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FISIOLOGIA ANIMAL

Em fêmeas de corte, a idade à puberdade é um dos fatores que determina a duração da vida reprodutiva

Dimas C. Rocha*

Na exploração da pecuária de corte, as novilhas de reposição do rebanho de cria constituem uma categoria fundamental. Para a substituição das vacas a serem descartadas (por idade ou improdutivas), elas devem entrar no rebanho de forma eficiente e, preferencialmente, trazendo ganhos genéticos na população.

A idade à puberdade de novilhas é influenciada por diversos fatores: raça, genética, nutrição, peso corporal, composição corporal, crescimento ósseo, velocidade de ganho de peso, manejo e meio ambiente.

Diferentes métodos de manejo, de alimentação, melhoramento genético ou mesmo de biotécnicas da reprodução vêm sendo estudados no sentido de maximizar a eficiência reprodutiva e produtiva da novilha de corte.

Este artigo busca revisar os aspectos envolvidos na fisiologia da reprodução e melhoramento genético, em especial fazendo um paralelo entre Bos taurus (raças europeias) e Bos indicus (zebuínos).

Importância econômica
Em fêmeas de corte, a idade à puberdade é um dos fatores que determina a duração da vida reprodutiva. A antecipação da mesma, com a ampliação do período reprodutivo, eleva a produtividade.

Acasalar novilhas em idades mais precoces conduz a um retorno mais rápido do investimento, ao aumento da vida reprodutiva da vaca e à menor relação entre reposição e reprodução, com uma diminuição da quantidade de fêmeas em recria.

A necessária evolução de nossos sistemas pecuários, com a redução da idade ao primeiro serviço das novilhas com elevadas taxas de prenhez, igualmente quando primíparas, é fator preponderante para a manutenção da viabilidade econômica.

Segundo Dimas Rocha, as novilhas são a categoria animal mais importante e a menos valorizada

Fisiologia
A puberdade pode ser definida como período compreendido entre a fase infantil e adulta. Caracteriza-se por ciclos irregulares, falhas na ovulação e ovulações sem exteriorização de cios. Somente após a maturidade sexual é que esses períodos tornam-se regulares. A primeira ovulação forma um corpo lúteo (CL) de curta duração. Essa compreensão é de fundamental importância para selecionar animais para o início da vida reprodutiva.

Diversos estudos têm demonstrado idade avançada à puberdade nos animais zebuínos, em torno de 25 a 28 meses de idade, sendo maior em comparação aos taurinos (12 a 14 meses de idade, quando criados em condições de trópicos), contudo, mesmo os taurinos também se apresentam tardios com relação às raças taurinas criadas nas condições de clima temperado (8 a 10 meses de idade).

A idade média na puberdade de novilhas submetidas a níveis nutricionais recomendados é de 10 a 12 meses em raças leiteiras e de 11 a 15 meses em raças de corte europeias. As novilhas zebuínas alcançam a puberdade entre 18 e 24 meses de idade.

Idade e peso à puberdade de vários grupos raciais de novilhas

Fonte: Cundiff et al., 1993; Gregory et al., 1993 (adaptado) apud Barcellos, 2003b

A tabela nos permite visualizar claramente que a puberdade não é somente limitada por peso, mas também por idade, havendo variações superiores a 100 dias entre as raças. Em geral, as novilhas zebuínas atingem a puberdade mais tarde que as novilhas taurinas. Mesmo novilhas cruzadas (B. taurus x B. indicus) apresentam puberdade com mais idade e peso que novilhas taurinas.

A idade à puberdade em novilhas e o peso adulto dependem do frame (ou porte) e da condição alimentar. Em animais grandes, a puberdade apresenta-se em idades e pesos mais avançados do que em pequenos, além disso, a diferença de idade aumenta sensivelmente se o plano nutricional das novilhas de maior frame não for adequado.

O frame, definido por alguns pesquisadores como estrutura corporal, é obtido a partir da medição da altura da garupa em uma idade particular e está correlacionado com a taxa de crescimento do animal.

Existe uma correlação alta (0,65) entre a idade à puberdade e a altura na garupa. Em uma avaliação de novilhas Brahman, as mais altas, aos 18 meses, foram mais tardias no aparecimento da puberdade.

Estudos mostram uma associação genética positiva entre a circunferência escrotal nos touros e a idade à puberdade das novilhas suas filhas. A seleção de reprodutores em função da circunferência escrotal aos 18 meses pode ser uma alternativa no sentido de diminuir a idade à puberdade em novilhas zebuínas.

Existem diferenças entre taurinos e zebuínos em relação à duração do estro (cio), número de ondas foliculares, recrutamento de folículos, tamanho do CL e níveis circulantes de estradiol e progesterona.

A duração da gestação em zebuínos (292 dias) é mais longa que a de Bos taurus (282 dias). Portanto, para obtenção de intervalo entre partos de 12 meses, o período de serviço (intervalo parto/ concepção) em Bos indicus deve ser dez dias inferior ao de Bos taurus, para que a eficiência reprodutiva seja semelhante.

Atualmente, já conseguimos entender melhor os grupos raciais e já utilizamos em larga escala a reprodução assistida (via principal – IATF) como ferramenta para incrementar o cruzamento entre Bos indicus e Bos taurus.

A fêmea F1 (meio-sangue) possui alto potencial reprodutivo e produtivo. Assim sendo, devemos selecionar animais (Bos indicus e Bos taurus) com critérios técnicos para obter um produto cruzado equilibrado e eficiente.

Melhoramento animal

PRECOCIDADE
A precocidade é maior nos animais Bos taurus. Mesmo assim, essa característica segue sendo considerada nos programas de melhoramento genético de raças como Angus e Hereford. Principalmente, utilizando a característica de Circunferência Escrotal (CE). Já no Bos indicus, nos últimos anos, essa qualidade vem sendo trabalhada de forma mais intensiva na tentativa de ser melhorada. Trabalhos com marcadores moleculares, linhagens determinadas, CE, DEPs e idade ao primeiro parto são usados na busca de animais mais precoces. Até mesmo a expressão “Nelore Precoce” passou a ser usada para diferenciar e valorizar rebanhos dedicados a esse tipo de seleção.

Fêmeas taurinas podem chegar à puberdade entre 8 e 10 meses

FRAME
Quando abordamos a característica frame, logo pensamos em tamanho, biótipo e exigências nutricionais. Essa é uma característica relativamente fácil de ser trabalhada, pois possui alta herdabilidade.

Se fossemos estabelecer um modelo animal para trabalhar, de pronto, iríamos deixar de lado os extremos. Para Bos taurus, devemos buscar animais com alto potencial de ganho de peso (frames entre 5-6), entretanto, sem perder precocidade (facilidade de engorda e sexual). No Bos indicus, programas que consideram avaliação visual vêm trabalhando para moderar os frames da população, acreditando que animais mais moderados podem rapidamente responder com melhor precocidade.

Para produção de fêmeas F1, dependendo do tipo de sistema de produção, podemos planejar quais linhagens utilizar para que estas sejam capazes de atender a necessidade de cada sistema (abate ou utilização como matriz).

ADAPTAÇÃO
Atualmente uma característica que vem sendo estudada com maior ênfase é a capacidade do animal em tolerar o calor. Com menor estresse térmico, o animal é mais produtivo. No Bos indicus e Bos indicus x Bos taurus são características menos trabalhadas, pois naturalmente são muito adaptados. No caso do Bos taurus é uma das principais caraterísticas a serem trabalhadas junto com a resistência a ectoparasitas.

Não restam dúvidas de que existem diferenças fisiológicas e genéticas muito grandes entre taurinos e zebuínos. Os genes de precocidade dos taurinos (especialmente das raças britânicas) vêm contribuindo muito para o aumento de produtividade de rebanhos zebuínos, através do cruzamento taurino x zebuíno e em menor escala no uso de fêmeas F1 altamente precoces e maternais. Os diversos trabalhos para seleção de animais zebuínos mais precoces têm sido exitosos, mas a grande população de animais zebuínos da pecuária brasileira ainda desempenham conforme a média esperada para o grupo racial.

*Dimas Rocha é médicoveterinário, doutor em Reprodução Animal pela UFRGS e sócioproprietário da Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

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