Morte de Bovinos

 

Gado morre de frio

Queda brusca de temperatura associada a chuva e ventos fortes provoca prejuízo de milhões de reais no Mato Grosso do Sul

Adilson Rodrigues [email protected]

A madrugada de 24 para 25 de julho foi trágica para os pecuaristas da região de Coxim, que fica a 260 km de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Uma queda brusca na temperatura culminou na morte de mil cabeças de gado, predominantemente zebuínas e com idade jovem, entre oito e 12 meses. O fato registrado em quatro fazendas e repercutido na imprensa nacional não é novidade. Há 15 anos, o estado registra ocorrências de perda de gado, em uma média de quase dois surtos por ano, envolvendo um número considerável de animais mortos. Os dois maiores surtos registrados em Mato Grosso do Sul são de 10 mil animais no ano 2000 e de três mil em 2010.

Segundo Haroldo Pires de Queiroz, pesquisador e difusor de tecnologia da Embrapa Gado de Corte da Embrapa Gado de Corte, a morte por hipotermia ocorre quando a sensação térmica cai bruscamente de 20°C para menos de 7°C, em um intervalo de 30 horas. A meteorologia registrava no dia 24, uma temperatura mínima de 13,8°C, com chuva, durante a madrugada, mas com sensação térmica de apenas 5°C. “Apesar de serem comuns, essas mortes não são aceitáveis nos dias de hoje”, protesta o pesquisador. A faixa endêmica da hipotermia vai do Rio de Janeiro e Espírito Santo a São Paulo e Minas Gerais. Acima do Mato Grosso do Sul, é mais difícil ocorrerem frentes frias como essa que acometeu os animais.

Para o difusor de tecnologia, uma parcela da culpa das mortes é do próprio pecuarista. “Estudos técnicos comprovam que a hipotermia é causa de mortalidade quando bovinos mal nutridos e sem abrigo são expostos a uma mudança climática brusca, com queda de temperatura combinada a chuvas e ventos fortes”. Os ventos, em questão, registraram uma velocidade 38 km/h na ocasião. As mortes poderiam ser evitadas se boas práticas de produção fossem adotadas nas propriedades atingidas.

Queiroz faz algumas recomendações para que o produtor não tome mais prejuízos. Entre elas, cita que os animais devem se manter em um bom estado corporal na seca, algo possível ao se promover um bom planejamento forrageiro. “O produtor tem de garantir volume de forragem para o período seco, ou seja, vedar pasto nas águas para usar na época de restrição, o conhecido feno- em-pé, ou fazer feno de capim ou leguminosa”, sugere. Além das pastagens, é preciso oferecer um mínimo de proteína junto ao pasto, uma mistura múltipla ou pelo menos sal mineral com ureia.

Ele explica que essa dieta tem o objetivo de manter o animal em boa condição corporal e garantir a digestão da forragem de baixa qualidade. O pesquisador lembra que esse planejamento forrageiro deve ser feito no final do verão, entre os meses de fevereiro e março. “O produtor deve se preocupar em vedar parte das pastagens de modo a garantir cinco toneladas de matéria seca em um hectare para cada animal que vai passar pelo período de seca – em torno de 5 meses”.

Animais que ficam em um pasto rapado correm o risco de se deitarem. Sem qualquer isolante térmico, vão perder calor corporal e morrer rapidamente. Outra dica é que todo piquete tenha acesso a áreas de proteção, como pequenos bosques ou capões com, no mínino, 40 metros de diâmetro. Ainda, segundo o especialista, uma atenção maior nessa época do ano deve ser dada aos animais zebus ou azebuados, porque, além de terem pele e pelos mais finos, possuem uma menor capacidade de produzir calor do que os animais de raça europeia ou cruzados.

Para Haroldo Queiroz, bom estado nutricional dos animais e construção de abrigos evitam a morte por hipotermia

Nota técnica da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro) constatou que, nas invernadas onde os animais foram achados mortos, não foram encontradas reservas que servissem de abrigo. “Constatamos que, em uma propriedade que perdeu quase 200 animais, de oito a dez meses de idade, eram quase todos recém-chegados do estado da Bahia”, assina Rubens de Castro Rondon, gerente de Inspeção e Defesa Sanitária Animal do Iagro. Antes da conclusão da perícia, cogitava-se morte por um quadro de infecção bacteriana aguda e oportunista, tese descartada pelo órgão. “Entendemos que os casos de Coxim e municípios vizinhos devem ser considerados apenas como hipotermia”, constata o inspetor.


Fatores que predispõem bovinos à hipotermia

– Animais criados a pasto, sem qualquer área de reserva que sirva de abrigo para refúgio, quando das intempéries de tempo, como chuva, frio e ventos fortes.

– Bovinos em baixo estado nutricional, com escore corporal insuficiente para enfrentar as condições climáticas adversas.

– Raça: seguramente os animais de pelo curto, como os da raça Nelore, além de terem uma cobertura de gordura subcutânea inferior às demais raças europeias, são mais vulneráveis.

– Oferta de pastagens com pouco valor nutritivo.

– Condições climáticas desfavoráveis: quedas bruscas na temperatura, provocando inversões térmicas que podem derrubar as temperaturas em 15-20°C, chuvas e ventos continuados.

Entendendo a hipotermia

Animais com hipotermia severa apresentam depressão profunda, acentuada redução na ventilação pulmonar, ausência de atividade muscular e diminuição dos reflexos. A queda do volume intravascular e a depressão da função cardíaca conduzem à hipóxia (falta de oxigênio nos tecidos) e à acidez anormal no sangue. Em condições de termoneutralidade, os zebuínos apresentam temperatura retal de 38,5 a 39,5°C. A escala de conforto térmico inicia na temperatura crítica inferior (TCI) e termina na temperatura crítica superior (TCS), que, em zebuínos, é de 7 e 35°C, respectivamente. Quando a temperatura ambiente está abaixo dos 7°C, o organismo entra na condição de estresse pelo frio.

Condições climáticas do MS

O clima predominante nos estados da Região Centro-Oeste é classificado “Aw”, sigla que o define como megatérmico de inverno seco e chuvas de verão, no qual a temperatura média do mês mais frio é superior a 18°C e com precipitação pluviométrica inferior a 60 mm no mês menos chuvoso. A média de chuvas desta região atinge 1.500 mm. No inverno, com a entrada de massas de ar polar, podem ocorrer geadas no Sul do Mato Grosso do Sul, sendo observadas, em média, três por ano.