Caindo na Braquiária

 

Mocho Guaporé – o Zebu para o Brasil

Já no firme aperto de mão e pela aura positiva, percebi que meu dia seria muito proveitoso na companhia de Luiz Gonzaga, o pai e criador do Mocho Guaporé, raça composta que possui em seu tipo sanguíneo ao redor de 94% de raças zebuínas, mantendo uma pitada de taurinos na composição racial.

Esse audacioso projeto de cruzamento teve início em 1974, utilizando a base das matrizes de Geraldo do Norte, pai de seu grande amigo e um genuíno pesquisador da região de Carlos Chagas, em Minas Gerais, Armando Leal do Norte.

Antes mesmo de rumarmos para a Fazenda Gargatano, localizada perto de Cuiabá, Luiz nos elucidou a respeito do uso das raças no projeto desde seu começo, onde a partida foi dada através da inseminação das vacas cruzadas Chianina x Tabapuã ou Limousin x Nelore. A base teórica do melhoramento genético regeu a definição das raças a serem utilizadas na busca por animais ganhadores de peso, mais férteis, precoces e com boa habilidade materna.

Definidos os objetivos e critérios de seleção, os amigos Armando e Luiz lançaram mão do uso de Tabapuã nos animais menos leiteiros e usaram sêmen de Nelore nas matrizes com melhores úberes, havendo, em 1988, uma divisão de objetivos dos amigos.

Nesse momento, Armando do Norte definiu-se por criar um composto batizado de Red Norte, emprenhando as vacas chamadas Tabanel com sêmen de Red Angus, levando essas cruzas a serem enxertadas com genética de touros Santa Gertrudis, que, por sua vez, já seriam chamadas de Red Norte, havendo ainda a introdução da raça Senepol sobre essas matrizes com sangue de Santa Gertrudis.

Luiz Gonzaga preferiu seguir seu programa de melhoramento, criando uma raça composta que usasse a mesma base genética, mas que teria em sua composição racial quase que totalmente sangue de raças zebuínas. Dessa forma, no mesmo ano de 1988, Luiz transportou 400 vacas do projeto inicial para sua fazenda localizada no Vale do Guaporé/MT, região que serviu de inspiração para o nome da raça criada por aquelas bandas.

Como o criador buscava um modelo de bovino com fenótipo produtivo e matrizes eficientes, definiu-se que seu composto deveria ter uma relação de 60:40 entre profundidade corporal e pernas, na qual os reprodutores deveriam ter ótima circunferência escrotal e ganho em peso, bem como as matrizes Mocho Guaporé deveriam primar pela precocidade sexual e habilidade materna para se tornarem o zebu ideal para o Brasil.

Dessa maneira, escolheu-se também a raça Brahman para fazer parte desse composto zebuíno, a fim de introduzir-se carcaça, ossatura e musculosidade, alternando-a com a raça Nelore, com o objetivo de se produzir animais com mais fertilidade e melhores rendimentos de carcaça, em que o mesmo mantém núcleos dos tipos raciais separados, mantendo um grupo Nelore, outro de Brahman, sempre acasalando de tal forma a manter o maior grau de vigor híbrido possível nos produtos.

Após sua diatribe, Luiz nos conduziu até a Fazenda Gargatano, onde se encontra seu rebanho de matrizes Mocho Guaporé para conhecermos in loco seu criatório, podendo apresentar touros e matrizes dos diversos grupamentos raciais e, sobretudo, os bezerros de alguns já consagrados e consistentes touros Mocho Guaporé. Um exemplo desse trabalho é o jovem touro nomeado de Bombado, que com dez meses de idade pesou 455 kg, tendo 36 cm de CE. Bombado, para surpresa do próprio Luiz e do veterinário que coletou sêmen dele, somente a título de curiosidade, produziu sêmen de qualidade nessa tenra idade, demonstrando excepcional precocidade sexual.

O que vimos no Mocho Guaporé seria o modelo de Zebu para o Brasil de pecuária avançada, bastando algumas gerações à frente para que a raça transmita à maioria de sua descendência as características buscadas por todos os criadores brasileiros no zebu moderno; carcaça de qualidade, ganho em peso, precocidade sexual, habilidade materna, peitos de tamanho moderado, úberes bem conformados e sem exagero de leite, profundidade corporal, musculosidade bem distribuída e ótimo rendimento de carcaça, sendo, a meu ver, uma raça que pode colaborar demais na reposição de matrizes de qualidade no rebanho nacional, para que as mesmas sirvam de base para o cruzamento industrial, a fim de produzirmos o boi eficiente desejado pelos criadores e a carne macia tão almejada pelos consumidores.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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