Caprinovinocultura

 

Genética para produzir mais leite

Trabalho com rebanhos caprinos cria ferramentas para auxiliar o produtor a investir no mercado

Denise Saueressig - [email protected]

Resultado de um trabalho iniciado em 2004, a publicação do 1º Sumário de Avaliação Genética de Caprinos Leiteiros pretende ajudar a impulsionar a cadeia produtiva no País. A origem do projeto é o Programa de Melhoramento Genético de Caprinos Leiteiros (Capragene), uma iniciativa da Embrapa, em parceria com a Associação Brasileira dos Criadores de Caprinos (ABCC), com o objetivo de implantar testes de progênie entre o rebanho nacional.

A doutora em Genética e Melhoramento Animal Ana Maria Lôbo, pesquisadora da Embrapa Caprinos e Ovinos, lembra que a finalidade de um teste de progênie é identificar reprodutores com mérito genético superior para produção de leite, de proteína, de gordura e outras características de importância econômica. “Reprodutores identificados são utilizados pelos produtores de leite e pelas centrais de inseminação artificial como pais de futuras matrizes e reprodutores”, detalha.

Para avaliar os reprodutores, foi preciso estabelecer o controle leiteiro oficial das fêmeas dos rebanhos, trabalho que foi implantado em 2006 entre a Embrapa e a Associação dos Criadores de Caprinos e Ovinos de Minas Gerais (Accomig/Caprileite), que é a coordenadora do controle leiteiro oficial. “Dessa forma, foi possível criar o arquivo zootécnico de pedigree e produção e a divulgação dos resultados por meio do sumário. O objetivo do documento é divulgar os animais que devem ser selecionados, justamente porque os mesmos têm capacidade de transmitir os bons caracteres”, explica Ana Maria.

A implantação dos testes de progênie já trouxe resultados positivos para a cadeia leiteira caprina. Antes da implantação do Capragene, a tendência genética era negativa e mostrava redução de 1,61 quilo/ano na produção de leite até 305 dias de lactação dos rebanhos participantes. “Isso provavelmente ocorreu em virtude da ausência de informações seguras e objetividade na seleção dos animais, com o uso de indivíduos importados e, assim, uma possível interação genótipo x ambiente. Essa interação significa que o valor genético dos animais depende do ambiente em que eles são criados, de forma que nem sempre o melhor animal, testado em outro país, será o melhor também para o Brasil”, observa a pesquisadora.

Ana Maria Lobo lembra que a finalidade de um teste de progênie é identificar reprodutores com mérito genético superior

Depois da implantação do programa, o ganho genético médio anual tem sido de 4,54 quilos/ano. “Esperamos que, além dos participantes do programa, outros criadores, principalmente os comerciais de todo o País, tenham acesso ao material genético superior por meio da aquisição de sêmen desses animais”, acrescenta Ana Maria.

Para ter acesso ao sumário ou participar do Capragene, os produtores interessados devem procurar a Embrapa Caprinos ou a Accomig/Caprileite. Atualmente, em torno de 20 rebanhos integram o projeto, que traz como benefícios as avaliações quantitativa e qualitativa do leite, relatórios sobre a produção e a qualidade do leite de cada animal, a valorização comercial dos animais e a orientação no processo de seleção. A partir das ações do Capragene, a Região Sudeste conta hoje com uma relação de mais de 50 mil controles individuais de animais.

Perfil produtivo

A caprinocultura leiteira é uma atividade relativamente nova no País, com registros entre 40 e 50 anos. O volume de produção estimado pelo IBGE é de 35 milhões de litros de leite ao ano. Entre os rebanhos, as raças de destaque são Saanen, Parda Alpina, Anglo Nubiana, Toggenburg e Alpina Britânica.

O Brasil tem diferenças bastante significativas entre os polos produtivos de leite de cabra. No Nordeste, a cadeia é sustentada pelo projeto governamental PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), em que o leite de pequenos produtores é adquirido, pasteurizado em laticínios cadastrados e transportado para pontos de distribuição para pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional. “Cada estado ou município tem autonomia no estabelecimento do preço pago ao produtor, com variação de R$ 1,30 a R$ 1,85 por litro de leite. No entanto, o Governo estabelece uma cota de recurso destinado ao pagamento ao produtor de R$ 4.500 por semestre. Ao mesmo tempo, os laticínios cadastrados recebem R$ 0,70 por litro para beneficiar e distribuir”, informa o veterinário Leandro Oliveira, analista da Embrapa Caprinos e Ovinos. Na região, os estados que se destacam no segmento são Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia e Ceará.

No Sudeste e no Sul, a cadeia é alicerçada em um mercado aberto e com destaque para a diversificação de produtos ofertados, como leite UHT, leite em pó, iogurte, queijos e até cosméticos fabricados a partir do leite de cabra. Os principais produtores são Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. O preço médio pago ao produtor é de R$ 1,74 o litro. “Há na Região Sudeste e no Rio Grande do Sul, laticínios que fazem o beneficiamento do leite com distribuição em várias regiões do País. Alguns realizam a verticalização de todo o processo produtivo, desde a produção da matéria-prima, até o beneficiamento e distribuição”, relata Oliveira.

Para crescer, a atividade precisa trabalhar questões importantes como sanidade, nutrição, reprodução, melhoramento genético e custos. Ações em direção ao mercado também precisam ser desenvolvidas, já que o consumo ainda é retraído pela falta do hábito entre a população e pelo custo elevado dos produtos.

Depois da implantação do programa, o ganho genético médio anual tem sido de 4,54 quilos de leite por ano