Entrevista do Mês

 

Entrevista do Mês - Bruno de Jesus Andrade

Utilizado para garantir o acabamento de carcaça ou já a partir da desmama do bezerro, na forma intensiva, o confinamento é a fórmula para conseguir mais arrobas, em menor tempo e com carne de qualidade superior. Com a palavra, Bruno de Jesus Andrade, gerente-executivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon).

Adilson Rodrigues [email protected]

Estratégico ou não, sempre um aliado

Revista AG - Quais números você almeja para o mercado de confinamento daqui a dez anos?

Bruno Andrade - O confinamento tem espaço para dobrar de tamanho nos próximos dez anos. A expectativa de crescimento para 2015 é de 7,65%. Espera-se, portanto, 4.478.240 animais confinados. Em 2014, foram produzidos 4.160.000. Embora seja um crescimento pequeno, o sistema vem evoluindo nos últimos anos.

Revista AG - O confinamento estratégico continua sendo a grande vedete ou o processo de intensificação da pecuária inevitavelmente nos levará ao confinamento intensivo?

Bruno Andrade - Pequenos confinamentos e grandes unidades de engorda sempre terão espaço na produção de carne bovina. Obviamente, pelo perfil dos produtores brasileiros, que em geral possuem rebanho pequeno, o confinamento surge como uma estratégia para o melhor aproveitamento da área da fazenda. Porém, os grandes projetos serão fundamentais para a maior produção em escala e para incrementar a produtividade geral da pecuária brasileira, além de ofertar produtos de qualidade no mercado.

Revista AG - É fantasioso dizer que o futuro do nosso confinamento está nos Estados Unidos?

Bruno Andrade - De certa forma, sim! Nosso modelo de produção em confinamento assemelha-se aos dos EUA, entretanto, temos muita área para crescer na produção intensiva a pasto. Possuímos área, clima e, portanto, potencial para aumentar as UAs (unidades animais) por hectare no Brasil antes de seguirmos para um modelo altamente intensivo. Não sei se o caminho é ser os EUA no futuro, pois o mundo busca por um produto sustentável e isso sabemos fazer com muita eficiência, usando pastos.

Revista AG - Entretanto, aplicação de antibióticos como método preventivo e aplicação de hormônios estará fora dos planos?

Bruno Andrade - Acredito que toda tecnologia testada e comprovadamente segura ao ser humano deve ser usada na produção de alimentos. Houve no passado discussão sobre produtos modificados geneticamente na agricultura e ao final descobrimos inúmeros benefícios. Todavia, toda nova tecnologia deve ser aplicada de forma sustentável, respeitando os interesses dos consumidores, tanto no aspecto da segurança alimentar quanto no manejo racional e respeito ao meio ambiente.

Revista AG - Hoje, o grande slogan da carne brasileira é o “boi verde”. Mesmo com maior tempo no cocho, ele continuará “verde”?

Bruno Andrade - No longo prazo não enxergo mudanças nesse cenário. O boi produzido no confinamento fica apenas 15% de sua vida em produção intensiva, com base nos dados dos associados da Assocon. Isso não será alterado tão cedo! E, mesmo no confinamento, sua base de alimentação são forragens, picadas e/ou conservadas.

Revista AG - Verdade seja dita, a virada do ciclo pecuário maltratou ao elevar o preço do bezerro e do boi magro a R$ 2.000,00 ou mais. Como se manter competitivo dessa forma?

Bruno Andrade - Cada fazenda tem seus custos específicos, mas nossas simulações em Goiás mostram prejuízo no confinamento com o boi magro acima de R$ 147,50 por arroba. O pecuarista que domina seu processo produtivo vai conseguir sobreviver às oscilações. Na verdade, ele precisa viver nesse ambiente, pois esse movimento de alta e baixa sempre ocorrerá.

Revista AG - Já em relação à alimentação, os gastos estão menores neste ano?

Bruno Andrade - Menores não, diria que estão no mesmo patamar de 2014, portanto competitivos. Contudo, dependendo da composição da dieta do animal, os custos poderão ser maiores. Maior inclusão de grãos e farelos na dieta pode torná-la mais cara por quilo de ração produzida.

Revista AG - Porém, além do milho e da soja, temos uma infinidade de resíduos agrícolas. Não seria hora de o paladar do boi arraçoado experimentar novos sabores?

Bruno Andrade - Dependendo da região, sempre haverá uso de algum produto diferente, como São Paulo tem a polpa cítrica e o farelo de amendoim. No Sul do Brasil, há o trigo, a aveia, o triticale, o azevém e a alfafa. Alguns confinamentos usam bagaço de tomate. Existe uma infinidade de produtos a entrar na dieta do animal e com excelente retorno.

Revista AG - Independentemente do ingrediente usado na ração, o que impera a formulação da dieta?

Bruno Andrade - Com base nos confinamentos da Assocon, são usados na alimentação do gado milho (principalmente), subprodutos da soja e do algodão, sorgo e bagaço de cana. O importante é conhecer o valor proteico e energético de cada alimento. A proteína bruta em uma dieta pode variar de 11 a 16% e o nível de Nutrientes Digestíveis Totais (NDT), entre 69 e 85%. Isso varia conforme o tipo de animal, período do confinamento e estratégia utilizada na engorda (disponibilidade de insumos).

Revista AG - Cocho rapado jamais! Se isso acontece, é por que algo está errado?

Bruno Andrade - No meu ponto de vista, é sempre importante trabalhar com um residual mínimo de ração no cocho. Assim como para nós, seres humanos, muitas vezes o prato esvaziado pode significar mais fome! Para que tenhamos pleno desenvolvimento animal, devemos oferecer a quantidade adequada da dieta. Lembrando também que dentro de uma população de animais existem os indivíduos, uns comem mais e outros menos. Sempre é bom deixar esse residual para atender animais que são dominados ou que, por algum motivo, chegam por último no cocho.

Revista AG - Há alguns anos, falava-se na Interconf sobre a floculação do milho. Essa tecnologia engrenou no Brasil? Qual seria seu custo/benefício?

Bruno Andrade - Ainda é pouco utilizada. Conheço apenas três projetos que utilizam tal tecnologia. O aproveitamento do milho é excepcional, mas o custo para implantação desse sistema no Brasil ainda impede que seja largamente difundido. Até o momento desconheço também empresas que fabriquem o maquinário necessário no País. Há benefício, especialmente para os grandes confinamentos, com escala de produção.

Revista AG - O fator genético tem sido muito testado na produção de gado superprecoce. Quais são os cruzamentos mais utilizados pelos associados da Assocon?

Bruno Andrade - A genética Angus tem sido a mais utilizada, sendo animais puros ou cruzados com Nelore.

Revista AG - E para quem prefere apostar no zebu puro, quais seriam as dicas para acertar na escolha do bezerro?

Bruno Andrade - Como todas as raças trabalhadas pela seleção nas últimas décadas, deve-se priorizar por linhagens mais precoces, com maior adaptabilidade ao clima do Brasil Central (onde estão a maioria dos confinamentos) e que ofereçam bons indicadores zootécnicos.

Revista AG - Do curral à gestão, planejamento é uma palavra que tem merecido atenção especial dos confinadores?

Bruno Andrade - Exato! Com um bom planejamento, execução e controle de rotina, é possível ter resultado satisfatório, mesmo em ano de mercado ruim. Os confinadores têm procurado, através de softwares de gestão, cursos de aperfeiçoamento e treinamento de mão de obra para melhorar a capacidade produtiva de suas empresas.

Revista AG - E quanto ao bem- -estar, por quantas anda essa preocupação?.

Bruno Andrade - É uma grande preocupação da pecuária em geral. O produtor sabe como tratar um animal de produção. O pecuarista sabe que, se o animal for mal cuidado, ele não retornará as arrobas desejadas. Ou seja, para uma boa eficiência produtiva, os aspectos sanitários e de bem-estar animal devem ser considerados.

Revista AG - Falando mais de macroeconomia, o acordo para exportação de carne in natura vai vingar? A China já confirmou.

Bruno Andrade - Esperamos que sim. Embora os primeiros meses de 2015 não tenham sido bons, o mercado precisa reagir, pois o consumo interno está estagnado. A baixa oferta de animais para o abate tem sustentado os atuais preços. Porém, a força para essa sustentação virá de uma exportação forte. Os EUA também podem ser uma excelente opção para nossa carne in natura nos próximos meses.

Revista AG - Mais que nunca a rastreabilidade será uma ferramenta essencial. O que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) precisa fazer de diferente na Plataforma de Gestão Agropecuária (PGA) em comparação ao antigo Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Bovinos e Bubalinos (Sisbov)?

Bruno Andrade - O Ministério da Agricultura já está fazendo, que é conversar com o setor produtivo. A CNA está envolvida na discussão. Sem a devida comunicação com todos os elos da cadeia de produção da carne bovina, sempre teremos problemas. Entretanto, enxergo como positivo o trabalho do Mapa e da CNA sobre a PGA e temos confiança que um bom serviço será entregue. A Assocon também participa dessa discussão.

Revista AG - Extensionismo. Está aí um fator limitante na atividade pecuária. A Assocon tem conseguido bons resultados na capacitação de mão de obra?

Bruno Andrade - Nossos resultados têm sido excelentes. Desde 2010, já capacitamos 1.123 pessoas em mais de 16 edições da Escola de Confinamento da Assocon. É um projeto fundamental e que conta com o apoio de diversas empresas parcerias. Conseguimos levar informações técnicas que valem a pena ser ouvidas por um público carente das mesmas. As maiores dúvidas dos participantes referem-se à produção de silagem e ao manejo nutricional.