Raça do Mês

 

108 ANOS DE BRASIL

Devon consolida-se entre as maiores raças britânicas de corte do país

Mateus Kern

De pelagem pigmentada de vermelho alaranjado inconfundível, o Devon possui uma história de mais de 100 anos de presença no Brasil. Hoje, é uma das raças britânicas de bovinos de corte de maior destaque do cenário nacional, muito em função de suas características, que se adaptaram perfeitamente aos diferentes climas do país. Essa adaptabilidade é um dos grandes trunfos na criação da raça, que encara desde o frio e a umidade dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, até o calor e o clima tropical do Centro-Oeste. Criado de forma pura ou cruzado com outras raças, apresenta rápido apronte e excelente rendimento de carne. Sua capacidade de conversão alimentar e de produção de carne de qualidade estão entre as melhores do mundo, destaca a Associação Brasileira dos Criadores de Devon (ABCD).

O Devon é um dos bovinos mais antigos do Reino Unido, sendo originário do Sudoeste da Inglaterra. A raça tem mudado consideravelmente nos últimos 100 anos, embora muitos dos animais registrados sejam descendentes diretos dos primeiros exemplares registrados no primeiro Livro Genealógico, publicado em 1850, o qual pertencia a famílias que já criavam há 150 anos.

A chegada dos primeiros exemplares ao Brasil ocorreu em 1906, há exatos 108 anos. Os animais foram importados da cabanha Lorrine, pertencente ao Dr. G. J. French, do Uruguai. Em 1912, o coronel Fermino Jacques, fazendeiro de André da Rocha/RS, na época distrito de Lagoa Vermelha/RS, adquiriu o seu primeiro exemplar da raça, nos Campos de Cima da Serra. Em 1914, o Visconde Ribeiro de Magalhães, de Bagé/RS, inscreveu duas vacas e um touro de procedência inglesa, como o primeiro lote de reprodutores puros da raça.

Esse mais de um século foi marcado pelo crescimento e pela evolução constante da raça entre os diversos estados, com destaque para as Regiões Sul (RS, SC e PR) e Centro-Oeste do País, além da Bahia. Boa parte dessa conquista do território nacional está atrelada ao trabalho desenvolvido pela ABCD e aos próprios criadores, que reforçam, através da qualidade no manejo, as características marcantes do Devon criado no Brasil.

Qualidades
Além da rusticidade, as características mais marcantes da raça Devon são a fertilidade, a habilidade materna, a precocidade e a docilidade no trato, destacadas a seguir.

Rusticidade: destaca-se pela capacidade que tem de se adaptar e produzir bem nas mais distintas regiões do mundo e nas mais diversas e desafiadoras condições climáticas possíveis. Também se verifica que é uma raça que, mesmo submetida às piores condições de forrageiras, tem alta habilidade em convertê-las em alimento para manutenção corporal, resistindo bravamente a períodos extensos de seca e recuperando rapidamente a condição assim que a dieta volta a melhorar. Sua pele alaranjada e seu pelo vermelho rubi permitem ampla proteção à ação de raios solares, evitando risco de lesões por fotossensibilidade.

Fertilidade: os reprodutores têm alta precocidade sexual, estando aptos à reprodução em idade muito jovem. As fêmeas apresentam, em condições alimentares ideais, cios férteis aos 12 meses de idade e estão naturalmente aptas à reprodução aos 24 meses, mesmo em condições alimentares mais precárias. Os machos estão prontos para a reprodução antes mesmo dos 24 meses de idade, especialmente quando em condições alimentares ideais. "As fêmeas têm plenas condições de repetirem partos anualmente, desde que em condições sanitárias e nutricionais normais", afirma Henrique Ribas, vice-presidente Comercial da ABCD e médico-veterinário.

Habilidade materna: as fêmeas são leiteiras e produzem um leite de volume e qualidade diferenciados, em que lactações assistidas em vacas a pasto registraram média de 2.321 kg de leite com teor de gordura de 4,5%. São mães extremamente amorosas e defensoras das crias. A conjunção desses fatores resulta em maiores taxas de sobrevivência pós- -natal e maiores pesos ao desmame.

Carne Devon pode ser encontrada na rede de restaurantes Pobre Juan

Longevidade: as vacas Devon são mundialmente conhecidas pela longevidade. Naturalmente, pode se encontrar fêmeas em plena produção, mesmo depois dos 15 anos de idade. Em países com rebanhos bovinos menores, como a Nova Zelândia, por exemplo, onde cada fêmea tem seu histórico reprodutivo e de produção acompanhado de perto, houve relatos de matrizes que tiveram mais de 20 filhos registrados.

Docilidade: outra característica comum aos animais da raça. Por serem extremamente mansos, eles não oferecem riscos à integridade física das pessoas que os manejam e se enquadram perfeitamente às práticas de bem-estar animal. Além disso, essa docilidade reflete diretamente na qualidade de carne, já que, em função da mansidão, esses animais não produzem o cortisol, que é um hormônio liberado em situações de estresse com função antagônica à insulina. A docilidade reflete-se também de forma positiva na alta taxa de prenhez, o que faz com que fêmeas puras ou cruzadas sejam excelentes receptoras de embriões, por agregarem eficácia ao manejo reprodutivo.

Qualidade de carne
Estudos recentes apontam que o consumo de carne de qualidade, bem como o consumo em geral de carne no mercado interno nos últimos anos, tem crescido de maneira importante no Brasil e no mundo. "Paralelamente, nosso país hoje é reconhecido como o maior exportador de carne, e os criadores estrangeiros reconhecem o Brasil como referência, em termos de qualidade e quantidade, na produção do rebanho Devon", afirma Elizabeth Cirne Lima, presidente da ABCD. Essa qualidade se traduz no sabor único, no acabamento de carcaça, na maciez e no marmoreio que essa carne oferece.

Cruzamentos
A raça caracteriza-se por apresentar incrementos produtivos tanto no cruzamento com raças zebuínas, quanto com europeias. Do acasalamento com zebuínos, produziu-se inclusive uma nova raça sintética: o Bravon. De fácil adaptação a qualquer região do Brasil, os reprodutores Devon e Bravon destacam-se pela rusticidade e eficiência.

A alta capacidade de serviço aliada ao grande poder de conversão de pastos em carne de qualidade são a garantia de adaptabilidade desses reprodutores em qualquer região do país. As vacas são rústicas e dotadas de alta capacidade leiteira. "Isso pode ser observado na prática, tanto pela grande capacidade de ganho de peso dos touros, mesmo em condições de pastagens modestas, quanto pelo diferenciado volume e qualidade de lactação das vacas, que são consideradas mães por excelência", diz Ribas.

Além disso, o manejo reprodutivo da raça é simples e podem ser usadas todas as técnicas: inseminação artificial, monta natural, monta dirigida ou Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), em função de grande fertilidade.

Valorização
A cada ano, é possível observar a evolução do trabalho desenvolvido com o Devon. Parte desse crescimento no país é obra da ABCD, que procura sempre inovar nas ações relacionadas à raça.

Neste ano, a entidade esteve presente na 10ª edição do tradicional Devon Tour, que aconteceu em fevereiro, na Nova Zelândia. O encontro, que acontece de dois em dois anos, reúne criadores dos principais países produtores: Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Brasil, Uruguai e Nova Zelândia.

Durante o tour, foi possível reforçar o intercâmbio de conhecimento e de informações sobre técnicas de manejo com os criadores estrangeiros, com base em dias de campo realizados por todo território da Nova Zelândia e em visitas a universidades e centros de pesquisa do país. "Estes eventos internacionais cumprem seu objetivo de facilitar o intercâmbio e o comércio entre criadores de diferentes continentes", destaca Gilson Hoffmann, vice- -presidente Comercial da ABCD.

Outra iniciativa importante realizada neste ano foi a participação da carne Devon no roteiro gastronômico da rede de restaurantes Pobre Juan. Em junho, as unidades das cidades de São Paulo, Campinas/SP, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador e Recife/PE receberam o Festival Ruby Devon, uma oportunidade em que os clientes da casa puderam conhecer o sabor, a maciez e a suculência da carne da raça. Durante uma semana, dez cortes especiais estiveram no cardápio do restaurante, com exclusividade.

Essa foi a terceira edição do Festival Ruby Devon, que começou como 2012, e passou a contar com a participação da ABCD em 2013. De acordo Elizabeth Cirne Lima, essa parceria é um passo de extrema importância para ampliar a visibilidade da raça no país. "A apresentação de nossos produtos a um público tão exigente é uma prova e tanto. O sucesso alcançado pelo evento reflete bem o momento de expansão pelo qual passamos".

Gilson Hoffmann destaca a importância dos eventos internacionais para intercâmbio de informações e negócios

Os cortes servidos no Pobre Juan resultam de um rigoroso processo de produção pecuária que passa por toda a cadeia, desde a cabanha até a distribuição. Para atender às exigências dos consumidores, foram entregues apenas novilhos puros da raça Devon, pertencentes à Cabanha Palmeira, de Cláudio Ribeiro. Os animais destinados à última edição do Festival foram criados na maior parte do tempo a pasto e terminados por 120 dias no confinamento da JBS, em Guaiçara, no interior de São Paulo.

A criatividade do trabalho realizado pela ABCD também pode ser conferido nas últimas participações da raça na Expointer, maior feira do setor agropecuário da América Latina, realizada em Esteio/RS. Nas duas últimas edições, o Devon foi a única raça britânica de bovinos de corte a aumentar o número de animais inscritos na feira. Em 2014, em comparação ao ano anterior, o aumento foi de 15%. Outro destaque ficou por conta da realização dos prêmios Jovem Expositor, destinado aos novos criadores, e Chiripá, que reconhece a participação direta das mulheres na criação da raça.

Para Ribas, não há dúvidas: o Devon é a melhor opção para quem procura carne de qualidade aliada ao máximo rendimento de carcaça. Em diversos eventos, ele tem apresentado a palestra "Devon: passado, presente e futuro", na qual aborda temas como a origem e as características que qualificam a raça como a mais viável para ser desenvolvida em sistemas pecuários voltados para os mercados mais exigentes. "Procuro sempre destacar as características mais marcantes que fazem do Devon a melhor escolha dentre todas as raças britânicas: rusticidade, fertilidade, precocidade, habilidade materna, qualidade da carne, entre outras", diz. Cada uma dessas características analisadas tem o suporte de resultados científicos que Ribas buscou no Brasil e no exterior, fundamentados em estudos que comparam as principais raças de origem britânica. "Os números comprovam a superioridade produtiva e econômica frente às outras raças que participaram dessas pesquisas", afirma o veterinário.

Os criadores estrangeiros reconhecem o Brasil como referência, em termos de qualidade e quantidade, na produção do rebanho Devon segundo Elizabeth Cirne Lima, presidente da ABCD

Os resultados podem ser vistos na prática: nas últimas edições da Expointer, os exemplares cedidos pela ABCD para a Vitrine da Carne Gaúcha, ação promovida pela Federação da Agricultura do Estado do RS (Farsul) e pelo programa Juntos para competir, do Senar/Farsul, tiveram ótimo desempenho. Além disso, a participação nos concursos de carcaças da Expointer sempre trazem ótimos números. O concurso promove uma avaliação complementar às já tradicionalmente realizadas, para definir se os melhores exemplares avaliados em pé são os campeões em rendimento de carne após o abate. "Os exemplares da raça Devon sempre se destacam por apresentar alto nível de conversão alimentar, carcaças de melhor acabamento e melhor cobertura de gordura", diz Ribas.

Planos
O ano de 2014 até o momento ficou marcado pela ampla valorização dos exemplares da raça, tanto pela participação destacada em eventos e feiras, quanto nos resultados alcançados em remates por todo o Brasil. No segundo semestre, principalmente, as feiras e os leilões estão provando que a procura está cada vez maior. O tradicional leilão Top Devon, na Expointer, alcançou faturamento de R$ 226,6 mil, o dobro do registrado no ano passado. Além disso, pelo segundo ano consecutivo foi o leilão que obteve os valores mais elevados por exemplar, dentre os remates de animais rústicos.

Durante o evento, foi promovido um encontro em parceria com a Federacite, para reunir integrantes da Associação de Produtores de Novilho Precoce Sul Mato-Grossense e criadores de Devon. O grupo esteve no Rio Grande do Sul durante a Expointer para conhecer melhor a pecuária gaúcha e alternativas de raças para cruzamento com gado Nelore no MT. "Ficou programada para março de 2015 uma reunião em Campo Grande para concretizar essa parceria, que pode render ótimos frutos para a raça", afirma Elizabeth.