Do Pasto ao Prato

SEM EXTREMOS


VELHA REGRA SEGUE VALENDO

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

O assunto tamanho dos animais e o impacto na produtividade das explorações pecuárias é tema antigo e por vezes polêmico, porém, segue valendo abordá-lo com algumas atualizações de nossa realidade. Em um passado recente, discutia-se somente a questão do "tamanho adulto" ou "tamanho da vaca" e as consequências no rebanho de cria e do produto final (novilho ou carne). Atualmente, temos outros itens que podem se somar a essa discussão e também com defensores fervorosos: os animais de maiores índices, Top 1% (e até Top 0,1%), os Deca 1, os melhores marcadores moleculares, etc.

Pois bem, novamente voltamos a discutir se devemos rumar para extremos no uso de reprodutores (o que pode parecer mais fácil) ou identificar animais ditos "equilibrados" e que contribuam mais com a produção em todas as etapas.

De forma bem simplificada e, até um pouco grosseira, devemos entender como se comportam tipos bem diferentes de animais em condições regulares de produção (a pasto):

ANIMAIS GRANDES (TARDIOS)

São os animais que mais nos impressionam fenotipicamente e, normalmente, são os indivíduos Top para características de ganho de peso (Ex: Top 0,1% para Peso ao Ano ou Peso Final). Esse tipo de genética nos leva à seguinte estrada na produção "a pasto":

Nesse caso, temos alto potencial para ganho de peso, entretanto, com exigências nutricionais maiores. É o perfil mais frequente e mais premiado nas exposições.

ANIMAIS PEQUENOS (PRECOCES)

Comumente, são menos buscados pelos produtores, pois são animais de menor desempenho, todavia também existem correntes de pensamento que os defendem como "única" alternativa de produção a baixo custo em sistemas a pasto. Entre prós e contras, eles se apresentam em geral da seguinte forma:

Então, nessa situação, temos baixos custos de manutenção e também baixo desempenho. Esse tipo de genética não costuma "figurar" nas pistas de exposições, especialmente de animais de elite.

É simples perceber que há um desequilíbrio entre crescimento (ganho de peso) e reprodução (eficiência do rebanho de cria) e que nenhum dos dois extremos nos leva a uma situação de balanço entre eficiência na fazenda e qualidade do produto final (novilho).

Não há como esperar que somente um tipo de genética seja o melhor para todas as circunstâncias. Costumo comparar touros com carros: um "Mil" custa pouco, é econômico e não alcança grandes velocidades. Assim como um "V8" custa mais, gasta bastante combustível e cola o velocímetro nos 200 km/h. Para touros, temos os dois extremos e também o meio termo.

Neste momento, o comportamento do mercado de inseminação, especialmente para cruzamento, parece não estar muito atento a essa situação e vem mantendo preferência por touros com altos índices e, normalmente, mais "tardios". Essa decisão pode ser adequada para cruzamentos terminais e engorda em confinamento, porém, para criadores que pretendem reter as fêmeas para reprodução ou que realizam engorda a pasto, com certeza não é a melhor opção em genética.

Recentemente, a central de inseminação CRV Lagoa passou a categorizar os touros Angus de sua bateria em quatro grupos, em diferentes cores: extensivo, semiextensivo, semi-intensivo e intensivo. Essa simples orientação é uma importante informação para auxiliar na decisão do tipo de genética, pois sistemas de produção diferentes necessitam de touros diferentes.

A boa notícia é que temos cada vez mais farto arsenal de informações para melhor escolher genética e reprodutores: informações de pedigree, avaliações genéticas (DEPs), índices genéticos relacionados aos escores visuais e biótipo dos animais (CPMT ou EPMURAS), avaliação de carcaça por ultrassonografia (indicando- nos também animais mais ou menos precoces) e mais recentemente testes para Eficiência Alimentar e marcadores genéticos para diversas características. Logo, podemos nos proteger do uso de "extremos" combinando as diversas informações técnicas disponíveis sobre os reprodutores.

Hoje, o mercado brasileiro de carnes (leia-se frigoríficos) ainda aceita uma grande variação na qualidade dos novilhos entregues à indústria em relação a peso e terminação, pois ainda exportamos para países com baixas exigências em qualidade e com baixo nível de especificações. No entanto, aqueles que pretendem buscar melhor remuneração para o seu produto, através dos programas de carne de qualidade e tabelas de premiações, devem ficar mais atentos ao tipo de genética usada e o impacto no produto final. De outra parte, o Brasil está buscando acesso a mercados internacionais mais qualificados ($) e o produtor mais preparado estará na frente.

Neste assunto tão apaixonante de genética de animais segue valendo o conceito antigo que "extremos" são perigosos e que o ótimo deve estar no meio termo.