Entrevista do Mês

 

Números de montão

Em tempos de seca e crise econômica, estar bem informado sobre os fatores que podem impactar a atividade pecuária nunca foi tão importante. Para levar até os leitores números relevantes ao bolso do pecuarista, a Revista AG ouviu Maurício Palma Nogueira, coordenador de Pecuária da Agroconsult. Veja mais nesta proveitosa entrevista.

Adilson Rodrigues - [email protected]

Revista AG - Sabemos que você é a cabeça por trás do Rally da Pecuária. Com base nos levantamentos realizados, qual o nível atual de degradação das pastagens brasileiras?
Maurício Palma Nogueira -
Diferenciamos o que é processo de degradação e o que é uma pastagem degradada. Consideramos um pasto degradado a partir do momento em que ele atinge uma condição em que não há mais possibilidade de recuperá-lo. Será preciso arar o solo, gradear e replantar novamente o capim. Nessas condições, estão entre 2% e 3% do total das pastagens presentes nos biomas Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia. Outra análise, em cima dos pontos amostrados no Rally da Pecuária, usando imagens geradas por satélite, nos permitiu concluir que 47% das pastagens estão ainda em processo de degradação. Cerca de 10% do total estão em estágio avançado. Ainda são recuperáveis, mas em menos de dois anos não serão mais. Com base no cruzamento dessas informações, podemos estimar que atualmente existem 5 milhões de hectares precisando urgentemente de reforma e 14 milhões de hectares precisariam de intervenção nos próximos 24 meses.

Revista AG - O rebanho total representado na amostragem do Rally da Pecuária compreende quantas cabeças e qual tamanho de área produtiva?
Maurício Nogueira -
Em 2014, a amostragem somou um rebanho de 1,9 milhão de cabeças alocadas em um total de 1,1 milhão hectares, somando pastagens e áreas para produção de volumosos. A ocupação de 1,7 cabeças por hectare permitiu uma produtividade média de 9,[email protected]/ha/ano, produtividade 2,3 vezes acima da média nacional.

Revista AG - Mas parece que há uma luz no fim do túnel. O pecuarista acordou para o fato da necessidade de adubação das pastagens?
Maurício Nogueira -
Identificamos com os dados do Rally da Pecuária que 45% dos produtores contatados pela expedição corrigem e fertilizam em torno de 25,5% do total da área de pastagens. No entanto, essa amostra é enviesada. Apesar do nosso esforço em tentar nos aproximar ao máximo da média, os produtores que se interessam em participar dos eventos, receber a nossa visita ou acessar o site para responder o questionário, estão bem acima da média.

Revista AG - A invasão das áreas agrícolas sobre as pecuárias continua em ritmo acelerado? Há ideia da área já perdida para a lavoura?
Maurício Nogueira -
Em 20 anos a área de pastagem foi reduzida em 20 milhões de hectares, cerca de um milhão por ano. Outros dados sugerem uma redução ainda maior, mas as bases estatísticas acabam dificultando uma análise com maior exatidão. De qualquer forma, atualmente, são cerca de 167 milhões de hectares de pastagens. A maior parte dessa área foi repassada para culturas agrícolas, como grãos, cana-de-açúcar e eucalipto; o restante foi revegetado. A tendência é que esse movimento continue ao longo dos anos, mesmo que em alguns momentos, menos favoráveis para a agricultura, ocorra alguma retração.

Revista AG - Hoje, os pecuaristas brasileiros estão produzindo mais com menos, com base nos últimos 20 anos?
Maurício Nogueira -
Em 20 anos, a produtividade aumentou 2,[email protected]/ha/ano, um total de 124% de acréscimo na produtividade (antes era de 1,88/ha/ano). Se produzíssemos o volume atual de carne bovina com a mesma produtividade da década de 1990, teríamos de ter desmatado outros 250 milhões de hectares. Além de evitar esse desmatamento potencial, entregamos 20 milhões de hectares para outras atividades e revegetação. A produtividade média atual é de 4,[email protected]/ha/ano.

Revista AG - Por outro lado, a agricultura cada vez mais deverá fazer parte do dia a dia do pecuarista. Concorda que a integração lavoura-pecuária é o futuro no sistema produtivo da bovinocultura?
Maurício Nogueira -
A integração entre lavoura e pecuária é um grande avanço tecnológico. A integração veio para ficar. No entanto, é fundamental que o setor tenha maturidade para avaliar essa tecnologia. Nem toda a área de pecuária é passível de integração. E nem todo produtor se adaptará a ela. A integração é fantástica, mas não será uma solução para todos os produtores e nem a única alternativa. Produtores que adotam alta tecnologia exclusivamente na atividade pecuária são tão ou mais competitivos que os que possuem os melhores projetos de integração. Por isso, recomenda-se cautela ao dizer que a integração é o único caminho de sucesso para a pecuária. Trata-se de uma inverdade. E também é preciso considerar o outro lado da moeda. A integração é atrativa para o agricultor. Em relação ao pecuarista, ele reúne mais condições e agilidade, justamente por operar há anos em atividades que demandam alto rigor tecnológico.

Revista AG - Já a integração lavoura-pecuária-floresta seria uma dúvida?
Maurício Nogueira -
É o mesmo raciocínio. Claro que não podemos generalizar, mas dentro da realidade da pecuária brasileira, é mais plausível que um pecuarista adapte-se a um sistema silvopastoril do que em um projeto de produção de grãos. Isso pela dinâmica e rotina de ambas as atividades. Agora, sem dúvida que a inserção de mais duas atividades, somando a condução de lavoura e reflorestamento, dentro de uma propriedade pecuária, demandará um rigor gerencial e tecnológico muito superior por parte dos pecuaristas.

Revista AG - Em qual dos ciclos de produção o pecuarista tem investido mais em tecnologia?
Maurício Nogueira -
Na recria e na engorda, tanto na média da pecuária como na amostra do Rally da Pecuária. Isso ocorre porque a recria é a fase que mais responde financeiramente ao aporte tecnológico. A engorda vem em seguida. Durante muitos anos, todo o investimento em fomento e pesquisa foram direcionados à recria e à engorda. A cria ganhou espaço mais recentemente, com a percepção de que a produção de bezerros acabaria por se tornar um gargalo ao crescimento da pecuária.

Revista AG - E essa tecnificação já reflete na produção de carcaça por hectare e na redução da idade de abate?
Maurício Nogueira -
Sim, em pouco mais de 15 anos, o peso médio da carcaça aumentou 1,[email protected] por macho abatido. De 16,[email protected] no final da década de 1990, o boi gordo passou a ser abatido com quase [email protected] na média de 2014. E esse aumento ocorreu com a redução da idade de abate. Apesar de ser difícil precisar com exatidão, estimamos que há 15 anos 30% dos machos eram abatidos com mais de 36 meses. Atualmente, são 7%. Os touros de descarte não entram nessa estatística. Tanto em termos produtivos como ambientais, trata-se de um grande avanço proporcionado pela produtividade.

Revista AG - Confinamento é uma necessidade, posto que a maior parte da carne é produzida em sistema extensivo?
Maurício Nogueira -
O confinamento em si não é o oposto da pecuária extensiva. No Brasil, o confinamento é consequência da intensificação da produção. Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, no Brasil, a terminação em confinamento é usada estrategicamente para corrigir a diferença entre a produção das pastagens nos diferentes períodos do ano. Entre 70% e 80% da produção das pastagens ocorrem no período chuvoso. A essa diferença dá-se o nome de “curva de estacionalidade”. Sempre que aumentar a produtividade no período de chuvas, haverá a necessidade de aumentar a quantidade de animais que terminam em confinamento. E a tendência é que o nível de produtividade aumente ano a ano, tornando a pecuária cada vez mais dependente da terminação em confinamento. Não se trata de uma substituição do sistema a pasto, mas sim de uma ferramenta que permitirá maior produtividade das pastagens.

Revista AG - Um tema atual é a escassez de água em algumas regiões. Qual atividade é mais impactada: agricultura ou pecuária?
Maurício Nogueira -
Há muita desinformação na discussão sobre água na sociedade em geral. O público leigo, formador de opinião, descuida- se com as fontes de dados e acaba embasando opiniões em informações equivocadas oriundas de grupos de interesse. Um exemplo é a recente associação da agropecuária com o problema da crise hídrica. Respondendo a pergunta, ambas as atividades são severamente impactadas pela falta de água. Com relação às chuvas, a agricultura leva desvantagem, pois os efeitos podem ser imediatos, comprometendo proporções significativas da safra. Na pecuária, em que a produção depende da interação entre plantas e animais, uma eventual escassez pode ser diluída ao longo do ano, assim como ocorreu em 2014. A atividade é impactada, mas os riscos são menores. Evidentemente que, dependendo da extensão da seca, nem mesmo essa possibilidade de diluição dos danos ao longo do ano será capaz de aliviar o prejuízo. Entre 2011 e 2012, o Norte de Minas Gerais e grande parte do Nordeste sofreu esse efeito causando, inclusive, a morte de parte do rebanho. A pecuária também depende de água para dessedentação dos animais. Portanto, em algumas regiões de chapada, com poucos veios d’água, a pecuária sofre um aumento de custos para buscar e disponibilizar água aos animais. Na agricultura, esse problema só ocorre no caso de uso da irrigação.

Revista AG - O que o pecuarista pode fazer para enfrentar uma possível falta d’água?
Maurício Nogueira -
Assim como o agricultor, o pecuarista precisa acompanhar as condições do clima, o ritmo de chuvas e as condições das pastagens. Caso o produtor perceba que haverá problemas por falta de água, há a possibilidade de ir planejando a venda de lotes ou alterando a estratégia nutricional do rebanho de forma a compensar a frustração na produção de capim. Evidentemente, adotando essas medidas, seus resultados serão piores ou pela redução de faturamento, antecipando venda de lotes, ou por aumento nos custos com a suplementação. Em ambos os casos, no entanto, ele evita a ocorrência de prejuízo futuro e garante agilidade na recuperação quando o volume de chuvas se regularizar. Agindo assim, dificilmente esse produtor chegará a uma situação tão crítica a ponto de perder o gado pela fome ou sede.

Revista AG - A crise hídrica vai impulsionar ainda mais a subida do rebanho bovino comercial em direção às regiões Norte e Nordeste?
Maurício Nogueira -
Não! A redistribuição do rebanho e a mudança nos rankings regionais seguem outra dinâmica, mais relacionada à competição com outras atividades, preços de terra e disponibilidade de mão de obra. A água não é um driver nesse processo.

Revista AG - A exportação de carne bovina vai decolar por mais um ano? Teremos boi para embarcar?
Maurício Nogueira -
As perspectivas para exportações de carne bovina brasileira são favoráveis no curto e longo prazo. Apesar da frustração nos embarques dos primeiros meses de 2015, resultado de uma soma de fatores que ocorreram simultaneamente e impactaram diversos clientes, ainda esperamos que, no mínimo, repita-se o volume exportado em 2014. A oferta de boi é insuficiente para atender a soma da demanda interna com a externa. Por isso, os preços tendem a se manter em patamares elevados ao longo do ano. Mesmo que recuem para baixo da faixa dos R$ 140,00 por arroba em São Paulo, ainda assim permanecerão melhores que 2013. Se os clientes do setor no mercado internacional voltarem às compras, a tendência é que os frigoríficos se esforcem ao máximo para exportar. Até março, as margens da indústria para atender o mercado interno eram negativas, enquanto a possibilidade de exportar e receber em dólares, com o câmbio valorizado, representava perspectivas boas, compensando as perdas do mercado interno. Como as exportações representam 20% do volume de carne bovina produzida pelo Brasil, é possível responder que sim, teremos boi para embarcar.