Raças - Senepol

 

SENEPOL impulsiona pecuária brasileira

Adaptado é arrojado e pode colaborar com o mercado mundial de qualidade de carne

Erick Henrique
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O mês de setembro foi muito especial para o Senepol, quando a raça celebrou, na cidade mineira de Uberlândia, o 1º Congresso Internacional da Raça Senepol e a 37ª Convenção Anual da Senepol Cattle Breeders Association, ambos organizados pela Associação Brasileira de Criadores Bovinos Senepol (ABCB Senepol), de 1 a 5 de setembro.

Como em outros eventos, a tônica do congresso girou em torno do fornecimento de alimento para as gerações futuras e o papel do Brasil na criação dos bovinos que vão gerar boa parte da carne necessária, bem como do discurso do professor Roberto Rodrigues, que versava sobre o bom cenário para pecuária de corte, principalmente nos países em desenvolvimento.

Segundo dados apresentados por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV/EESP, durante o evento, apontam que o continente asiático será responsável por 56% da demanda global de proteína vermelha nos próximos dez anos. Nos últimos dois anos, Hong Kong já ultrapassou a Rússia como maior comprador da carne brasileira.

Entretanto, o setor esbarra no mesmo dilema dos demais segmentos econômicos: os gargalos da logística. O país também procura avançar, especificamente no caso da pecuária, nos acordos bilaterais, como um que vem sendo negociado com os Estados Unidos para exportação de carne in natura, um marco para entrada do Brasil nos países que mais remuneram a carne bovina.

A maturação de outros acordos firmados com a União Europeia e países do Mercosul também deverão proporcionar boas perspectivas aos pecuaristas brasileiros. E para aproveitar o excelente momento, investir em tecnologia tornou-se imperativo para aumentar a produtividade, assim como aumentar os investimentos em centros de pesquisa e nos protocolos de defesa sanitária e fitossanitária.

“Se estamos falando que o Brasil vai contribuir muito no abastecimento de proteína vermelha no mundo, precisamos ter um parâmetro de qual genética é funcionalmente melhor para o negócio de produção de carne”, afirma Gilmar Goudart, presidente da ABCB Senepol. O dirigente refere-se a uma particular preocupação quanto à necessidade de uma sintonia global entre as entidades representativas do Senepol, que é uma raça que já está contribuindo mundialmente para o abastecimento de carne bovina.

“Já temos um grande grupo de associações que compartilham dessa ideia. E não há como fugir. Pelo crescimento e pela importância que a raça vem adquirindo para aumentar o volume e a qualidade da carne produzida, é preciso adotar alguns procedimentos de alinhamento em todo o mundo”, avalia, comemorando também a experiência única vivida nesse Congresso, que reuniu renomados especialistas, com ótimo conhecimento técnico e visão muito clara do agronegócio brasileiro. O objetivo é desenvolver uma espécie de certificação mundial para a genética Senepol produzida, bem como a “homologação” de cruzamentos feitos com a raça.

Seleção genética

Entretanto, antes de almejar o mercado mundial, é necessário aperfeiçoar o sistema de melhoramento genético. Entre pontos fundamentais, existe a necessidade crescente de se aprofundar os estudos de eficiência alimentar, afinal, 80% do custo de produção na pecuária de corte vêm da nutrição.

Não é porque um animal consome muita matéria seca diariamente que ele é capaz de alcançar as metas esperadas de ganho em peso. Essa é uma característica que varia de acordo com cada bovino e, portanto, em um mesmo plantel, uma parcela de animais poderia gerar gastos de manutenção que poderiam ser evitados com o seu descarte.

Pesquisadores como o zootecnista e gerente de Corte da CRV Lagoa, Cristiano Leal, um dos palestrantes do Congresso, vêm avaliando os resultados de desempenho em 21 raças diferentes, entre os quais estão 180 animais Senepol que já passaram pelo Centro de Performance da central. Uma parceria entre a empresa e a ABCB Senepol poderá resultar em um projeto pioneiro nesse sentido.

Seria a realização da primeira prova de eficiência alimentar e do Senepol mundial no Brasil, através do Growsave, sistema de origem canadense usado no mundo inteiro. O aparelho é composto basicamente por um cocho eletrônico acoplado a uma balança também eletrônica, de forma que todo alimento que entra ou sai do cocho é computado. “No cocho onde é colocada a dieta do animal existe uma antena e uma célula de leitura. O animal tem um brinco com chip eletrônico na orelha e assim que ele coloca a cabeça no recipiente para se alimentar são geradas informações de quanto ele consumiu instantaneamente. Os dados são transmitidos via rádio para um painel em nosso escritório central”, explica Leal.

No Centro de Performance, os dados são processados e enviados automaticamente para a repartição do Growsave no Canadá. De acordo com Leal, é possível avaliar o rebanho no grupo contemporâneo, sem precisar ter baias individuais para saber qual o bovino e quando ele está comendo.

Para demonstrar os resultados da prova com o Senepol, Cristiano Leal mostrou para a plateia do 1º Congresso ABCB Senepol como o processo ocorre. “É montado um grupo contemporâneo, com uma diferença máxima de 90 dias de idade entre o animal mais velho e o mais novo. Como temos um grande volume de gado em avaliação, nós dividimos em dois grupos de 60 dias de intervalo, uma vez que precisamos rodar uma prova com o mínimo de 40 animais por grupo”.

Cristiano Leal divulga uma parceria inédita com o Senepol para avaliação de eficiência alimentar

Primeiramente, são avaliadas as características de desempenho e circunferência escrotal e depois são gerados gráficos com DEPs padronizadas. Outro ponto priorizado é a avaliação de carcaça (área de lombo, espessura de gordura e marmoreiro). Essa última característica não faz parte do Índice CP (Centro de Performance), porque, independentemente da raça, os animais são muito jovens. A intenção desses testes elaborados pela CRV Lagoa não é preconizar o crescimento do rebanho e sim identificar os animais com melhor conversão alimentar.

O cálculo do Consumo Alimentar Residual (CAR) é obtido a partir da diferença entre o consumo de alimento real e o esperado, considerando o peso vivo (PV) e ganho de peso diário (GPD) de cada animal. Conforme a bateria de testes alimentares do Senepol e de diversas raças, os pesquisadores da CRV Lagoa vêm analisando os bovinos mais eficazes, que consomem menos do que o esperado e são nomeados como CAR negativo, em contraste aos menos rentáveis, pois consomem mais do que o esperado (CAR Positivo).

É importante destacar que animais estruturalmente semelhantes podem apresentar GPDs parecidos, porém, com a variação na ingestão diária de alimentos e mesmo bovinos com consumo alimentar similar podem apresentar alteração no GPD. Em síntese, os resultados de eficiência nutricional do Senepol são impressionantes. A equipe da CRV Lagoa calcula um ganho de peso estimado em 1,1 kg/dia para todas as raças, porém, o Senepol pode chegar a 1,7 kg/dia.

Outro ponto importante a ser destacado é a Ingestão de Matéria Seca (MS) do adaptado. Quando seria esperado um consumo de12 kg de MS/ dia para que conseguisse um nível de eficiência considerado bom, o gado que nasceu nas Ilhas Virgens o atingiu consumindo apenas 10 kg MS/dia.

Nos gráficos analisados após os testes, a correlação de ganho de peso com a eficiência alimentar é muito baixa. “Teve animal extremamente ganhador de peso diário, no entanto, ele consumiu 1,1 kg/dia a mais de MS do que ele deveria ingerir. Por outro lado, houve caso de animal que ganhou 1,4 kg/dia, comendo menos de 1,7 kg/MS/dia”, conclui. De acordo com cálculos do pesquisador, essa economia na prova de eficiência alimentar de 90 dias em confinamento pode chegar a R$ 160.

Decerto selecionar é investir e a eficiência alimentar pode gerar um lucro de 12% ao dia, tratando-se de uma característica de média e alta rentabilidade. Segundo os dados avaliados pelo grupo de melhoramento genético de Sertãozinho/SP, o Senepol encaixa-se como um ótimo investimento ao criador, sugere Leal na palestra. E as qualidades da raça não se limitam apenas na eficiência alimentar.

Dados da ABCB apontam que os rendimentos de carcaça atingem índices entre 54 e 56%, com cobertura de gordura variando de 3 a 6 mm, bem como 95% de prenhezes obtidas por monta natural, ratificando sua funcionalidade em condições de pasto. No abate de animais meio- -sangue Senepol x Nelore, o adaptado obteve ótimos resultados. Foram abatidos precoces, com idade entre 21 e 22 meses, e apresentaram uma média de [email protected] de peso para os machos e [email protected] para as fêmeas.

Evento contou com a presença de Hans Lawaets, fundador da Associação Americana de Senepol

O aproveitamento de carcaça oscilou entre 56,7 e 53,95%, respectivamente. O acabamento de gordura girou entre 4,7 e 10,2 mm e a área de olho de lombo atingiu a média de 81,21 cm².

Acima de tudo, é preciso entender a origem do taurino adaptado para consolidar que é um investimento seguro. Sua história e genética estão atreladas à combinação de duas raças: o N’Dama e Red Poll. O primeiro é um Bos Taurus, resistente ao calor, a insetos, parasitas e doenças. Originário de Senegal, foi introduzido na Ilha de Saint Croix, Ilhas Virgens, em 1800. Porém, o desempenho produtivo fora inferior ao previsto pelos criadores da ilha caribenha. Com a finalidade de atingir melhor produtividade, em 1918, Bromley Neltroop, filho de um dos maiores criadores de N’Dama de Saint Croix, adquiriu um touro Red Poll do Ministério da Agricultura de Trinidad para que se iniciasse o cruzamentos com as fêmeas N´Dama. O Red Poll é conhecido por sua qualidade de carne e carcaça.

O objetivo de Bromley era criar uma linhagem de gado que combinasse atributos necessários com destino a uma boa produtividade em condições tropicais. Além disso, a seleção foi dirigida em busca das seguintes qualidades: precocidade sexual, cor vermelha, pelos curtos, ausência de chifres, tolerância ao calor, conformação frigorífica, boa produção de leite, docilidade e produção de carne macia.

No fim da década de 1940, a linhagem de adaptados de Bromley já havia se disseminado por toda a ilha, com troca contínua de material genético entre os pecuaristas locais. Em 1954, o nome Senepol foi registrado em Porto Rico e nos Estados Unidos, como “Saint Croix Senepol”. O primeiro lote com 22 animais chegou aos EUA em 1977, especificamente nos estados do Sul do país. Ademais, a raça teve um significativo desenvolvimento, devido ao trabalho de criadores e instituições de pesquisas.

No evento organizado pela ABCB Senepol, Hans Lawaets, um dos primeiros criadores do adaptado nos Estados Unidos e fundador da Senepol Castle Breeders Association (SCBA), em 1976, reconhece a atual presidente da associação venezuelana de criadores, Beatriz Dias, como a embaixatriz da raça na America Latina. “Ela foi para ilha de Saint Croix, em 1980, com um jato particular e cinco compradores, para adquirir Senepol. Foram quatro aviões Boing carregados de gado com destino à Venezuela em apenas um dia. De 2001 a 2004, compradores venezuelanos compraram adaptado da Ilha,” acrescenta o vice-presidente da SCBA.

Hans garante que a entidade norte-americana sempre esteve preocupada com os critérios de seleção, os dados estatísticos de performance, como peso ao nascer e à desmama. Como resultado, os animais abaixo das metas estipuladas são descartados. Hoje, o adaptado pode ser encontrado ao redor do mundo em países como Austrália, Canadá, República Dominicana, Equador, Argentina, Costa Rica, Porto Rico, México, Filipinas e África do Sul. O Brasil, que introduziu o Senepol apenas há 14 anos, através da Família Arantes, possui o maior rebanho Senepol do mundo atualmente.

A raça Senepol pode ser utilizada em diversas estratégias para produção de carne, no entanto, seu grande diferencial é viabilizar o uso de genética taurina em sistemas de produção desenvolvidos em condições tropicais. Seu grande diferencial é permitir a adoção de monta natural graças à sua adaptabilidade aos trópicos, além dos atributos de fertilidade, facilidade de parto, produtividade e padronização da bezerrada, uma característica peculiar dessa raça.

Sumário de Touros Senepol é lançado durante o Congresso Internacional da Raça Senepol

No quesito monta natural, o Senepol permite a produção de cruzados com maior heterose, cooperando para a elevada produtividade do rebanho e produção de carne mais macia. Sobre a importância da adaptabilidade, o doutor em Reprodução Animal, Júnior Fernandes, palestrante no Congresso, explica em detalhes: “o cruzamento industrial entrou em um declínio muito grande no passado porque taurinos não adaptados foram introduzidos, inadvertidamente, na monta natural em nosso país. Foram usados touros que não tinham condições de procriar por longos períodos, embora taurinos como o Red Angus e Simental (só para ilustrar) sejam raças excelentes, ainda não estavam ambientados para caminhar pelo Brasil Central, por duas, três e até seis estações de monta”, conclui o doutor.

Eficiência alimentar do Senepol foi amplamente discutida no Congresso Internacional da Raça Senepol

Outra estratégia dos técnicos da ABCB Senepol são os programas de melhoramento genético da raça, elaborado pela Embrapa Gado de Corte. Denominado Geneplus, o programa tem a responsabilidade de processar e classificar os dados obtidos a campo. Da mesma forma, aplicar procedimentos adequados de avaliações genéticas e gerar relatórios técnicos contendo as estimativas dos valores genéticos em termos de DEPs, touros, matrizes, produtos de toda população envolvida, bem como disponibilizar outras ferramentas complementares de seleção e acasalamento, por meio de um software próprio.

A meta do Programa de Melhoramento Genético da Raça Senepol é identificar animais geneticamente superiores capazes de contribuir para a permanente melhoria das características de conformação frigorífica e de qualidade da carne, em sintonia com os sistemas de produção de gado de corte predominantes no Brasil, uma vez que características de adaptabilidade e funcionalidade são de fundamental importância. Até o mês de agosto de 2014, o grupo de criadores assistidos pelo Geneplus soma 35 fazendas e, em torno de 7.900 matrizes contratadas. As fazendas estão localizadas nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rondônia e São Paulo. Recém-publicado, o Sumário Senepol contém dados de progênies nascidas no período de 1980 a 2014, que, depois de submetidos às devidas análises de consistência, totalizaram 40.452 animais com registros válidos. Esses produtos referem-se a uma população Senepol de 52.540 cabeças.

Buscando conformidade com as exigências dos frigoríficos, os criadores do adaptado estão fechando um programa de fomento com o Grupo JBS, na qual os criadores participantes receberão uma bonificação ao cumprir determinadas exigências, entre qualidade de carcaça e escala produtiva. Trata-se do programa “No Ponto”.

Entram para a cota “Macho Castrado” os machos que apresentarem características como melhor acaba- Eficiência alimentar do Senepol foi amplamente discutida no Congresso Internacional da Raça Senepol Divulgação REVISTA AG - 39 mento de gordura e precocidade. Como recompensa, o frigorífico bonifica o produtor com o teto de R$ 8,00/@ de boi gordo, com base na cotação do Cepea/USP.

“É preciso encontrar o ponto certo de engorda, porque nós ganhamos rendimento de carcaça, resultando em renda para o produtor e qualidade de carne ao consumidor final”, explica Eduardo Pedroso, convidado para apresentar o programa aos criadores presentes no Congresso.

O JBS ainda concede uma bonificação de R$ 9,00/@ para os animais que possuam, no mínimo, 50% de sangue de taurino britânico, o que o frigorífico intitula “Cota Raças Britânicas”. Nela, aceitam-se fêmeas e machos, tanto castrados quanto inteiros. “Para receber todas as premiações, pelo menos metade dos animais do lote precisam conseguir a classificação “No Ponto”, indicada na cor verde no farol de Qualidade da JBS”, informa Pedroso.

A confiança do presidente Gilmar Goudart sobre a comercialização da carne Senepol no programa resume-se em números. “O grande futuro é esse. A heterose proporcionada no cruzamento do taurino x zebuíno proporciona um rendimento de 30% a mais de carcaça. Assegura uma carne de melhor qualidade, excelente coloração, ótimo acabamento de gordura, mais maciez e, nos abates técnicos, enquadra-se dentro da cota Hilton, então o otimismo é muito grande”, disse o presidente da ABCB Senepol.

Segundo informes da associação, o rebanho atual de Senepol PO gira em torno de 31.000 cabeças. Criadores e centrais de sêmen comercializaram, no último ano, 117.750 mil doses da raça. A proposta do taurino adaptado é oferecer produtividade a pasto. O Senepol cobrindo a vacada mãe do Brasil (Nelore) agrega heterose de 30% e de oito a 12 meses de precocidade no abate, gerando uma expressiva economia para a fazenda.

Segundo Gilmar Goudart, é preciso uma melhor sintonia entre as associações da raça no mundo

Para Goudart, investir no Senepol é lucro certo. E toda essa informação esteve disponível a quem acompanhou o 1º Congresso Internacional da Raça Senepol e a 37ª Convenção Anual da Senepol Cattle Breeders Association. O evento contou com a presença de renomadas lideranças do agronegócio, que discorreram sobre diversos assuntos da pecuária brasileira, das perspectivas para o setor e qualidade de carne ao melhoramento genético da raça no mundo.

Igualmente importante, durante a programação, foram ofertados animais de prestigiados plantéis. Foram quatro leilões realizados pelos Parceiros do Senepol, Agropecuária Nova Vida e Senepol 3G. Um deles ofertou embriões doados por associados, com toda a renda sendo revertida para o Hospital do Câncer de Uberlândia. “A semana foi maravilhosa, conseguimos doar 12 lotes em prol do Hospital, com os quais arrecadamos R$ 1.215.000 líquidos”, conclui o presidente da ABCB Senepol.