Do Pasto ao Prato

“PELO FINO”, UMA NECESSIDADE

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

crescimento do cruzamento industrial no Brasil é inegável e igualmente é o predomínio da genética Angus nesse segmento, tanto através de touros Angus como Brangus. A participação da genética Hereford vem crescendo também como alternativa de cruzamento e os conceitos e preocupações deste texto servem da mesma forma para essa raça. Para que o uso de genética de taurinos em larga escala tenha longevidade, precisamos nos preocupar e trabalhar mais com características relacionadas a “adaptação”, tolerância ao calor e, consequentemente, a esperada maior resistência ao carrapato.

A busca de animais com maior “adaptação” e maior tolerância ao calor é uma necessidade nas raças taurinas para produção em rebanhos puros, e, especialmente, para cruzamentos, pois esses ocorrem principalmente em áreas mais quentes no Brasil.

O estresse calórico tem impacto negativo na produtividade dos rebanhos e leva aos seguintes prejuízos em produção animal:

O tipo de pelo (ou pelame) tem relação direta com o estresse calórico, pois animais com mais pelo têm a evaporação prejudicada, e esse é um dos principais mecanismos de troca de calor do bovino.

A preocupação em relação ao tipo de pelo é um tema antigo dos criadores e muitos relatos de campo são conhecidos, porém, nos últimos anos, foram intensificados os trabalhos de pesquisa, especialmente nos EUA, com suporte da American Angus Association. Além do tipo de pelo do animal, é importante a facilidade que o animal possui para perdê-lo na mudança de estações, o que é chamado de hair shedding ou “pelechamento” no Sul do Brasil.

Um grupo de pesquisadores das universidades dos estados da Carolina do Norte e do Mississippi estudou esse tema em mais de 500 fêmeas em três rebanhos, por três anos consecutivos (2007 a 2009), realizando cinco avaliações a cada 30 dias. Outro trabalho foi conduzido entre 2008 a 2010, avaliando, aproximadamente, 7 mil animais em 18 rebanhos, incluindo fazendas no Texas, Missouri, Kentucky, Tennesse, Alabama, Mississippi, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Virginia.

A pesquisa americana mostrou que a característica hair shedding é facilmente mensurável, de alta repetibilidade e de herdabilidade média (acerca de 0,35), sendo assim efetiva a seleção genética.

Os últimos trabalhos de pesquisa comprovaram a existência de correlação entre o tipo de pelo e o peso ao desmame, em que vacas com maior facilidade para perder o pelo desmamam bezerros mais pesados.

O tipo de pelo tem especial impacto nas regiões subtropicais e, assim, a atenção nesse assunto tem muita importância em nosso país, pois as situações de estresse calórico são frequentes e ainda de maior magnitude em regiões que combinam alta temperatura e alta umidade.

No Brasil, os animais são avaliados para pelame em escores de 1 a 3, em que 1 corresponde a pelo fino e curto e 3 ao pelame longo e denso (lanoso). Nos EUA, as avalições usam escores de 1 a 5 conforme figura abaixo.

Tanto é verdade que o tema “pelo fino” é de interesse dos pecuaristas que as raças africanas Senepol e Bonsmara têm sido usadas em programas de cruzamento, como opção para fêmeas F1 (Angus/ Nelore) ou até como primeira opção para o cruzamento direto com o Nelore. A virtude dessas raças é a pelagem curta e fina, porém, são grupos genéticos oriundos de populações relativamente pequenas se comparadas ao Angus. O propósito desse comentário não é comparar as raças, mas sim evidenciar que os produtores buscam alternativas de animais com maior adaptação.

 

GAP Genética - o catálogo indica animais com maior potencial de adaptação

Venda de touros “tosados”
Ainda é comum a venda de touros tosados nos leilões, especialmente no Rio Grande do Sul. Essa conduta tem o propósito de dar melhor aspecto e apresentação aos animais, todavia, oculta a informação do tipo de pelame de cada indivíduo. Dessa forma, tornamos praticamente impossível a escolha de animais mais adaptados para os produtores que buscam essa característica.

Deve ser comentada a exceção do trabalho da GAP Genética, que além de não tosar os touros que comercializa em seus leilões, oferece orientações para os clientes referente à “potencial adaptação” dos touros. Os técnicos da fazenda classificam os touros, previamente ao leilão anual, e disponibilizam no catálogo escores de adaptação para todos os touros ofertados. Nesse item, são considerados, além do tipo de pelo, o tamanho do prepúcio e o biótipo, no caso de touros sintéticos (Brangus e Braford), pois, nessas raças, existem indivíduos com mais ou menos características fenotípicas de zebuíno.

Confira na figura uma página do catálogo e na coluna “ADAPT” a recomendação da fazenda de animais com maior ou menor potencial de adaptação a regiões quentes. A prática de campo e os trabalhos de pesquisa nos EUA confirmam o que a maioria dos selecionadores já sabia: animais que trocam de pelo com mais facilidade são mais saudáveis e produtivos. Dessa forma, a atenção para essa característica não é somente relevante para quem busca o mercado do cruzamento, mas sim para todo criador.

As pistas de exposições de animais de elite, de certa forma, induzem-nos a usar genética com mais pelo, pois nos EUA e na Argentina, nossos dois principais fornecedores de genética para esse segmento, existe uma preferência por indivíduos com mais pelo, pois têm vantagem no preparo, “penteado” e apresentação.

A contribuição da pesquisa americana é muito válida e nos dá confiança que existe sustentação técnica para selecionar e multiplicar animais com maior facilidade de troca de pelo, entretanto, não podemos esperar que a solução para essa questão venha do exterior, pois o desafio de usar genética de taurinos no subtrópico é um trabalho que tem de ser desenvolvido por nós. Se o amigo é selecionador ou usuário de genética de Angus/ Hereford coloque este assunto na pauta: PELO FINO!