O Confinador

COMPORTAMENTO

Gabriel Fernandes*

O uso do confinamento como ferramenta de manejo do sistema pecuário tradicional é de grande importância, possibilitando desocupação de áreas de pastagens para outras categorias, terminação de animais em período curto de tempo, possibilitando acabamento de gordura em animais não castrados graças à densidade energética da dieta.

Porém, esse sistema é oneroso e alguns fatores podem repercutir no insucesso da técnica. Dentre eles, é possível destacar os fatores climáticos e de ambiente, assim como os comportamentais. Alguns fatores podem ser listados para o sucesso da criação de bovinos em confinamento:

1. Currais
As instalações devem ser bem orientadas para proporcionar conforto aos animais e resultar em aumento de produção.

Os currais de confinamento não devem possuir lama, pois grande parte do tempo gasto com a ruminação acontece com os animais deitados. Em currais com muita lama, os animais deitam menos, resultando em menor tempo de ruminação e, consequentemente, menor ingestão dos alimentos, ocorrendo queda de produção.

É importante eleger terrenos com boa topografia (declividade de 2 a 5%) e boa drenagem para construção dos currais, observando o tipo de solo, regime de chuvas e clima predominante da região.

A construção de elevações é um recurso interessante para currais onde é difícil controlar a formação de lama, proporcionando, assim, áreas secas para descanso. Entretanto, o dimensionamento dessas elevações deve ser suficiente para atender todos os animais, não gerando competição social.

2. Densidade animal nas baias

Os bovinos devem ter liberdade de expressar seus comportamentos naturais para apresentarem boas condições de saúde, bem-estar e produtividade. O espaço físico é um recurso extremamente importante e há evidências de que os animais competem por esse recurso.

A área recomendada pode variar de 15 a 30 m² por animal. O que se deve ter em mente é que, dependendo da região em que o confinamento está instalado, pode haver variações na indicação. Regiões mais chuvosas requerem maior área por animal (até 50 m²) e em regiões mais secas pode-se usar menor área (12 m²). Da mesma forma, há variação na densidade animal, dependendo da época do ano que se deseja confinar.

Alguns trabalhos realizados pelo Grupo ETCO (Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal) da Unesp de Jaboticabal mostraram que houve um aumento de 15% no ganho de peso para os lotes de animais mantidos em currais com área de 24 m²/animal, quando comparados com os currais com áreas de 6 e 12 m² por animal.

Currais com menor número de animais por m² têm menor risco de formação de lama, resultando em um melhor conforto para o animal. Alguns problemas pulmonares podem estar relacionados à formação de lama e poeira devido à alta densidade de lotação.

3. Sombreamento

O sombreamento é um dos métodos utilizados para promover melhorias no ambiente. A adequada manutenção do ambiente térmico traz benefícios à produção animal, aumentando a produtividade e a eficiência na utilização dos alimentos

O estresse pelo calor é um dos problemas mais frequentemente enfrentados por animais em condições tropicais. O estresse calórico prejudica o bem-estar e promove alterações no comportamento alimentar, reduzindo o apetite e consequentemente diminuindo o ganho de peso.

O sombreamento é benéfico e recomendado em climas quentes, pois favorece a regulação da temperatura corporal e a perda de calor. Os animais procuram as sombras nas horas mais quentes do dia e, se esse recurso estiver à disposição, suas necessidades serão atendidas. Deve-se ter sombra suficiente para abrigar todos os animais ao mesmo tempo e a qualquer hora do dia.

Alguns trabalhos mostram que a disponibilidade de sombra (3,3 m²/ animal) resultou em um aumento de 10% no ganho de peso em relação aos animais que não tiveram acesso à sombra.

4. Formação de lotes

O tamanho do lote tem um importante papel na definição da hierarquia de dominância e na utilização dos recursos disponíveis no confinamento. Deve-se considerar que há limites do número de indivíduos que um bovino é capaz de reconhecer como membro de seu grupo. O número de indivíduos é por volta de 100 e 120 animais, portanto, devem ser evitados lotes com mais de 120 animais.

A capacidade de reconhecimento de todos os membros do grupo é importante para a definição da hierarquia de dominância no grupo, que resulta na diminuição de brigas entre os animais. Se o número de animais nos lotes de confinamento for maior que 120, há riscos de demora ou até de não formação da hierarquia de dominância, o que resulta em maior competição entre os animais, com reflexos negativos no desempenho individual, geralmente levando à heterogeneidade do lote.

Características como sexo, peso, idade, raça devem ser utilizadas para a formação de lotes dentro do confinamento, diminuindo assim as diferenças entre eles e possíveis competições pelos recursos.

A formação prévia dos lotes no pasto ajuda a reduzir o estresse no confinamento, pois os animais irão se familiarizando uns com os outros e ao serem introduzidos no confinamento terão sua hierarquia já estabelecida, sendo assim, não ocorrerão brigas para composição hierárquica.

É necessário que se entenda o comportamento animal para tomar decisões frente ao manejo de bovinos em confinamento. Proporcionar melhores condições e recursos como instalações ideais, disponibilidade aos recursos necessários e promover o conforto e bem-estar dos animais são alguns dos fatores que fazem com que tenhamos sucesso e aumento de produtividade na terminação de bovinos em confinamento.

*Gabriel Fernandes é zootecnista e supervisor técnico da Nutreco Brasil em Goiás


DICAS PARA CONFINAR

Embrapa Gado de Corte

Confinar bois é uma estratégia do pecuarista que tem dado certo quando o planejamento é bem feito. Calcula-se que cerca de 10% dos animais abatidos hoje no Brasil vêm de confinamentos, um número em torno de 3,6 milhões de cabeças. O índice é considerado baixo, mas que tem crescido ano a ano. Um dos fatores da expansão dos confinamentos é por conta do aumento da produção de grãos, que é incluído nas rações, permitindo maiores ganhos de peso com rapidez.

A técnica de confinar bois deve ser usada de forma estratégica como, por exemplo, melhor aproveitamento dos recursos disponíveis na propriedade integrando lavoura com pecuária, quando for o caso. É também uma forma de manejo para aliviar os pastos na seca; aumentar o giro da fazenda – já que se reduz a idade de abate dos animais; de colocar no mercado uma carne de melhor qualidade e aumentar a produção do produto por área. Outra vantagem do confinamento é a possibilidade de o produtor conseguir preços melhores de venda dos bois.

A decisão de confinar ou não deve ser do produtor, que deve pedir ajuda a especialistas do ramo para analisar todos os pontos que envolvem a atividade. O pesquisador da Embrapa Gado de Corte Sérgio Raposo de Medeiros preparou algumas dicas para aqueles que estão se preparando para confinar e que esperam bons resultados.

O primeiro passo é a seleção de animais. Sérgio Raposo alerta que o confinamento é uma estratégia de alto investimento e que é importante que os animais escolhidos tenham as melhores condições como potencial de ganho. Um segundo critério de corte é o peso dos animais ao início do confinamento. "O lote deve ser dividido nos animais da faixa dos "não é necessário" e os da faixa dos "não perca tempo". Os do grupo "não é necessário" são os cabeceiras que teriam peso suficiente para irem ao abate apenas com o ganho esperado na pastagem. Os do grupo "não perca tempo" seriam aqueles cujo ganho projetado no confinamento não seria suficiente para fazê-los atingirem o peso de abate".

A segunda dica do especialista diz respeito à formação dos lotes, como visto no artigo anterior. Segundo ele, a palavra chave é homogeneidade. "Animais do mesmo sexo, com pesos próximos, de tamanhos equivalentes e com grau de terminação semelhante formam o lote ideal", aponta Raposo. Ele acrescenta que uma das vantagens do lote homogêneo é que a competição por recursos (acesso ao cocho, por exemplo) é mais equilibrada e, em segundo lugar, é que os animais tendem a estar prontos em datas próximas.

Outro cuidado é quanto aos tratamentos sanitários na entrada do confinamento. "É interessante vermifugar os animais, mesmo que se faça o controle estratégico, pois seria uma garantia de não ter a perda do animal contaminado com vermes", alerta.

A quarta dica do pesquisador é quanto à adaptação à dieta. Os animais não devem mudar o regime de forma brusca, pois mais adiante eles podem apresentar problemas como acidose e timpanismo e se prejudicarem tanto em ganho de peso como eficiência. A adaptação acontece de 10 a 15 dias. Já o manejo da alimentação, o pesquisador explica que o controle de alimentos deve ser por lote, número de refeições, quantidade por refeição e espaçamento entre dietas. "Quanto ao número de refeições, na hipótese de que todos os animais tenham acesso simultâneo ao cocho, não há grandes benefícios em se fazer mais de três", diz. Nessa situação, sugere 30% no início do dia, 20% no meio do dia e 50% no trato final do dia, uma vez que é o maior período de tempo que os animais ficam sem receber alimento. No caso de não haver espaço para os animais de todo o lote consumirem ao mesmo tempo, Sérgio sugere dividir cada um dos tratos descritos acima em dois, de forma que, no primeiro, os animais dominantes tomem a frente, mas que, no segundo trato, haja chance dos submissos terem a sua vez. Dessa forma, os tratos ímpares seriam mais bem aproveitados pelos dominantes e os pares pelos submissos.

Água

Água Toda atenção deve ser dada à água que os animais vão beber. Os bebedouros devem estar limpos para garantir a qualidade da água e a quantidade deve ser calculada para, no mínimo, três dias e deve-se levar em conta que um animal consome, por dia, cerca de 100 litros de água. O acesso aos animais deve ser facilitado.

Outro item importante do confinamento é saber manejar as sobras de alimentos nos cochos. O pesquisador Sérgio diz que a melhor forma de lidar com isso é calibrar a quantidade de alimento por lote de maneira a minimizá-las. Sérgio ensina a fazer um sistema de notas para os cochos e associar a cada uma delas uma ação. Por exemplo: para um cocho limpo ou "lambido" = –2; cocho com pouquíssima sobra = –1; cocho com pouca sobra = 0; cocho com sobra visível = +1 e cocho com muita sobra = +2.

No caso do cocho com a nota –2, significa que faltou comida, então colocam-se dois quilos a mais por animal do lote e, para o cocho com a nota +2, significa que a oferta de alimento está excessiva, então, devem ser reduzidos dois quilos por cabeça no lote todo. Esses valores representariam uns 10-15% da oferta do confinamento e podem ser ajustados caso a caso, salienta o pesquisador.

A pesagem intermediária, apesar de não ser obrigatória, é recomendada pelo especialista para avaliar como o confinamento está se desenvolvendo, permitindo ao produtor identificar problemas e corrigi-los e também permite identificar animais que podem sair antes e o grau de terminação de cada lote. "Esse grau de terminação pode ser baseado apenas nos quilogramas faltantes para atingir o peso de abate ou, no caso de se usar a ultrassonografia, considerar a terminação propriamente dita em termos de deposição de gordura. Ter a informação do grau de acabamento com a espessura de gordura subcutânea ajuda na decisão de tirar os animais menos eficientes antecipadamente, o que é interessante".

Venda

Normalmente o produtor é tentado a manter o animal pronto à espera de melhores preços. Sérgio diz que, frequentemente, isso não vale a pena, pois é grande a chance de o ganho diário desse animal ser baixo e, ao se converter em valor de carcaça, esse seja menor do que aquilo que se gasta por dia. Em outras palavras, manter esse animal significa prejuízo diário. Pior ainda se, além de manter o animal no confinamento, a dieta for alterada com energia para apenas manter o peso. O que ocorre nessa situação é que o animal se ressente da passagem de um nível superior para o inferior e isso faz com que ele perca peso, em vez de mantê- lo. Por esses dois aspectos é que o pesquisador da Embrapa orienta os produtores a vender o quanto antes os animais terminados.

"A venda antecipada pode ser considerada pelo confinador uma possibilidade de vender os animais no mercado futuro ou adiantado ao frigorífico. Uma das vantagens disso seria garantir o suficiente para fechar as contas do confinamento e deixar os bois que sobrarem com uma maior margem para esperar por uma venda mais vantajosa. Importante reforçar aqui o escrito no item anterior, que não vale a pena especular com animais muito terminados, ou seja, seria restrito ao gado com menor grau de terminação".