Genética

Seleção de carcaças

Produzindo carne em menos tempo e com melhor rendimento

Argeu Silveira*

Com o crescimento de outras culturas que envolvem a produção de grãos, de madeira e de cana- -de-açúcar, o espaço destinado à pecuária vem diminuindo consideravelmente. Um dos grandes desafios do setor é conseguir produzir em maior quantidade, em uma menor área e cada vez mais, em menos tempo. O uso de tecnologias e ferramentas que reduzam o ciclo do rebanho é mais do que uma realidade, é uma necessidade, tanto do pequeno como do grande produtor.

Diante desse cenário, uma dúvida surge, tanto por aquele que produz genética com foco no fornecimento de reprodutores e matrizes de alto valor zootécnico como por quem faz o ciclo completo de cria, recria e engorda, que fornece carne para o mercado. Como se poderia ter maior quantidade de carne no animal produzido, melhorando não só a receita da propriedade, mas alcançando maior lucratividade? Essa pergunta pode ser respondida de uma maneira muito objetiva: com o melhor rendimento de carcaça.

Atualmente, a indústria frigorífica agrega valor a cinco importantes cortes de carne bovina, que são divididos em dois grupos: o que corresponde em torno de três a quatro quilos do boi - filé, picanha, alcatra e ponta de costela; e o que corresponde a 16 kg do animal - o contrafilé, peça extremamente valorizada pelos consumidores europeus e americanos, um indício de que, quanto maior o contrafilé, maior o valor da carcaça. Posto isso, é importante entendermos também que as partes que terão preço agregado compõem cerca de 20 kg do boi e é onde o criador ganha com diferença de preços, conquistando o lucro.

O pecuarista pode hoje identificar dentro da propriedade se o animal que ele produz está desenvolvendo bem essas partes tão valorizadas pelo frigorífico, através da avaliação com ultrassonografia de carcaça, na qual, através da área de olho de lombo (cuja sigla é AOL, e fica localizada na região do contrafilé) é possível não só ver o tamanho da peça - a mais valorizada da carcaça -, mas também identificar a gordura presente nela ou na picanha, por exemplo, com destaque ao marmoreio, que demonstra a suculência do produto.

Na Genética Aditiva realizamos o exame em todos os animais, machos e fêmeas, por volta dos 16 meses de idade, todos nas mesmas condições de ambiente. Porém, a dúvida que fica ainda sem resposta é: como melhorar esse rendimento? É quando surge o desafio de identificar quais os animais que carregam essa importante característica econômica e, principalmente, como implementá-los no rebanho.

É aí que a tecnologia e as ferramentas atuais de seleção entram em uso, como a Diferença Esperada na Progênie (DEP), em que, através dos números, conseguimos apontar qual animal consegue repassar para as demais gerações as características econômicas que buscamos. Nesse caso, para o melhor rendimento de carcaça, usa-se a Daol-DEP de área de olho de lombo, sendo que cada dois pontos de Daol equivalem a 1% do rendimento de carcaça.

Exemplificando: temos dois touros no mercado real com sêmen disponível em central, o Touro A e o Touro B. O Touro A possui Daol 5.13 (positivo), já o Touro B possui Daol 3,37 (negativo). Usando esses reprodutores em um rebanho puro, cujos filhos, em sobreano, possuam o mesmo peso vivo de 500 kg e supondo que a arroba estivesse sendo comercializada a R$ 120,00, fazemos o seguinte cálculo:

*Dados dos touros retirados de consulta pública de animais participantes do programa de melhoramento genético da ANCP

Portanto, através da conta, entendemos que, usando um animal que consiga transmitir a característica econômica que buscamos, o produtor terá 28% a mais de ganho, pois de um animal para o outro a diferença apenas no rendimento é de 4%. Isso não considerando as demais DEPs existentes no animal superior para Daol.

Antes de tomar o remédio, leia a bula, adverte Argeu Silveira

Por meio do exemplo, é possível concluir, então, que a avaliação de carcaça é uma forma de fazer com que a pecuária consiga competir com os demais setores agrícolas, mesmo em menor espaço disponível.

Para produzirmos a genética que faz a diferença, muitos aspectos são levados em consideração, mas para o produtor que apenas adquire essa genética e repassa ao rebanho, o segredo é um só: adquirir e utilizar o touro certo, fruto de uma seleção genética de alta acurácia e que possibilite imprimir maiores lucros na produção.

A mensagem que deixamos é a seguinte: antes de tomar o remédio, leia a bula. Adquirindo reprodutores superiores, o rebanho da próxima geração com certeza lhe dará melhores resultados e aumento da lucratividade.

*Argeu Silveira é médico-veterinário da Genética Aditiva