Rally da Pecuária

 

R$ 30 bilhões até 2016

Essa é a quantia necessária para corrigir pastagens, segundo conclusões do Rally da Pecuária

Cerca de 5 milhões de hectares de pastagens brasileiras devem ser reformados com urgência por se encontrarem no último estágio de degradação, de acordo com projeção da Agroconsult, a partir de amostras coletadas em campo pelo Rally da Pecuária. Outros 14 milhões de hectares precisariam de intervenção nos próximos 24 meses para que não atinjam tal estágio.

Imagens por satélite, analisadas no período entre 2003 e 2014, revelam que 28% das pastagens amostradas registram redução de biomassa, ou seja, estão em processo degradação. Outros 19%, também em deterioração, registram substituição de cobertura vegetal, isto é, estão infestadas por invasoras. No período analisado, entre os meses de abril e maio, foram identificadas reformas em 12% das pastagens, mantendo números semelhantes aos observados no mesmo Rally da Pecuária, em 2012.

Se projetadas as condições observadas a campo para as pastagens brasileiras, calcula-se que os recursos para corrigir ou evitar a degradação são estimados em cerca de R$ 30 bilhões até 2016. Parte desses recursos virá do próprio pecuarista, cuja renda vem melhorando com o avanço da produtividade, enquanto que outro montante será obtido via financiamento, como o Programa ABC – Agricultura de Baixo Carbono, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Segundo Maurício Palma Nogueira, coordenador de Pecuária da Agroconsult, 41,6% dos produtores entrevistados durante a expedição afirmaram aplicar algumas das técnicas fomentadas pelo Plano ABC, como a recuperação de áreas degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), plantio direto, florestas comerciais e fixação biológica de nitrogênio. A área total relacionada a essas tecnologias é de 9,2% da amostra.

Se incluído o montante já repassado para a agricultura, chega-se a 16,6% das áreas diretamente relacionadas às técnicas fomentadas pelo Plano ABC. Outros 43% são conduzidos com técnicas de aumento da produtividade que se enquadram direta ou indiretamente no Plano ABC.

Nogueira explica que 46,8% dos consultados pretendem iniciar projetos de integração envolvendo pecuária, florestas e agricultura; 84% desses produtores apontaram qual a área que pretendem integrar, representando 4,8% da atual área de pastagens. “Parece pouco, mas se fosse extrapolado para o total de área de pastagens do Brasil, representaria 8,1 milhões de hectares na iminência de entrar em ILPF”, complementa.

Do total de entrevistados, 14,5% pretendem passar a área de pastagens para arrendatários e 90% deles afirmaram que repassariam 1,6% do total da área de pastagens. “Se consideramos o total de pastagens do Brasil, 2,69% de área migrariam para agricultura no curto prazo no período de um a dois anos”.

Entre os pecuaristas, 55% usam algum tipo de financiamento para a produção e apenas 16% desses utilizam a linha ABC. Como era previsto pela equipe do Mapa, as linhas mais utilizadas são os fundos constitucionais (FCO, FNE, FNO), sendo que as principais vantagens apontadas foram as taxas de juros acessíveis (38%) e as condições facilitadas de pagamento (35%).

A produtividade estimada para o ciclo completo entre os pecuaristas que captaram recursos para o ABC é de 12,6 arrobas por hectare/ano, ou seja, 34% acima da média da amostra total do Rally da Pecuária 2014.

Com base nos resultados observados, constata-se que as técnicas fomentadas e a implantação de tecnologia na pecuária de corte tendem a contribuir consistentemente com a redução das emissões de carbono do País. O plano ABC, desde que devidamente implementado, proporcionará que os objetivos sejam atingidos no médio e longo prazos.

Rally da Pecuária percorreu 55 mil quilômetros, mapeando e fotografando pastagens

Na análise por imagem de satélite, a intervenção das pastagens dentro das técnicas fomentadas no Plano ABC apresentou resultados satisfatórios. Segundo Daniel Aguiar, sócio da Agrosatélite, o pico de biomassa aumentou 20% em relação à situação anterior, possibilitando maior disponibilidade de capim e oportunidade de manejo. Em média, a lotação aumentou 222% em relação à situação anterior (2012). Mesmo com a lotação e a pressão de pastejo significativamente superiores, as pastagens que vêm recebendo todo o pacote tecnológico ainda permitem um índice de massa superior ao de 2012.

As cinco equipes técnicas do Rally da Pecuária visitaram propriedades em 169 municípios, em um total de 55 mil quilômetros percorridos, mapeando e fotografando pastagens, e entrevistando cerca de 120 pecuaristas. A edição 2014 teve início em 24 de abril, em Campo Grande, e terminou no dia 28 de maio, com o levantamento de informações, in loco, das condições das pastagens e da bovinocultura das áreas de cria, recria, engorda e confinamento do País.

Menos pasto

Que as áreas de pastagens vão diminuir, isso é fato. Nos últimos dez anos, a queda já é de 2,3%, conforme aponta outro levantamento de Maria Gabriela Tonini, médica-veterinária e consultora da Scot Consultoria. “Acredita-se que a área tenha passado de 175,34 milhões de hectares em 1999 para 171,35 milhões de hectares em 2009, uma queda de quase 4 milhões de hectares”, avalia.

Dentre os estados mais importantes para a pecuária, apontam-se diminuições nas áreas de pasto em São Paulo, com recuo de 11% no período; Paraná e Rio Grande do Sul, com diminuição na área de pasto na ordem de 9,5%, e Goiás, onde diminuiu 7,6%. Outras atividades mais interessantes economicamente tomaram lugar da pecuária nesses estados, a exemplo da cana-de- -açúcar e dos grãos.

Já os estados de Pará e Rondônia apresentaram crescimento na área de pastos nos últimos dez anos: 13,9% e 8,8%, respectivamente. Em função da expansão das áreas agropecuárias nesses estados. “Com a margem da pecuária cada vez mais estreita e com a pressão ambiental, a produção deve crescer em menor área, forçando a melhoria da aplicação de tecnologia”, conclui