Especial Suplementação Animal

 

MINERALIZAÇÃO

Sal mineral potencializa ganhos em energia e proteína, contribuindo para melhorar o ganho de peso, redução da idade de abate e qualidade de carne

Beth Melo

Embora tenham sido reportadas há décadas como um dos grandes problemas a serem vencidos para que haja o desenvolvimento da pecuária tropical, as deficiências minerais das pastagens tropicais ainda são uma das principais causas da baixa produtividade da pecuária brasileira. No entanto, o mercado deverá exigir, em um futuro próximo, mais qualidade dos suplementos minerais e tecnologias avançadas na busca de produção de carne de qualidade e segura, segundo Lauriston Bertelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram). “O Brasil tem uma grande responsabilidade frente ao mundo na produção de proteína animal, portanto, deve intensificar a produção, o que passa pelo uso de tecnologias como a mineralização do rebanho”, assegura.

Bertelli acredita que 50% do rebanho brasileiro recebe algum tipo de suplementação mineral, grande parte, porém, em subdosagens. “Falta conhecimento, rotina e infraestrutura para a mensuração de resultados. O pecuarista ainda não entendeu que mineral não é custo, e, sim, investimento”, argumenta. “Um rebanho adequadamente suplementado pode aumentar a produtividade em pelo menos 30%, melhorando o ganho diário, o rendimento de carcaça, o índice de fertilidade e a taxa de desmame”, analisa e acrescenta que o ano de 2015 mostra expectativa de crescimento do setor de minerais em torno de 5% se as condições macroeconômicas mundiais e do Brasil se mantiverem.

O Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações) não possui dados de consumo de ração de bovinos de corte, no entanto, a percepção de Ariovaldo Zani, vice-presidente executivo da entidade, é que a participação do alimento industrializado na dieta do gado é baixa, considerando o volume anual, ao redor de 2,7 milhões de toneladas, para um plantel estimado em 200 milhões de cabeças. “A meta de crescimento desse setor é 5% ao ano”, projeta.

Zani considera oportuno atentar para o desequilíbrio no rebanho bovino dos Estados Unidos, considerado o menor nos últimos 50 anos, e da Austrália, castigada pela longa estiagem que reduziu em 40% o número de cabeças de gado. “Esses desajustes podem gerar mais negócios externos para a pecuária bovina brasileira e manter valorizada a arroba do boi gordo, o que favorece o uso da alimentação industrializada por parte dos criadores/ confinadores”.

Segundo o médico-veterinário Fernando Carvalho, técnico da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de Presidente Bernardes e autor do livro A História da Suplementação Mineral no Brasil, os principais minerais deficientes nas forrageiras tropicais, nativas ou cultivadas, são fósforo, sódio, zinco, cobre, selênio e iodo. Em algumas áreas também o cobalto. “O enxofre e o magnésio não apresentam problemas de uma maneira geral, porém, deve-se estar atento ao excesso de ferro”, alerta.

Na opinião de Carvalho, a suplementação mineral é fundamental na reprodução dos bovinos, na formação dos ossos e da musculatura, na produção de leite, no desenvolvimento e no funcionamento correto do sistema imunológico, que é o responsável pelas defesas do organismo contra doenças infectoparasitárias, além de participar como regulador de sindromes metabólicas. “Vários estudos, em todo o mundo, comprovam que cada 1 centavo investido em um programa de suplementação mineral traz um retorno que pode variar de 3 a 22 centavos, dependendo da categoria e da qualidade da suplementação”, ilustra.

Cuidados na seca

O pesquisador Sérgio Raposo, da Embrapa Gado de Corte, afirma que, no período da seca, o baixo teor de proteína da pastagem é uma limitação pontual para o gado. “Por isso, a resposta à suplementação com sal mineral é grande, pois provoca aumento no consumo da forragem seca.”

Carvalho lembra que na seca há redução das concentrações de energia, proteína, vitaminas e fósforo, entre outros minerais. Ele acrescenta que, desde a década de 1940, havia evidências da deficiência proteica no período seco do ano, refletindo no baixo desenvolvimento corporal e nos baixos índices de fertilidade das vacas. “Trabalhos conduzidos no Reino Unido e na África do Sul, a partir de 1960, mostraram que o limitante nutricional primário, para animais exclusivamente a pasto, seria o déficit proteico, que poderia ser corrigido com o fornecimento de nitrogênio não proteico ou com proteína verdadeira. Daí, o nitrogênio não proteico (ureia) e os suplementos proteicos melhoraram bastante o consumo de pasto e induziram os animais à ingestão de gramíneas pouco apetecidas”, salienta.

De acordo com Carvalho, no Brasil Central ocorre uma queda acentuada na disponibilidade de forragem no período de seca invernal, que se caracteriza por uma produção ao redor de 10% do total anual, em decorrência da falta de umidade, da baixa temperatura e dos dias mais curtos (fotoperíodo), fazendo com que a planta entre em repouso vegetativo. “Além da menor oferta de alimento no pasto, o animal dispõe de uma forragem com baixo teor de proteína e menor digestiblidade, com o avanço da estação. Como consequência, consome menos matéria seca e o que ingere é de qualidade insatisfatória, resultando em perda de peso e, às vezes, até em morte, devido ao déficit nutricional”, observa.

Conforme explica o técnico da Cati, o uso de suplementos múltiplos – proteína, energia e minerais –, na seca, tem produzido resultados satisfatórios, contornando a perda de peso característica dos animais não suplementados nesta época do ano. “A suplementação proteica com nitrogênio não proteico (NNP) mais grãos (proteína verdadeira) aumenta a ingestão de forragens de baixo valor nutritivo. Com forragens pobres em proteína bruta (PB) (< 7% de PB), a principal resposta à suplementação proteica tem sido devido ao atendimento da exigência microbiana ruminal por nitrogênio (N) e o fornecimento de aminoácidos específicos e/ou energia contida nesse suplemento”, esclarece. Veja o gráfico a seguir:

Três categorias

Carvalho indica suplementação para três categorias de animais (cria, recria e engorda). Para a cria, grupo formado por fêmeas em reprodução (vacas e novilhas), touros e bezerros ao pé da mãe (mamando), de maior exigência em minerais, ele sugere produtos mais concentrados em minerais e de consumo mais elevados. “Suplementos minerais proteico-energéticos devem ser ministrados, especialmente, para as novilhas e as primíparas, durante o ano todo. Seu uso melhora o estado corporal das fêmeas, resultando em maiores taxas de prenhez, menor intervalo entre partos e maior índice de bezerros desmamados ao ano.”

Para a recria, que é o grupo formado por animais desmamados (7 meses) até os 18 meses de idade, em fase de crescimento, e que, em geral, são os mais sacrificados com relação à qualidade da dieta, ele recomenda mineralização diferenciada. “A pecuária moderna necessita de suplementos minerais proteicos e energéticos especialmente formulados para essa categoria”, observa.

Na engorda, que abrange animais de 18 a 24 meses, o técnico da Cati diz que é cada vez maior o uso de suplementos minerais proteico-energéticos para proporcionar maior ingestão de matéria seca, com reflexo positivo no ganho de peso e, por consequência, redução do tempo de abate. “Quanto maior o potencial genético para precocidade sexual e de abate, maior será a exigência nutricional dos animais, portanto, o criador deve ficar atento ao manejo, à qualidade e à quantidade dos nutrientes fornecidos para maximizar a resposta do animal ao manejo”, explica.

Complemento

“O suplemento deve complementar a dieta e suprir os nutrientes deficientes na forragem, que, em geral, não contém todos os minerais essenciais na quantidade adequada para atender as exigências dos animais em pastejo”, justifica Carvalho. Ele afirma que a redução do consumo de forragem por animais a pasto é semelhante à que ocorre com aqueles confinados. “Em resposta à suplementação energética, há uma progressiva diminuição no tempo de pastejo e tamanho do bocado. Quando a forragem é abundante e a energia é fornecida, há o aumento total de alimentos, porém, menos que proporcional à quantidade de suplemento ingerido.”

Ele acrescenta que a suplementação a pasto depende da qualidade da pastagem, sua massa disponível, do tamanho da área, do recurso financeiro, dos animais (sexo, idade, raça, estágio fisiológico), da infraestrutura de cochos e bebedouros e da mão de obra, entre outros fatores.

Carvalho aponta alguns erros clássicos na suplementação bovina: não respeitar a categoria animal e as deficiências nutricionais sazonais que as pastagens apresentam, fornecendo um produto padrão para todo o gado durante todo o ano, e a síndrome do cocho vazio, muito comum na pecuária brasileira. “Os animais não recebem os minerais que necessitam, em quantidade adequada e de forma constante e diária, para maximizar seu potencial genético”, esclarece.

A suplementação com micro e macrominerais varia conforme a categoria animal

Por que e quando suplementar

Segundo Raposo, da Embrapa Gado de Corte, qualquer animal pode receber suplementação e há pouca influência do grupo genético. “A produção de animais precoces e superprecoces pode ser interessante se o produtor tiver custos baixos de ingredientes que permitam um resultado positivo no confinamento, bem como se ele participar de algum programa que bonifique animais mais jovens e, assim, alcançar um resultado financeiro melhor”, avalia. Em sua opinião, a suplementação, especialmente a mais pesada, ajuda a padronizar o rebanho, facilitando a formação de lotes para venda.

Para o pesquisador, a escolha dos insumos utilizados na suplementação deve ser feita em função de fechar um sistema de produção na fazenda, contemplando minerais, aditivos, proteicos, energéticos, forragem, grão e alimentos alternativos, de forma que seja obtido o melhor benefício/custo. “É importante contar com a ajuda de um especialista, pois cada propriedade tem uma melhor solução, em função de características locais. Por exemplo, se fica perto de uma fonte de um subproduto de alta qualidade, isso favorece o seu uso, ao passo que outra, longe de centros produtores de alimentos, deve otimizar o ganho com pastagem e sal mineral apenas”, ensina.

Já Carvalho recomenda utilizar todos os insumos permitidos pelo Ministério da Agricultura e que tenham certificados de análises que garantam sua qualidade, ausência de contaminantes e/ou qualquer substância que leve ao risco alimentar, seja para os animais ou para os seres humanos que consumirão a carne e o leite. “Todo criador deve comprar produtos de empresas registradas no Serviço de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura, e na Asbram, e que tenham Boas práticas de fabricação (BPF) que são certificadas anualmente pelo Sindirações”, aconselha.

Impacto sobre os animais de cria

Raposo afirma que o impacto da suplementação pode ser grande também na fase de reprodução. “Há uma relação direta entre a condição corporal do animal e os índices de prenhez”, ressalta, destacando o fósforo.

A Embrapa estima o rebanho de cria no Brasil em mais de 70 milhões de vacas. “Em resposta à adoção de tecnologia, o maior efeito sobre a rentabilidade, no sistema de produção completo, é obtido nessa categoria”, atesta o pesquisador. Para ele, uma tecnologia indispensável para a obtenção de bons resultados é o oferecimento constante de sal mineral para as vacas de cria. “A oferta de um bom sal mineral, associado à boa disponibilidade de forragem, tem grande impacto no desempenho do rebanho de cria”, destaca o fôlder da série Fazendo a coisa certa, da Embrapa. Conforme a publicação, quando não se utiliza essa suplementação, pode-se aumentar até 12 vezes a ocorrência de abortos, ter menos 17 bezerros para cada 100 vacas por ano e reduzir em 20% ou mais o peso médio de desmama.

“Desde que haja boa disponibilidade de pastagem, uma boa mistura mineral e um consumo adequado, há pouca chance de haver problemas. A melhor resposta a essa questão é o próprio desempenho e estado de saúde do animal”, enfatiza Raposo.

Dieta ideal

Na opinião do médico-veterinário Sérgio O. Juchem, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, a dieta ideal é aquela que atende as necessidades nutricionais do animal e as metas econômicas do sistema de produção: “A forragem produzida na propriedade, sob a forma de pastagem, é a alternativa mais barata, porém, dependendo da qualidade da mesma e do desempenho animal desejado, o uso de suplementos pode ser necessário, mas deve ser alocado com uma estratégia econômica clara e definida”, analisa.

Para Sérgio Juchem, a dieta ideal é aquela que atende as necessidades nutricionais do animal e as metas econômicas estipuladas

O pesquisador afirma que animais de genéticas superiores, com potencial de maior ganho diário, se beneficiarão de maior teor proteico. “Usualmente, 13% a 16% de proteína bruta na dieta total são suficientes, porém, pastagens com esse teor de proteína podem não apresentar o nível de energia necessário para suportar desempenhos de 1 kg/dia e, nesses casos, a energia torna-se limitante e o uso de suplementos energéticos pode ser uma alternativa, se o retorno econômico justificar o investimento.”

Juchem lembra que as raças de menor porte, quando adultas, são mais precoces e exigem menor tempo e menor quantidade (kg) de nutrientes para atingir o peso e as condições de abate, porém, ele diz que é preciso também levar em conta as necessidades do mercado local. “É esse tipo de animal/carcaça que está sendo mais bem remunerado? É viável economicamente trabalhar com raças de maior porte para as condições específicas da propriedade?”, questiona.

Ele recomenda a suplementação apenas para suprir as deficiências nutricionais e complementar a qualidade nutricional da pastagem ou do volumoso (silagem, feno, pré-secado). “O primeiro objetivo é fornecer, em qualidade e quantidade, a maior proporção dos nutrientes necessários para uma categoria animal através da pastagem, volumoso conservado ou a sua combinação. No segundo momento, se necessário, a composição do suplemento (proteína e energia) para assegurar os nutrientes que a pastagem não consegue suprir”, orienta.

De acordo com Juchem, a suplementação com macro e microminerais tem sido utilizada sob uma ótica mais preventiva, e varia conforme a categoria animal (jovens, fêmeas em reprodução, mantença) e tipo de alimento/pastagem. “A escolha de um suplemento proteico ou energético depende do valor nutricional do pasto e da exigência nutricional do animal (jovem, fêmea adulta, terminação e outras)”, pondera.

De forma geral, o pesquisador afirma que em pastagens bem manejadas, em estágio vegetativo, o principal fator limitante é a energia, seguido ou não da proteína. “Muitas vezes, em função do valor proteico do pasto (>14%), da quantidade de suplemento e da categoria animal, não há necessidade de suplementação proteica para a obtenção de alto desempenho, no entanto, suplementações energéticas, nessas situações, podem ser benéficas para animais de alto potencial, porém, o investimento deve ser bem calculado. A decisão de suplementar nessas condições é, sobretudo, uma decisão econômica”, ensina.

Dada à complexidade dessa temática, Juchem afirma que o investimento em assessoria técnica é um fator importante a ser considerado, e, frequentemente, proporciona um bom retorno ao pecuarista. “A suplementação passa, obrigatoriamente, por uma gestão dos recursos da propriedade como um todo, é uma das estratégias de alimentação, como se fosse um acelerador, mas existem outras formas de acelerar o processo, como, por exemplo, o uso de adubação das pastagens”, destaca.

Mineralização na prática

A Estância Pedra Só, localizada em Pedro Osório/RS, cria gado em campo nativo e também trabalha com o ciclo completo para garantir um estoque mínimo de reposição. Utiliza integração lavoura-pecuária e um sistema de terminação de novilhos jovens. A base do rebanho é Angus e Brangus, no total de 2.500 cabeças. Segundo Juliano Severo Leon, médico-veterinário e administrador da propriedade, a mineralização é feita durante toda a vida do animal, conforme a base forrageira, categoria e época do ano. Já a suplementação com concentrados, é utilizada estrategicamente, considerando o produto disponível e o objetivo a ser atingido.

“Fazemos suplementação desta forma: gado de cria, na pré-estação de monta, mineral específico para reprodução, e, de janeiro a setembro, mineral proteinado em campo nativo. Na recria/terminação, após o desmame, em pastagem de inverno, utilizamos mineral com 60% a 65% de fósforo, e, no verão, quando os novilhos passam para as pastagens deficientes em PB, fazemos a suplementação com mineral proteinado”, detalha.

A principal vantagem da mineralização, na opinião de Leon, é suprir as necessidades dos animais, quando esses não encontram os minerais no pasto, buscando sempre um melhor desempenho para tornar o ciclo cada vez mais curto. “Quando bem utilizada, a suplementação atua diretamente na velocidade de ganho de peso e na eficiência reprodutiva”, pondera.

“Afinal, suplementação mineral é apenas uma ferramenta, não é solução.”

Victor Wortmann acredita que qualquer avaliação gerencial deve olhar a eficiência econômica da mineralização ou suplementação

O ano todo

Na Estância Coxilha, em Quaraí/ RS, a suplementação de machos e fêmeas com idade desde 7 a 24 meses é feita o ano todo, com sal mineral com teor de 40 g de fósforo. As vacas de cria e os touros também recebem mineral com 40 g de fósforo, de março a maio, além de sal proteinado (proteico- energético), de junho a setembro, e mineral com 80 a 85 g de fósforo, de outubro a fevereiro.

Victor Wortmann, sucessor e administrador da propriedade, acredita que qualquer avaliação gerencial deve olhar não só o desempenho e a beleza do animal, mas também a eficiência econômica da mineralização ou suplementação. “É essencial acompanhar a evolução do gado, sempre com o olho no bolso, considerando o retorno financeiro para cada kg de carne produzido com a operação”, ressalta.

Segundo o médico-veterinário Pedro Rocha Marques, consultor agropecuário da Coxilha, os suplementos minerais não podem substituir os suplementos alimentares como farelos de arroz e soja, polpa cítrica, quirela de arroz e outros produtos disponíveis. “Um não exclui o outro”, avisa.

Marques explica que os suplementos proteico-energéticos, com teores de proteína bruta ao redor de 30% e nutrientes digestíveis totais (NDT), de 62%, para engorda, melhoram a velocidade de ganho de peso, com ganhos médios diários de 200 gramas superiores aos animais que não receberam o produto. “Suplementos minerais específicos para animais em pastagens de inverno (aveia-preta, azevém, trevo, cornichão) geram rendimento de carcaça acima de 2%”, calcula.

Marques informa que “animais mais jovens, como bezerros ou novilhos(as) sobreano necessitam de dietas mais ricas em proteínas com teores entre 15% e 20%, enquanto as vacas de cria apresentam demanda de proteína de no máximo 13%, a exemplo das fêmeas de descarte ou novilhos com 24 meses idade, em fase de engorda sob pastagens tropicais ou de inverno.

Ciclo completo

A Fazenda Cachoeirão, em Bandeirantes/ MS, tem o ciclo completo de produção de gado de corte, com terminação em confinamento. Também possui um rebanho Nelore PO para a produção de touros para comercialização e faz integração lavoura-pecuária, com plantio de 1.100 hectares de soja e capim para uso como pastagem na época seca.

Ao todo, são 6.000 cabeças de Nelore e cruzamento industrial. Os animais em recria consomem suplemento proteico- energético durante o ano todo. Já as vacas recebem sal mineral de cria e os animais em confinamento para terminação são alimentados com silagem de milho mais concentrado (milho, farelo de soja, núcleo mineral). “Utilizamos suplementação mineral e proteica na seca e nas águas para melhorar o ganho de peso e reduzir a idade de abate dos animais”, conta Nedson Rodrigues Pereira, proprietário da Cachoeirão)

Segundo ele, no Brasil, praticamente, não existe região que não necessite de algum tipo de suplementação do gado. “As formas e os tipos de suplementos são variados e dependem da região e da estratégia de produção”, reforça o criador, que acrescenta que o grande benefício da suplementação (mineral e proteica) é o aumento da rentabilidade. “Se melhorarmos a velocidade de ganho de peso, a eficiência reprodutiva, a padronização do rebanho, o rendimento de carcaça e a qualidade de carne, com certeza, o lucro virá e a relação custo/benefício será positiva”, analisa.

Para escolher a dieta mineral e proteica, Pereira diz que, primeiro, é preciso definir o peso que se quer atingir, assim como o tempo necessário para obter esse resultado e a época do abate dos animais. “Pode-se usar sal proteico-energético, na base de 1g/kg ou 3g/kg/dia do peso vivo, ou rações, que podem chegar a 1% do peso vivo do animal por dia”, sugere. O percentual de PB vai depender da categoria animal.

Juliano Severo fornece mineral específico para reprodução na cria e proteinado de janeiro a setembro

“Para atingir o padrão de carcaças desejadas pelo mercado (de animal precoce, pesado e bem acabado), como é o caso do Programa Garantia de Origem do Carrefour, do qual participo, é necessário uma boa suplementação, pois além do peso mínimo a ser alcançado, para receber a bonificação, a gordura subcutânea também é fator de classificação ou não do animal, assim como a idade”, conta Pereira, que é diretor-técnico da Novilho Precoce MS.

Sérgio Raposo lembra que o sal mineral potencializa o ganho que a energia e a proteína do pasto proporcionam

“Nesse caso, é difícil colocar peso e acabamento somente a pasto”, avalia. Por exemplo, para alcançar o ganho médio diário de 1 kg, a primeira condição, na opinião do titular da Fazenda Cachoeirão, é ter excelente pastagem (nova e adubada, conforme a análise) e adicionar um proteico-energético na base de 3g/kg por peso vivo/dia, ou ração (milho, farelo de soja e núcleo mineral com aditivos), na proporção de 0,5 a 1% do peso vivo do animal/dia.


“Empurrando o carro na descida"

O médico-veterinário Fernando Carvalho afirma que é exatamente na época das chuvas que há a maior a necessidade de mineralização do gado, devido à maior disponibilidade de proteína e energia nas pastagens tropicais. “O animal necessita das metaloenzimas, enzimas ligadas aos minerais e, sem elas, não há eficiência máxima no metabolismo proteico e energético, razão pela qual nessa época de ‘fartura’ ocorrem os maiores picos de deficiência mineral em bovinos criados a pasto no Brasil”, explica.

Carvalho acrescenta que as flutuações no valor nutritivo das pastagens também ocorrem na época das chuvas e são capazes de influenciar a produção animal. “A suplementação passa a ter níveis nutricionais diferentes, principalmente maior quantidade e melhor qualidade de matéria seca ofertada, decorrente da mudança sazonal das forrageiras nas águas em relação à seca, com teores mais elevados de energia, proteína, minerais, vitaminas e digestibilidade, havendo um incremento metabólico no animal”, comenta. Entretanto, ele diz que à medida que a estação das águas vai avançando, principalmente após a formação das sementes e no seu terço final, os níveis de minerais, especialmente, fósforo, zinco e cobre, caem significativamente e o nível de proteína bruta das pastagens decresce, justificando, também, a inclusão de nitrogênio (não proteico em pequenas proporções e de origem proteica) na mistura.

De acordo com Carvalho, os animais podem responder muito bem à suplementação proteico-energética, especialmente mantendo a relação final de uma parte de proteína para cada sete partes de energia nas das águas. “Suplementos energéticos, em nível ruminal, e suplementos com alto teor de energia e proteína que não degradam no rúmen (PNDR) podem ter efeitos benéficos similares”, informa e sugere outra estratégia: suplementação com frações proteicas com altos níveis de aminoácidos essenciais, mas de baixa degradabilidade ruminal (Gráfico 2 acima).

Por sua vez, o pesquisador Sérgio Raposo, da Embrapa Gado de Corte, lembra que o sal mineral potencializa o ganho que a energia e a proteína do pasto proporcionam. “Nas águas, apesar de se obter ganhos adicionais de até 200 g/cabeça/dia com ingredientes orgânicos (energéticos ou proteicos, como milho e farelo de soja, respectivamente) e suas misturas, isso nem sempre ocorre”, comenta.

Raposo diz que a suplementação mais tradicional nas águas se resume à oferta de um bom sal mineral, específico à categoria do animal a ser suplementada. “É possível obter bons desempenhos, com ganhos individuais próximos a 1 kg/cabeça/ dia, apenas com um bom manejo de forrageira e oferta, à vontade, de sal mineral. Sem a suplementação, há na forrageira um teor de fósforo que permite só 700 g/cabeça/dia. É isso que o animal vai ganhar”, esclarece.

Pedro Rocha Marques, consultor agropecuário da Estância Coxilha, em Quaraí/RS, atrela a decisão de suplementar nas águas ou período primavera-verão, nas condições da Região Sul, aos objetivos que se deseja alcançar. “No entanto, nas águas, a qualidade de pasto eleva as demandas nutricionais das vacas de cria em lactação. Portanto, a suplementação com microminerais deve ser realizada de forma prioritária a partir de setembro, para coincidir com a demanda nutricional elevada das vacas de cria que estão amamentando e precisam retornar à atividade reprodutiva”, orienta. Normalmente, os especialistas comparam a suplementação nas águas a empurrar um carro na descida, onde o esforço despendido é mínimo e a velocidade é máxima.