Caindo na Braquiária

Merecemos mais respeito

Alexandre Zadra

Será que, além de mim, alguém já reparou no decrépito desenho da placa do DNIT que representa um bovino indicando "Perigo, gado na pista". Aquilo define o quê? Uma vaca? Um boi? Que raça é?

Analisando fenotipicamente o espécime aludido, podemos concluir que o néscio desenhista criador da figura entende de bovinos tanto quanto eu de engenharia de estradas, pois além de o bovídeo ali expresso ter proporções corporais totalmente díspares do modelo de bovino produtivo ideal, o mesmo apresenta ainda problemas sérios de aprumos posteriores, com angulosidade extrema de jarrete, podendo comprometer a locomoção. Sem citar, ainda que ele fecha na primeira costela, representando uma limitação e tanto para uma satisfatória condição cardiorrespiratória.

Qual será a instituição que representa a cadeia de carne bovina junto ao leniente governo atual? Seria o CNPC? A SRB?

Depois de sermos consagrados como o maior exportador de carne mundial e vermos dia a dia o consumo de proteína vermelha aumentar, resultado primeiro do aumento dos salários da classe C, podemos, no campo, comemorar os resultados no preço pago ao produtor. No entanto, nas grandes cidades, continuamos nos deparando com muitos urbanoides que pouco sabem como se produz nossa "carne vegetariana", como costumo chamar o boi brasileiro criado e engordado no pasto ou com subprodutos da agricultura.

É louvável a propaganda que vem sendo maciçamente veiculada pelo Friboi, o maior processador de carne do mundo, mas o setor não pode depender dessa campanha para incrementar ainda mais suas vendas, pois devemos lembrar que tal ação vem destacando qualidade no processo, o que já é um grande ganho, alijando inúmeros abatedouros ilegais e de fundo de quintal do mercado e, por sua vez, valorizando a carne oficialmente inspecionada.

Continuamos fazendo o dever de casa, implementando tecnologias que incrementam a produção na mesma área, produzindo muito mais por hectare que há dez anos. Nossa carne é mais macia, resultado da diminuição da idade de abate, além do aumento do uso do cruzamento da nossa fantástica matriz zebuína com as raças taurinas, dois aspectos que resultam na maior maciez da carne, característica buscada por dez entre dez consumidores de proteína vermelha.

Como todos do nosso meio têm consciência, somos mundialmente conhecidos por exportar proteína vermelha e não carne de qualidade e, logicamente, procurados por carne barata, atingindo a média de US$ 4.000 a tonelada da carne in natura, enquanto que países como Australia, Argentina, Uruguai e USA vendem carne de qualidade e enchem os bolsos com médias entre US$ 7.000 e US$ 9.000 por tonelada.

O pecuarista produtor de bezerros, que está na ponta da cadeia fazendo o trabalho mais difícil, que conta com um patrimônio grande através de seu rebanho de matrizes, está enfim conseguindo bons preços nos bezerros, remunerando a terra e a manutenção das matrizes, sobrando ainda um caixa para a reforma de cercas, pastagens, curral e maquinários, sendo agora o momento de pagar as contas do passado e investir na fazenda, almejando o aumento da produção de animais na mesma área. Mas nada disso ocorrerá se tivermos um revés no mercado.

Portanto, já está na hora de falarmos grosso e fazermos uma campanha de marketing em prol da nossa carne natural, como já vimos na Argentina, que tem orgulho da sua produção de alta qualidade fundamentada na raça Angus. Dessa maneira, seremos respeitados e reconhecidos dentro e fora do país por produzirmos carne de qualidade, sendo parte importante da nossa balança comercial.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]