Manejo Racional

 

BEM-ESTAR ANIMAL

As liberdades que fazem a diferença na vida do bovino e no bolso do pecuarista

Adilson Rodrigues
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Aos 22 anos, Carmen Perez teve os primeiros contatos com o meio rural. A mãe e os tios herdaram uma fazenda do avô. Empresário do setor sucroalcooleiro, a aquisição realizada nos idos de 1980 era apenas um investimento. Carmem assumiu a gestão da parte repassada à mãe, que após a cessão de bens, em 2005, se resumiu a um retiro e duas casas de vaqueiros. Pronta para o desafio, trocou o salto alto pelas botas e um chapéu e foi para lida.

"Fiquei horrorizada, confusa, em estado de choque. Achei tudo aquilo um cenário de terror. Íamos todos os dias à maternidade e lá as vacas recebiam muitas pancadas na cabeça. Bezerros morriam com porteiradas. A seringa do curral vivia sempre congestionada e os vaqueiros gritavam muito. A adrenalina corria desenfreada, deixando o clima tenso e perigoso." Essa foi a impressão imediata da jovem pecuarista ao descrever o primeiro contato com o manejo do rebanho da hoje denominada Agropecuária Orvalho das Flores, dedicada ao ciclo de cria em Barra do Garças/MT.

Após superar a traumática experiência, já sabia por onde começar. Arregaçou as mangas para promover uma mu- Fabio Fatori REVISTA AG - 11 dança radical no tratamento dos animais. O passo mais importante foi recorrer ao conhecimento técnico. Procurou ajuda do prof. Mateus Paranhos e Murilo Quintiliano, respeitados especialistas em bem-estar animal. E com a capacitação promovida por intermédio deles, Carmen, hoje com 36 anos, conseguiu, finalmente, aplicar um manejo menos aversivo às vacas prenhes e tornar o ambiente mais seguro para os funcionários. "É um trabalho diário e de muita dedicação. Não me canso nunca", resume Carmen.

Segundo ela, um problema recorrente é alta rotatividade de vaqueiros, superada pela experiência adquirida nos últimos sete anos. O mais confortante é que a evolução não demandou investimentos descomunais, bastou somente acreditar e apostar na reciclagem da equipe de campo, além da realização de pequenos ajustes na infraestrutura da propriedade. No caso da Agropecuária Orvalho das Flores, esses últimos se resumiram a fechar as laterais do curral e cercar o pasto- -maternidade, permitindo tatuar e curar o umbigo dos bezerros de forma mais tranquila e segura.

Os resultados começaram a parecer após um ano. Os animais ficaram mais mansos aos comandos humanos, já não se machucavam, os bezerros não viam seu fim nas porteiras e a incidência de fraturas nos braços, pernas e costelas dos peões reduziu a zero, fato que, por si só, já pouparia qualquer pecuarista de grandes dores de cabeça e do desembolso de pequenas fortunas em futuros processos trabalhistas. Apesar de encarada como novidade por boa parte dos produtores brasileiros, a preocupação quanto ao bem-estar dos animais de produção não é uma cobrança recente. O conceito nasceu na Europa, ainda no século XVI. A primeira legislação sobre o tema vingou em 1822, na Grã- Bretanha. Intensificou-se no pós-guerra, quando a escassez de alimentos originou o atual modelo de produção industrial em larga escala que atingia todos os setores econômicos, inclusive o pecuário.

No Brasil, começou a ser investigado com mais afinco pelos pesquisadores em 1990, com o pioneiro trabalho de um grupo de estudiosos capitaneados pelo prof. Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa, atualmente coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Etco). Ano a ano, melhoras são evidentes nos rebanhos e frigoríficos nacionais, inclusive com o surgimento de verdadeiras fazendas- -modelo, mas o país ainda engatinha comparado à Inglaterra, Escócia, França e Portugal, as referências mundiais. A forma com que gerenciam o transporte de carga viva - um dos grandes gargalos brasileiros - é um bom exemplo da diferença existente entre os dois continentes.

Os europeus privilegiam rotas mais curtas até o frigorífico e dedicam espe- Liberdades do bovino Sede Fome Ansiedade Dor Medo 12 - NOVEMBRO 2014 Manejo Racional cial atenção quanto ao conforto térmico. Uma boa notícia é que alguns abatedouros brasileiros ensaiam copiar o modelo e o próprio Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostra interesse no tema e prepara uma normativa elaborada em parceria com a ong Word Animal Protection - WAP (Sociedade Mundial de Proteção Animal, na tradução para o português) -, que deve entrar em vigor já em 2015. Em relação ao transporte de cargas vivas, a proposta é determinar requisitos mínimos aos veículos utilizados para este fim e a obrigatoriedade de capacitação especial dos condutores.

Entre os principais pontos da Instrução Normativa 03, estão ainda a maior responsabilidade dos frigoríficos frente à aplicação do bem-estar animal nas fases de pré-abate e abate, como a exigência de um profissional capacitado na planta e o estabelecimento de critérios para determinar a inconsciência após a insensibilização. "O objetivo é adequar a portaria publicada em 2000 a diretrizes estabelecidas pela OIE, em 2005, e também atualizá-la quanto aos conhecimentos científicos existentes", informa Lizie Pereira Buss, Fiscal Federal Agropecuário e membro da Comissão de Bem-estar Animal do Mapa. OIE é a Organização Internacional de Saúde Animal, a qual o Brasil também é signatário.

Carmen Perez ficou aterrorizada com o manejo no seu primeiro contato com a pecuária

Em um ano o Brasil evoluiu o equivalente a uma década, com muitas das mudanças maturadas na normativa já presentes dentro ou fora da fazenda. O médico-veterinário Renato dos Santos, responsável pelo Centro Experimental de Manejo (C.E.M), reconhecido pela WAP como o melhor do gênero para formação e capacitação de mão de obra para a pecuária bovina no mundo, lembra que as universidades brasileiras já vêm inserindo na grade curricular, de forma obrigatória, a disciplina BEA (Bem-Estar Animal), de olho nos profissionais que serão futuros formadores de opinião. "Temos legislações bem sensatas e uma parceria forte com a União Europeia com o projeto chamado Diálogos Setoriais União Europeia Brasil, de onde surgem muitas possibilidades", relata o médico- -veterinário.

O prof. Marcos Chiquitelli Neto, da Unesp Ilha Solteira, em São Paulo, premiado no BeefSummit Bem-Estar Animal 2014, reconhece o avanço brasileiro em diversos aspectos, especialmente no envolvimento da esfera governamental no treinamento dos fiscais federais e demais envolvidos no abate, todavia enxerga longo caminho pela frente. "Gosto de comparar essa melhoria ao procedimento de se empurrar uma bola pesada para o topo de um morro. É um esforço contínuo. No primeiro descuido, ela desce ladeira abaixo", faz um trocadilho.

Ele se refere, justamente, à latente necessidade de treinamento de mão de obra. Não só daquela envolvida diretamente na lida do campo; também a dos gestores do processo. Na elaboração do empreendimento, é comum itens ligados ao manejo e bem-estar ficarem fora do planejamento. "Além disso, as médias e as pequenas fazendas de bovinos de corte estão relegadas a esses conceitos", emenda. Outra crítica é em relação ao transporte, no qual observa muitas falhas, tanto nos modelos dos veículos utilizados quanto na logística de deslocamento. "Paciência é necessária. Nosso país continental é jovem, praticamente um "bebê" se comparado com a Europa. Precisamos de tempo para se adaptar e estamos fazendo bom uso dele", rebate Santos.

Porteira adentro, indiferente ao porte da propriedade, dois gigantescos desafios no Brasil têm gerado muito suor na testa dos capacitadores. O primeiro é a teimosia do proprietário em acreditar que a implementação do bem-estar requer o peso em ouro na estrutura da fazenda, uma grande ilusão, segundo o prof. Marcos Chiquitelli. O segundo refere-se à resiliência do vaqueiro. "O principal ponto é a interação entre homem e animal", explica. É um equívoco aplicar elevado capital em currais e baias "magestosas" e não oferecer condições mínimas de conforto ao tratador, influenciando no seu contato diário com o bovino.

Já para enfrentar possíveis resistências às práticas de bem-estar animal em seus cursos, Chiquitelli possui um macete. Ele eleva o bovino à condição de principal cliente da fazenda, onde o mesmo receberá o alimento e todos os cuidados desejados. "Depois faço o mesmo com o vaqueiro, colocando-o como cliente de um botequim. Será que você (vaqueiro) ficaria feliz com uma cerveja quente, demorada a ser servida por um garçom mal educado e numa mesa colocada sol a pino? A resposta é sempre rápida: nunca mais voltaria a este lugar. Entretanto, o bovino não pode escolher onde viver. Neste sentido, o animal passa a produzir menos e a dificultar o manejo como resposta aos maus tratos recebidos", ensina o professor da Unesp Ilha Solteira.

Marcos Chiquitelli durante treinamento de bem-estar animal

Vale ressaltar que está em jogo não apenas a questão ética, mas também a econômica, na qual o respeito aos animais de produção está arraigado ao conceito de sustentabilidade do produto carne. O Brasil é o campeão no "desperdício" de carcaça, pois muita carne fica fora da gôndola em virtude de inúmeras lesões causadas por maus tratos aos bovinos de corte. Metade das 40 milhões de cabeças abatidas anualmente possui ao menos um hematoma. Prejuízo que também fica com o pecuarista, penalizado no toalete, pois cada machucado significa meio quilo de carne a menos no cálculo do pagamento, quantidade necessária para eliminação da região comprometida. Com a arroba cotada a R$ 130, resulta em um prejuízo aproximado de R$ 86 milhões por ano, conforme projeção do prof. Mateus Paranhos.

Da mesma forma que a carcaça, a qualidade da matéria-prima é impactada quando o bovino atinge elevado grau de estresse. Neste estado, o organismo do animal produz altas taxas de glicose e de um hormônio chamado cortisol, que, por sua vez, afetam drasticamente o nível de pH dos tecidos, subindo para 6 ou até mais, muito além do ideal. O resultado final é o que conhecemos por DFD, sigla para "Dark, Firm and Dry". Após as fases de abate e desossa, a carne fica escura (muitas vezes quase preta), firme, seca e até apresenta odor em alguns casos, culminando na rejeição por parte do consumidor final e no respectivo encalhe nos açougues e supermercados.

Livrar os bovinos de situações estressantes a todo o instante é impossível. Por este motivo, o bem-estar animal objetiva prevenir o sofrimento desnecessário e assegurar boa qualidade de vida até o matadouro. Consegue-se isso ao respeitar as cinco liberdades do ser vivo: livre de fome, livre de sede, livre de dor, livre de doença, livre de medo e livre de ansiedade.

LIVRE DE FOME
Cerca de 90% dos bovinos são criados livremente em pastagem no Brasil, ou seja, seu ambiente natural. A adubação de pastagem é uma técnica que deve decolar nos próximos anos e há muitas outras que colaboram para melhoria da qualidade do capim. Um bom exemplo é o consórcio entre gramíneas e leguminosas, que transformam o pasto em um verdadeiro restaurante cinco estrelas. No sistema extensivo, como todos sabem, o período crítico da alimentação é na estação seca. Uma solução pouco adotada e de fácil implementação é a vedação de uma área do pasto no período das chuvas, também conhecida por diferimento ou "Feno em Pé" (nome popular). As melhores forrageiras para este fim são as de crescimento prostado (braquiárias e cynodons). Especialistas recomendam vedar, no máximo, 40% da área. Em necessidade superior, recomenda-se a suplementação com silagem ou feno para que não se prejudique o desenvolvimento futuro da planta.

LIVRE DE SEDE
O pecuarista pode oferecer a melhor dieta proteico-energética ao gado, porém sem água ele não converte o alimento em peso, além de enfrentar dificuldade para fazer as trocas de calor. Um boi precisa de um mínimo de 60 litros por dia. Assim, os bebedouros precisam de cuidado especial. Em propriedades muito extensas como as encontradas no estado do Mato Grosso, onde os animais caminham quilômetros atrás de comida, a impossibilidade de instalação de uma rede elétrica, quando da inexistência de fontes naturais d'água, pode se tornar um grande problema. Uma proposta interessante é a instalação de painéis fotovoltaicos que utilizam a energia solar para garantir o bombeamento do líquido até a superfície. Baixa lâmina d'água nos bebedouros e boias sem pressão indicam que o projeto hidráulico tem de ser revisto. "A simples oferta de água para bezerros transportados em longa distância, numa região quente, por exemplo, promove um melhor desempenho em peso dos animais", comprova Chiquitelli.

Bandeiras de manejo ajudam garantir segurança para o homem e o animal

LIVRE DE DOR
Mary Temple Grandin, referência mundial quando o assunto é bem-estar animal, que esteve de passagem por São Paulo, certa vez levantou a hipótese da aplicação de anestésicos antes de procedimentos invasivos. Uma alternativa que revoluciou este segmento é a imunocastração. Com uma picada de agulha, o macho deixa de produzir os hormônios que dificultam a maior deposição de gordura subcutânea, necessária para o melhor acabamento de carcaça. Alguns técnicos de programas de marca própria ainda se dividem sobre a eficácia nesse quesito e outros como Roberto Barcellos, especialista em qualidade de carne, endossam. Só não quando necessários três protocolos, pois fica onerosa. "Ao eliminar cirurgia, é muito favorável, porque evita sofrimento. Logo após a castração cirúrgica, o animal perde peso, enquanto que na imunocastração isso não acontece", engrossa o coro Rodrigo da Costa Gomes, pesquisador de Nutrição Animal na Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS. O efeito da vacina dura 150 dias nos bovinos criados a pasto e 90 dias se em regime de confinamento.

LIVRE DE DOENÇA
Saúde é outro aspecto fundamental quando se trata do bem-estar de um ser vivo. Custa pouco ao pecuarista, cerca de 3% dos gastos totais. O Governo Federal possui programas para erradicação da febre aftosa, raiva e brucelose. Entretanto, mais algumas doenças poderiam engrossar a lista. Pode-se destacar a Diarreia Viral Bovina (BVD), a Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR), a leptospirose e a campilobacteriose - doenças reprodutivas - e as temidas clostridioses. Esse último grupo tem ganhado relevância porque é fatal. Aliás, a maioria delas não possui cura e gera perdas "invisíveis". Quando não causa aborto, provoca a reabsorção do feto da matriz gestante. Fêmeas infectadas devem ser descartadas, conforme exigido por lei no controle oficial. Há de se preocupar também com o ataque de endo e ectoparasitas, entre os quais o carrapato acarreta sozinho prejuízo de R$ 3 bilhões à bovinocultura, além das moscas dos chifres e dos estábulos, que são hematófagas e possuem picadas semelhantes às de abelha. A infestação da mosca-dos-estábulos, em especial, tem crescido violentamente no rastro das usinas de açúcar e álcool, onde encontra hábitat ideal. O pecuarista conta com protocolos sanitários unificados para combate simultâneo.

LIVRE DE MEDO
Entender os bovinos é crucial para cessar gritos e violência. Eles dificultam o manejo ao se sentirem ameaçados. Isso acontece quando se assustam com objetos brilhantes, sombras, vento forte, barulhos estridentes e até roupas penduradas nas cercas. Quando dentro de currais em ambientes fechados, a simples instalação de uma lâmpada, por exemplo, os induzem a seguir a luz no caminho desejado. Algo que muito ajuda na prevenção de acidentes é identificar a zona de fuga (a pé e a cavalo). A Índia, onde o Nelore é sagrado, é um exemplo irrefutável de como é possível conviver próximo da raça. Ao se perceber tais macetes, o vaqueiro desempenha o trabalho de forma mais fácil e segura, ganhando, inclusive, qualidade de vida. Essa foi a constatação de Ricardo Fernandes de Souza, 44 anos, capataz na Fazenda Marupiara, em Paragominas/PA, que achou bobagem ser escalado para um curso de bem-estar animal. "Nas fazendas onde trabalhei, se tratasse o animal sem choques e pancadas, era taxado de fraco e poderia ser demitido por isso", relata. De acordo com ele, houve dificuldades de adaptação no manejo racional, mas ao observar que toda ação levava a uma reação, entendeu o motivo de sofrer tantas fraturas por cabeçadas e coices. "Por vezes, eu chegava em casa mal-humorado de tal forma que refletia na família. Agora, sou mais compreensível com meus filhos e esposa. Não me imagino trabalhando de outra forma", reconhece, afirmando estar com a integridade física preservada e alertar colegas quanto aos benefícios do bem- -estar animal.

Piso antiderrapante instalado no curral da Fazenda Teolinda completou dez anos

LIVRE DE ANSIEDADE
Angustia é uma característica inerente a qualquer ser vivo. Talvez o momento do abate seja o mais crítico para o bovino. Muitas plantas frigoríficas já instalaram currais de artodoamento, onde o animal é contido corretamente e sua cabeça posicionada, automaticamente, para insensibilização. Essa etapa do processo é de suma importância. É a fase na qual se garante a ausência de sofrimento durante a sangria. Uma empresa brasileira de troncos e balanças patenteou a tecnologia, disponível pelo valor de R$ 120 mil. A pressão da pistola pneumática é outro fator decisivo; pode variar entre 160 e 190 libras, sendo que se o lote possui animais grandes, com conformação óssea mais exuberante, o recomendado é utilizar o calibre maior. "Quando falamos de animais, já não existe dúvida da serciência. Eles têm sentimentos, necessidades, comportamento e expressão", analisa o médico-veterinário Renato dos Santos.

PASTO-MATERNIDADE
Dentro da fazenda, a sugestão de Santos torna-se viável com a adoção de algumas estratégias, muitas já conhecidas pelos pecuaristas. Se faz primordial destacar uma área do pasto para administrar a gestação das vacas e tratar o bezerro recém-nascido. "Um pasto-maternidade adequado é aquele que oferece espaço, sombra, água e alimento à vontade para todas as vacas. Este local deve ser calmo, longe de currais, casas de funcionários ou estradas", sugere Murilo Quintiliano, consultor BEA na FAI do Brasil. O ideal é que os grupos de parição sejam formados logo após a confirmação da prenhez. Cães e galinhas são proibidos. A presença dessas espécies podem levar as matrizes a reagir com movimentos bruscos que podem incorrer acidentes ou abortos. O manejo, especialmente ao final da gravidez, ocorre apenas quando realmente necessário e, nestes casos, sempre com calma e ao passo.

Detalhe do piso antiderrapante

NASCIMENTO DO BEZERRO
A pessoa eleita para ser o "materneiro" será o responsável pelo acompanhamento das vacas até o parto. Seu principal atributo será registrar ocorrências. Essas podem ser uma dificuldade de parto, uma rejeição da cria, um recém-nascido fraco ou o ataque de urubus. O ideal é que os bezerros sejam manejados apenas seis horas após o nascimento. E no momento de contê-los, basta segurá-lo pela virilha e pescoço. Depois apoia-se o animal sobre a perna, para ele deslizar até o solo. Neste momento, procede- se a cura do umbigo e a identificação animal. Se o animal apresentar dificuldades para mamar, é preciso acudi-lo, deixando sugar até que fique satisfeito, sem se esquecer de anotar as causas, claro. A forma que o animal for tratado no nascimento é a maneira como vai responder no manejo até adulto. Um bom exemplo de fortalecimento na relação homem-animal é Agropecuária Orvalho das Flores. A orientação é para que os vaqueiros façam uma rápida massagem em todo o corpo do recém-nascido.

IDENTIFICAÇÃO ANIMAL
A estadia no pasto-maternidade é momento perfeito para identificar o animal, um processo indispensável na pecuária moderna. Quintiliano sugere que sejam utilizados dois métodos, sendo um deles a tatuagem, mais barata e permanente. O preferido pelos pecuaristas é o brinco, o qual exige cautela na aplicação, para que não se rasgue a orelha. É importante o indivíduo estar bem contido e que o alicate seja utilizado na posição vertical e retirado antes de soltar o animal. O furador apropriado é o de 6 mm. Menores ou maiores só vão causar mais dor com futuras recolocações. O ponto certo para aplicação de brincos e tatuagens é no centro da orelha, entre as duas nervuras principais. Só não quando utilizados juntos. Caso este manejo seja realizado na estação chuvosa, a sugestão é uma aplicação preventiva de antiparasitário no bovino e uma de repelente nas partes macho e fêmea do brinco. Para o manejo em gado adulto, um tronco de contenção e três funcionários serão suficientes fazer um serviço ágil e sem maior sofrimento ou transtornos. Infelizmente, uma terceira opção de identificação é a marca a fogo, ainda muito comum no registro de animais puros em associações ou no controle de brucelose. Não há saída neste caso, a não ser tampar os olhos do bicho para que sofra menos. Para que corra tudo na perfeita ordem, é obrigatória a imobilização e que a marcação ocorra em dias secos, com o ferro em brasa vermelha - indicando a temperatura correta. É desejável que os ferros possuam cantos arredondados e o máximo de 11 cm de diâmetro.

DESMAMA RACIONAL
Ao atingir o oitavo mês de vida, em média, ocorre o segundo trauma na vida do animal: a separação da mãe. Para atenuar o prejuízo emocional, o isolamento deve ocorrer gradualmente. Cinco dias antes da apartação, matrizes e prole são transferidas para outro pasto, onde somente o último grupo permanecerá. Cercas firmes impedem a escapada dos fujões e o arame liso previne lesões. O local também tem de estar abastecido com muita forragem e água de boa qualidade. Um vaqueiro experiente garante um aparte sem transtornos no curral, ocupando o máximo de um terço da manga, prevenindo, assim, quedas e porteiradas. "Efetuada a apartação, é necessário embretar os bezerros, conduzindo- -os calmamente à balança para pesagem individual", complementa o consultor da FAI do Brasil. Uma forma de ajudá-los a se adaptar mais rápido à vida independente é com o auxílio de vacas madrinhas, na proporção de 5 a 10% do número de cabeças do lote, desde que sejam dóceis e/ou com suas próprias crias ao pé. Além disso, alojar as mães da bezerrada desmamada em um pasto vizinho, permitindo que vejam um ao outro, contorna a ansiedade de ambos. Elas podem ser retiradas a partir do sexto dia, porém, as madrinhas continuam até o oitavo, se ainda no mesmo local, ou 15º dia, no caso de troca de piquetes. "Estabeleça uma rotina de vistorias. Devido à separação, os bezerros podem adoecer mais facilmente", relembra Quintiliano.

CURRAL DE MANEJO
Não é só no aparte que a organização faz a diferença no curral. "Esse é uma área de trabalho. Não foi feito para manter os bovinos presos. O pensamento de que grandes rebanhos necessitam de currais enormes é equivocado", adverte Quintiliano. Ele sugere a construção de piquetes no entorno, desafogando o interior da área de manejo, o que favorece o conforto do gado e a segurança dos trabalhadores. Muito ou nada sofisticado, a estrutura precisa apenas disponibilizar forragem, água limpa, um cocho para suplementação e sombra. O único "zelo" é rotacionar os piquetes para não degradar a pastagem. De quebra, a menor pressão exercida internamente favorece a vida útil da estrutura. O único ponto fraco é o mesmo de qualquer outro curral: o acúmulo de lama e dejetos. Contudo, até para isso há solução. Joaquim Loureiro Pereira, 57 anos, ou Sr. Kinkas, como é carinhosamente conhecido, é o inventor do primeiro piso antiderrapante para bovinos. "São bloquetes à base de concreto no formato sextavado, com um ressalto de 2 a 3 cm e pequenas canaletas para escorrer resíduos", descreve o pecuarista. Um dos diferenciais é a durabilidade do produto e o baixo custo de manutenção. Os primeiros 1.500 m² assentados no curral da Fazenda Teolinda (Paragominas/PA) completaram dez anos. O produtor proíbe o rejunte com cimento. Os bloquetes custam R$ 50 por m². O prof. Mateus Paranhos conheceu a tecnologia e aprovou.

SOMBREAMENTO E QUEBRA-VENTOS
Fora do curral, atenção especial às intempéries nunca é demais. Às vezes, até o Nelore gosta de se proteger de um sol de 40°C. E nesse quesito as árvores podem ajudar. "Considerando-se as mudanças climáticas e a perspectiva de aumento de temperatura, é preciso cautela para evitar efeitos prejudiciais nos animais", destaca a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte (Campo Grande/ MS), Fabiana Villa Alves. A faixa de conforto térmico dos zebuínos vai até os 35°C e dos taurinos a 27°C. A sombra natural é mais eficiente porque a árvore, além de bloquear a radiação solar, cria um microclima mais agradável. Não só o calor preocupa. Neste ano, o frio matou 1.000 cabeças de gado azebuado no Mato Grosso do Sul. Em 2000, foram mais de 10 mil no estado. Os 13,8°C registrados associados à chuva e ao vento de 38 km/h levaram a uma sensação térmica de 5°C, na madrugada de 24 para 25 de julho. Dois graus a menos do suportado pelos zebuínos. Mas, a tragédia seria evitada se os piquetes tivessem quebra-ventos e se os animais estivem em bom estado corporal, conforme preconiza o pesquisador Haroldo Pires de Queiroz, também da Embrapa Gado de Corte. A faixa endêmica da hipotermia vai do sul do Mato Grosso do Sul, São Paulo e Minas Gerais a Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Everton Andrade conta que o JBS conseguiu reduzir em 11% as contusões de carcaça

EMBARQUE E TRANSPORTE
O momento de seguir com destino ao frigorífico pode ser deveras desgastante para homens e animais. O embarcadouro em nível com caminhão, sem plataformas íngremes ou degrau, com paredes sólidas e piso antiderrapante, além de três peões fazendo mão de bandeiras e do uso do aboio (o canto do vaqueiro) permitem o embarque de 300 animais sem estresse. Antes é necessário verificar a documentação dos lotes, combinar a melhor rota com o frigorífico, planejar a chegada dos caminhões para que os motoristas não enfrentem longas esperas e verificar se as estradas de acesso à fazenda precisam de reparos. A superlotação do caminhão responde por grande número de lesões e até mesmo morte por esmagamento. Para evitar dor de cabeça, o Grupo Etco devolveu uma fórmula simples para cálculo da densidade. O primeiro passo é estimar o peso médio dos bovinos em cada gaiola. Depois, divide-se o valor do comprimento da gaiola pelo indicador atribuído ao peso desejado listado na tabela a seguir. No caminhão amarelo da figura, que tem três gaiolas, sendo a primeira com 2,35 m de comprimento, a do meio com 5,51 m e a terceira com 2,45 m, o número de animais com peso ajustado de 500 kg seria 18, sendo quatro animais alocados em cada uma das extremidades e dez no meio. A quantidade é arredondada, sempre, para baixo.

A capacidade de carga do caminhão truck acima é 18 animais de 500kg, sendo 4 no 1º compartimento, 10 no 2º e 4 no 3º

ABATE HUMANITÁRIO
Quando são embarcados no caminhão, os animais já passaram por um jejum de quatro horas e algumas vezes ficam mais 12 horas na estrada. Para readequar o período, a Instrução Normativa 03, que está sendo atualizada, limita o período a 24 horas. A boa notícia é que as plantas frigoríficas estão se adequando. O JBS, por exemplo, já prioriza rotas mais curtas. "Delimitamos o raio de compra conforme a planta e diminuímos o tempo de viagem", confirma Everton Adriano Andrade, responsável Corporativo de Bem-estar Animal da JBS. Se o animal ultrapassou o prazo de 24 horas, é alimentado no curral do frigorífico. Existe ainda um canal aberto para que os fazendeiros acertem rotas e informem o peso médio do lote para envio dos caminhões, que são próprios e de terceiros, mas todos com motorista boiadeiro. "Nossa orientação é para que parem após os primeiros 5 a 10 km para conferir se os animais estão de pé. Algumas horas depois uma nova parada é feita", explica Andrade. Investimentos também foram realizados em capacitação. Os caminhoneiros recebem noções do comportamento animal (zona de fuga, reatividade e dominância, etc), uso racional do bastão elétrico, paradas necessárias e manutenção. Já os marreteiros e sangradores são atualizados sobre o intervalo adequado entre insensibilização e sangria (1 min), manuseio das pistolas – e ângulo de disparo – e identificação de sinais de sensibilidade, como atividade ocular, relaxamento da cauda e pedaladas voluntárias, entre outros. Câmeras também monitoram curral e zona de abate para verificar os indicadores de bem-estar animal. Com essas medidas, o frigorífico reduziu o número de lesões na carcaça de 20% para 11% em dois anos. "Mesmo assim, o prejuízo é grande para indústria e pecuarista", conclui o responsável do JBS, que já acumulou R$ 6 milhões em perdas por hematomas na carcaça.