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Paradigmas para a seleção do Nelore

Compreendendo a história (Parte I)

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brazil com Z® – Zootecnia Tropical

Amigos agropecuaristas, em tempos turbulentos no cenário político do país, nesta edição apresentarei a primeira parte de uma série de quatro artigos em que trataremos dos dilemas envolvidos na seleção da raça Nelore. Nas próximas edições, caminharemos para concluir a história, e seguimos o raciocínio com a parte III, interpretando o presente, até a parte final, que abordará as propostas para delinear o futuro.

Nesta série, serão citados reprodutores que fazem parte da rica história do Nelore, e nos ajudam a compreender os diferentes momentos da seleção da raça.

O Nelore, a mais representativa raça de corte do país, vive mais um momento emblemático, pelo volume de informações que tem gerado e pela dificuldade em resolver seus dilemas. Atualmente, a obrigação de compreender um grande volume de informações conduz a interpretações muitas vezes divergentes, provindas de profissionais e selecionadores sérios e formadores de opinião. Tal fato faz com que muitos criadores estejam vulneráveis a tomadas de decisão equivocadas quanto à genética adequada a seus objetivos de seleção.

Desde as primeiras importações, no século XIX, o zebu passou por longo período de multiplicação em terras brasileiras, onde ocorreram muitos cruzamentos absorventes com o rebanho trazido por portugueses e espanhóis. Com a criação do registro genealógico, já no século XX, a raça Nelore passou pela importante fase de consolidação do padrão racial.

A representativa importação de 1962 trouxe para o país genearcas importantes como: Rastã, Bima, Godhavari, Kurupathy, Golias, Taj Mahal, Akasamu, Padhu e Karvadi, quando a concepção de um modelo foi redefinida, principalmente baseada no último reprodutor citado, o Karvadi, pai de Chummak e Dumu.

Para aqueles que simplesmente criticam, na minha opinião, os pioneiros foram verdadeiros heróis, desde os importadores, os comerciantes até os técnicos da época. Com todos os erros e acertos inerentes ao processo dinâmico de descobertas, a seleção para compra dos animais na Índia, os comerciantes de zebu e as exposições agropecuárias foram fundamentais para nortear a seleção empírica do Nelore, com saldo positivo, já que a genética atual e diversificada que a raça apresenta advém desse cenário e desses atores.

Com a expansão das braquiárias, na década de 1970, a raça foi ganhando mais espaço em função de sua competente performance. A vaca Nelore é muito bem adaptada ao ambiente, fértil, seus bezerros nascem facilmente, com tamanho adequado e vigorosos. A matriz é boa mãe e produz quantidade de leite suficiente para desmamar um produto com bom desenvolvimento e muito saudável. Com isso, a raça se destaca até se tornar a mais representativa do rebanho nacional.

Início das provas

No final da década de 1960, iniciou- se a implantação das provas zootécnicas pela Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) e as características ponderais peso e ganho em peso são eleitas prioritárias. Pouca ou quase nenhuma atenção era dada quanto à idade em que animais atingiam pesos recordes, nem com relação ao tamanho dos indivíduos - cada vez maiores. Claro que existia a seleção para reprodução e habilidade materna por parte dos criadores, para citar duas características de suma importância, mas não eram essas as mais exploradas comercialmente.

Na década de 1970, mais especificamente em 1976, nasce o touro Gim de Garça, que vem a desmistificar a ideia fixa de que o bom era só o POI - Puro de Origem Importada, e em função de seus excelentes ganhos em peso nas provas oficiais, passou a ser utilizado até por criadores mais conservadores, mesmo sendo filho de vaca nacional, portanto PO - Puro de Origem - o que para muitos já era considerado alguma “mestiçagem”.

Essa nova onda consolida-se com o conceito do “moderno novilho de corte”, na década de 1980, descrito como longilíneo, geralmente grande, aliado a uma obsessão das pistas de julgamento pelo padrão racial. Para mim, o “fundo do poço” em termos de modelo animal definido pelas pistas na época, pode ser simbolizado pelo grande campeão de Uberaba de 1990, Inca POI, que era o protótipo do animal tardio.

A história começa a ficar mais picante na próxima edição da coluna. Entram em cena os programas de melhoramento e a pista inicia a fase de perda de mercado de sêmen.

Bom início de outono aos amigos produtores, que as águas de março se prolonguem onde faltou chuva e que deem uma trégua onde as enchentes vêm causando estragos.

Grande abraço!