O Confinador

 

GESTÃO

Como planejar e executar estratégias no confinamento?

Bruno Andrade*

Recentemente foi publicado pelo Rabobank um artigo em que o sistema de engorda em confinamento contribuirá com aproximadamente 20% da oferta de carne bovina em 2023, saltando de pouco menos de 1 milhão para 2,5 milhões de toneladas. Isso será possível por conta do crescimento do consumo de carne bovina nos países em desenvolvimento, pelo consumo interno brasileiro e pela continuidade do processo de intensificação da pecuária de corte.

Trilhar esse caminho de maior investimento e produtividade requer do pecuarista práticas não habituais à pecuária de corte, como gerenciamento da rotina de trabalho, planejamento das atividades, análise de investimentos, controle de dados, avaliação de resultados, estabelecimento de metas de produção, entre outros conceitos.

Grandes confinamentos já trabalham com esse pensamento. A seguir, veja o exemplo de uma propriedade e algumas práticas adotadas:

Planejamento do confinamento
1. O volume de animais confinados é definido considerando o estoque da propriedade, origem, disponibilidade de animais na região, compras a serem executadas e seu custo e as parcerias (com outros produtores) que serão estabelecidas.

2. Em relação ao orçamento, planejamento nutricional, preços dos alimentos, estratégia de compra de insumos, custo operacional, previsão de receitas com venda de animais, locação de currais e predição do fluxo de caixa compõem a análise realizada para o planejamento das atividades e auxiliam na definição das metas da propriedade e do orçamento.

3. O planejamento passa por revisões periódicas, as redefinições devem ser rápidas e baseadas na constante avaliação do mercado

Controle da rotina no confinamento
1. A meta de produção resultante de um planejamento bem feito será desdobrada em procedimentos operacionais que precisam ser executados, verificados e corrigidos, caso não estejam levando ao objetivo inicial traçado.

2. Para que essa rotina seja bem realizada, os funcionários recebem treinamentos sobre suas funções, diagnósticos são realizados para avaliar o desempenho das atividades, reuniões para debate sobre os problemas e resultados atingidos são periódicas e os problemas identificados são resolvidos.

3. O controle da rotina é facilitado por sistemas de gestão (softwares) e automação dos processos para que as falhas sejam minimizadas e se tenha maior agilidade na tomada de decisão. São exemplos de ações para o controle da rotina: identificação individual dos animais, uso de maquinários para o arraçoamento, softwares de gestão, leitura de cocho, balança digital, entre outros.

4. Auxiliam no controle da rotina o desenvolvimento de metas de desempenho, como ganho médio diário por animal, a quantidade de animais doentes, a taxa de mortalidade, o tempo para formação dos lotes, a eficiência no trato, os acidentes de trabalho, as horas extras, entre outros. Dessa forma, e com a remuneração adequada, se as metas de desempenho forem atingidas, a busca contínua pela melhoria é natural.

Figura 1 - Capacidade instalada, previsão de produção e volume confinado em 2014:

Alguns leitores devem estar comentando para si próprios que boa parte das coisas expostas acima são óbvias. Com certeza são, mas talvez por isso poucas vezes são colocadas em práticas. Em diversos casos, os controles e resultados são concentrados somente na cabeça de uma pessoa. Ela sabe o que tem de ser feito e concorda com o exposto anteriormente, mas acha que dá trabalho tudo isso e quando faz, na primeira dificuldade, distorce a metodologia para se adequar ao seu estilo de trabalho.

Portanto, não são bons controles e gestão apurada que notamos ao observar as fazendas em geral no Brasil. Algumas vezes, nota-se até um investimento interessante em tecnologias para o aumento da produção, porém, não é acompanhada de melhoria na gestão e no planejamento.

Com base nisso, a Assocon entrevistou entre 26 e 30 de janeiro 20 confinamentos para um levantamento que teve como objetivo avaliar se a meta de produção de animais confinados estabelecida no início de 2014 foi realizada integralmente, acima ou abaixo do planejamento.

Foram levantados dados de sete confinamentos de Goiás, cinco no Mato Grosso, quatro em São Paulo e um em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará e Tocantins. As pessoas entrevistadas responderam cinco perguntas, descritas a seguir:

1 – Como se caracteriza o seu confinamento? Produção própria dos animais terminados, compra de animais, boitel, outro tipo de parceria com produtor rural ou mais de uma dessas opções? Quais opções?

2 – Qual a capacidade instalada do confinamento?

3 – Qual era sua previsão de produção de animais no início do ano e em 2014 para todo o ano?

4 – Quantos animais efetivamente foram produzidos em 2014?

5 – Quais seriam as principais causas para o valor realizado em 2014? Originação de animais, de insumos, preço do boi gordo, problemas operacionais, problemas estruturais, custo total da produção ou outros?

Obs.: na pergunta 5, o entrevistado poderia citar até 3 causas.

Resultado
Somente um estabelecimento afirmou confinar apenas animais próprios, os outros 19 disseram realizar no mínimo duas formas de originação de bovinos.

Os 20 confinamentos entrevistados possuem capacidade instalada total para alojar 367.300 animais (18.365 vagas de alojamento/propriedade).

No início de 2014, essas fazendas tinham como meta a produção total de 642.500 animais (32.125 animais por propriedade). Entretanto, ao final de 2014, produziram o volume de 586.654 animais (29.333 animais por propriedade), conforme ilustra a Figura 1.

No Quadro 1, são demonstrados os valores de capacidade instalada, previsão e realizado em 2014 por Estado. É possível inferir que talvez nem todas as microrregiões onde se localizam as propriedades entrevistadas tiveram problemas para cumprir metas de produção. Entretanto, no quadro geral, houve cumprimento de apenas 91% da meta planejada no início da safra de confinamento de 2014 (Figura 2).

Quadro 1 - Capacidade instalada, previsão e realizado em 2014 por Estado:

Figura 2 - Cumprimento da meta de produção de animais em 2014, por Estado e valor final geral:

Do total de 20 entrevistados, oito cumpriram ou foram além da meta de produção. Dos 12 confinamentos restantes, dez relataram em primeiro lugar problemas para originar animais para a engorda, preços muito altos ou em menor escala e disponibilidade de volume de animais próximos ao confinamento. Outros 2 confinamentos relataram problemas estruturais e falta de capacidade produtiva.

Originação de insumos para a nutrição não foi citada por nenhum dos entrevistados como fator negativo para a produção de menos animais. Ao contrário, foi citada como fator de contribuição para a maior produção de bovinos em três confinamentos (dos oito que cumpriram ou foram além de suas metas). As causas individuais e algumas de suas justificativas seguem descritas nos Quadros 2 e 3.

Quadro 2 - Causas elencadas pelos entrevistados para explicar o cumprimento ou não da meta:

Bruno Andrade esclarece que o planejamento não é um documento estático, necessita de revisões periódicas

Em geral, os confinamentos entrevistados foram afetados pelas oscilações de preço do animal de reposição (garrote e boi magro), entretanto, a precificação do boi gordo não foi citada como problema à produção em nenhum dos casos.

Quadro 3 - Justificativa e explicação do termo “outros”:

Outra importante consideração é que alguns confinamentos disseram que mantiveram os animais por um tempo maior no confinamento do que o tecnicamente recomendado, para comercializar um animal mais pesado e com um custo adicional não muito significativo, dadas as condições regionais de mercado para compra de alguns grãos e farelos.

Gestão é primordial para atingir bons resultados econômicos

Somente dois confinamentos justificaram seus resultados a partir de um planejamento prévio definido, o que pode indicar a falta de uso de um planejamento estratégico pelos demais confinamentos. Apenas a definição de um número como meta de produção pode não ser suficiente, considerando a volatilidade do mercado em determinados períodos do ano e de acordo com o ciclo pecuário.

Assim, a estratégia deve ser traduzida em planos e projetos bem específicos, que necessitem definir os objetivos de forma quantitativa, como será atingido, as ações que precisam ser executadas, quais os recursos necessários, obstáculos, responsabilidades, prazos e o retorno esperado. Além disso, o planejamento não é um documento estático, necessita de revisões periódicas para se adequar às mudanças mercadológicas.

*Bruno de Jesus Andrade é zootecnista e diretor-executivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon)


Neste mês, tem Escola de Confinamento

A Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) definiu o cronograma e a programação da Escola de Confinamento Assocon 2015, que acontecerá em cidades de Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Rondônia, Pará e São Paulo. O objetivo da Escola de Confinamento é capacitar peões, capatazes, gerentes e colaboradores que trabalham em confinamento e fazendas de engorda de gado, mantendo assim uma constante atualização. Os cursos terão os seguintes temas: Manejo de pastagens, nutrição de bovinos confinados, reprodução animal, produção de bezerros, sanidade, gestão e risco comercial, estrutura de confinamento, produção de silagem e manejo racional. O curso também inclui visitas em unidades de confinamento. Cerca de 900 funcionários já foram capacitados pela Escola de Confinamento, desde 2010. O próximo será na cidade de Rondonópolis, no Mato Grosso, de 25 a 27 de março. O investimento é de R$ 120,00 por pessoa. Inscrições podem ser feitas pelo telefone (62) 3432-0395.