Leite

 

SOMATOTROPINA

Mitos e verdades

Rodrigo de Almeida*

A somatotropina bovina (bST) está prestes a completar 25 anos de presença no mercado brasileiro e, apesar desse longo tempo de convívio com produtores e técnicos nacionais, ainda há muitas controvérsias que cercam sua utilização em rebanhos leiteiros. O objetivo deste artigo é tentar elucidar algumas dessas dúvidas, com o propósito de auxiliar produtores a usar com eficácia essa ferramenta de manejo.

Na consultoria de rebanhos leiteiros especializados paranaenses, particularmente nas bacias leiteiras da Região Centro-Oriental do estado, região conhecida como Campos Gerais, percebo que há três tipos de rebanhos quanto à adoção de bST. Uma parte relata absolutamente não usar, mesmo reconhecendo o incremento de produção que poderia ser alcançado, por temerem uma piora nos índices reprodutivos, um suposto comprometimento da qualidade do leite e/ou uma menor vida útil das suas vacas.

Um segundo grupo de produtores usa bST, mas modestamente, com intensidades que variam entre 10 e 30% dos animais em lactação. Este grupo obviamente está interessado no incremento de produção que será alcançado, mas mais importante, usam bST como ferramenta de manejo, evitando que as vacas ganhem escore de condição corporal (ECC) em demasia e não permitindo que alcancem o período seco muito gordas. E, finalmente, o terceiro grupo, que usa de forma mais agressiva, com intensidades entre 70 e 75% das vacas em lactação. Estas fazendas começam a aplicação com 60 dias de parida e estendem essa suplementação até poucas semanas antes da secagem.

De início, pelo menos na minha modesta opinião, não há mais dúvidas que essa molécula funciona. Trabalhos clássicos sobre o assunto relatam incrementos de produção de 3 a 5 litros de leite diários. Em uma recente revisão sobre o assunto (St-Pierre et al., 2014), a qual usou 26 estudos em revistas científicas com reconhecido corpo editorial, a produção em vacas suplementadas com bST aumentou exatos 4 litros diários em comparação com vacas do grupo controle (não tratadas), produzindo 27,2 kg/dia.

Muitos produtores, mesmo reconhecendo o aumento da produção de leite oriundo da administração de bST, temem que a composição do leite seja comprometida, com reduções nos teores de gordura e proteína do leite. Essa preocupação é particularmente relevante para produtores que comercializem leite para laticínios e cooperativas que passaram a adotar sistemas de pagamento de leite por qualidade, nos quais o litro de leite com altos teores de gordura e proteína é bonificado.

Segundo dezenas de trabalhos científicos publicados sobre o assunto, não há razão para os produtores deixarem de usar bST por receio desse suposto sacrifício na produção de sólidos. Segundo St-Pierre e coautores (2014), vacas suplementadas com bST aumentaram a produção de leite e, concomitantemente, a produção de sólidos do leite (+0,144 kg/dia de gordura e +0,137 kg/dia de proteína), sem alterações significativas nos teores de gordura e de proteína no leite.

Saúde de úbere e mastite
Outro mito recorrente acerca do uso de somatotropina bovina é a crença que vacas leiteiras tratadas com bST têm maior incidência de mastite clínica e produzem leite com maiores contagens de células somáticas (CCS). De certo modo, essas impressões ainda hoje frequentes refletem a opinião de alguns poucos trabalhos científicos publicados 20-25 anos atrás, que previram erroneamente consequências catastróficas para vacas leiteiras suplementadas com bST. Hoje se acredita que mais de 35 milhões de vacas leiteiras tenham sido tratadas somente nos Estados Unidos e claramente nenhum desastre foi observado.

Voltando ao tópico saúde de úbere e mastite, curiosamente somente um único trabalho até hoje (Judge et al., 1997) levou em consideração o status de infecção intramamária (IM) das vacas, para assegurar uma similar distribuição de vacas com e sem infecções IM nos tratamentos com e sem administração do suplemento. Esse estudo foi conduzido em quatro rebanhos free-stall bem manejados e envolveram 284 vacas tratadas com bST e 271 vacas controle. Nesse estudo, nenhuma diferença significativa foi encontrada para número de vacas que desenvolveram mastite clínica, número de dias que o leite foi descartado ou de vacas descartadas por conta disto, apesar do fato de que vacas tratadas com bST produziram, em média, 2,9 kg/dia mais leite que as não tratadas.

Reprodução
A preocupação com um possível detrimento do desempenho reprodutivo é certamente a mais importante barreira para uma maior adoção de bST. Muitos ainda acreditam que há uma correlação negativa entre produção e desempenho reprodutivo e com o já bem demonstrado incremento da produção de leite advindo de sua administração, o comprometimento da reprodução seria quase que "um preço a se pagar" pelos litros extras de leite.

Segundo o prof. Rodrigo de Almeida, as vacas tratadas com bST utilizam mais eficientemente os alimentos

Na meta-análise de St-Pierre et al. (2014), vacas leiteiras tratadas apresentaram taxa de concepção 5,5% inferior às vacas do grupo controle durante um período de resposta estendido. Mas, por outro lado, a taxa de prenhez foi 5,4% superior, durante um período de resposta limitado. A queda no desempenho reprodutivo durante um período de resposta estendido é provavelmente devido ao comportamento de estro diminuído em vacas tratadas com bST. E isso provavelmente ocorre por causa da maior taxa de metabolização dos hormônios estradiol e progesterona, o que acaba, por sua vez, reduzindo o comportamento de cio.

Apesar dessa revisão citada logo acima praticamente não ter indicado nenhum comprometimento reprodutivo com a administração de bST, salientamos que, em maiores dosagens ou em aplicações mais frequentes de bST, o cenário pode mudar e algumas consequências deletérias podem passar a ser observadas.

Condição corporal
No estudo de especialistas canadenses, o escore de condição corporal (ECC) médio das vacas tratadas com bST ao final do período experimental foi 0,22 ponto inferior em relação às vacas do grupo controle. Já a revisão mais recente de autores norte-americanos estimou uma perda média de 0,06 ponto de ECC.

Os últimos autores enfatizaram que, embora essa diferença seja significativa, ela é de pouca relevância prática. Assumindo que um ponto de ECC (usando a escala de 1 a 5 pontos) é equivalente a aproximadamente 50 kg de peso corporal, a diferença significativa de 0,06 ponto seria equivalente a apenas 3 kg, um valor menor que a acurácia de boa parte das balanças usadas em fazendas ou ainda menor que a mudança típica observada no peso corporal de uma vaca após um único episódio de ida ao cocho ou ao bebedouro.

Reconheço que vacas precocemente administradas com bST (< 35 dias em leite) ou vacas suplementadas com maiores dosagens ou ainda vacas com maior frequência (por exemplo, a cada 10 ou 12 dias ao invés dos 14 dias preconizados) podem apresentar um decréscimo no ECC numericamente maior.

Pernas e pés
Na revisão de St-Pierre et al. (2014), as taxas de incidência de vacas com problemas podais ou lesões de casco não diferiram significativamente entre os tratamentos. Esse resultado é particularmente relevante em rebanhos confinados, pois resultados do nosso grupo de pesquisa determinaram que problemas de pernas e pés é a terceira mais frequente causa de descarte de vacas em rebanhos leiteiros.

Descarte
Resultados da meta-análise de St- -Pierre et al. (2014) indicaram que as taxas de descarte entre vacas que foram ou não tratadas com bST não diferiram significativamente. Dos seis estudos avaliados que entraram nesta seção da meta-análise, a taxa de descarte foi numericamente superior nas vacas suplementadas com bST em quatro estudos, mas inferior em dois outros estudos.

Quando aplicar?
Há um conceito antigo e conservador entre alguns técnicos e produtores que deveríamos aguardar a vaca reemprenhar antes de iniciar as aplicações de bST. Isso representa uma grande perda de oportunidade! A indicação é iniciar as aplicações de bST ao redor do 60º dia de lactação, pois nesse estágio a vaca já voltou a apresentar balanço energético positivo, ou seja, parou de perder peso.

Reconheço, por outro lado, que iniciar as aplicações antes disso (< 60 dias em leite) é contraproducente porque: 1) a concentração endógena de bST nesse período já é suficientemente alta; 2) o ECC já é naturalmente baixo nesse momento; 3) o incremento produtivo é menor; 4) não há aumento correspondente de consumo; 5) consequentemente, a perda de peso ou de ECC é agravada; e 6) isso pode trazer maiores desafios à reconcepção.

Cenário no Paraná
Na tabela acima tento reproduzir um cenário usual de administração de bST em um rebanho leiteiro de boa produção de leite e que passa a aplicar obviamente acompanhado de uma readequação do manejo e reformulação das dietas.

Notem que, apesar do incremento de 4 litros diários (ou 14,3%), não há decréscimo na composição do leite, já que, a princípio, esse rebanho é bem manejado e a dieta foi reformulada. Percebam também que nos primeiros 3º-5º ciclos de aplicação de bST (cada ciclo de 14 dias) não há um aumento imediato e correspondente no consumo alimentar; nesse caso, a ingestão aumenta somente +1,3 kg/dia ou 6,5%. Por isso, há um aumento na eficiência alimentar desses animais de 0,11 unidades (de 1,36 para 1,47 kg de leite por kg de MS ingerida) ou 8,0%. Após o 3º-5º ciclo de aplicação de bST, aí sim há um aumento no consumo de MS correspondente ao aumento na produção, e desse momento em diante, a vaca tratada com bST não perde mais peso ou ECC. Por isso, penso que não é muito efetivo usar bST muito tardiamente na lactação, com o propósito de emagrecer, porque os incrementos na produção e no consumo serão equivalentes e pouco ECC será perdido.

Conclusões
Um ponto-chave no sucesso da adoção dessa ferramenta de manejo é reconhecermos que a somatotropina não é uma "pílula mágica". Deve ser enfatizado que a vaca precisa ser manejada e alimentada como qualquer outra de mais alta produção. Por exemplo, se temos um grupo de vacas com produção média de 28 litros diários e com a administração de bST a produção salta para 32 litros diários, as vacas precisam ser tratadas, manejadas e alimentadas para o novo patamar de produção. Muitos produtores e técnicos que relatam insucesso com a adoção do bST simplesmente continuaram a tratar e alimentar suas vacas para o patamar antigo e aí, nesse caso, concordo que não funciona!

Como qualquer tecnologia ou prática de manejo que aumenta a produção de leite (3 ordenhas diárias, manipulação do fotoperíodo, adoção da dieta total ou TMR, etc.), a suplementação com bST diminui a proporção do alimento que é gasta com a mantença. E como resultado, vacas tratadas com bST utilizam mais eficientemente os alimentos.

*Rodrigo de Almeida é Professor Associado do Departamento de Zootecnia Universidade Federal do Paraná - [email protected]