Escolha do Leitor

Pastoreio VOISIN

Informações x Contrainformações

Jurandir Melado*

Em 2007 publiquei em site ambientalista artigo sobre pastagens sustentáveis. Relatava meu primeiro encontro com o Pastoreio Voisin (PV) ainda como estudante de Agronomia na Universidade Federal de Viçosa. Vislumbrei largo e promissor caminho para a pecuária brasileira nas regiões tropicais. Englobado no conceito de produção sustentável, defendido por cientistas sérios e independentes e a sociedade civil em quase todos os países, essa experiência consolidou-se.

É comum, porém, encontrarmos declarações atribuídas a técnicos (até mesmo entre os mais graduados), que demonstram ignorância sobre os fundamentos do PV e a falta de experiência própria com o sistema. Alguns dizem ainda que esse sistema está obsoleto ou que o mesmo se aplica apenas a casos específicos... Essas críticas geralmente partem de quem jamais estudou, pesquisou ou aplicou na prática o sistema formalizado pelo PV É o mesmo que digo sobre comer peixe cru: "não provei e não gostei".

Fiquei muito feliz pela "Escolha do Leitor" da Revista AG, por uma matéria sobre PV e lisonjeado pelo convite do seu editor para escrever o artigo... Mas também fiquei em um dilema: o que escrever que já não tenha sido exaustivamente explorado anteriormente? Optei então por não sobrecarregar o leitor, restringindo- -me a informações nem sempre encontradas de forma clara. Listo algumas generalidades sobre o sistema:

• O PV é regido pelas "4 leis universais do Pastoreio Racional" formuladas por André Voisin: Lei do repouso, Lei da ocupação, Lei da Ajuda e Lei dos Rendimentos Regulares. Essas regras podem ser facilmente encontradas em qualquer livro ou bom artigo técnico sobre o sistema.

• No PV, uma recomendação básica (tema da 1ª lei) é sobre a necessidade de descansos variáveis das pastagens. O sistema não pode, portanto, ser confundido com o Pastoreio Rotativo Simples, com períodos fixos de descanso!

• O PV rege que o período de ocupação de uma parcela (tema da 2ª lei) seja o menor possível. Ou seja, recomenda- -se a maior intensificação possível (maior número possível de animais, na menor parcela possível, pelo menor tempo possível)! São inúmeras e tão verdadeiramente incríveis as vantagens da intensificação, que esse tema poderia ser objeto de um artigo exclusivo!

Não é possível, com um número reduzido de parcelas, atender simultaneamente as duas primeiras leis universais, ou seja: período de repouso conveniente, com curtos períodos de ocupação. Então, quanto maior número de parcelas, melhor! Não menos que 40 parcelas para cada módulo de pastoreio. Com o uso de cercas elétricas móveis, podemos transformar um número relativamente reduzido de piquetes em grande número parcelas.

• O PV é aplicável em qualquer escala. Podemos ter em manejo Voisin desde um lote com pouquíssimos animais até grandes lotes. Tudo depende da arquitetura e escala do projeto

• Adubar ou não adubar as pastagens. O PV não proíbe a adubação das pastagens. Apenas afirma que, em grande parte dos casos, a adubação química é desnecessária, em função da "parcagem", ou seja, pela deposição concentrada dos dejetos do próprio gado, que estimula o desenvolvimento da "biocenose" (vida do solo), que atua na decomposição de restos vegetais e na disponibilização de nutrientes antes indisponíveis no solo. Devemos sempre lembrar que parte da mineralização e/ ou suplementação dos animais é devolvida ao solo através dos dejetos. Ou seja, estamos permanentemente "adubando" indiretamente as pastagens através do gado!

Adubos altamente solúveis (ureia, por exemplo) devem ser evitados, por terem efeito danoso sobre a microvida do solo. Na realidade, a adubação altamente solúvel é uma "injeção na veia da planta", que não tem efeito na melhoria do solo, o que deve ser uma preocupação permanente nossa.

• A utilização de estacas vivas de Gliricídia sepium (leguminosa arbórea) nas cercas dos projetos traz inúmeras vantagens: substitui uma estaca que seria comprada; promove sombra para o gado; incorpora ao solo N atmosférico; as folhas e os ramos servem de suplemento alimentar para o gado na época de escassez.

Cerca elétrica constuída com estacas vivas ajudam a delimitar áreas do Pastoreio Racional Voisin e promovem outros benefícios

• Estratégias para compensação das variações estacionais. No manejo Voisin, deve-se ter sempre em mente a grande diferença na produção de forragem nos períodos de chuva e de seca. Temos de prever estratégias para compensar essa variação. As principais armas são: diferimento de piquetes para a estação seca, o uso de feno e silagem e a utilização de "bancos mistos de forrageiras", que, formados com diversas espécies, substituem com vantagem as usuais "capineiras", com monocultura de capim-elefante ou cana.

O PV estimula a cooperação entre todos os fatores envolvidos. Consegue- -se um equilíbrio dinâmico positivo entre o solo, a pastagem e o gado, com cada fator exercendo um efeito positivo sobre os outros dois. Costumo dizer que, com o PV, convertemos o gado de elemento predador a colaborador do meio ambiente. Em outras palavras, o bandido do filme é convertido em mocinho!

Essa cooperação reflete também entre os estudiosos e simpatizantes do PV, entre os quais a disposição para parcerias e a cooperação é a ordem geral. Aproveitando essa deixa, registro algumas declarações sobre o PV, de colegas que contam com minha admiração e respeito:

Em comunicação recente por e- -mail, o André Sorio (eng. agrônomo e consultor voisinista de grande sucesso) referia-se assim ao PV: "O consumidor moderno exige, além de um produto com alta qualidade intrínseca, também responsabilidade social e ambiental no processo produtivo. Assim, o PV apresenta-se como o modo de produção intensiva que é capaz de fornecer a carne que esse consumidor almeja – respeito às peculiaridades do ecossistema de pastagens, maior rentabilidade ao pecuarista e menor dependência de insumos externos à propriedade. É o manejo ecológico das pastagens, com alto desempenho produtivo e econômico. Por esses motivos, a adoção do sistema é crescente, tendo se intensificado fortemente em anos recentes."

Há muitos anos, durante visita à Fazenda Ecológica, Jean Dubois (eng. florestal, fundador da Rebraf – Rede Brasileira Agroflorestal e autor do "Manual Agroflorestal para a Amazônia") usou pela primeira vez a expressão "Sistema Voisin Silvipastoril" para se referir à pastagem ecológica, contribuindo assim para a nomenclatura usada a partir daí: Manejo de Pastagem Ecológica – Sistema Voisin Silvipastoril.

Nilo Ferreira Romero, eng. agrônomo e produtor rural de Bagé/RS, pioneiro na implantação do PV no Brasil, lúcido com seus 92 anos de idade, em e-mail recente fala sobre o meio século de PV na Fazenda Conquista "sempre com muito êxito", de 1963 até os dias de hoje. Menciona também os milhares de visitantes anuais, de diversas partes do mundo, que vieram conhecer o projeto Voisin pioneiro, deixando registradas suas declarações impressionadas nos inúmeros livros de visita. O PV da Fazenda Conquista registra uma média histórica de 300 kg/ha/ano de ganho de peso vivo dos animais em engorda, quando nos campos no entorno da fazenda, manejados convencionalmente, alcançam- se resultados médios de apenas 70 kg/ha/ano.


Carta do prof. Luiz Carlos Pinheiro Machado a Maurício Lopes referente à citação sobre o Pastoreio Racional Voisin

Senhor Editor, Encareço a publicação da seguinte carta dirigida ao presidente da Embrapa, Sr. Maurício Lopes, em razão da afirmação sobre o Pastoreio Racional Voisin (PRV) na "Entrevista do Mês", edição 179, de Agosto de 2014.

Reporto-me à sua infausta e néscia afirmação onde V.Sa. afirma: "O manejo do pastejo preconizado por Voisin, na década 1950, baseado em períodos fixos de descanso da pastagem tornou-se obsoleto".

Para que V.Sa. não labore em novos equívocos nessa área, dada a responsabilidade do cargo que ocupa (que também ocupei, em outro contexto, é óbvio) permita-me explicar-lhe, rapidamente, o que é o PRV, método alicerçado nos princípios da fisiologia vegetal e da vida do solo, onde os tempos de repouso e de ocupação sempre são variáveis.

Quanto à expressão pastejo, trata-se de neologismo (inexistente nos dicionários pré-revolução verde) que pretende substituir a expressão correta de pastoreio, palavra que significa o "encontro da vaca com o pasto, comandado pelo humano".

O PRV, expressão criada por nós em 1970, quando foi fundado o Instituto André Voisin (Declarado de Utilidade Pública pelo Dec. nº 23.131, de 7 de junho de 1974, do Governo do Rio Grande do Sul) com a finalidade de "difundir os princípios emanados por André Voisin a partir das Leis Universais do Pastoreio Racional e consagrar o seu nome."

São quatro as Leis Universais do Pastoreio Racional: a Lei do tempo de repouso da pastagem, sempre variável, que identifica o tempo ótimo de repouso, quando a pastagem, numa relação alelomimética, deve ser pastoreada; a Lei da ocupação da pastagem, igualmente sempre variável; a Lei do rendimento máximo e a Lei do rendimento regular. Jamais Voisin preconizou o manejo dos pastos através de períodos fixos. As leis foram divulgadas em vários veículos e publicadas no livro Productivitée de l'herbe, edição Flammarion, Paris, 1957. Voisin publicou várias outras obras traduzidas para 14 idiomas.

Para o cumprimento das Leis Universais do pastoreio racional é indispensável preparar-se a área com a sua divisão em parcelas, no mínimo 60, todas com água, pois em PRV a água vai ao animal e não o contrário. Esse e diversos outros conceitos têm sido incorporados aos projetos, indispensáveis para a implantação do método. Hoje são cerca de 300 projetos empresariais em 12 países, cobrindo perto de 250 mil hectares.

Com esses esclarecimentos, creio ter demonstrado a ausência de verdade em sua declaração e desfeito a confusão de sua posição.

Entretanto, em respeito às numerosas manifestações de desagravo que recebi, considero necessário fazer mais alguns esclarecimentos.

O PRV, como é chamado em nossa intimidade, é o método mais moderno, mais eficiente e mais econômico para produzir-se leite, carne ou lã a pasto. É, hoje, um método universal. A Patagônia Chilena, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Colômbia (onde será realizado o III Encontro Pan-Americano, em 2016), a Bolívia, o Equador, a Venezuela, Cuba, o Panamá, a República Dominicana, o Canadá, os Estados Unidos, a Espanha e, naturalmente, o Brasil, são países onde o PRV está sendo implantado, pesquisado e crescendo porque é um método superior, que recupera a fertilidade do solo por sua atividade biológica, que não contamina o ambiente, ao contrário, é um enorme sequestrador de carbono, dispensa o uso de venenos e fertilizantes solúveis de síntese química.

Para citar apenas um exemplo no exterior, o professor Bill Murphy (que conheceu o PRV em seu doutorado no Brasil, na UFSM) desenvolveu um intenso trabalho de pesquisa e extensão em PRV na Universidade de Vermont, USA. A repercussão de seu trabalho se expressa na publicação de várias edições (mais de quatro) de seu livro sobre o PRV, "Green Pastures On Your Side Of The Fence – Better Farming With Voisin Management Intensive Grazing".

No Brasil, o PRV é conhecido em todo o país. O Instituto André Voisin já promoveu 72 cursos de formação aqui e no exterior, inclusive na Espanha; com o patrocínio do Núcleo de Pesquisa e Extensão do LETA, UFSC, e a participação de várias universidades e instituições públicas e privadas, já se realizaram dois Encontros Pan-Americanos, um em Chapecó/SC, setembro/outubro de 2011 e, outro em Pelotas/RS, abril de 2014. Esses encontros têm tido a participação importante de vários órgãos oficiais. O segundo encontro teve a contribuição da UFPel, da UFSC, da Embrapa – Clima Temperado, Emater e Incra, entre diversas outras. Seria fastidioso enumerar todas as realizações do PRV. Só no Programa Leite Sul, financiado pelo Incra, cerca de 10.000 pequenos produtores dos três estados sulinos abandonaram os pacotes do agronegócio e, com o PRV, saíram e estão saindo de uma situação de miséria, pobreza e abandono da atividade para uma produção limpa e prazerosa. No Oeste de SC, com programas desenvolvidos pela UFSC, há produtores de leite com médias na ordem de 20L/vaca/dia, apenas com pasto, com PRV. Não é verdade, portanto, que Voisin tornou-se obsoleto. É e está cada vez mais vigoroso.

É, ainda oportuno registrar que a UFSC e a UFFS têm cursos de graduação e pós-graduação voltados para o PRV, e as "Residências agrárias" dos movimentos sociais do campo adotam o PRV como método capaz de auspiciar renda e lucro aos pequenos agricultores, sem contaminar o ambiente. Essa é a realidade!

Hoje, 50 anos depois de ter sido implantado o primeiro projeto de PRV do mundo, em Bagé/RS, o PRV é uma frondosa e insuperável árvore,cujos frutos estamos colhendo e que há de continuar crescendo, ganhando seguidores por todos os cantos do Planeta e gerando alimentos e produtos limpos, sem venenos, como demanda e espera a humanidade. Essa é a nossa responsabilidade!

Atenciosamente,
Luiz Carlos Pinheiro Machado
Presidente do Instituto André Voisin e ex-presidente da Embrapa


Humberto Sorio Junior é um colega muito querido, o qual considero o principal consultor de PV existente. Recentemente, o Humberto foi finalista do Prêmio Consultor – Profissional de Campo do Beef Summit Sul 2014 e concedeu uma entrevista ao site BeefPoint com a seguinte conclusão:

Jurandir Melado defende e realiza cursos sobre o Pastoreio Racional Voisin

A pecuária é atividade rentável e ecologicamente sustentável em todas as regiões brasileiras. Pois, para dobrar e até triplicar seus rebanhos não há necessidade de desmatamentos e incorporações de novas áreas de pastagens, mas sim em utilizá-las de forma intensiva e racional, como já atestam milhares de projetos de PV em curso no Brasil, nas mais variadas condições de clima, solo e espécies de pastos.

Sistema Voisin Silvipastoril

Tenho afirmado que o Pastoreio Racional Voisin (PRV) é o mais perfeito sistema de manejo de herbívoros a campo. E também que qualquer sistema que apresentasse melhores resultados que o PV deveria ser fatalmente uma aplicação ou aperfeiçoamento deste. É assim que considero o Sistema Voisin Silvipastoril. O Manejo de Pastagem Ecológica pode ser formalizado em qualquer região onde se verifique diversificação de forrageiras, arborização adequada, manejo segundo os preceitos do PV e exclusão de procedimentos considerados prejudiciais (manejo com fogo, adubação com adubos altamente solúveis e roçadas sistemáticas).

A experiência tem mostrado que uma pastagem qualquer pode ser convertida em uma Pastagem Ecológica no curso de poucos anos, com aplicação dos conceitos acima. Boas informações sobre PV podem ser lidas nos sites www.fazendaecologica. com.br, www.aba-agroecologia. org.br, www.sistemavoisin.com. br e www. noticias.ambientebrasil.com. br. Basta procurar os artigos publicados. Consulte também a edição número 173 da Revista AG, de fevereiro de 2014, na mesma seção "Escolha do Leitor", onde há, inclusive, a apresentação das quatro leis mencionadas anteriormente.

(*) Jurandir Melado é engenheiro-agrônomo, professor aposentado da UFMT, consultor e autor de livros e artigos sobre Manejo Sustentável de Pastagens – [email protected]

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