Leite

 

COMPETITIVIDADE DO LEITE

É preciso apoiar o produtor e manter regras claras que afetem o mercado de lácteos

Caroline Gonçalves*

Falar em competitividade do leite no Brasil significa, por um lado, tratar de um tema que põe em pauta características muito particulares de um segmento produtivo. Por outro, evidencia discussões que também afetam outros setores do agronegócio brasileiro. Estamos falando de um setor que possui um crescimento comparado ao da China e que nos últimos 20 anos teve uma evolução exponencial muito relacionada ao aumento de renda da população brasileira, atraindo consumidores cada vez mais seletivos e aptos a adotar hábitos de consumo mais exigentes sobre os derivados do leite, como queijos e iogurtes.

No entanto, nem tudo parece caminhar tão bem. O modelo sustentável do leite no Brasil parece não possuir os seus pilares tão seguros quanto deveria. A nossa produção não chega a atender o mercado interno; o setor cresce timidamente, em escala, e o sistema agroindustrial do leite apresenta falhas de coordenação que precisam ser corrigidas.

Mas e o produtor? Ele vê esses problemas? Diríamos que sim. O grande entrave hoje para o produtor é não enxergar a solução para eles. Já dizia Sêneca, o filósofo italiano, que quando não se sabe o porto para o qual se navega, nenhum vento é favorável! E esse clichê o produtor de leite já conhece bem. A falta de perspectiva para o futuro reduz os investimentos do pecuarista que prefere manter-se seguro, na sua zona de conforto, não se motivando a assumir riscos. As limitações observadas na gestão das unidades leiteiras e a baixa profissionalização somam-se às carências na prestação dos serviços de assistência técnica à propriedade. Conhecimento, sim, é fundamental para quem precisa avançar. Programas como o “Balde Cheio”, da Embrapa, é um dos bons exemplos de ações que auxiliam o produtor, e a difusão de suas práticas estimula o desenvolvimento agrário no País.

Há de se considerar ainda que o que vale para uma região do País nem sempre vale para outra. O Sul do Brasil, conhecido pela sua tradição na produção leiteira, possui características peculiares, diferente do Norte, por exemplo, onde diferentes desafios precisam ser superados para o avanço na produção. Técnicos e extensionistas precisam estar preparados para trazer respostas para situações, tanto gerais quanto regionais. Até mesmo o acesso a linhas de crédito deve estar acompanhado pelo suporte na gestão. Temas tradicionais convivem com problemas novos. Como conduzir uma solução para o problema da sucessão nas fazendas? Como produzir em diferentes climas? Como avançar com programas de melhoramento genético? Como melhorar a pastagem? Como combater a mastite?

Podemos tomar o tema da mastite como um exemplo de problema de preços que afetam o produtor brasileiro. Os pecuaristas de leite sentem inflamar no bolso o peso do imposto pago em um equipamento simples e de duração limitada como uma teteira. Veem com olhos assustados a diferença de valor que se encontra hoje para comprar um equipamento de ordenha no Brasil e em outros países produtores. As altas taxas de juros e políticas de preços praticadas no setor agro não estimulam o produtor a planejar o seu negócio para o longo prazo.

Segundo Caroline Gonçalves, produtores e consumidores precisam ter voz

Por um lado, incorre em elevados custos e margens limitadas e convive com regras institucionais que não o estimulam. A legislação para o leite mostra-se ultrapassada no Brasil. O sistema de fiscalização carece de efetividade e comprometimento. Não se pode punir brandamente alterações ou inserção de aditivos no leite que possam causar prejuízo ao consumidor e à imagem do produto. É uma falha grave de segurança do alimento. Aumenta-se, assim, a assimetria informacional do produto e a confiança naquilo que deveria ser um dos alimentos mais confiáveis, fazendo- o escoar literalmente pelo ralo. Outro desdobramento da ocorrência de fraude no leite é a verticalização e internalização da produção pela indústria, o que não é um cenário bom para o produtor.

Tudo isso também acarreta custos mais altos para o consumidor, que, embora mais exigente, mostra que o preço ainda é fator de decisão na hora da escolha do produto no supermercado. Os investimentos para a melhoria da qualidade são desestimulados por preços homogêneos na ponta do varejo, que pouco premiam a produção de atributos de qualidade. Esse pensamento que paira namente dos produtores e pode estar neste momento no pensamento do leitor, não responde à necessidade de estratégia competitiva do leite. Como dissemos no início, o consumo de derivados e a escolha por marcas premium têm aumentado no Brasil. A elasticidade da renda da demanda sugere um mercado que ainda tem espaço para amplo crescimento.

À medida que o mercado aumenta as suas exigências, com o incremento de produtos lácteos processados como queijos e iogurtes, com o aumento da oferta de produtos com características diferentes como o iogurte do tipo grego, à medida que a concorrência entre as pizzarias para utilizar uma muçarela de melhor qualidade é crescente, e se a “marca x” é considerada melhor em detrimento da “marca y”, pronto! Deixamos de tratar o leite como uma commodity, o que é um importante passo para agregar valor a um produto. Mas não somente isso. Estamos puxando a demanda por qualidade, por processos padronizados, pela comparação com níveis de excelência. É benchmarking. E é diferenciação.

A palavra-chave da vez é a inovação. É preciso diferenciar o leite tradicionalmente conhecido. É preciso adotar uma tecnologia que elimine a necessidade dos estabilizantes. Procedimentos de rastreabilidade que garantam a segurança do produto e não inmocidam em altos custos transferidos para o consumidor também são desejados. O avanço do marco legal que estabelece limites de coliformes fecais e exige a refrigeração na propriedade, tenderá a afetar o tempo de prateleira, com impactos na distribuição e no armazenamento doméstico do produto.

Precisamos avançar em pesquisa sobre a segurança do leite. Precisamos, de fato, compreender como serão a fazenda e o produtor do futuro. Temos de descobrir quais serão os próximos passos da indústria e as tendências de consumo, ao mesmo tempo em que enfrentaremos os desafios mais diversos que encontraremos ao longo da cadeia produtiva.

É preciso apoiar o podutor, manter regras claras que afetem o mercado de lácteos, promover a melhoria da gestão e boas práticas – como exemplifica o programa Balde Cheio. Os produtores, suas cooperativas e entidades de representação terão papel central nas futuras transformações pelas quais o setor passará. Produtores e consumidores precisam ter voz. Só assim se criará uma produção sustentável em condições competitivas para o leite no Brasil.

*Caroline Gonçalves é publicitária e pesquisadora do Pensa – Centro de Conhecimento em Agronegócios – [email protected]


Lagartas ameaçam produção leiteira

Da redação

A produção e a lucratividade são prejudicadas quando as lagartas tomam conta das pastagens e o produtor de leite precisa controlar a praga. Condições ambientais combinadas, como o calor excessivo, pouca chuva e muita pastagem para consumir, ajudam as lagartas a se multiplicarem rapidamente.

As lagartas são mariposas e borboletas que estão em fase de desenvolvimento. Elas consomem as folhas rapidamente e só param quando atingem a fase de pupa, quando ficam no casulo. Os desmatamentos, as queimadas e a monocultura agrícola deixam as culturas mais vulneráveis ao ataque dessas pragas, que são capazes de acabar com a planta forrageira em pastagens em formação.

Conforme é detalhado no relatório SIS Sebrae de Leite - Lagartas na pastagem, identificar a lagarta corretamente é fundamental para ter um controle sobre a praga. A incidência aceitável é de 50 lagartas por metro quadrado. As pragas mais comuns são a curuquerê-dos-capinzais (Mocislatipes) e a lagarta-militar (Spodopterafrugiperda). A primeira ataca principalmente milho, a cana, o arroz e o pasto. Têm coloração pardo-escura, com estrias amarelas. Seus ovos são colocados na face inferior das folhas. Ficam na fase de larva por 25 dias e devoram as folhas pelas bordas. A segunda, também chamada de lagarta-do-cartucho, possui cor pardo-escura, quase preta, com estrias longitudinais e pontos pretos brilhantes. Ela permanece no período de larva de 12 a 30 dias, e primeiro raspa a folha, para depois comê-la, a partir do centro, esburacando-a. Nesse tipo, os ovos são agrupados dos dois lados da folha.

Controle químico

Deve ser evitado devido ao longo período de afastamento do gado da pastagem, pois é tóxico às pessoas e aos animais, além de contaminar córregos e nascentes. Mesmo assim, é o método mais utilizado por sua praticidade e eficiência no controle de pragas.

Controle biológico

A bactéria Bacillusthuringiensis contamina e elimina a praga por meio de simples contato. Em poucas horas ela fica infectada e paralisada, morrendo em até dois dias. O controle biológico não elimina os inimigos naturais por ser um inseticida microbiano seletivo e deve ser aplicado no fim do dia, uma vez que é sensível aos raios solares.

Controle físico

Consiste em destruir as lagartas e pode ser realizado nas estradas por onde elas se deslocam. Também pode ser feita a abertura de valas que dificultem a passagem dos animais, ou armadilhas luminosas para atrair e eliminar as mariposas, o que dá ao produtor a chance de monitorar a população de pragas adultas. Quanto mais rápido os sinais de ataque e o tipo de praga forem identificados, maior a eficácia dos métodos de controle.

Ações recomendadas

– Monitorar constantemente as áreas de pastagens. Temperaturas elevadas e clima seco favorecem o rápido desenvolvimento das lagartas.

– Plantas com deficiências são mais suscetíveis a pragas como as lagartas, portanto, tome cuidado no processo de adubação.

– Tenha mais de um tipo de pastagem nas propriedades leiteiras. A resistência é diferente entre as espécies. As pastagens com leguminosas melhoram a qualidade da forragem, além de reduzir a ocorrência de pragas.