Escolha do Leitor

GESTÃO REPRODUTIVA O foco deve estar na produção de bezerros no "cedo" Adnan Darin Pereira Rodrigues, José Luiz Moraes Vasconcelos e Rogério Fonseca Guimarães Peres* A gestão da reprodução vai desde a escolha da técnica reprodutiva a ser utilizada, como monta natural, inseminação artificial convencional ou em tempo fixo (IATF), bem como a adoção de simples estratégias de manejo que possam aumentar a produtividade do rebanho como um todo. Nesse cenário, a estação de monta (EM) é parte importante da gestão da reprodução. É de acordo com o período reprodutivo que se definem fases cru- Fotos: Divulagação REVISTA AG - 51 ciais dentro da pecuária de cria, como nascimentos e a época da desmama. Outro ponto importante da cria é que o resultado das decisões tomadas agora terão reflexos de médio a longo prazo, ou seja, dentro de um ano ou mais. A cria vive basicamente da venda dos bezerros gerados pelas matrizes, bem como a venda das matrizes que foram descartadas. Diversos estudos e avaliações de campo mostraram o impacto do mês de nascimento do bezerro no peso à desmama e até na idade ao abate, como ilustrado na Figura 1. Assim como nos machos, o mês de nascimento influencia a idade ao abate; nas fêmeas, o desempenho em sua primeira estação de monta varia de acordo com o nascimento. Então, o ideal é termos a maior quantidade de bezerros no “cedo” - nascidos em setembro. Com isso, temos um maior peso à desmama, com reflexo na idade ao abate nos machos e no desempenho reprodutivo da novilha de reposição. Mas, como ter a maior quantidade de bezerros nascidos no “cedo”? Para tal, temos que emprenhar o maior número possível de vacas no início da EM. Respondida essa pergunta, o próximo desafio é como emprenhar uma vaca. Logo após o parto, a vaca passa pelo período de involução uterina, de aproximadamente 30 dias, e deve retornar à ciclicidade para se tornar gestante, ou seja, entrar em cio, ser coberta por um touro fértil, ou ser detectado em cio e inseminada no momento certo, com sêmen de qualidade e por um inseminador treinado. A técnica de IATF nada mais é do que um protocolo hormonal que permite ao produtor inseminar as matrizes logo após o período de involução uterina (30 a 45 dias após o parto), sem a necessidade de detecção de cio, permitindo os trabalhos em horários pré-determinados. Figura 1 – Efeito do mês de nascimento sobre o peso à desmama e sobre a idade ao abate em animais Nelore A EM e as biotecnologias reprodutivas, principalmente a IATF, permitem concentrar os esforços em determinada época do ano para proporcionar o melhor ambiente para as matrizes expressarem ao máximo seu potencial genético. Basicamente, uma gestão da reprodução eficiente, que leve em conta as peculiaridades de cada categoria animal a ser trabalhada, permite à matriz “estar no lugar certo, na hora certa”. Ao utilizarmos um cronograma de trabalho específico durante a EM, podemos priorizar o trabalho em determinada categoria, almejando beneficiar ou transpor obstáculos pertinentes à mesma. Figura 2 – Efeito do mês de nascimento sobre detecção de cio e taxa de prenhez ao final da EM em novilhas Nelore de 24 meses de idade As novilhas de reposição são um ponto chave dentro de um rebanho de cria. Pois elas possuem o melhor material genético da fazenda e serão as futuras produtoras de bezerros da propriedade. Já foi dito que novilhas nascidas no “cedo” apresentam maior taxa de ciclicidade e melhor desempenho reprodutivo em sua primeira EM do que novilhas nascidas no “tarde” (Figura 2). Entretanto, quando se deve trabalhar essa categoria dentro da estação de monta? Um fator que deve ser levado em conta é que as novilhas deste ano serão as primíparas do próximo ano, efeito longo prazo, então, o cronograma de trabalho precisa ser feito de maneira a beneficiar essa novilha, quando ela vir a se tornar uma primípara. Como demostra a Figura 3, quanto mais dias pós-parto (DPP), maior é a perda de condição corporal, e quanto menor o escore de condição corporal (ECC), maior o desafio para esse animal se tornar gestante. Sendo assim, as novilhas devem ser emprenhadas para parir próximo ao início da próxima estação de monta, pois, dessa maneira, as primíparas serão inseminadas com um menor DPP e maior ECC, tendo uma maior expectativa de prenhez. As primíparas são a categoria com maior demanda nutricional dentro da fazenda, pois não terminaram seu crescimento até a fase adulta e já possuem um bezerro ao pé, e, por isso, demandam mais energia para contemplar a produção de leite, o crescimento e ainda devem estar aptas a conceber novamente e levar a gestação a termo. Portanto, é um grande desafio ter bons resultados com vacas de primeira cria! Como mencionado, após o parto, ocorre uma redução gradativa no ECC da matriz. Esse é um processo fisiológico e ocorre devido à alta demanda energética da fêmea na produção de leite para o bezerro. Uma estratégia de fácil adoção e custo zero é inseminar esses animais o mais próximo possível do parto, não dando tempo para que a matriz tenha uma acentuada perda de ECC. Como mencionado anteriormente, a estratégia para as novilhas é o atraso no momento da IA. Essas irão parir próximo ao começo da estação de monta, e como consequência, as primíparas serão inseminadas com menor DPP possível. Nessa categoria, acreditamos que teremos um pouco de perda de peso à desmama para beneficiar a eficiência reprodutiva das primíparas. Seguindo com as categorias que temos dentro de uma estação reprodutiva, temos as multíparas, que já atingiram a fase adulta, portanto, apresentando uma menor demanda energética em relação às primíparas, mas precisam produzir leite para os bezerros. O que deve ser levado em conta para essa categoria é o momento do nascimento das crias, o que irá influenciar o desempenho, conforme mencionado anteriormente. Então, devemos emprenhar o maior número possível de vacas no estágio inicial da EM. Em algumas propriedades, ocorre a retenção de matrizes solteiras, ou seja, que não possuem bezerro ao pé. Não iremos discutir a viabilidade econômica dessa prática, mas com foco na gestão da reprodução, essa categoria apresenta um menor desafio, pois possuem geralmente uma adequada condição corporal, o que aumenta suas expectativas de prenhez. Nessa categoria, é sempre comum taxas de prenhez ao final da EM acima de 90%. Sendo assim, utilizando- se de um protocolo adequado a essa categoria, podemos esperar um bom desempenho reprodutivo. Figura 3 - Evolução do escore de condição corporal de acordo com os dias pós-parto. B) Expectativa de prenhez a IATF conforme o ECC da matriz Com exceção das novilhas, todas as outras categorias devem ser trabalhadas intensamente na fase inicial da EM, a fim de obtermos a maior quantidade de prenhezes logo no início e o nascimento de bezerros no “cedo”, que são os animais superiores da fazenda. Devido a limitações físicas e de mão de obra, não é possível inseminar todas as matrizes aptas no período necessário. Então, o cronograma de trabalho deve priorizar as categorias com maior desafio. Conforme mencionado no texto, devemos priorizar IATF das primíparas; em seguida, as multíparas e, por fim, as solteiras e novilhas. Esse cronograma de trabalho pode reduzir custos com suplementação das novilhas, pois essas terão mais tempo para atingirem a maturidade sexual; e as primíparas terão menor espaço de tempo de perda ECC e IATF, bem como um menor período, com menor oferta de forragem após o parto. Os escores corporais das fêmeas devem ser observados cuidadosamente Diversas outras estratégias podem ser adotadas para maximizar os resultados da estação reprodutiva, mas cabe ao técnico e ao produtor estarem atentos aos desafios de cada propriedade e região, buscando estratégias que ajudem a transpor tais barreiras. Com uma gestão adequada da reprodução, a fazenda beneficia as diferentes categorias e o planejamento do trabalho permite prever e se preparar para eventuais obstáculos, podendo aumentar a produção de bezerros e melhorar o desempenho reprodutivo das matrizes. É importante lembrar que uma boa nutrição através da suplementação mineral e/ou proteico-energética é imprescindível para um bom desempenho reprodutivo. Vale ressaltar que as técnicas reprodutivas multiplicam o material genético escolhido e, por isso, devemos ter um foco importante na escolha do sêmen e dos touros que serão utilizados na EM. Se for escolhido sêmen de um touro de baixa qualidade genética, esse material será multiplicado no rebanho. Além disso, água de qualidade e de fácil acesso e um bom manejo que respeita o bem-estar dos animais também é imprescindível para um bom resultado. Uma boa estação de monta a todos! *Adnan, Vasconcelos e Rogério são pesquisadores do Departamento de Produção Animal – FMVZ – UNESP/Botucatu-SP Esta reportagem foi escolhida pelo leitor da Revista AG, que votou por meio da Newsletter Agronews. Aproveite agora e escolha entre as três reportagens que estão em votação a que você prefere ver estampada nas páginas de nossa revista. 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