Entrevista do Mês

 

Fazer bem! Que mal tem?

Bem-estar animal chegou a ser motivo de piada em 1990, no Brasil. Hoje, é ciência levada a sério por criadores e especialistas. Quem dá uma aula sobre o tema é o "papa" Mateus José Rodrigues Paranhos da Costa, coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO).

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Como foi começar a difundir os conhecimentos em bem-estar animal no Brasil nos idos da década de 1990?

Mateus Paranhos - Desafiador, mas estimulante. Despertava a atenção de todos os envolvidos no interesse intrínseco pelos animais (com a noção de que tratar bem era algo importante a ser feito) ou, por outro lado, pelo medo de ver seu negócio ser "perturbado" por mais um modismo importado. A maior resistência, que, me parece, prevalece até hoje, era de colegas, técnicos que atuam na produção animal e que têm uma visão apenas produtivista. Mas isso também está mudando, e para melhor. Vinte e quatro anos depois, há maior conscientização sobre a importância do tema e boa vontade para mudar.

Revista AG - Qual avaliação faz para o nível dos trabalhos realizados no Brasil atualmente?

Mateus Paranhos - Essa resposta pode ser dada considerando dois cenários distintos, mas intimamente ligados, o das unidades de produção e o do meio acadêmico. No primeiro caso, meu entendimento é de que há uma evolução lenta, mas consolidada, que veio para ficar. No meio acadêmico, estamos defasados. Há poucos grupos de pesquisas dedicando atenção especial ao tema. Enfim, ainda há muito para ser feito em ambas as situações.

Revista AG - Por si só, o fato de 30% dos abates bovinos realizados no Brasil serem clandestinos já é um fator que mostra que não promovemos o bem-estar dos nossos bovinos de corte?

Mateus Paranhos - O abate clandestino envolve muitas preocupações, além da questão do bem-estar animal, sendo que a principal diz respeito à saúde pública. No meu entendimento, a ocorrência desse tipo de abate não invalida todos os esforços feitos pelo Mapa e pelas cadeias produtivas de carnes no sentido de melhorar as condições sanitárias dos nossos produtos e o bem-estar dos animais destinados ao abate. Esses avanços têm garantido ao Brasil exportar carnes para vários países, dentre os quais alguns muito exigentes quanto a esses quesitos. A questão do abate clandestino deva ser tratada como uma situação particular. "É um caso de polícia!"

Revista AG – Surgiram muitos bons exemplos de fazendas ou empresas que priorizam o bem-estar?

Mateus Paranhos – Há muitos bons exemplos, dentre eles: Fazenda São Marcelo (Juruena e Tangará da Serra/MT), Fazenda Mundo Novo (Uberaba/MG), Nelore IRCA (São Miguel do Araguaia/ GO), Fazenda São Dimas (São Miguel do Araguaia/GO), Fazenda Bonita (Paragominas/ PA), Fazenda Água Tirada (Maracaju/MS), Fazenda Orvalho das Flores (Barra do Garças/MT). Essas são as fazendas que estamos em um contato mais frequente, há ainda muitas outras que não me recordo agora, e provavelmente existam muitas mais.

Revista AG - Entende que falta uma legislação que colabore para que o Brasil avance na velocidade que se deseja?

Mateus Paranhos - Há quem acredite que a promulgação de leis seja a maneira mais efetiva de promover mudanças. Eu não penso assim. Creio que pela educação, com ações de conscientização, capacitação e treinamento, podemos evoluir muito, e de forma durável. Temos avançado com leis e normativas que tratam de temas gerais e específicos do bem-estar animal, mas nem sempre temos condições de fazê-las valer, principalmente por falta de infraestrutura de fiscalização.

Revista AG - Hoje, muito se fala da porteira da fazenda adentro, mas como está a situação do bem-estar animal nos frigoríficos brasileiros?

Mateus Paranhos - Os grandes frigoríficos estão muito atentos a esse tema e a maioria deles possui programas próprios de bem-estar animal. A maior dificuldade está nos pequenos matadouros, reque nem sempre têm condições de infraestrutura e pessoal adequados para adotar as boas práticas de bem-estar animal durante o manejo pré-abate. Estes estabelecimentos precisam de apoio para avançar nesse sentido. Há iniciativas em andamento ("Projeto Steps, WPA/Mapa), que precisariam ser estimuladas e ampliadas.

Revista AG - Além da dignidade, o bem-estar animal é uma questão econômica. Não é verdade?

Mateus Paranhos - Há vários indicadores de bem-estar animal, dentre eles destacam-se vários que avaliam a saúde e a condição corporal dos bovinos, que são também elementos essenciais para que se alcancem boas respostas produtivas. Além disso, o estresse pode causar alterações metabólicas e fisiológicas que têm efeitos negativos sobre a qualidade das carnes, promovendo condições indesejáveis de pH, odor e cor, com efeitos negativos no valor dos produtos. Além dessas relações diretas, há também implicações econômicas de ordem comercial. Por exemplo, há restrições de certos mercados para a compra de produtos que não assegurem boas condições de bem-estar animal.

Revista AG - Há números atualizados das perdas da pecuária por lesões no gado?

Mateus Paranhos - Considerando os vários levantamentos realizados em diferentes estados do Brasil, assumimos que pelo menos 50% dos animais abatidos apresentam pelo menos um hematoma na carcaça e que cada hematoma resulta em uma perda de 500 g de carne, em média. Considerando que, no Brasil, são abatidos 40 milhões de cabeças de bovinos por ano, teríamos por volta de 20 milhões de animais com pelo menos um hematoma na carcaça, resultando na perda de aproximadamente 10 milhões de kg de carne (produto da multiplicação de 20 milhões por 0,500 kg de carne perdida por hematoma). Isso representa uma perda para a cadeia produtiva da carne bovina brasileira na ordem de 86 milhões de reais por ano, apenas com hematoma (considerando o valor da arroba aproximado de 130 reais, de acordo com o Cepea-USP no dia 11/10/2014). Acrescente-se aí a perdas por lesões vacinais. Considerando outros tipos de ferimentos, os valores podem ser muito maiores.

Revista AG - A questão do transporte ainda seria o grande gargalo a ser superado pelo Brasil?

Mateus Paranhos - Sim, é um dos grandes gargalos que temos de resolver, dada à complexidade e à incapacidade do setor produtivo de resolver todos os problemas relacionados com o transporte. Por exemplo, temos muitos problemas estruturais (estradas em mau estado de conservação, por exemplo), desafios climáticos (muito calor ou muita chuva); além de falta de rotas alternativas e de infraestrutura de apoio aos motoristas. Um exemplo seria para o atendimento em casos de emergência. Além disso, muitas das empresas responsáveis pelo transporte de cargas vivas não têm um bom planejamento da logística.

Revista AG - Animais viajando mais de 12 horas para chegar ao frigorífico ainda é realidade?

Mateus Paranhos - Essa situação ainda ocorre e infelizmente não há informações detalhadas sobre a realidade do transporte de cargas vivas no Brasil. Em um levantamento que fizemos nos estados de Minas Gerais e São Paulo, as viagens de longa distância não representaram percentual expressivo - menor que 5% do total. Entretanto, deve-se ter em conta que os riscos de prejudicar o bem-estar animal em viagens de longa distância são muito altos e que algumas poucas viagens como essas podem requesultar em problemas muito sérios aos animais, com alto risco de causar impactos negativos nas cadeias produtivas de carnes

Revista AG - Qual seria a solução para esse problema?

Mateus Paranhos - Seria necessário reduzir ao mínimo as viagens de longas distâncias, e, quando não for possível evitá-las, ter um planejamento especial, contemplando os seguintes pontos: estruturação de pontos de apoio, mecanismos para oferecimento de água aos animais e planos para resolver situações de emergência.

Revista AG - Inclusive, necessitaria de mudanças no jejum no frigorífico para que os animais não ficassem mais de 15 horas sem comer?

Mateus Paranhos - Seria importante rever o tempo de espera nos currais do frigorífico, principalmente quando o tempo de viagem entre a fazenda e o frigorífico for curto. Há pesquisas realizadas fora do Brasil que comprovam a vantagem da redução do tempo de espera nos currais quando os animais são transportados por curta distância.

Revista AG - E quanto ao cálculo da densidade para a distribuição de animais no caminhão, no momento do embarque, os pecuaristas já entenderam a fórmula proposta pelo Grupo ETCO?

Mateus Paranhos - Acho que ainda não entenderam, mas isso não é tão importante porque é evidente que eles têm uma boa noção sobre a densidade adequada. A questão é que muitas vezes há o aumento da densidade de forma intencional, como forma de reduzir o custo do transporte. Essa decisão é geralmente tomada pelo responsável da contratação do transporte (que geralmente não é o pecuarista). Há uma redução expressiva nesse tipo de problema no transporte de bovinos, mas ainda é um problema para aves e suínos.

Revista AG - Dentro da fazenda, reduziu- se o uso do manejo com bastões de choque ou pontiagudos?

Mateus Paranhos - A impressão que tenho é que sim. Era muito frequente encontrar bastões de choque ligados na rede elétrica em currais de muitas fazendas e também ferrões com pontas de ferro (às vezes com as pontas bem afiadas). Pelo menos nas fazendas que tenho visitado, não é comum ver o pessoal usando esses tipos de instrumentos no manejo com o gado.

Revista AG - Quanto aos currais, a adesão também tem sido grande aos modelos circulatórios?

Mateus Paranhos - Há um grande interesse na construção de currais que facilitem o manejo com o gado, entretanto, eles não precisam seguir necessariamente os modelos circulares, que quando mal desenhados ou mal dimensionados também podem criar problemas de manejo. No planejamento e na construção de currais, há certos princípios que precisam ser respeitados, como, por exemplo, não podem ter curvas muito fechadas, porque se dificulta o deslocamento dos animais. Além disso, devem ter estruturas que minimizem a distração dos animais durante o manejo e pisos com estrutura antiderrapante.

Revista AG - A localização desses currais tem sido escolhida erroneamente pelo produtor? Qual seria a melhor proposta?

Mateus Paranhos - Essa é uma questão muito relevante. Um dos pontos mais críticos dos currais de fazendas brasileiras é a lama. Umas das condições que resultam nesse problema é a escolha errada do local. Áreas muito úmidas, com pouca drenagem, e muito planas aumentam muito o risco de formação de lama, o que dificulta o manejo e causa muitos problemas para as pessoas que nele trabalham e para os animais. Para minimizar esse tipo de problema, deve-se fazer uma análise cuidadosa sobre a localização do curral, buscando construí-lo em um local que reduza o risco de acúmulo de água (com alguma declividade e boa drenagem). De forma complementar, deve-se entender que o curral é uma instalação que precisa ser usada para o manejo do gado, não para mantê-lo confinado por muitas horas a cada dia. A recomendação é que os animais esperem pelo início e final do manejo em piquetes localizados no entorno do curral.

Revista AG - Uso do tronco individual realmente seria o mais recomendável em comparação ao brete coletivo?

Mateus Paranhos – Depende. Para fins de aplicação de produtos injetáveis é, sim, e a razão disso é ter mais controle na aplicação do medicamento ou das vacinas. Isso porque há maior risco de acidentes e de menor eficiência no trabalho quando aplicamos os produtos injetáveis com os bovinos "soltos" no brete coletivo, uma vez que eles podem pular, deitar, dar cabeçadas, etc., resultando em maior dificuldade para realizar o trabalho.

Revista AG - Como você avaliou o fato da vinda da Temple Grandin ao Brasil?

Mateus Paranhos - Foi um momento mágico, tanto pela oportunidade de troca de experiências com ela quanto pelo significado simbólico materializado pelo reconhecimento de que estamos no caminho certo, de que há bons trabalhos sendo desenvolvidos em nosso país. Tudo isso chamou a atenção da mídia, colocando o tema em destaque nos diversos meios de comunicação. Enfim, deu projeção ao tema e reforçou, para as cadeias produtivas de carnes, a importância de se adotar as boas práticas de bem-estar animal nas suas rotinas de manejo.

Revista AG – Calcula quantos anos mais para o bem-estar animal ser realidade na maior parte das fazendas brasileiras?

Mateus Paranhos - Essa é uma pergunta muito difícil de responder, porque o tempo necessário para que a maioria das fazendas brasileiras adotem estratégias de criação e manejo que promovam o bem-estar animal irá depender de várias ações, como a conscientização da população brasileira, a capacitação e o treinamento das pessoas envolvidas com a criação e o manejo dos animais de produção; e a produção de peças legislativas. Atualmente, as ações mais frequentes estão focadas na educação, ocorrendo uma série de iniciativas para treinar as equipes das fazendas e dos frigoríficos, bem como do transporte. Há também algumas iniciativas legislativas em andamento, mas ainda com pouco impacto sobre a realidade atual. A oportunidade de promover mudanças sem a pressão da lei me parece muito positiva, porque demonstra que a promoção do bem-estar dos animais de produção parte do próprio setor produtivo. Se as coisas continuarem assim, creio que as falhas de manejo serão minimizadas. Quem sabe, talvez dentro de dez anos, poderemos dizer que a maioria das fazendas oferece boas condições de bem-estar para seus animais.