O Confinador

MINERAIS E VITAMINAS

Recomendações dos níveis necessários na dieta de bovinos confinados

Rogério Marchiori Coan*

O avanço científico sobre as exigências dos animais e dos valores nutritivos dos alimentos disponibilizou aos nutricionistas o conhecimento técnico e as informações necessárias para o balanceamento de dietas precisas e funcionais, de acordo com cada categoria e nível de produção desejado no confinamento.

O requerimento mineral depende muito do nível de produtividade. O aumento da taxa de crescimento e de produção aumenta os requisitos minerais. Em baixos níveis de produção, deficiências minerais marginais (próximas ao limite mínimo de exigência) não se manifestam, mas com o aumento dos níveis de produção, tornam-se severas, com sinais clínicos bem característicos.

Muitos dos minerais essenciais são usualmente encontrados em concentrações adequadas nos alimentos normalmente utilizados em dietas de confinamento. Outros minerais são frequentemente insuficicentes e a suplementação na dieta é necessária para otimizar a performance animal e a saúde. Um exemplo dessa variável refere-se ao potássio. Em dietas com elevada participação de alimentos concentrados ou que fazem uso do bagaço de cana, recomenda-se a inclusão de uma fonte ou a utilização de um núcleo mineral com maiores níveis de potássio.

Em relação ao cálcio e ao fósforo, as exigencias são extremamente variáveis, uma vez que dependem principalmente das taxas de crescimento e do peso do animal. Animais mais jovens e inteiros, que depositam mais proteína, têm maiores exigências de fósforo. Em confinamentos comerciais brasileiros, para animais com peso corporal de entrada ao redor de 350 kg e com taxas de ganho de peso entre 1,50 a 1,70 kg/dia, recomenda- se 0,70% na MS de cálcio e de 0,30% na MS de fósforo na dieta. As inclusões de fontes de cálcio e fósforo vão depender dos outros ingredientes da dieta.

Os teores de cálcio nas dietas são elevados em consequência da possibilidade da presença de gorduras que podem reduzir a digestibilidade desse mineral. Dados recentes de pesquisa sugerem que as exigências de fósforo do NRC e de outros sistemas estão superestimadas e que há a possibilidade de redução para 0,15 a 0,25% da MS na dieta, sem comprometimento do desempenho e com grandes benefícios ambientais.

No que se refere ao sódio, a recomendação do National Research Council - NRC (1996) é de 0,06 a 0,08% da MS. A recomendação de consultores norte-americanos é de 0,30% de cloreto de sódio, o que representa a inclusão de 0,12% da MS de sódio.

Quanto ao enxofre, a recomendação do NRC (1996) é de 0,15% da MS. Consultores e nutricionistas norte-americanos sugerem valores surpreendentemente mais altos, que variam de 0,19% a 0,22%.

Para o magnésio, a recomendação do NRC (1996) é de 0,10% da MS. Consultores e nutricionistas norte-americanos recomendam 0,22% da MS.

Em relação ao potássio, o NRC (1996) recomenda a inclusão de 0,60% da MS, enquanto que as recomendações estadunidenses situam-se em 0,70% da MS.

Para os microelementos minerais, sete são essenciais para bovinos em crescimento e terminação: iodo, cobre, zinco, manganês, selênio, cobalto e ferro (NRC, 1996). Desses, em uma formulação de núcleo mineral para bovinos confinados, a preocupação deve ser em ajustar as demandas dos seis primeiros, uma vez que as concentrações de ferro nos outros ingredientes da dieta já atendem a necessidade.

Quanto ao iodo, a recomendação do NRC (1996) é de 0,50 mg/kg MS. Os EUA sugerem concentrações de iodo ao redor de 0,75 mg/kg MS. Níveis ao redor de 0,8 a 0,90 mg/kg MS podem ser trabalhados em função de problemas de homogeneidade de mistura da dieta.

Já quanto ao cobre, a recomendação do NRC (1996) é de 10 mg/kg MS. Mas há relatos de resultados positivos com cobre elevado e, portanto, são recomendados 15 mg/kg MS. Consultores daquele país sugerem níveis mais elevados, que se situam entre 15 mg/kg e 20 mg/kg MS.

Para o micromineral zinco, a recomendação do NRC (1996) é de 30 mg/kg MS. A recomendação dos especialistas norte-americanos é muito superior (entre 74 a 93 mg/kg MS).

Quanto ao manganês, a recomendação do NRC (1996) é de 20 mg/kg MS, enquanto sugerem valores mais altos, entre 38 mg/kg MS e 48 mg/ kg MS.

A sugestão para o micromineral selênio é de 0,10 mg/kg MS, de acordo com o NRC (1996) e de 0,21 e 0,24 mg/kg MS, conforme a recomendação daqueles profissionais.

Por fim, para o micromineral cobalto, o NRC (1996) recomenda a dosagem de 0,10 mg/kg MS. Já a outra vertente sugere a dosagem de cobalto em 0,24 a 0,38 mg/kg MS.

Quanto às vitaminas, existem 15 vitaminas metabolicamente essenciais para a produção animal. Algumas desviam da definição inicial, uma vez que não necessitam estar presente nos alimentos, pois podem ser sintetizadas no trato gastrointestinal pelas bactérias do rúmen, que as produzem em quantidades adequadas para atendimento das demandas do organismo animal. São exemplos as vitaminas do complexo B, K, C e D. Ainda podem ser sintetizadas a niacina, que é derivada a partir do triptofano, e a vitamina D, a partir da ação da luz solar ultravioleta, incidindo sobre precursores que estão presentes na pele animal.

Rogério Coan compara os níveis de vitaminas e minerais preconizados por especialistas brasileiros e norte-americanos

A dieta de ruminantes é composta essencialmente da combinação de alimentos concentrados (cereais e suplementos proteicos) e volumosos (forragens). As forragens frescas ou conservadas são fontes de vitaminas A, E, D, niacina e tiamina. Segundo o NRC (2001), as forragens verdes contêm quantidades consideráveis de β-caroteno, entretanto, a maioria dos grãos e subprodutos apresenta baixas quantidades. Para as forragens frescas e grãos de cerais, a concentração de vitamina E pode ser elevada, embora sua concentração decresça rapidamente após o corte e a exposição prolongada ao oxigênio e à luz solar, no caso das forragens frescas.

A disponibilidade das vitaminas nos alimentos é muito variável em função da fonte de alimento (forragem ou concentrado). O método de conservação pode influenciar no conteúdo de vitaminas presente nas plantas (Tabela 1). A destruição enzimática do caroteno começa quando a forragem é cortada e intensifica-se nos primeiros estágios de crescimento, fato atribuído à presença de enzimas conhecidas como lipoxigenases, grupo de isoenzimas que destroem o β-caroteno das forragens. O β-caroteno e o α-tocoferol são destruídos pela oxidação acelerada pela luz ultravioleta e o calor. O aquecimento prolongado, sem oxigênio, parece exercer um menor efeito.

O maior tempo de exposição solar decorrente do processo de fenação também reflete na maior destruição do β-caroteno. Alguns trabalhos na literatura mostram que se após o corte houver exposição por um período prolongado e, nesse mesmo tempo, ela for exposta à chuva, a destruição do β-caroteno é quase completa. Porém, uma rápida desidratação das forragens propicia um aumento no teor de β-caroteno e α-tocoferol. Os pesquisadores atribuem isso ao nível residual de umidade presente nas forragens e que tem efeito direto sobre a destruição do β-caroteno e α-tocoferol.

Por outro lado, as forragens secas ao sol apresentam maior teor de vitamina D, como é o caso da alfafa seca ao sol, que apresentou duas vezes mais vitamina D que a secada à sombra.

A ensilagem garante uma maior conservação de carotenos e tocoferóis em relação ao processo de fenação. A secagem prévia, que muitas vezes precede à ensilagem da forragem ou uso de aditivos, tem aumentado as perdas de β-caroteno durante a fase preliminar aeróbica de forragem ensilada. Quando ensiladas, as perdas nas forragens de carotenos podem chegar até 30%.

As perdas de β-caroteno e α-tocoferol em feno de leguminosas são também correlacionadas positivamente com o tempo de estocagem (Tabela 2). Os fatores que podem estar envolvidos nessa perda são: umidade, temperatura, luz e reações catalíticas. Altas temperaturas no silo também proporcionam maiores perdas de vitaminas. Uma segunda degradação do caroteno e tocoferol também ocorre após a conservação, isto é, no momento em que a forragem permanece exposta no cocho.

As vitaminas podem ser estocadas pelo consumo anterior, com isso, diminuem a dependência do seu consumo diário. Isso ocorre com as vitaminas lipossolúveis e a vitamina B12.

As reservas corporais, aliadas aos fatores supracitados, podem influenciar significativamente o requerimento das vitaminas pelo organismo animal, alterando o nível adequado para se obter o seu melhor desempenho em relação ao seu crescimento e produção.

As vitaminas atuam como fator de crescimento para os microrganismos ruminais. Contudo, os requerimentos diferem individualmente e nem todos sintetizam todas as vitaminas do complexo B, por isso, algumas vitaminas que não são sintetizadas são obtidas unicamente através da dieta.

Embora as exigências desses nutrientes variem entre as espécies, a biotina parece ser uma das mais exigidas entre as bactérias, seguida pelo ácido para- -aminobenzoico (PABA) e ácido fólico (Tabela 3). As principais bactérias ruminais (Fibrobacter succinogenes, Ruminococcs flavefaciens e Ruminococcus albuns), que degradam celulose, requerem biotina para seu crescimento.

A síntese de vitaminas do complexo B e vitamina K ocorrem durante a degradação e fermentação dos nutrientes presentes na dieta pela microbiota ruminal (Tabela 4), o que nos leva a concluir que os ruminantes raramente são suplementados com essas, exceto para os ruminantes jovens. A vitamina D é sintetizada através da radiação ultravioleta sobre os esteróis presentes na pele dos ruminantes; a vitamina C é metabolizada a partir de açúcares (glicose e galactose) e a Niacina pode ser sintetizada a partir do triptofano, dependendo do nível desse aminoácido.

Com vistas no exposto, tem-se que a suplementação exógena de vitaminas em ruminantes adultos consiste basicamente em vitaminas A e E. Todavia, em determinadas circunstâncias, o nível de exigências desses nutrientes pode ser aumentado, o que leva necessariamente a uma suplementação. Dificuldades em se definir as exigências fisiológicas desses nutrientes podem ocorrer, pois variam de acordo com os objetivos traçados, seja na prevenção dos sintomas de deficiências ou nos requerimentos para máxima performance animal, principalmente para bovinos confinados.

As recomendações de vitaminas A, D, E e Niacina (Tabela 5) apresentadas pelo RPAN (1998) são maiores que as necessidades fisiológicas, uma vez que foi incorporada uma margem de segurança para garantir que o desempenho dos animais não seja comprometido.

O NRC, (1996) recomenda a inclusão de 2.200 U.I de Vitamina A/ kg de matéria seca (MS) para bovinos confinados. Já consultores americanos sugerem trabalhar com praticamente o dobro dessa dosagem, ao redor de 4.400 U.I/kg MS.

Para a vitamina D, tanto em confinamentos brasileiros como em norte-americanos, tipicamente não é suplementada, já que animais expostos à luz solar sintetizam quantidades necessárias. Segundo o NRC (1996), as exigências de vitamina D para gado de corte são de 275 U.I/kg MS. Quando se pratica a suplementação, as recomendações brasileiras e norte- americanas são muito próximas, ao redor de 320 U.I/kg MS.

Por fim, a determinação das exigências de vitamina E para ruminantes é difícil, em função das interrelações dessa com outros componentes antioxidantes. Atualmente, preconiza-se a inclusão de 5,5 a 110 U.I/kg MS em dietas de bovinos terminados em confinamentos norte-americanos, com uma média de 25 UI/kg MS. Em confinamentos brasileiros, as inclusões encontram-se entre 5 e 7 U.I/kg MS, com resultados bastante heterogêneos (às vezes positivos e às vezes nulos). Acredita-se ser particularmente interessante a inclusão de vitamina E às dietas de novilhos superprecoces, para os quais se sugere a inclusão de 10 UI/kg MS.

Rogério Coan é proprietário da Coan Consultoria - [email protected]