Hereford e Braford

 

HEREFORD A carne sustentável

Elder Amaro de Oliveira Filho

Nas últimas décadas, as organizações e as pessoas, o famoso “mercado”, começaram a ver o mundo dos negócios de outra forma, no qual o conceito de sustentabilidade a cada dia espalha-se no subconsciente de todos. Um fenômeno que, até dez anos atrás, desenvolvia-se somente no ambiente universitário e das classes alta e média-alta, hoje se alastra em outras classes econômicas, empurrado pelo acesso à informação via parabólicas e Internet. A atividade pecuária, tida como uma das mais tradicionais do mundo, exige constante adaptação ao novo, e nesse quesito os pecuaristas brasileiros estão atrasados. “Trabalhamos forte para ajudar os associados a entender esse moderno conceito de ‘Desenvolvimento Sustentável’, um novo paradigma no negócio pecuário, criado pelo moderno comportamento do consumidor, que tende a valorizar o consumo exagerado de bens e serviços atrelados ao conceito de qualidade de vida, repudiando a exploração irresponsável dos recursos naturais e o descaso com as desigualdades sociais”, afirma Fernando.

Lopa, presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), que já completou 55 anos de atividade. Nessa linha de raciocínio, a entidade lançou, em 2013, o selo de qualidade do Programa Carne Pampa®, o selo Carne Certificada Hereford®, que nasceu para marcar uma nova etapa na certificação de carnes no Brasil, refletindo o conceito moderno de produção com sustentabilidade, baseado nos princípios que levaram a raça Hereford, e por consequência sua sintética Braford, a ser considerada mundialmente, de acordo com o presidente, como sinônimo de “raça bovina sustentável”: – Ecologicamente correta = por apresentar menor consumo de alimento para produzir 1 kg de carne. – Economicamente viável = por produzir mais carne para mesmo consumo de alimento. – Socialmente agradável = pois sua mansidão permite o manuseio com mais segurança pelos trabalhadores e, em consequência, um maior bem-estar animal. – Culturalmente diverso = é a raça mais cosmopolita do planeta, sendo a mais utilizada em diversos compostos ou cruzamentos de raças bovinas no mundo, com a finalidade de produção de carne de qualidade. Para Lopa, criar Hereford e Braford no Brasil é muito mais do que fazer pecuária de alta produtividade e de ter mais rentabilidade no negócio, tornou-se um estilo de vida para pessoas que fazem algo a mais pela pecuária de corte do Brasil, trabalhando sob a égide da sustentabilidade e da inovação, satisfazendo as necessidades da geração presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras.

Ricardo Pereira Duarte e Guilherme Duarte, renomados criadores da raça Hereford, na fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, explicitam a necessidade de animais adaptados aos climas subtropical e tropical, existentes no Brasil. Os criadores lembram que já há algum tempo o clima no Rio Grande do Sul deixou de ser temperado, pois houve um acréscimo de dois graus Celsius na temperatura média anual, o que torna obrigatória a adaptação dos animais ao clima quente. Os produatores, proprietários da Cabanha Touro Passo, em Uruguaiana, afirmam que essa preocupação com a adaptabilidade se faz presente em seu criatório há muitos anos. “Não se deve adquirir sêmen de países onde as temperaturas atingem 30ºC negativos, pois se trata de uma agressão genética”, afirmam. “Quando ocupei a vice-presidência da ANC, em 2012, propus em reunião, e foi acatada minha proposta, da necessidade de um registro de indivíduos Puros de Origem Nacional, em que os animais apresentados deveriam ter cinco gerações de nascimentos no Brasil, o que veio de encontro à necessidade de exemplares adaptados ao meio ambiente brasileiro”, comentou Ricardo Duarte.

Trabalhamos forte para ajudar os associados a entender esse moderno conceito de ‘Desenvolvimento Sustentável’, afirma Fernando Lopa

A Cabanha Touro Passo possui diversas parcerias estabelecidas no Paraná. Dentre essas, há aquelas que se preocupam em estabelecer cabanhas geradoras e multiplicadoras da genética Hereford, assim como outras que afirmam existir a necessidade de se manter o “casco branco”, ou seja, a matriz Nelore existente. Os criadores paranaenses demonstram preocupação em melhorar a qualidade da carne produzida através da utilização de sêmen Hereford em vacas Nelore. Esse cruzamento tem lhes proporcionado mais marmoreio na carne, assim como velocidade em ganho de peso, além de um aspecto muito importante, o temperamento dócil do Hereford. Aliado aos resultados obtidos nesse cruzamento, a ABHB firmou parcerias com a indústria frigorífica, que, através do programa de Carne Certificada Pampa, tem bonificado os produtores daquela região que produzem meio-sangue Hereford x Nelore. Segundo Ricardo Duarte, os produtores paranaenses têm dado preferência, em um primeiro momento, à aquisição de touros que são utilizados em monta natural em vacas Nelore, o que não impediu que fossem adquiridas 2 mil doses para a produção de indivíduos meio-sangue, especificamente do criatório em questão, não se tratando de números gerais na comercialização de doses de sêmen da raça.

Um aspecto importante a ressaltar é a preocupação constante dos produtores que buscam a genética Hereford para produção meio-sangue de que os animais sejam PO (Puros de Origem), o que, segundo Ricardo, reforça a importância dada à consistência genética do material a ser utilizado no processo. O mercado, no que se refere à venda de sêmen da raça Hereford, está iniciando, situando-se em um processo bastante acelerado de crescimento. Como testemunho, um leilão no Paraná resolveu colocar sêmen e embriões Hereford à venda, e para surpresa dos criadores, foram comercializadas 900 doses, assim como todos os embriões, inclusive já há encomenda de mais mil doses, como destacou Ricardo Duarte. “Uma semana antes desse leilão, houve uma Feira de Terneiros, no município de Francisco Beltrão/PR, onde os produtos meio- -sangue Hereford x Nelore obtiveram os preços máximos, o que comprova que a consistência genética do Hereford produzido no Rio Grande do Sul é fator relevante na produção de terneiros cruzados”, enfatizou entusiasmado o produtor. No Norte e no Oeste do Paraná, a agricultura é muito forte, portanto, há muito resíduo, o que favorece a existência de confinamentos.

A relação custo/benefício entre os animais Hereford e cruza Hereford, em velocidade de ganho de peso na terminação, é representativa. O criador garante que chega a 100 kg a mais a favor dos produtos Hereford ou cruza Hereford. O encurtamento na terminação desses novilhos determina um ganho de R$ 650,00 por animal, o que, em termos financeiros, é quase imbatível. A própria Revista AG publicou a alguns meses atrás que o custo/ dia do confinamento era de R$ 5,20. Transformando-se isso em 40 dias a menos na terminação e um ganho superior em 100 kg, em relação a outras raças ou cruzas, torna-se claro o ganho econômico- -financeiro. Vale ressaltar que tudo isso se deve muito ao temperamento dócil, que não provoca estresse no indivíduo confinado, facilitando o manejo. O estabelecimento promoveu doações de sêmen através da diretoria de Marketing da ABHB, na pessoa de Miguel Augusto Barbará, o Mike, leia- -se Cabanha Santa Ana, de Uruguaiana/RS, e já há nascimentos de terneiros em Goiás, em Brasília/DF, na Bahia e no Mato Grosso. Os administradores da Cabanha Touro Passo entendem que o mercado de sêmen Hereford para o Centro-Oeste tem muito a crescer. Não se faz necessário muito esforço intelectual, pois os criadores daquela região possuem 25 mil vacas em seus rodeios, portanto, é possível imaginar o volume de doses que pode ser comercializado.

Bife Quali

Os resultados do Projeto Bife Quali, realizado na Embrapa Pecuária Sul, comprovam o que o criador que usa a genética da raça Hereford vê a campo. O trabalho de pesquisa denominado “Desempenho do Nascimento ao Sobreano de Bovinos com diferentes composições genéticas criadas no Sul do Brasil”, coordenado pelo pesquisador Fernando Flores Cardoso, divulgou importantes resultados que confirmam o excepcional desempenho de touros Hereford em cruzamentos com gado Nelore, quanto a peso de carcaça e idade de abate. Na pesquisa, foram avaliados 356 bezerros de vacas Hereford, Angus, Caracu e Nelore, acasaladas com touros Angus, Hereford, Nelore e Caracu. Os animais nasceram entre 2006 e 2008 e foram criados na Embrapa Pecuária Sul, em pastagem nativa até a desmama, e a partir daí até o sobreano (18 meses), os machos foram mantidos em pastagem nativa melhorada com azevém e as fêmeas permaneceram na mesma condição pré-desmama.

Em 2012, foi Ricardo Duarte que sugeriu o registro de Hereford Nacional na ANC

A raça Hereford, na pesquisa, apresentou características terminais superiores com maior ganho pós-desmama e peso aos 18 meses. No gráfico de “Composição Racial”, o cruzamento NEHH (vaca Nelore x touro Hereford) apresenta quase 15 quilos a mais de peso de carcaça quente que os demais cruzamentos. A comprovação da eficiência também pôde ser vista, demonstrando que o cruzamento com Hereford apresenta menor tempo de terminação (quase 30 dias antes dos demais avaliados).

Carne de Heregyu

Outra importante conclusão do projeto foi o consumo menor do Hereford para produzir um quilo de carne. A pesquisa atesta o que já vem sendo comprovado em todo o mundo por renomadas instituições de pesquisa: “A maior eficiência bioeconômica entre as raças britânicas deverá ser obtida com a utilização de animais Hereford, pois consomem menos que o esperado para o mesmo desempenho e exigência de mantença quando comparado com outras raças britânicas avaliadas no Bife Quali”, consta nas conclusões. Se não bastasse, o Hereford ainda tem uma característica imbatível: docilidade. Um animal calmo que transmite essa característica nos seus cruzamentos, proporciona um manejo mais seguro aos colaboradores e muito menos estresse para o animal.

Tradição

Além da produção, a tradição é um fator evidente da raça Hereford. “Não é por acaso que as raças Hereford e Braford estão na nossa vida”, enfatiza Celso Gomes, selecionador na Fazenda Santa Fé. Ele conta que, em 1930, o avô Arlindo Marques de Souza, quando se formou em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, levou um lote de touros Hereford para o Paraná para usar na fazenda. Em 1975, comprou fêmeas e touros puros do criatório de Carlos Espassandim, de Pantano Grande, e da Cabanha Vacacaí, de São Gabriel, ambas no Rio Grande do Sul, através do escritório Trajano Silva, mas não registrou o gado por falta de inspetor técnico na região, usando os touros só para criação.

Carne Certificada Hereford, por exemplo, traz o que mais se busca atualmente em requisitos de qualidade, maciez e suculência, relata o chef Eduardo Ferreira

No começo dos anos 1990, através de um funcionário da Trajano Silva, comprou toda a oferta de fêmeas puras do remate anual da Cabanha Santa Angélica, de propriedade de Maneca Costa.

A partir daí, começou a registrar os animais. Adquiriu ainda touros e fêmeas do Senhor Ricardo Chuy, de Santana do Livramento, e do Dr. Pedro Brasil, de Bagé, gado o qual destaca extrema fertilidade, diga-se de passagem. Por volta de 2005, assistindo a um julgamento de rústico em Esteio, apaixonou-se pela raça Braford, comprando o trio campeão rústico no leilão da GAP. Desde então, o filho Pedro H. Klimovicz Gomes começou um plantel de Braford, adquirindo animais de Celina Albornoz Maciel, Jarbas Arraes e Cabanha Dona Genoveva. Ele já está participando de julgamentos com a produção, ganhando campeonatos. “Já fizemos cruzamentos com várias raças, mas os de Hereford são os que apresentam maior peso, fêmeas mais leiteiras e maior docilidade. Por tudo é que essa raça está há 85 anos na nossa família”, conta o selecionador.

Qualidade é fundamental

Por ser um profissional de gastronomia, muito já perguntaram a Eduardo Ferreira qual o segredo do bom churrasco, que responde sempre a mesma coisa: ter carne de qualidade. Carne de qualidade significa origem racial, tipo de alimentação, idade e, ao receber um produto com esses requisitos, saber prepará-la. Gaúcho de 52 anos, médico-veterinário de formação, chef de cozinha e proprietário de restaurante, sua formação facilitou a identificação e a maneira com que trata a carne.

Os longos anos trabalhando com carnes e viajando por muitos países resultaram em uma busca incessante: ter e trabalhar com boa carne. “Antigamente, não tínhamos certificações, nem identificações de raça e idade. Comprávamos carne em açougue ou mercados quase de uma maneira cega”, relata o chef. Também vale salientar que a cultura e a exigência do consumidor não eram lá essas coisas.

“Hoje, sou um cozinheiro satisfeito por ter acesso às melhores carnes bovinas. Carne Certificada Hereford, por exemplo, traz o que mais se busca atualmente em requisitos de qualidade: maciez e suculência, oriundas de uma carne jovem com um excelente índice de marmoreio”, assinala Ferreira. Atualmente, as melhores casas de carne (steak houses), churrascarias e temáticos têm acesso a um “arsenal” de selos e marcas que identificam uma autêntica carne de qualidade. Só assim a evolução da gastronomia se consolida. Chegamos lá!

Aposta no marmoreio

Novidade na pecuária brasileira, o cruzamento entre Hereford e Wagyu é a grande cartada do criador Carlos Eduardo Schmidt, cuja ideia surgiu após suas andanças pela Feicorte, até então realizada na capital paulista. Após uma conversa com Fernando Lopa, ele decidiu seguir em frente e ver o que o futuro reservava. “Não poderia dar errado, uma vez que estaríamos utilizando duas das melhores genéticas de gado de corte. Mas como tudo pode acontecer, tivemos de aguardar os resultados para comemorar”, relata o entusiasta. Para esse cruzamento, foram utilizados animais PO tanto de Hereford quanto de Wagyu.

Touro Braford típico

Os animais com aproximadamente três meses após o desmame foram encaminhados para o confinamento no frigorífico Cowpig, onde ficaram até completarem dois anos. “A diretoria do frigorífico acompanhou pessoalmente a equipe de funcionários na desossa, no corte e na embalagem da carne. As novilhas apresentaram um maior marmoreio e excelente capa de gordura, além de apresentar uma carne mais clara e bonita”, relata. Em poucas horas, o frigorífico já tinha comercializado todos os cortes nobres e após publicação dos resultados formaram-se filas de compradores. A carne do Heregyu é extremamente marmorizada.

Touro Braford típico

A raça Hereford e suas origens

A raça Hereford tem registros de origem no condado inglês do mesmo nome (provavelmente de cruzas entre bovinos escandinavos e franceses, há mais de 150 anos). No Brasil, o primeiro exemplar chegou em 1906 e Laurindo T. Brasil, de Bagé/ RS, foi quem efetivou o “Herd Book” da raça, registrando um touro argentino em 1907. Já em 1910, registraram-se os primeiros ventres, oriundos do Uruguai. A partir daí, a raça Hereford com sua variedade mocha, polled hereford, cresceu e firmou-se de tal forma no País, notadamente no Sul, onde o clima e a topografia mais se assemelham à origem dela. Características

A versatilidade e a eficiência da raça Hereford são comprovadas na relação de seis habilidades quase que exclusivas:

– Adaptação aos mais diversos ambientes e sistemas de produção, graças a sua docilidade e rusticidade.

– Índice de fertilidade dos mais altos da espécie, quando favorecidos com manejo e alimentação adequados.

– Excepcional ganho de peso a pasto, sendo comum novilhos de 450-500kg aos 18-24 meses.

– Preponderante nos cruzamentos com outras raças, especialmente as zebuínas.

É raça mais cosmopolita do mundo, o que facilita a genética abundante e qualificada.

– Altamente lucrativa para criadores, invernadores e frigoríficos, graças ao espetacular índice de rendimento de carcaça, superando outras raças europeias.

– O touro Hereford é de alta libido e viril no aproveitamento do salto. A busca de mais bezerros com uso de menos touros e mais peso no novilho jovem são qualidades específicas.

Performance, praticidade e lucratividade combinadas tornam o gado de corte Hereford a raça mais abundante em diversas regiões do mundo, sendo amplamente reconhecida como raça básica. Fertilidade, rusticidade, eficiência alimentar, longevidade e adaptabilidade são habilidades típicas para o Hereford.

O gado de cara branca continua a desempenhar um papel de destaque na indústria de carne bovina. A produção de carne é sua aptidão principal. É uma carne saborosa, tenra e com pouca gordura, quando de animais jovens. O gado é resistente em condições adversas, tanto ou mais que qualquer outra raça europeia. São animais bastante eficientes em regime de pasto, apresentando nesse contexto terminação adequada ao produzir carcaças de carne bem marmorizada, com o esqueleto forte e boa massa muscular, principalmente na região dorso-lombar e quartos, onde estão os melhores cortes, como o mercado exige.

Padrão da raça

Desde sua descoberta, o Hereford manteve a pelagem vermelha, variando do amarelo até o cereja; apresentando cabeça, região inferior e extremidades da cauda, brancas. No começo, ocorriam as seguintes pelagens: vermelha de cara branca, vermelha de cara salpicada, cinza clara e parda.

Gradualmente, a pelagem “pampa” característica foi se impondo, hoje considerada “marca de pureza” da raça. Cruzamento industrial

Foi comprovado cientificamente que o cruzamento com raças zebuínas faz do Hereford uma raça imbatível em habilidade materna, fertilidade e condição de acabamento, conferindo essa precocidade inerente às raças de campo. Quando cruzado com raças desprovidas do mínimo de gordura para o congelamento da carcaça no frigorífico, ele complementa as raças nessas qualidades.

Padrão Braford

Parte do sucesso do Hereford é carregado pelo Braford, com touros que desbravam o Brasil Central. A raça Braford é fruto de cruzamentos iniciados na década de 1960, formando um bovino sintético que congrega em um só animal características importantes do Hereford e dos zebuínos, sendo reconhecida pelo Ministério da Agricultura do Brasil, em 1993. Do zebuíno, adaptação aos trópicos, resistência aos ectoparasitas, rusticidade, rendimentos de carcaça e fertilidade. Do Hereford, fertilidade, habilidade materna, precocidade, temperamento dócil, volume e qualidade da carne.

O macho Braford é fértil, viril e precoce, adaptando-se muito bem às condições de reprodução a campo. Detentor de excepcional massa muscular, supera os 800 kg quando rústico e 1.200 kg na cocheira. A fêmea Braford é precoce e fértil, reproduzindo aos 18 meses de idade. Com peso médio adulto entre 450 a 500 kg, tem excelente facilidade de parto e habilidade materna, desmamando entre 4 – 6 meses e terneiros que podem ter mais de 50% do seu peso. O novilho Braford é muito precoce na terminação, podendo ser abatido aos 18 – 24 meses de idade ( novilho precoce ) e o rendimento da carcaça fica entre 55 e 58%, com 400 a 500 kg.

Fernando Faria Corrêa (esq.) defende que o Braford nacional é a melhor opção para a pecuária brasileira. À direita, Trajano Silva

O zootecnista Fernando Fabrício de Faria Corrêa entende que o Braford brasileiro, em sua grande maioria, foi feito em cima do Nelore. O Braford brasileiro, a partir das características únicas que possui, herdadas de sua base racial, naturalmente assumiu a vanguarda na produção de carne de qualidade no País. Por ser mais rústico, o Braford nacional adapta-se melhor às nossas condições. Já na origem zebuína do Brahman, não podemos ter essa certeza de adaptabilidade. Tem- -se de prosseguir rigoroso em determinados aspectos, A correção de prepúcio é um exemplo. As bainhas não devem e não podem ser exageradas, pois as pastagens mais altas produzem lesões no aparelho reprodutivo.

Essa característica não desejada é de alta herdabilidade e é dificíl de ser erradicada. Não devem ser utilizados em rebanhos ou em centrais. O objetivo primeiro sempre deve ser a fertilidade, caso contrário, não teremos terneiros. Outro aspecto importante é a pigmentação ocular. No caso do Brasil, por conta da luminosidade, é importantíssima. Já em países com clima temperado é tolerada a ausência. O Braford brasileiro precisa ser pelechado naturalmente. Sinal de grande adaptação. Profissional respeitado e reconhecido pelos criadores da raça Braford, o médico-veterinário, Antônio Cabistani, proprietário da Cort Genética Brasil, afirma que o Braford brasileiro possui boa consistência genética e ressalta o fato de ter Nelore na formação.

“O Nelore brasileiro é o melhor e maior rebanho do mundo. O Braford, criado no Rio Grande do Sul, tem essa base. Isso faz com que a consistência genética do Braford brasileiro seja única”, explica. Cabistani defende a tese de que há a necessidade de se utilizar o Braford com base Nelore em cima do Braford de base Brahman. Segundo o geneticista, o Braford com base Brahman é um zebuíno composto a partir do Gir, Tapapuã, Guzerá, Indubrasil e do Nelore, principalmente oriundo da Austrália, necessitando agregar um plus no processo de melhoramento genético. “Correções funcionais importantes como prepúcio são fundamentais. O Braford é uma raça desenvolvida para ter funcionalidade em campos grosseiros, com pastos nativos e altos. Animais que tenham prepúcio pendulante, ou exposição de mucosa, tendem a desenvolver balanopostite, colaborando para a perda de touros. Isso implica em 40 terneiros deixados de produzir”, afirma.

Há também outros problemas funcionais necessitando de correção, identifica Cabistani: “Os tetos da vaca Nelore são perfeitos. Pequenos e fáceis para os bezerros. Já as fêmeas do Braford com base Brahmam apresentam tetas grossas e compridas”, esclarece o especialista. A habilidade materna é importante, mas não se restringe somente à produção leiteira. O aporte funcional dessa produção leiteira é fundamental. Não servem glândulas mamárias super desenvolvidas, produtivas, obviamente, do ponto de vista leiteiro, mas difícil de o terneiro pegar. Segundo o especialista, é mastite no campo, seguramente. Ainda há a questão de aprumos, de peso e qualidade de carcaça. O Braford brasileiro calcado nessa base Nelore não enfrenta esses problemas e pode ajudar a melhorar a base Brahman.

“Não se comem tons de pelagem nem pintas em partes brancas dos animais. Come-se carne de qualidade, e essa nosso Braford possui. Temos ótimas carcaças, rendimentos maravilhosos, e uma suculência e maciez única. Prova disso é a abertura de novos mercados para a exportação da carne produzida no Brasil”, avalia Cabistani . Nos últimos dez anos, a raça Braford tem mantido um crescimento linear importante. Especificamente na Cort Genética, comercializam-se 230 mil doses no ano de 2013, e esses dados não fazem parte do relatório da Asbia, pois não é sócia.

Touro Braford, o caminho para um tricross excepcional

A raça Braford vive um momento muito aquecido em termos de mercado, basicamente devido às suas qualidades intrínsecas como raça adaptada a todo Brasil, a perspectiva não só para os leilões dessa primavera, mas também a médio e longo prazos é ótima. Em 2013, apenas a Trajano Silva comercializou 243 touros Braford, a uma média de R$ 7.500,00, resultando em um faturamento de R$ 1.822.602,96. O uso da raça Braford proporciona maior quantidade e qualidade de carne devido à porcentagem de sangue britânico que carrega, assim como uma excelente adaptabilidade a campos mais grosseiros, onde as raças britânicas não têm capacidade de adaptação.

Importante salientar a potencialidade que o Braford possui em cruzamentos industriais. Um programa de cruzamentos sistemático deve otimizar o uso da heterose e da complementaridade na produção de animais com carcaças desejadas pelo mercado, altamente produtivos e adaptados ao sistema e ao meio ambiente em que se encontram. “Nesse aspecto, o Braford é imbatível. Seja nos cruzamentos em que somente duas raças são utilizadas ou no tricross. O vigor híbrido observado em terneiros Braford x Nelore é comprovadíssimo, permitindo a combinação de vacas bem adaptadas e com boa habilidade materna, obtendo-se crias com alto potencial de crescimento”, comprova Marcelo Silva, da Trajano Silva Remates.

Ele frisa que o mesmo vale para a utilização em fêmeas meio-sangue a partir de britânicos x zebuínos (Angus x Nelore, por exemplo). Nesse caso, se restabelece o vigor híbrido, proporcionando taxas de crescimento acentuadas e velocidade de ganho de peso. A utilização dessa modalidade de cruzamento apresenta algumas vantagens: heterose 100% individual e 50% materna, 18 a 22% de acréscimo na produção; vacas adaptadas com heterose e com boa habilidade materna, produzindo terneiros com alto potencial de crescimento, mantendo alto percentual de adaptabilidade aos trópicos.