Adaptabilidade

 

Careta brasileiro

Não temos o direito de errar novamente. Adaptação é igual a produtividade

Antonio C. O. Cabistani*

Por que temos tranquilidade quando afirmamos isso? Porque é lógico! Sendo assim, o que vimos até agora é antagônico, pois as vendas de sêmen no Brasil mostram uma esmagadora superioridade de genética estrangeira em detrimento da nacional, genética essa vinda de lugares extremamente frios com temperaturas inferiores a -30ºC, com umidade mínima e com nutrição totalmente artificial, com ‘‘ração à base de grãos e promotores de crescimento (hormônios e antibióticos)’’, além de ficar em locais com ambiente controlado (temperatura e umidade) e espaço reduzido (confinamento), para não gastar energia e, com isso, acelerar ao máximo seu desempenho em ganho de peso.

Mas não é essa a nossa realidade. Pelo contrário, temos temperaturas altíssimas, que variam no Rio Grande do Sul, entre máxima de 47ºC no verão, e mínima de -2ºC no inverno, com alta umidade, possibilitando, assim, a proliferação de ecto e endoparasitas, além de uma alimentação à base de pasto nativo, ‘‘pobre em proteína e energia’’, em campos fracos e que não foram utilizados pela agricultura, que prefere os melhores campos em relação à topografia e a constituição mineral do solo.

Vaca Zebu com bezerro meio-sangue Angus ao pé

Portanto, sobram os piores campos para a pecuária, com déficit mineral e relevos acidentados, aumentando ainda mais as dificuldades para o animal expressar bons desempenhos reprodutivos e ganho de peso. Com essa situação, somos ainda desafiados a aumentar a produtividade a baixos custos, além de produzir carnes com alta qualidade para disputar o mercado internacional e um mercado interno cada vez mais exigente. O cruzamento industrial é a melhor ferramenta para resolver esse dilema, contudo, não temos o direito de errar novamente, pois, no passado, o que se viu foi mestiçagem e não cruzamento direcionado e técnico.

Cruza Hereford X Angus = CARETA

Engana-se aquele que pensa que cruzamento é tema novo. Isso vem sendo estudado e experimentado a muitos anos e por gente muito competente. Cabe a nós utilizarmos esses conhecimentos e adaptá- los a nossa realidade. O cruzamento é uma ferramenta poderosa no processo do melhoramento genético, pois, através dele, conseguimos: 1º) combinar com rapidez características desejáveis de duas ou mais raças, obtendo com maior frequência as boas caracteríscas nos novos indivíduos, frutos desse cruzamento; 2º) captalizar o vigor híbrido ou heterose, tanto nas vacas cruzadas, quanto em suas crias. Vigor híbrido ou heterose é a expressão superior da média dos indivíduos filhos do cruzamento, comparados com a média dos filhos da raça pura em características de interesse, como puberdade, fertilidade, ganho de peso e qualidade de carne, por exemplo. Trabalhos científicos foram realizados sobre cruzamentos entre raças puras britânicas já conhecidas por nós: o Hereford e o Angus. Elas apresentam similaridades entre si, como tamanho, fertilidade, precocidade e qualidade de carne, entre outros, mas eu disse similaridades. Ou seja, leves diferenças são notáveis, não só fenotipicamente, como em temperamento, habilidade materna, vigor híbrido e distribuição de gordura na carcaça. Angus é mais marmoreio; Hereford é mais terminação na carcaça. Não é nossa intenção exaltar ou castigar esta ou aquela raça e sim utilizar as diferenças como um plus no programa de cruzamento. Dessa maneira, estaremos captalizando as características desejáveis.

Antônio Cabistani observa que as vendas de sêmen no Brasil mostram uma esmagadora superioridade de genética estrangeira em detrimento da nacional

Todos esses trabalhos nos provam que o cruzamento entre raças puras britânicas Hereford e Angus apresentam um ganho genético substancial e que, dependendo da raça do pai ou da mãe envolvidos, existem também diferenças. Sobre a qualificação da carne, infelizmente não encontrei nenhum trabalho científico. Todavia, os maiores chefs da cozinha internacional dizem que a melhor carne é a do ‘‘Careta’’, que é a cruza entre as duas raças. Mas por quê? Quando adicionamos as características de maciez, marmoreio, cor, acabamento externo e sabor, o resultado é um produto de excelência.

Como gerar esse produto se nosso país apresenta uma condição ambiental subtropical? As raças Angus e Hereford foram introduzida no Brasil no fim do século XIX, no Rio Grande do Sul, onde foram selecionadas e aprimoradas sob nossas condições ambientais. Isso nos dá um diferencial, pois formamos uma genética pura e adaptada para formar os melhores sintéticos Braford e Brangus em produção de carne de qualidade e produtividade para todo o território nacional.

Cruzamento entre vaca meio-sangue Brangus X Braford 3/8

Se já temos a prova que o cruzamento do zebu com Hereford e zebu com o Angus são superiores em produtividade e qualidade de carne, por que não podemos realizar um retrocruzamento entre eles para melhorar o que já é bom? Esta é a nossa receita: utilizar o cruzamento do zebu brasileiro (adaptado e funcional) com o britânico ‘‘abrasileirado’’ (adaptado e funcional), e sobre esse meio-sangue realizar uma retrocruza utilizando o Braford 3/8 sobre vacas Brangus 1/2 (Angus x Zebu) e ou Brangus 3/8 sobre vacas Braford 1/2 (Hereford x Zebu). Estaremos utilizando a vaca cruzada 1/2 (meio-sangue), que é ótima como matriz e produziremos um indivíduo ainda superior.

Vaca Nelore com bezerro meio-sangue Hereford ao pé

Tenho a tranquilidade de me expor escrevendo este artigo. Esse programa foi implementado na Agropecuária Fischer e os resultados de ganho de peso, terminação, velocidade de engorda e de qualidade de carne foram extraordinários, muito superiores a qualquer outro sistema experimentado, dito pelo Dr. Roberto Barcelos, técnico responsável na época, porém, por uma decisão administrativa, a Agropecuária Fisher direcionou seu trabalho para a definição de uma única raça. Parece que somente o tempo passou. Eu e Roberto não esquecemos daquele projeto. Espero ainda ver o Brasil utilizar esse programa de forma extensiva, para que possamos finalmente produzir em escala, assim como o Nelore, carcaças padronizadas, porém, com qualidade (maciez, acabamento e sabor), além de precocidade e velocidade de ganho de peso.

*Antônio Cabistani é médicoveterinário e diretor da Cort Genética Brasil