Caprinovinocultura

 

Tecnologia como aliada do produtor

Software foi criado para oferecer análise personalizada e ferramentas de controle da verminose e da resistência parasitária

Denise Saueressig [email protected]

Uma ferramenta tecnológica está ajudando criadores de ovinos a combater o principal problema sanitário que afeta os rebanhos da espécie. Por meio de um software desenvolvido pela Embrapa Pecuária Sudeste, produtores de todo o País podem receber auxílio e recomendações técnicas via computador para prevenir e controlar a ocorrência das verminoses.

A ideia de criação do Sistema para Análise de Risco de Desenvolvimento de Resistência Parasitária a Anti-Helmínticos em Ovinos (SARA) teve origem depois que um grupo de pesquisadores realizou um levantamento epidemiológico em 34 propriedades do estado de São Paulo. Na época do projeto, em 2008, foram feitos testes e identificados fatores de risco de resistência parasitária nesses criatórios. As recomendações foram repassadas aos produtores presencialmente por especialistas da Embrapa, do Instituto de Zootecnia (IZ), da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Nesse momento, ainda não existia a ideia do software. Mas com a continuação do projeto, em 2011, começamos a pensar nessa possibilidade”, conta a veterinária Simone Niciura, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, unidade que tem sede em São Carlos/SP.

O programa está disponível no endereço http://tecnologias.cppse.embrapa. br/sara, onde o produtor pode preencher o cadastro gratuitamente e iniciar a avaliação. “A utilização é bastante simples e intuitiva. O criador apenas precisa responder questões simples a respeito do rebanho e do manejo adotado na propriedade”, explica a pesquisadora.

Entre as mais de 30 perguntas aplicadas pelo software, são abordados temas como as raças do plantel; a prática da pesagem dos animais; a frequência da administração de vermífugos; a quantidade e as categorias de animais que recebem os medicamentos; e se o rebanho tem acesso a áreas alagadas.

Pesquisadora Simone Niciura: programa também servirá para a obtenção de informações sobre o perfil da ovinocultura no País

Esses são exemplos de questões que, depois de selecionadas as respostas, irão fornecer as recomendações personalizadas de acordo com o interesse de cada criador. “Um relatório em formato PDF é gerado na hora, e as orientações são bem diretas. Se um produtor responder que não costuma pesar seus animais antes da aplicação do vermífugo, ele será orientado a realizar a pesagem. Em alguns casos, o criador pode até ser aconselhado a procurar auxílio de um técnico ou veterinário”, detalha Simone.

A veterinária da Embrapa ressalta que a equipe envolvida no projeto quer receber sugestões de como aprimorar o funcionamento do software e, para isso, deixa à disposição canais de comunicação permanente com os usuários, como o SAC (Serviço de Atendimento ao Cidadão).

Lançado no início de agosto, o SARA contabilizava em torno de 80 acessos em poucos dias de funcionamento. E como o sistema apenas calcula os procedimentos que geraram relatório final, significa que os usuários realmente finalizaram a avaliação. “Além de auxiliar os produtores, em breve poderemos utilizar esses dados para obter informações sobre o perfil da ovinocultura no Brasil”, destaca. Segundo a pesquisadora, também existe a intenção de oferecer o programa para criadores de caprinos nos próximos anos.

Software tem uso gratuito, sistema simplificado e fornece orientações a partir das respostas assinaladas pelos produtores

Riscos e prevenção

Considerada o principal problema sanitário dos rebanhos ovinos, a verminose pode acarretar atraso no desenvolvimento corporal, menor performance produtiva e reprodutiva e até a morte. E parte da gravidade da doença é devido a equívocos no manejo do rebanho, já que algumas práticas colaboram para aumentar a resistência de parasitas aos anti-helmínticos. “Infelizmente, é comum encontrar em rebanhos vermes resistentes a todos os vermífugos disponíveis no mercado”, constata Simone.

Um dos erros mais comuns dos produtores é não pesar os animais e, dessa forma, aplicar uma dose abaixo ou acima do recomendado. A administração frequente do vermífugo e a troca do grupo químico sem que a necessidade seja comprovada também podem elevar a resistência. “Enquanto o medicamento for eficiente, não deve ser alterado”, analisa a veterinária.

A pesquisadora alerta que a organização e gestão do produtor são essenciais para um bom controle sanitário. Com as informações zootécnicas em mãos, a tomada de decisão torna-se mais fácil e, consequentemente, a vermifugação será mais seletiva. Para definir corretamente os animais que realmente necessitam da administração do medicamento, além da observação de sintomas clínicos, o criador pode utilizar diferentes ferramentas de baixo custo, como o exame de contagem de OPG (ovos por grama de fezes) e o método Famacha, que avalia a coloração da mucosa conjuntiva ocular dos animais e relaciona com o grau de anemia. “A estratégia de controle das verminoses também deve considerar as categorias mais suscetíveis ao problema”, acrescenta Simone, lembrando que exemplares tratados com muita frequência podem transmitir aos descendentes a característica de resistência. “É importante o produtor saber que animais muito parasitados não devem ser utilizados para fins reprodutivos”, completa.

O intervalo de tempo para a análise do rebanho vai depender de diferentes fatores, como o clima, a época do ano e as condições da propriedade. De uma forma geral, a recomendação é que a avaliação seja feita pelo menos uma vez por mês. “Manter as instalações da propriedade sempre limpas e os animais bem nutridos é uma das formas mais eficientes e simples de prevenção”, salienta a pesquisadora.