Especial Mecanização

 

O CORAÇÃO DA MECANIZAÇÃO

Integração Lavoura-Pecuária impulsiona uso de tecnologias para produção e conservação de forragens

Celso Henrique Alves de Lima e Paulo Ferraz Netto*

A diminuição da expansão das terras para as áreas destinadas a pastagens e a pressão crescente por proteína animal devido ao aumento populacional, juntamente com a concorrência exercida pelas lavouras, que disputam com a pecuária as terras agricultáveis, têm forçado uma maior utilização de tecnologia e mecanização na implantação e condução dos projetos que visam a uma melhor eficiência na exploração pecuária.

Nesse sentido, as pastagens são a forma mais econômica de fornecimento de volumoso ao gado, sob nossas condições tropicais em que temos temperatura media entre 21 a 27 graus, 3.300 horas de luz solar/ano e bons índices pluviométricos, possibilitando assim, uma maior produtividade, adaptabilidade e diversidade de pastagens tropicais, em sua grande maioria, do tipo C4, que possuem grande capacidade fotossintética e consequentemente maior produtividade.

Práticas falhas como o preparo inadequado do solo, subadubação, falta de controle de erosão, fraca reposição de nutrientes, super ou sub pastejo e as queimadas mostram-se extremamente ineficientes economicamente.

O sistema de produção baseado em pastagens no Brasil central possui duas estações bem definidas, uma de oferta de forragem e outra de demanda de forragem, determinado pelos animais (quantidade, exigência, categoria), e o desafio é exatamente o de se manejar essa variação de amplitude de produção da maneira mais eficiente. O produtor que se organiza e tem um planejamento forrageiro utiliza-se de forragens conservadas em forma de silagem, feno ou diretamente no pasto, e nas propriedades onde nada é feito, os animais simplesmente perdem peso refletindo em baixos índices de produtividade.

Tendo em vista a solução desse problema, a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) está revolucionando como sistema de produção que alia benefícios agronômicos, recuperando e melhorando as características produtivas do solo, e econômicos, por aumentar o rendimento por área, diluir os custos e produzir alimentos de melhor qualidade e vantagens ecológicas pela redução da necessidade de abertura de novas áreas.

A ILP baseada na produção consorciada da cultura de grãos (milho /sorgo) com forrageiras tropicais beneficia-se de vantagens como a utilização do solo durante o ano todo, explorando a sinergia das culturas e favorecendo a oferta de grãos e forragem a um custo mais baixo e muito competitivo.

Para que se consiga operacionalizar a mencionada integração, faz-se necessária a aquisição ou terceirização de maquinários, com o objetivo de se executar os serviços em tempo hábil, com rapidez e eficiência, minimizar custos e aumentar a rentabilidade.

– Vale ressaltar que o produtor que possui o maquinário conta com a vantagem de produzir no momento exato, tendo assim o domínio do processo de produção. Desse modo, a decisão para a compra é feita no momento em que a terceirização começa a ficar muito onerosa e a dependência de terceiros prejudica a execução em tempo hábil, comprometendo a eficiência como um todo.

– Cumpre destacar que a decisão de compra passa por uma análise criteriosa, devendo-se considerar o tempo que o equipamento será utilizado (tempo ocioso = prejuízo), se possui mão de obra qualificada para operar essa maquina e se há a disponibilidade de recursos financeiros.

Para facilitar a decisão de qual maquinário deverá ser adquirido, o produtor deve ter em mente todas as etapas de formação, colheita, conservação e arraçoamento de animais, o que é necessário para o dimensionamento de equipamentos para um bom desenvolvimento das atividades.

Formação de pastagens

Por definição, conservação do solo é o conjunto de práticas aplicadas para promover o uso sustentável do solo para o plantio. Quando a erosão ocorre, provocada pelo escorrimento de águas pluviais, há perdas massivas de camada arável e dos preciosos nutrientes nela contidos. Para se ter o domínio da erosão, o meio mais eficiente é o terraceamento, que consiste na construção de terraços em nível no terreno a ser protegido, controlando o escoamento das águas das chuvas. O processo de formação ou reforma da pastagem deve se iniciar pela marcação das curvas de nível e levantamento de terraços que evitarão a ação nociva das erosões.

Integração Lavoura-Pecuária: tudo começa aqui

Para a prática do terraceamento são utilizados arados ou um implemento específico para levantamento dos camalhões chamado terraceador.

Após a construção dos terraços, diminui-se a velocidade da água, o que resultará em um melhor aproveitamento das calagens, da adubação e da retenção das águas no solo, com consequente aumento das águas do lençol freático e fortalecimento das nascentes, além de evitar o assoreamento dos córregos e rios. Esse processo, aliado a outras práticas conservacionistas como calagem, adubações equilibradas e manejo eficiente e racional dos capins, mostra-se bastante eficiente e sustentável.

Forrageira autopropelida

Após a conservação do solo, a etapa seguinte é a correção de fertilidade, que deve ser precedida de uma amostragem das áreas com o subsequente envio das amostras a um laboratório idôneo e a interpretação do resultado feita por um profissional habilitado.

O primeiro passo para melhorar as características do perfil do solo, é corrigir a acidez e aumentar a saturação em bases. Nutrir a planta com teores ideais e equilibrados de Ca e Mg e teores de P. K, S, N, Bo, Zn e Mo favorece o estabelecimento da cultura a ser implantada.

Depois de corrigida a fertilidade do solo é possível a introdução de variedades forrageiras melhoradas e com maior potencial produtivo e de suporte de carga animal, aumentando a produtividade e a lucratividade da atividade pecuária.

Para a correção e adubação do solo, são utilizados os esparramadores de calcários e fertilizantes com diversos tamanhos e formas, sendo que a determinação do equipamento a ser utilizado depende do volume do corretivo a ser aplicado e do tamanho da área a ser corrigida.

Para pequenas áreas podem ser utilizadas máquinas acopladas ao hidráulico dos tratores.

Para áreas maiores, máquinas de arrasto, com capacidades variáveis de 2.500 até 10.000 litros e os autopropelidos, que podem atingir até 15.000 litros de carga nas caçambas. Esses equipamentos também podem ser utilizados para distribuição dos fertilizantes fosfatados que devem ser incorporados ao solo através de grade pesada por ocasião da incorporação do calcário, devido à imobilidade do fósforo no solo.

A aplicação de calcário, no caso de reforma ou formação das pastagens, deve ser dividida em duas etapas, sendo que metade da dosagem preconizada deve ser aplicada antes da passagem de grade aradora e a outra metade, antes da passagem da grade niveladora.

Quando se considera a renovação das pastagens, a tomada de decisão sobre qual tecnologia a se adotar depende deterprincipalmente do custo, que varia da necessidade de serviços e insumos, da qualidade da pastagem desejada e de máquinas e implementos.

O preparo do solo é fundamental e visa quatro aspectos importantes:

– descompactação; – controle de invasoras; – destruição de colônias de insetos (cupins e formigas);

– incorporação de matéria orgânica e corretivos.

O preparo do solo inicia-se com a gradagem da área. Para tanto, são utilizadas grades aradoras. Nessa fase, a pastagem degradada deve ser desenraizada e incorporada, com gradagem a uma profundidade de 10 a 15 cm, com isso, favorece-se a infiltração e o armazenamento de água no solo, além de promover a destruição de cupinzeiros. Deve-se fazer essa aração 30 dias antes da data prevista para o plantio.

Se o solo apresentar compactação elevada, deverão ser utilizados arados subsoladores cuja função é romper camadas compactadas do solo, aumentando a capacidade de infiltração de água no solo e facilitando o crescimento das raízes.

O próximo passo é a utilização da grade niveladora, também denominada de grade leve, que tem como função nivelar o terreno, corrigir as pequenas falhas de superfície, eliminar possíveis ervas e dar acabamento, finalizando o preparo para o plantio.

O nivelamento e o destorroamento devem ocorrer após as primeiras chuvas. A passagem inicial será logo que começar a germinação do banco de sementes de invasoras e a segunda nivelada, 10 a 15 dias após a primeira e logo antes do plantio, propiciando melhores condições à semeadura, ao controle de invasoras e ao desenvolvimento e à produção das plantas forrageiras.

Após o preparo e plantio, é necessário o controle de plantas invasoras e de cuidados para se impedir que se estabeleçam e se disseminem nas áreas de pastagens.

Os controles preventivos passam por uma reeducação com foco na limpeza de roupas e calçados dos colaboradores que circulam em áreas infestadas, limpeza de tratores e implementos que serão utilizados e uso de sementes não contaminadas, entre outros.

Várias são as formas de controle, sendo eles o preventivo, o mecânico, o cultural e o químico.

No controle mecânico, o objetivo deve ser o de se evitar que as plantas invasoras entrem em fase de reprodução (emissão de sementes). Assim, a ação deve ser feita sempre antes que atinjam a fase reprodutiva. Esse método pode ser realizado via roçagem manual, roçagem mecanizada, gradagem ou aração.

Existem no mercado implementos para esse fim, que podem ser de arrasto ou hidráulicos.

O controle cultural consiste na adubação correta das pastagens com fornecimento de micro e macronutrientes de acordo com a análise de solo, na utilização de espécies de plantas forrageiras bem adaptadas ao ambiente e da quantidade ideal de semente no plantio, além do manejo adequado.

O controle químico consiste na utilização de herbicidas que, aplicados isoladamente ou em misturas, inibem o crescimento normal ou matam as plantas sem interesse agronômico. Entre as muitas vantagens de se utilizar produtos químicos (herbicidas) podemos citar:

– alto rendimento na aplicação;

– eficiência elevada e uniforme;

– controle das plantas indesejáveis sem comprometer as plantas de pastagens;

– efeito rápido;

– redução do potencial do banco de sementes;

– viabilidade econômica. É importante observar os períodos de carência e contaminação dos produtos que fazem parte da dieta dos humanos e dos animais, afetação aos organismos benéficos, exigência de cuidados específicos durante sua aplicação e exigência de cuidados especiais no armazenamento das embalagens.

Após a conservação do solo, corre- ção de fertilidade, preparo e cuidados culturais, é o momento do plantio, que no Centro-Oeste deve ser efetuado, preferencialmente, no início do inverno, a partir de setembro/outubro, podendo se prolongar até fevereiro/março. O momento de semeadura é fundamental para o êxito no estabelecimento de forrageiras que, juntamente com a adequada adubação e a qualidade das sementes, acelera o crescimento inicial, determinando a utilização mais cedo da pastagem.

O plantio pode ser executado a lanço ou na linha, existindo no mercado inú- meros equipamentos das mais variadas capacidades e funções. Na semeadura a lanço, podem-se utilizar os esparramadores de calcário, citados anteriormente. Para a semeadura em linha, as op- ções são semeadoras de plantio direto ou semeadora múltipla.

Após o plantio, é chegada a hora da colheita. Quem fez a escolha por integração de milho com capim se prepara para fazer a silagem, o que possibilita que a forragem produzida no consórcio seja utilizada durante a estação seca. A silagem é um alimento homogê- neo com altos teores de energia e elevados níveis de matéria seca (MS). É uma tecnologia à disposição do produtor para incrementar a produtividade do rebanho, aumentando o rendimento das culturas e das forrageiras, sendo excelente alternativa para programas de recuperação de pastagens.

Deve ser dada atenção especial ao ponto correto da colheita. A silagem resultante deverá apresentar teores de MS entre 30 e 37%.

A compactação é a etapa mais importante na confecção de uma boa silagem. Nessa fase, não se pode economizar esforços e muito menos maquinários.

O transporte, a compactação e o fechamento devem ser feitos o mais rápido possível (para redução de pH e estabilização da massa de forragem).

No mercado existem colhedeiras de forragem com dimensionamento variado que proporcionam grande rendimento e agilidade na colheita de diversas espécies de forragens. A vantagem desses equipamentos é a agilidade na produção de silagem, em que as forrageiras Especial Mecanização autopropelidas chegam a ter um rendimento operacional de 8 ha/hora, com uma produtividade de 12 toneladas de MS/ha, proporcionando economia de tempo e dinheiro, produzindo uma silagem de ótima qualidade.

Passados 30 a 40 dias, que é o tempo mínimo necessário para a fermenta- ção da massa de forragem, na ocasião de abertura do silo, serão necessários equipamentos para desensilagem, transporte, mistura e fornecimento para o arraçoamento da suplementação alimentar aos animais. São disponibilizados equipamentos de rentabilidade e função muito variados. Os mais completos possuem a capacidade de pesar, transportar, cortar e distribuir silagem, misturada com alimentos concentrados, sem desfibrar a matéria e de acordo com as dosagens desejadas.

Semeadora de pastagem em linha

Esses equipamentos apresentam diversas capacidades de carga e permitem a suplementação alimentar com apenas um operador, quantificando os alimentos carregados e distribuídos, aumentando a ingestão de MS e reduzindo a capacidade de seleção dos alimentos pelos animais, proporcionando um maior controle da dieta. Tais equipamentos são amplamente utilizados em atividade de confinamento de bovinos.

Além dos equipamentos já citados anteriormente, estão disponíveis no mercado novas tecnologias que visam ao melhor aproveitamento dos nutrientes dos grãos inseridos na dieta. O reidratador adiciona água de forma homogênea aos grãos moídos, devolvendo ao grão já seco a umidade adequada para que o mesmo seja fermentado nas condições para o processo de silagem. Comprovadamente, a ensilagem do grão reidratado aumenta a digestibilidade do amido, proporcionando ganhos no desempenho.

Como o confinamento necessita de vários manejos com animais e esses invariavelmente passam pelos currais, para a construção dos currais de manejo é preciso que haja o conhecimento sobre a biologia dos bovinos, melhorando as interações homem-animal, minimizando o risco de acidentes e garantindo um melhor desempenho e qualidade dos produtos obtidos. Estruturas ultrapassadas e sem noções de manejo racional diminuem a rentabilidade das operações. Embarques com contusões e apartes com risco para os colaboradores e os animais não são mais aceitáveis.

As estruturas de manejo devem ser construí- das visando às necessidades específicas de cada lote a ser trabalhado. Toda a atitude a ser tomada com o bovino deve obrigatoriamente passar pela contenção e para se pesar é de suma importância conter o animal com segurança e eficiência, sendo indispensável a utilização de bretes de contenção e uma equipe bem treinada. A balança é fundamental para o ajuste da dieta e monitoramento dos dados de produção. Com ela, fazem-se as apartações e definem-se as datas e o peso-alvo de cada lote e o devido tempo de permanência no confinamento.

Outra alternativa para conserva- ção de forragens é a produção de feno, constituindo uma das opções viáveis especialmente pela possibilidade de ser associada a um programa de manejo das pastagens, utilizando o excedente de pastos dos períodos chuvosos. O feno é a forragem desidratada que consegue manter o valor nutritivo original da forrageira, baixando a umidade até 15%, permitindo armazenagem sem degradação e perda nutricionais, o que o qualifica como uma forragem de alta qualidade.

A produção de feno requer alto grau de mecanização e só se torna econômica quando a produção atinge determinado nível de escala e produtividade, só é conseguida quando se acerta na escolha do terreno, da forragem e dos equipamentos.

A melhor forrageira para se produzir feno são as que apresentam uma boa relação caule-folha, alto rendimento e valor nutritivo e boa capacidade de rebrota. As gramíneas que apresentam maior rendimento e qualidade na produção de feno são as do gênero cynodon, como a tifton 85 e a florakirk, e nas leguminosas a que destaca é a alfafa.

As principais etapas da fenação são o corte, o revolvimento ou o viragem,

o enleiramento e o enfardamento. O conjunto de fenação é composto pela ceifadeira ou segadeira, os ancinhos espalhadores e enleiradores e as enfardadeiras.

Enfardadeira de fardos retangulares

A segadeira ou ceifadeira pode ser de arrasto ou elevada pelo hidráulico, sendo que este, por sua vez, possui uma maior versatilidade e pode ser utilizado em terrenos mais acidentados, com rendimentos de 1 a 3 ha/hora de servi- ço. Existem dois modelos: a segadeira simples de barra horizontal lateral, que corta e espalha a forragem pelo campo, e a segadeira condicionadora, que possui um mecanismo de quebra das partes mais fibrosas da forragem e enleira o material, apressando a desidratação e melhorando a qualidade do material a ser fenado.

É essencial ter uma oficina para manutenção das máquinas, especialmente dos pneus

O ancinho espalhador vira o feno e o ancinho enleirador possui a função de amontoar o material para facilitar o serviço da enfardadeira. Existem equipamentos que fazem as duas funções, espalha e vira o material e depois enleira. A eficiência do ancinho enleirador vai depender da topografia do terreno, por isso, a área a ser trabalhada deve ser a mais plana possível.

A enfardadeira é a ferramenta que vai permitir a formação dos fardos, facilitando o armazenamento e o transporte. Os fardos podem ter variadas medidas. Os retangulares poder ser de 0.40 m a 0,50 m de largura por 0.90 a 1 m de comprimento e de 12 a 20 kg. Há também os rolos de 500 até 1.000 kg e sua vantagem é que a armazenagem pode ser feita no próprio campo, facilitando muito o manejo. As enfardadeiras automáticas possuem um bom rendimento e, em apenas um dia de serviço, podem produzir até 2.000 fardos de feno.

Por fim, é necessário esclarecer que, além de ter um bom equipamento, é preciso pensar na manutenção e na durabilidade. Os cuidados e as precauções que o produtor deve ter ao aumentar o parque de máquinas devem ser acompanhados com a melhoria da infraestrutura, como galpões para acomodação de maquinários, implementos e uma oficina-borracharia básica para manutenção e reparos que deve possuir: aparelho de solda, furadeira de bancada, furadeira manual, esmerilhadora, prensa de bancada, compressor de ar, moto esmeril, jogos de chave de boca e combinada, macacos jacaré e de garrafa, morsas e aparelho para vulcanização e reparo de pneus.

Diante do exposto, é possível ver que a seleção econômica de equipamentos agrícolas e pecuários pode ser um problema complexo por diversas razões, sendo que cada propriedade agrícola tem que ser tratada com particularidade, pois a qualidade e a disponibilidade de mão de obra, a política de remuneração dos colaboradores, as manutenções preventivas e corretivas e o amadurecimento administrativo variam muito em cada empresa rural.

*Celso Henrique é engenheiroagrônomo e Paulo Ferraz é zootecnista e ambos são consultores da Ajuste Pecuário - [email protected]