Negócios

 

Arrendar ou arrematar?

Cuidado, a locação de vacas e touros pode ser mera ilusão

Hyberville Paulo D'Athayde Neto*

Arrendamento é um contrato no qual o arrendador, o proprietário dos meios de produção, cede a utilização desses em troca de uma renda pré-estabelecida, que independe dos resultados obtidos pelo arrendatário.

Uma das principais diferenças em relação à parceria é que a quantidade a ser paga geralmente varia conforme o resultado da atividade. No arrendamento, normalmente não.

Além do objetivo da produção animal, os arrendamentos também são usados como forma de captação de recursos. Não são raros os negócios sem a entrega física dos animais. Nos últimos anos, a quantidade de arrendamentos de animais diminuiu. Em parte, pelo aumento do crédito destinado à produção agropecuária, com taxas de juros menores.

Arrendamento de fêmeas
Uma quantidade de fêmeas é acordada e a taxa da renda é negociada. Nos últimos anos, caiu de cerca de 25% ao ano para algo em torno de 18% a 20%. Essa taxa indica a quantidade de bezerros, normalmente machos, que será entregue a cada ano, em relação ao total de fêmeas cedidas.

Para exemplificar, se um arrendatário está com 100 fêmeas, ele deve pagar ao arrendador de 18 a 20 bezerros machos desmamados por ano, a partir do início do contrato. Observe que isso independe da taxa de prenhez, desmame ou qualquer outro indicador zootécnico.

Outra modalidade de negócio é o arrendamento de fêmeas jovens. Nesses casos, há negócios que consideram um período de carência, para que as fêmeas cheguem à idade reprodutiva. Nesse período, a renda não é paga, o arrendatário fica com os custos da recria das fêmeas e, quando restituir o "casco" (os animais arrendados), terá de devolver vacas e não bezerras.

Também existe a possibilidade de arrendamento de um rebanho com mais de uma categoria animal. Nesse tipo de negócio, normalmente ocorre a avaliação desse rebanho e sua conversão em vacas, sobre as quais serão estimados os pagamentos, de maneira semelhante ao arrendamento de fêmeas.

Toma-se como exemplo um negócio em Mato Grosso do Sul. Se um rebanho for composto de bezerras, novilhas, e outras categorias, cuja avaliação total foi de R$ 500 mil, isso equivale ao arrendamento de 435 vacas cotadas em R$ 1,15 mil por cabeça, em agosto de 2014. A partir dessa quantidade de fêmeas, é estimada a renda.

Para essa simulação, consideramos os preços médios no primeiro semestre de 2014 em diferentes estados. Utilizamos preços constantes para focar a análise nas taxas correntes e evitar que situações positivas ou negativas de mercado maquiassem a análise.

A taxa (bezerros/matrizes arrendadas) utilizada foi de 18%, a mais conservadora dentre as encontradas no mercado. Ou seja, para cada 100 matrizes arrendadas, ao final de cada período de 12 meses, o arrendatário paga o equivalente a 18 bezerros machos desmamados, em animais ou em dinheiro, a depender do acordo. Veja o resultado na Figura 1.

Como utilizamos valores constantes para não entrar no mérito de ganhos ou perdas advindos de variações de preços, a inflação também não afetou os índices. Ou seja, as taxas são reais. Para compararmos às taxas nominais presentes no mercado, utilizamos um índice de inflação de 6% ao ano, ainda conservadora, frente à situação econômica atual.

A menor taxa nominal observada no Pará foi 19,4% ao ano. As variações de taxas entre as regiões devem-se às diferentes relações de preços do bezerro desmamado e da vaca. De toda forma, mesmo a menor taxa é muito maior que as tarifas e juros de financiamento bancário para a pecuária. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), por exemplo, tem taxa de 5,5% ao ano.

Arrendamento de reprodutores
O arrendamento de touros tem sido ainda menos comum que o de fêmeas. Nessa modalidade, o arrendatário recebe o tourinho e fica com ele pelo período de, normalmente, cinco anos, pagando uma renda anual, depois o devolve.

Segundo pesquisa realizada pela Scot Consultoria, a renda nessa modalidade de negócio varia de um a quatro bezerros desmamados ao ano. Também há negócios com 10 a 15% da produção, em bezerros machos. Considerando uma relação touro:vaca de 1:35 e uma taxa de desmame de 75%, a renda seria em torno de 2,6 a 3,9 bezerros ao ano. O risco de mortalidade também fica a cargo de quem tomou os animais arrendados.

Como os custos de manutenção dos reprodutores são do arrendatário, na prática, o que ele está recebendo em troca da renda é a depreciação do touro. Os preços de reprodutores têm ampla variação, de acordo com o mérito genético. Para esse exemplo, usaremos animais negociados por [email protected] de boi gordo e vendidos por [email protected] de vaca gorda. Os valores são os baseados nas cotações médias do primeiro semestre de 2014. Veja a Figura 2.

Mesmo com o pagamento de um bezerro ao ano, o valor da depreciação é menor. Ou seja, a compra do tourinho é mais interessante que o arrendamento. A vantagem do arrendamento seria o pagamento "parcelado" do tourinho, uma vez que a produção será paga anualmente.

Para que a depreciação anual dos tourinhos supere o preço de um bezerro desmamado nesses estados, a cotação do reprodutor teria que ser de [email protected] de boi no Pará, [email protected] em Mato Grosso, [email protected] em São Paulo e Goiás, e [email protected] no Mato Grosso do Sul. Nesses patamares de preços, o custo com o pagamento de um bezerro ao ano fica menor que a depreciação anual. Somando a isso, o pagamento parcelado, a situação pode ser considerada interessante.

A partir de dois bezerros por tourinho ao ano, as contas só fecham para reprodutores cotados com preço ao redor de [email protected] no Mato Grosso do Sul, por exemplo. Isso equivaleria a um animal de R$ 11,6 mil.

Vale a pena?
O arrendamento de bovinos está cada vez menos frequente. Conforme a simulação, o custo do arrendamento de fêmeas é significativamente maior que o de um financiamento. O arrendamento tem a vantagem do menor grau de burocracia, frente à captação de recursos em instituições financeiras

custos com a depreciação não superaram o preço de um bezerro. Ou seja, mesmo no cenário de menor custo, assumir a depreciação é mais barato. Se o custo do tourinho for maior, mais próximo de [email protected] na maior parte dos estados analisados, a entrega de um bezerro ao ano seria interessante. Cabe ressaltar que tourinhos mais caros tendem a ter custos de arrendamento maiores. Ou seja, provavelmente o fornecedor pediria mais de um bezerro ao ano.

*Hyberville Neto é consultor da SCOT Consultoria