mais serenos e maduros, diga-se de passagem! Nas abordagens dos painelistas dos dias anteriores e dos comentários do público em geral, prevaleceram críticas ao governo e aos políticos. Desabafos sobre barreiras de mercados, burocracia e falta de união do setor ocuparam a atenção.

Para agradável surpresa de todos, os jovens, organizados em 3 grupos de debate, focaram na questão de “o que nós devemos fazer para construir o agro moderno?” Nada de reclamações! Toda a energia estava voltada para a ação e, nomeadamente, a forma de como criar redes de líderes para conduzir esse processo. Os grupos temáticos (1) avaliaram metodologias para filtrar a avalanche de informações diárias e formatar pacotes tecnológicos aplicáveis na prática de cada tipo de propriedade; depois, (2) debateram sobre como organizar o processo de modernização contínua na gestão da fazenda, envolvendo as gerações de pais e filhos e integrando gerentes e funcionários; e, por fim, (3) pronunciaram-se sobre como organizar redes reais (e não virtuais) de jovens para, em conjunto, desenvolver os novos conceitos e para organizar uma articulação mais efetiva do setor perante a sociedade.

Os pais gostaram dessa abordagem construtiva da Geração Y e reconheceram que somente em conjunto será possível preservar e modernizar o legado da família. Raramente se sentiu um clima tão integrador e humano em eventos do setor. Após a injeção de bons fluidos do espetáculo olímpico e a análise estratégica da retomada da conjuntura de outros congressos, a Voz do Campo abriu um caminho importante para a união do setor em torno do seu núcleo principal, que é a família do agro. Os jovens conquistaram o ouro na corrida pela melhor atitude no campeonato da modernização. Pois, a arma brasileira na competição global é a comida, e essa será produzida por essa geração integrada por novos vínculos que estão sendo construídos em encontros como a Voz do Campo.