O Confinador

 

BEM-ESTAR ANIMAL

é uma obrigação e ainda aumenta a produtividade

Fernanda Macitelli Benez*

O tema tem se tornado bastante evidente quando se discute a criação intensiva de animais de produção, e pode ser tratado de diferentes maneiras. Produtores e a indústria vêm se conscientizando que essa ciência tem efeito direto na produção e na qualidade do produto.

A Organização Mundial para Saúde Animal (OIE) alerta que "bem-estar animal significa como um animal está respondendo às condições em que vive. Ele é considerado em bom estado de bem-estar se (com comprovação científica) estiver saudável, confortável, bem nutrido, seguro, capaz de expressar seu comportamento natural, e se não estiver sofrendo com dores, medo e angústias. Requer prevenção contra doenças e tratamento veterinário, abrigo adequado, gerenciamento, nutrição, manejo cuidadoso e abate humanitário".

Em situações extremas, os animais tentam se livrar da fonte de estresse, quando não conseguem, os hormônios responsáveis por alterações fisiológicas e comportamentais afetam diretamente a produção deles. E vários são os fatores ligados ao manejo.

Espaço
Talvez seja um dos fatores mais importantes, afinal, quando existe restrição, há limitação para exercer as preferências. Realizamos um estudo para avaliar o efeito do espaço disponível no desempenho, comportamento e ambiente. Foram testadas as densidades de 6m², 12m² e 24m²/ animal, sendo que todos os tratamentos possuíram três repetições e todos os lotes apresentavam 150 animais e igual disponibilidade de cocho.

Os resultados iniciais revelam que os animais que dispunham de maior espaço apresentaram menor frequência de tentativa de monta e brigas. Quanto ao desempenho, o ganho de peso médio foi 15% superior nos bovinos mantidos em currais com área de 24m²/indivíduo em relação aos demais.

Outros aspectos importantes avaliados foram os efeitos secundários causados pelo uso de diferentes espaçamentos, como a presença de poeira e de lama nos currais, e seus efeitos negativos na saúde dos animais (Tabela 1). De modo geral, a poeira esteve presente em todo o estabelecimento antes do início do período chuvoso, mas nos currais com densidade de 6m² foi onde ela se originou em maior quantidade.

As figura ilustram a deriva da poeira devido ao vento nos meses de agosto e setembro (1), a condição do terreno nas áreas próximas aos bebedouros nos currais com 6m²/animal (2), assim como as condições de higiene (3) dos animais entre os meses de outubro e novembro.

Animais mantidos em condições como as apresentadas realizam grande esforço na tentativa de se adaptarem ao ambiente. Acarreta em alto gasto energético, além de poder causar danos aos músculos e alterar o funcionamento normal de órgãos como coração, fígado e rins.

Existem alguns produtores brasileiros, principalmente em regiões com maiores períodos de chuvas, que estão trabalhando com densidade de 40 a 100m²/animal e observaram menores custos com a manutenção dos currais (cercas, cascalho, etc.), ocorrendo, inclusive, rebrota de capim.

Conforto térmico
De maneira geral, todos os mamíferos apresentam uma faixa de temperatura, chamada de zona de conforto térmico, na qual o esforço para manter a temperatura corporal é mínimo. Pode-se afirmar que animais mantidos em temperaturas acima ou abaixo da zona de conforto encontram-se em estresse por calor ou frio, respectivamente.

Nessas condições, os animais acionam mecanismos adaptativos que implicam diretamente em mudanças no comportamento, taxa metabólica, temperatura corporal, frequência respiratória e cardíaca, alterações hormonais e metabólitos sanguíneos.

Diversos estudos revelam que a densidade de glândulas sudoríparas é maior em zebuínos do que em taurinos. Esse fato é uma das evidências que há diferença entre as raças quanto à adaptabilidade ao calor, mas não justifica afirmar que zebuínos não sofrem estresse térmico.

A maioria dos bovinos de corte submetidos a sistemas de criação intensivos no Brasil apresentam problemas de estresse por calor, pois a presença de recursos que auxiliam a perda de calor, como sombra, é escassa, além de serem alimentados com dietas de alto valor energético, que contribui para aumentar a taxa metabólica, e consequentemente, a produção de calor interno.

Estudos evidenciam o efeito negativo do estresse por calor sobre o comportamento alimentar, afirmando haver redução do número de refeições diárias, da duração das mesmas e do consumo de matéria seca. Em temperaturas acima de 35ºC, o consumo pode reduzir entre 10 e 35%.

Estudos como o realizado com novilhas confinadas durante o verão no Oeste do Texas evidenciaram que o uso de sombreamento, associado ou não à aspersão, além de proporcionar melhoria no ganho de peso diário, qualidade de carcaça, e bem-estar dos animais (avaliado pela redução da taxa respiratória e a diminuição de comportamentos sociais negativos como montas e brigas), apresentaram melhor retorno econômico. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos brasileiros, em que animais com acesso à sombra mantidos confinados, semiconfinados ou em pastagem apresentaram ganho de peso médio diário adicional superior a 100g/dia, além de menor permanência no cocho.

Alguns pesquisadores sugerem que animais confinados sem acesso à sombra requerem em torno de quatro a cinco dias adicionais para alcançarem o peso vivo final semelhantes aos animais com acesso a ela.

Destaca-se que a sombra deve ser dimensionada de modo que abrigue, de forma confortável, todos os animais ao mesmo tempo, permitindo que os mesmos deitem e se movimentem.

Animais sob sombrite – Confinamento MT9, Rondonópolis/MT

O aspersor também pode ser um instrumento que auxilia na perda de calor e controle da poeira, mas para ser eficaz a instalação deve ser bem projetada como: capacidade do reservatório de água e limpeza da mesma para não entupir os bicos, capacidade da bomba, diâmetro dos canos e posicionamento dentro do curral. A finalidade dessa ferramenta pode não ser contemplada a partir do momento em que poucos aspersores são ligados ao mesmo tempo e com pouca vazão, ou ainda quando não há manutenção ou comprometimento dos colaboradores em acioná-los nos horários estabelecidos.

É importante destacar que não é apenas a radiação solar a responsável pelo aumento da temperatura corporal. Há também o fator da umidade relativa do ar, a quantidade de exercício, a ingestão de alimentos e de água, o estado nutricional, a temperatura ambiente, a densidade, o sombreamento e a velocidade do vento. Há também associações à individualidade de cada animal, como idade, raça e estado fisiológico.

Para saber se os animais estão entrando em estresse por calor, sinais visíveis podem ser destacados:

1- o animal tende a não a deitar, a não ser que o piso tenha água ou seja mais frio que o ar;

2- faz movimentos com a cabeça na tentativa de molhá-la no bebedouro, ou tenta colocá-la em qualquer sombra, mesmo pequena, como de um palanque ou de outro animal;

3- aumento da taxa de respiração, que não é considerada grave até ao início de profundos e rápidos movimentos do flanco (mais que 40 a 50/segundo);

4- aumento da temperatura retal - > 41ºC requer tratamento imediato; 5- está avançado quando a respiração ocorre de boca aberta, cabeça estendida, língua para fora e salivação abundante.

Formação do lote
A recomendação de que os lotes devem ser formados previamente à entrada no confinamento aborda dois aspectos importantes ao bem-estar: o nutricional e o comportamental. A mudança repentina de alimento pode afetar tanto o gado como os micro-organismos que habitam o rúmen, ou seja, os animais devem se adaptar a cheiro, forma, sabor, uso do cocho e horários de fornecimento, uma vez que não terão mais liberdade de escolha; já as espécies de micro-organismos devem alterar suas proporções de acordo com o substrato a ser degradado. Quanto ao comportamento, os animais devem refazer a hierarquia no seu novo grupo, ou seja, deve ocorrer uma "familiarização", e isso requer tempo, sendo melhor que ocorra em um ambiente "natural" e com maior espaço.

Resultados de alguns estudos confirmam as vantagens desse procedimento, revelando que o comportamento e os batimentos cardíacos dos animais aumentam quando são colocados em grupos com indivíduos estranhos a ele. Além disso, há relatos de que a familiaridade entre os bovinos está diretamente relacionada com o ganho de peso, provavelmente porque em lotes de animais familiarizados há menor ocorrência de competitividade no cocho e maior frequência de interações sociais positivas.

Animais bem distribuídos no cocho – Fazenda Fartura, Campo Verde/MT

Pode-se concluir que a pré-adaptação de bovinos ao confinamento é um elemento de extrema relevância. Essa conclusão é apoiada também pelos resultados prévios de um estudo realizado pelo nosso grupo de pesquisa (Etco), que evidenciam que a formação de lotes com animais não familiarizados levou ao aumento nas frequências de interações negativas, como menor número de animais no cocho durante os primeiros cinco dias de confinamento e menor ganho de peso diário (aproximadamente 100g/dia a menos) durante os 20 primeiros dias.

Uma vez definida a hierarquia social em um grupo, a ordem é estável e as posições, respeitadas; disputas são raras. Atritos são novamente presentes se animais estranhos são introduzidos no grupo.

Entretanto, quando os grupos são muito grandes, os bovinos podem ter dificuldades em reconhecer seus pares e em memorizar o status social de cada um deles, o que também aumentaria a incidência das interações agressivas. Como resultado, é esperado que bovinos mantidos em grupos numerosos e com alta densidade tenham redução do desempenho individual e apresentem problemas comportamentais.

Há evidências de que lotes com mais de 120 animais devam ser evitados. O serviço de extensão rural da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos, recomenda a formação de lotes 60 a 150 animais, e com densidade de até 60m²/animal. Ainda ressaltam o benefício do uso de iluminação artificial noturna, como forma de reduzir presença de predadores, aumentar o consumo de alimento em noites frias, reduzir o estresse de animais recém-alojados e aumentar o consumo de animais submissos. Entretanto, mais estudos devem ser realizados.

Cocho
Não é prudente recomendar o espaço disponível de cocho por animal antes de avaliar outras variáveis como:
– tipo de dieta – aquelas com maior proporção de volumoso necessitam de mais tempo para serem consumidas, portanto, maior espaço de cocho é necessário para que consigam ingerir a dieta como formulada, ou seja, se o espaço é restrito, os últimos animais a acessar consomem a dieta desbalanceada;
– limpeza do cocho e bebedouro – não adianta ter bom espaço no cocho se os animais não conseguem se alimentar devido à presença de fezes e alimentos fermentados, entre outros poluentes. O mesmo se aplica aos bebedouros, uma vez que o consumo de água está diretamente relacionado com o de matéria seca;
– tipo de animais – é necessário considerar o tamanho dos animais, pois é bem diferente recomendar 30 cm de cocho para um animal de [email protected] e um de [email protected] Outros fatores a serem avaliados são a presença de chifres (Caracu e Guzerá necessitam de mais espaço que Angus, por exemplo), a reatividade e o gênero;
– frequência de alimentação – essa variável ainda é pouco explorada e requer mais estudos.

Os espaços utilizados pela maioria dos confinamentos brasileiros estão entre 30 e 50 cm/animal e são recomendados a partir de estudos americanos e europeus, em que a dieta é diferente, assim como o clima, as raças entre outros fatores. O ideal é que cada confinamento esteja atento ao comportamento e ao tipo de seus animais, como também ao manejo que emprega no fornecimento do alimento e na limpeza das instalações.

Como discutido, vários são os fatores que podem afetar o comportamento e o bem-estar dos animais e, consequentemente, o desempenho dos mesmos no confinamento. Para que haja redução de ocorrências de problemas, recomenda- -se a observação constante de alterações corporais (injúrias, doenças, escore corporal), disponibilidade de recursos, condições das instalações, qualidade do manejo, e, em especial, das alterações comportamentais.

Outro fator não apresentado, mas de grande importância, é o treinamento da mão de obra, pois dessa maneira os colaboradores estarão aptos a realizar as observações recomendadas, entendendo a importância de cada fator que pode afetar o bem-estar e o desempenho dos animais.

Uma produção sustentável é aquela que respeita tudo o que a envolve, portanto, tratar com ética os animais é uma obrigação e ainda traz aumento na produtividade.

*Fernanda Macitelli é professora do curso de Zootecnia da UFMT/Campus Rondonópolis e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etiologia e Ecologia Animal (Etco)