Escolha do Leitor

 

Creep-feeding

A solução do passado e do futuro

Ricardo Luís Cardoso Barbosa*

Creep-feeding é uma expressão de origem inglesa, na qual creep significa rastejar ou engatinhar, referindo-se à maneira como os bezerros chegam ao cocho, e feeding significa alimentação. Em termos práticos, pode ser entendida como alimentação privativa. É uma prática de manejo alimentar que tem como objetivo a suplementação de bezerros ainda durante o período em que estão mamando (lactentes). Dessa forma, estariam sendo complementadas as necessidades nutricionais diárias dos bezerros, as quais estão crescentes, à medida do desenvolvimento corporal, e não mais sendo atendidas pelo leite e/ou pasto para a maximização do desempenho. Para implementar o creep-feeding é necessário o uso de instalações que permitam acesso apenas de animais jovens ao cocho onde será disponibilizado o suplemento ou a ração. No Brasil, há várias décadas em uso, essa expressão (muitas vezes simplificada apenas como creep) é comumente usada para referir-se às instalações ou ao cocho onde somente os bezerros têm acesso, disponibilizando, ali, o alimento destinado somente a eles.

Essa prática de suplementação, por si só, geralmente não diminui o consumo de leite pelo bezerro, porém, pode promover um efeito de substituição em que o animal passa a ingerir o suplemento alimentar ao invés de pastagem. Isso tem um efeito altamente positivo sob o ponto de vista de desenvolvimento do sistema digestivo, especialmente o das papilas ruminais, transformando o animal em um ruminante completo mais rapidamente, comparando-se ao sistema em que não é usada a suplementação. A partir da ingestão de alimentos sólidos, especialmente o concentrado desenvolvido para essa categoria, cujo fornecimento pode até ser iniciado bem cedo (na primeira semana de idade), inicia-se a fase de desenvolvimento do rúmen e das papilas ruminais em particular.

Segundo Ricardo Barbosa, a técnica também favorece a vaca, que ganha mais peso e fica mais fértil

Essas estruturas da parede interna do rúmen são responsáveis pelo aumento da área de absorção dos nutrientes pelos ruminantes e têm vital importância na digestão, necessárias ao animal para beneficiar-se do consumo de forragens (Frosi, 2008). Conforme Teixeira e Teixeira (2001), o desenvolvimento do bezerro como ruminante ocorre entre o nascimento e o quarto mês de idade, sendo que o início da atividade ruminal depende da qualidade e da quantidade da dieta fornecida. Dessa forma, então, e desde que o suplemento alimentar seja adequado, o bezerro ganha mais peso e será desmamado mais pesado, uma vez que complementa as suas necessidades nutricionais para que alcance o máximo de seu potencial genético. Também por esse motivo, a prática do creep-feeding permite a redução do estresse e da perda de peso causados pelo desmame, uma vez que, quando é apartado da mãe, o bezerro já está adaptado à suplementação e, com isso, “esquece” mais facilmente o leite.

Efeitos positivos
Trabalhando com animais da raça Brahman e mestiços, Fordyce et al. (1996) encontraram diferença de 10,8% no ganho de peso médio diário (GMD) a favor dos bezerros suplementados com concentrado contendo 16% de proteína bruta e 66% de NDT na matéria seca (MS). O consumo diário de suplemento foi de 0,40 kg por animal. Em outro experimento, os mesmos autores não observaram diferenças significativas no GMD e no peso ao desmame (PD) de bezerros suplementados por 42 dias e com consumo de 0,10 kg/animal/dia, indicando que o GMD e o PD dos animais suplementados em creep-feeding estão relacionados com a quantidade de suplemento ingerido. Martin et al. (1981) utilizaram 831 bezerros Angus para avaliar os efeitos do creep-feeding sobre o peso ao desmame, ganho de peso pós-desmame e sobre a fertilidade das vacas. Houve diferença a favor dos bezerros suplementados quanto ao peso às idades de 120, 210 e 365 dias. Pacola et al. (1989) estudaram os efeitos da suplementação em creep-feeding sobre os pesos de 495 bezerros Nelore aos 120 e 210 dias de idade, sobre a fertilidade e o peso das vacas à parição e ao desmame. A suplementação dos bezerros que se iniciou aos dois meses de idade e prosseguiu por 122 dias resultou em efeito favorável sobre o peso ao desmame. As vacas, cujos bezerros foram suplementados em creep-feeding apresentaram tendência de maior ganho de peso até a desmama e melhor eficiência reprodutiva.

Conforme Rodrigues et al., 2003, e demonstrado na tabela 1, para um animal ser desmamado com 150 kg de peso vivo aos 7 meses de idade, a média diária de ganho de peso será de 0,57 kg, ganho possível de ser alcançado somente com leite e pastagem. Para desmamar um bezerro com 200 kg, seria necessário ganho de peso vivo diário de 0,80 kg, o que pode ser conseguido sem suplementação somente em situações em que se utilizem animais com bom potencial genético e bom manejo de pastagem. Para médias diárias de 0,80 kg até a desmama, é necessário algum tipo de suplementação de boa qualidade.

Quando os bezerros aproximam-se da desmama, as exigências nutricionais aumentam, sendo maiores em bezerros com potencial maior de ganho de peso (por exemplo, machos cruzados). Se as exigências nutricionais são maiores do que os nutrientes supridos pelo leite e pelo pasto, obviamente o ganho de peso será restrito.

Creep-feeding instalado dentro de baia

Segundo Reis (2012), a técnica do creep-feeding incrementa o ganho de peso do bezerro de 8 a 16% e eleva o índice de prenhez da matriz em até 10%.

A tabela 2 mostra os pesos de desmame de bezerros cruzados Simental x Nelore, evidenciando um aumento de 11,8% a 22,5%, aos cinco e sete meses de idade, respectivamente. O emprego do creep-feeding possibilitou, ainda, um benefício de 9,7% na fertilidade de matrizes Nelore

Início e instalação
Como já elucidado, no sistema de creep- -feeding o cocho do bezerro deve ser restrito, devendo ser instalado nas áreas de maior movimento dos animais ou próximo ao cocho de trato das mães, quando também estiverem sendo suplementadas, lembrando que os bezerros sempre as estão acompanhando. O ideal é que sua borda externa esteja com altura do chão entre 40 e 50 centímetros, para raças de menor porte; e entre 50 e 60 centímetros, para raças de maior porte. É indicada a instalação de duas réguas paralelas ao solo, sendo uma rente ao chão ou até 20 centímetros e outra entre 90 e 110 centímetros de altura, de forma que seja criado um vão, por onde apenas o bezerro passe. Essa régua superior pode ser instalada de forma que se possa ajustar a altura do chão, evitando que receptoras de baixa estatura consigam passar.

A curva de produção de leite em vacas de raças de corte bem alimentadas mostra que, em média, o pico ocorre aproximadamente aos dois meses de lactação (figura 1), e, após 90 dias, o leite da mãe já inviabiliza um ganho de peso diário de 0,7 kg ao bezerro. E segundo diversos pesquisadores, de 60 a 66% da variação do peso ao desmame pode ser atribuída ao efeito direto do leite materno.

Quando for o caso de suplementação das matrizes, estando as suas crias juntas na mesma área de pastagem, também é preciso que haja cochos que apenas elas acessem e, dessa forma, o indicado é que eles tenham no mínimo 90 e no máximo 110 centímetros de altura do chão, dificultando, assim, que o bezerro tenha acesso ao cocho da mãe.

A idade dos bezerros recomendada para se iniciar o creep-feeding está em torno das oito semanas, ou seja, aproximadamente 60 dias de idade, desde que as matrizes tenham boa alimentação até essa fase, seja a pasto ou suplementadas, para que, também, estejam conseguindo alimentar bem as suas crias com o leite.

O suplemento alimentar destinado aos bezerros deve ser disposto de forma a proporcionar consumo à vontade e deve ser completado e/ou trocado todos os dias. No caso da suplementação com concentrados proteicos/energéticos (rações), pode-se limitar o consumo em até 1% do peso vivo do bezerro e, para bons resultados, deve ser de, no mínimo, 0,5% do peso vivo. Segundo vários pesquisadores, a média de consumo de um bezerro Nelore, durante o período de fornecimento (entre dois e sete meses de idade), poderá estar entre 0,7 e 1,5 kg de concentrado/animal/dia. Em suplementos nos quais não se utiliza um limitador de consumo, podemos ter uma elevada ingestão do suplemento, como é possível observar nos dados obtidos por Hamilton e Dickie (1992), mostrados na tabela. 3.

Em condições de suplementação nas quais é disponibilizado aos bezerros um suplemento para livre escolha sem limitador de consumo, a literatura mostra que a conversão alimentar do suplemento melhora quando as condições da pastagem e de produção de leite da vaca pioram. Na tabela 4, encontramos valores médios de conversão alimentar de suplementos para diferentes condições de uso dos mesmos.

O concentrado (ração) a ser fornecido no creep-feeding deve ser bastante palatável e, preferencialmente, deve ter a apresentação peletizada para atrair a atenção dos bezerros, facilitar o consumo e reduzir o desperdício. A sugestão dos teores de nutrientes do concentrado a ser fornecido deve ser de 18 a 20% de proteína bruta e de 75 a 80% de NDT. Tanto melhor se contiver aditivos em sua formulação, especialmente ionóforos, os quais melhoram o desempenho e reduzem a incidência de diarreias.

Desafios
Um ponto a ser bem analisado e planejado é a recria dos bezerros, quando essa acontecer no sistema de produção, pois o ganho de peso devido ao creep-feeding não substitui e não compensa uma boa recria. O creep-feeding pode, sim, proporcionar alívio para a etapa seguinte, ou seja, a recria, além de reduzir o tempo e o investimento com alimentação até a terminação e abate dos mesmos.

Portanto, bezerros manejados em cree- -feeding, desmamam mais pesados e possuem maior potencial de abate precoce, e fêmeas que serão mantidas no rebanho para reposição, desde que bem manejadas na recria, tendem a ter a primeira concepção mais precoces.

O resultado econômico do creep- -feeding está diretamente relacionado ao custo do suplemento, preço do bezerro e taxa de conversão alimentar proporcionada pelo suplemento usado.

Os teores ideais de energia e proteína de uma ração de creep-feeding estão relacionados a alguns fatores como tipo de sistema de suplemento (livre escolha ou com limitação de consumo), peso dos bezerros (os mais jovens exigem níveis nutricionais mais elevados no suplemento), disponibilidade e qualidade da pastagem

O sucesso da prática do creep-feeding é mais provável nas seguintes condições: quando a qualidade das pastagens é baixa, em anos em que a estação seca do ano é mais rigorosa, em grupos de vacas de primeira cria ou vacas velhas (acima de 11-12 anos) e para animais que serão produzidos em sistema de novilho precoce ou superprecoce.

Cabe ao técnico avaliar a necessidade e a viabilidade da implementação do sistema de suplementação para os bezerros. As variáveis a serem analisadas são preço do bezerro, diferencial do ganho de peso, custo da implantação do sistema e da mão de obra e preço do suplemento alimentar.

*Ricardo Barbosa é zootecnista e gerente técnico da Alisul Alimentos S/A (Supra) - [email protected]

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