Sanidade

  

CARRAPATO

Após proibição das Avermectinas de Longa Ação, incertezas pairam sobre a cabeça dos pecuaristas e representantes da indústria de saúde animal

Cintia Rocha

Desde que foi anunciada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a Instrução Normativa nº 13, que proíbe a fabricação, manipulação e comercialização das avermectinas (lactonas macrocíclicas) de longa ação, tem dado o que falar. De um lado está o Governo, que também suspendeu temporariamente os registros concedidos aos produtos até a conclusão de novos estudos científicos, e do outro estão os pecuaristas e suas classes representativas, a indústria de saúde animal e outros elos da cadeia que se mostram descontentes com a decisão.

Pouco antes de a normativa entrar em vigor, a Secretaria de Defesa Agropecuária (SDA) do Mapa havia realizado uma reunião para criar um grupo técnico com o intuito de analisar a segurança da ivermectina de longa ação no rebanho nacional. O projeto envolve a participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) e da Universidade de São Paulo (USP). No dia 8 de maio, a SDA chegou a publicar a Instrução Normativa nº 12/2014 no Diário Oficial da União (DOU), que incluía as avermectinas de longa ação, liberando apenas para venda controlada, ou seja, somente poderiam ser comercializadas após a emissão de um receituário veterinário.

Apenas uma fêmea ingurgitada, a “jabuticaba”, é capaz de colocar 3 mil ovos

O grupo químico das lactonas macrocíclicas engloba a ivermectina, a doramectina, a mioxidectina e a abamectida, consideradas as principais moléculas do controle de endo e ectoparasitas, a exemplo do carrapato, que causa prejuízos de US$ 3 bilhões à pecuária brasileira. A medida é preventiva e visa ao mercado externo, sobretudo, o norte-americano, que, apesar de representar menos de 5% das exportações brasileiras, tem boas perspectivas de abrir espaço para a entrada de carne in natura do Brasil. A ivermectina de longa ação (LA) tem eficácia acima de 42 dias, em média. A concentração de 3,15% permite um período de proteção ainda mais longo, de três a quatro meses, frente à formulação clássica a 1%, que age por 28 dias.

Para o diretor de Sanidade Animal do Conselho Nacional da Pecuária de Corte (CNPC), Sebastião Guedes, o Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes do Mapa revela, em ampla amostragem, que não existe presença de resíduos desses produtos em amostras de carne brasileira. “As lactonas macrocíclicas de longa ação são registradas e usadas no Brasil desde 1997, conforme a Portaria nº 48, de maio de 1997. Nos últimos quatro anos, a importância desses produtos para o sistema extensivo da pecuária brasileira foi discutida na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados e em congressos de Medicina Veterinária, sendo positivamente avaliada por pesquisadores e técnicos de universidades, institutos de pesquisa, entidades da cadeia da carne e das indústrias de produtos para saúde animal. O Mapa fez uma revisão nas licenças dos produtos e exigiu maior destaque para períodos de carência”, relembra.

De acordo com o Dr. Guedes, o CNPC elaborou, com recursos investidos pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), mais de 20.000 unidades de CDs e publicações destinadas à extensão rural para treinamento da mão de obra rural, criadores, técnicos e agricultores familiares sobre o problema de resíduos, carências e prazos de retirada do produto no pré-abate e destinação dos alimentos para consumo humano. “O sucesso do material, o qual privilegiou as ilustrações, foi enorme e houve múltiplas solicitações de diversas entidades de classe, repartições públicas, escolas e até mesmo de grandes frigoríficos. Houve troca de informações entre frigoríficos e indústria de insumos sobre as regiões com maior uso do produto e maior frequência de resíduos. O uso de produtos de longa ação é prática racional para nosso País, onde o rebanho, em grande parte, é reunido apenas duas vezes por ano por ocasião das vacinações contra aftosa”, disse, defendendo o uso das Avermectinas L.A. (Longa Ação).

Banho carrapaticida sob imersão pode ser opção para rebanhos maiores

Em carta aberta, a diretoria da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) comenta que a decisão do Ministério foi tomada erroneamente no início do inverno, período do ano em que muitas propriedades implementam o processo de vermifugação dos rebanhos. “Em função disso, neste momento, pode- -se presumir que uma parte significativa do rebanho nacional foi recentemente tratada com o produto, e que ainda existem milhares de litros de Avermectinas L.A. nas revendas e em cooperativas de nosso vasto País. Cabe aqui lembrar que essas moléculas são aprovadas pelo Mapa e usadas no Brasil há mais de 25 anos, sendo seus benefícios de grande relevância para toda cadeia produtiva - em especial nos dias atuais, quando se vê a implementação de programas governamentais que buscam ganhos de eficiência na produção, redução de emissão de gases e preservação do meio ambiente”, descreve o documento divulgado.

A entidade confia que as avermectinas são usadas de forma responsável pelos produtores brasileiros, que respeitam os períodos de carência constantes nas bulas (estabelecidos pela indústria veterinária e aprovados pelo Mapa), assumindo, assim, que tais produtos são capazes de gerar benefícios e eficiência à produção, com total segurança para os produtos finais. “Não há evidências de que o pecuarista é relapso. Portanto, punir o produtor com essa medida é uma atitude equivocada. Partindo da consolidação da Instrução Normativa, surgem algumas questões que precisam ser respondidas: O que o produtor deve fazer com estoques já comprados? Quem irá ressarci-lo? Animais tratados com avermectinas L.A. podem ser comercializados? Eles podem ser exportados? Qual produto se utilizará em substituição?”, são as questões levantadas pela associação, e que obviamente também escancaram o repúdio à decisão do Governo.

Referente à IN, o Sindan declarou- -se surpreendido. “Estamos analisando as medidas cabíveis para que, de maneira proativa, possa resguardar os interesses de toda a indústria de saúde animal que venha a ser afetada diretamente pela norma. Os produtos de uso veterinário à base de lactonas macrocíclicas são utilizados em todo o mundo, dentro das recomendações da indústria de saúde animal, reconhecida pelos representantes da cadeia produtiva de proteína de origem animal como uma ferramenta indispensável para o controle de ectoparasitas que causam bilhões de reais de prejuízos à pecuária nacional. Nas condições tropicais, de alta pressão parasitária e do manejo extensivo utilizado no Brasil, essas moléculas de longa ação são essenciais a produtividade e competitividade brasileiras no mercado local e global de carnes”, assina Ricardo Pinto, presidente do Sindicato, que tem tomado as medidas cabíveis para anulação da Instrução Normativa.

No mês de junho, o sindicato entrou com pedido de revogação, o qual segue na justiça, aguardando o posicionamento da Advocacia-Geral da União, que teria até 8 de setembro para se manifestar, quando essa edição da revista já estava fechada. Segundo a entidade, o segmento das avermectinas movimenta entre R$ 400 e R$ 500 milhões por ano. O próprio Benedito Fortes de Arruda, médico-veterinário e presidente do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), reconhece a medida como dura demais e que o estabelecimento de regras para a aplicação de receituário veterinário e a fiscalização dos produtos comercializados, pelo mesmo Mapa, seriam medidas mais prudentes. “O CFMV sugeriu ao Ministério da Agricultura uma parceria, com o envolvimento de todo o Sistema CFMV/CRMV, para realizar a fiscalização apropriada. Sem a inspeção, esse produto continuará a ser aplicado no rebanho bovino brasileiro. Logo, a proibição das avermectinas de longa ação será inócua”, diz ele.

Cláudia Gomes lembra que o controle do carrapato varia de propriedade para propriedade

E o manejo agora, como fica?

Enquanto a IN segue em discussão, o uso das avermectinas convencionais, a administração de carrapaticidas pour-on e a pulverização seguem como alternativas para o pecuarista proteger o rebanho. Na opinião da especialista Cecília José Veríssimo, pesquisadora do Instituto de Zootecnia (IZ), uma forma de controle alternativo seria a criação de raças resistentes. Ela ressalta que os mestiços europeus x zebu serão tão mais resistentes quanto mais sangue zebu eles tiverem, e, logicamente, quanto mais sangue europeu, mais suscetíveis serão.

Este pequeno ácaro já atingiu a incrível marca de US$ 3 bilhões de prejuízo à pecuária nacional

“Nesses animais mestiços, deve-se fazer seleção, escolhendo aqueles com melhor desempenho (e maior resistência ao carrapato) como reprodutores, e eliminar do plantel os animais mais sensíveis, que são, geralmente, aqueles com menor desempenho, pois o carrapato afeta muito o ganho de peso dos animais sensíveis. Os resistentes nada sofrem com a infestação, pois ela é sempre muito pequena para produzir prejuízos”, exemplifica, pontuando ainda que a simples convivência de animais resistentes (zebuínos) com os mais suscetíveis (europeus) já ajuda a diminuir a quantidade de banhos necessários nos europeus.

Sobre outras soluções existentes, Cecília Veríssimo comenta que a homeopatia tem colaborado, e muito, no controle e é, atualmente, o recurso alternativo mais utilizado pelos produtores. Quem também tem conquistado espaço é a fitoterapia. “Ela tem algumas limitações em função de uma série de fatores relacionados às próprias plantas (que variam muito a sua constituição de princípios ativos conforme o local em que estão enraizadas, época do ano, parte da planta que é utilizada para produzir o medicamento, etc. Mas existem no mercado produtos à base de Nim e de alho (o enxofre extraído dele). O óleo de eucalipto também foi utilizado a 3,5% para controle desse ectoparasita, em uma pesquisa conduzida no Rio Grande do Sul, e funcionou muito bem, não deixando cheiro ou sabor no leite ou derivados”.

Este pequeno ácaro já atingiu a incrível marca de US$ 3 bilhões de prejuízo à pecuária nacional

A especialista cita, ainda, o controle biológico e os inimigos naturais do carrapato, categoria na qual estão as aves como as garças e galinhas, formigas, aranhas e tesourinhas, entre outros. “Por isso, quanto mais produto químico se usa, mais se afastam possíveis inimigos naturais do carrapato. O contrário também é verdadeiro: quanto menos produtos químicos se usam, mais inimigos naturais do carrapato aparecem para ajudar no controle do parasita. Já no segmento do controle biológico existe o fungo Metarhizium anisopliae, bastante estudado e aplicado nos animais após às 17 horas, por ser fotossensível”, expõe.

Marca das picadas de carrapato deixadas no couro do animal

Outras formas de controle apresentadas pela pesquisadora que tem coordenado workshops sobre esse inimigo são o controle seletivo do carrapato (controlar somente nos mais suscetíveis, deixando os resistentes sem banhar. Isso já ajuda muito a diminuir a quantidade de carrapaticida utilizado nos animais do rebanho); a rotação entre pasto e agricultura e tosar o pelo de animais muito peludos (europeus) - se possível - diminui a infestação do carrapato em 40%. Entretanto, a tosa seria viável apenas nos pequenos rebanhos. “O produtor também pode fazer o uso de pastejo rotacionado e adubado com ureia, pois essa substância tem efeito prejudicial à ingurgitada, que, quando em contato com o produto, morre sem pôr ovos. A alimentação também ajuda, pois qualquer descuido em termos de qualidade e quantidade de dieta vai se refletir na imunidade dos animais, diminuindo a sua resistência e tornando- -os mais suscetíveis ao parasita”, recomenda Veríssimo.

Conhecendo melhor o inimigo

No centro de toda essa questão, está o popularmente conhecido carrapato dos bovinos, que leva o nome científico de Rhipicephalus (Boophilus) microplus. Em comunicado técnico da Embrapa Pecuária Sul, a pesquisadora e doutora em parasitologia animal, Cláudia Cristina Gomes, descreve as fases de vida desse parasita, que de larva até fêmea ingurgitada, desenvolve-se de 18 a 35 dias, com período médio de 21 até 3.000 ovos e deles saem as larvas que sobem pelas gramíneas, arbustos ou paredes de abrigo à espera da passagem de um hospedeiro. Essas larvas (os micuins) são pequenas e passam despercebidas no meio da pelagem do animal. Após se alimentar no hospedeiro por alguns dias, a larva solta uma cutícula, cresce de tamanho e passa para a fase de ninfa. Ela continua a se alimentar e muda novamente de cutícula, atingindo a fase adulta. Inicialmente, machos e fêmeas têm o mesmo tamanho. No entanto, a fêmea alimenta-se mais do que o macho após a fecundação e seu corpo dilata-se para armazenar um grande volume de sangue, que é usado para a produção dos ovos. A fêmea repleta de sangue, ingurgitada – também conhecida popularmente por jabuticaba, chega a um tamanho 10 vezes maior que o macho. É nessa fase que ela se desprende do hospedeiro nas primeiras horas da manhã e faz a postura no solo.

Testes de resistência a produtos podem ser feitos gratuitamente nas unidades da Embrapa ou de outras instituições

Controle

De acordo com a pesquisadora do Instituto Biológico de São Paulo, Márcia Cristina Mendes, esse é um agente que causa grandes prejuízos à pecuária nacional, devido à redução na produção de leite, perda de peso dos bovinos, depreciação do couro e transmissão de agentes causadores da tristeza parasitária (confira o box). “O controle desse ectoparasita tem se restringido ao uso de carrapaticidas e seu uso excessivo predispõe a riscos de contaminação do meio ambiente, do homem e desenvolvimento de cepas de carrapatos resistentes. Boas práticas administrativas são reconhecidas, mas são raramente aplicadas. Nos últimos anos, a assistência técnica no meio rural tem promovido à transferência de tecnologia e a capacitação dos produtores rurais”, expõe a especialista, que explica que o controle estratégico consiste na concentração do tratamento carrapaticida em uma determinada época do ano, de forma que, no restante do ano, os mesmos sejam suspensos, mas a população de carrapatos se mantenha em níveis de infestações economicamente aceitáveis.

Ela cita que, de 2011 a 2013, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) e o Instituto Biológico implantaram controle estratégico de carrapato em 12 fazendas produtoras de leite localizadas na região de Bragança Paulista (SP) e que, neste trabalho, a transferência de conhecimentos e tecnologia foi feita pelos pesquisadores do Instituto Biológico aos técnicos da Cati e desses aos produtores, além do acompanhamento por visitas quinzenais.

“Foram realizadas visitas às propriedades para o conhecimento do sistema de manejo da fazenda, histórico de usos carrapaticidas e para orientação aos proprietários sobre a forma correta de aplicação dos carrapaticidas. Durante essas visitas, foram entregues EPIs (equipamentos de proteção individual). Conforme o princípio ativo do carrapaticida adotado para cada fazenda, o qual foi estabelecido através do teste do biocarrapaticidograma com os carrapatos de cada propriedade, foi elaborado um quadro para acompanhamento do intervalo entre tratamentos. O intervalo é calculado somando-se o número de dias da fase parasitária do R. microplus (21 dias) com o número de dias da ação residual do produto. Nesse trabalho, constatou-se que a estrutura de Secretaria de Agricultura proporciona os meios para a educação no campo focada no controle estratégico do carrapato dos bovinos. No entanto, esse é um desafio que conta com um longo tempo até atingir o comprometimento efetivo dos técnicos e produtores”, observa.

“Foram realizadas visitas às propriedades para o conhecimento do sistema de manejo da fazenda, histórico de usos carrapaticidas e para orientação aos proprietários sobre a forma correta de aplicação dos carrapaticidas. Durante essas visitas, foram entregues EPIs (equipamentos de proteção individual). Conforme o princípio ativo do carrapaticida adotado para cada fazenda, o qual foi estabelecido através do teste do biocarrapaticidograma com os carrapatos de cada propriedade, foi elaborado um quadro para acompanhamento do intervalo entre tratamentos. O intervalo é calculado somando-se o número de dias da fase parasitária do R. microplus (21 dias) com o número de dias da ação residual do produto. Nesse trabalho, constatou-se que a estrutura de Secretaria de Agricultura proporciona os meios para a educação no campo focada no controle estratégico do carrapato dos bovinos. No entanto, esse é um desafio que conta com um longo tempo até atingir o comprometimento efetivo dos técnicos e produtores”, observa.

Foram realizadas visitas às propriedades para o conhecimento do sistema de manejo da fazenda, histórico de usos carrapaticidas e para orientação aos proprietários sobre a forma correta de aplicação dos carrapaticidas. Durante essas visitas, foram entregues EPIs (equipamentos de proteção individual). Conforme o princípio ativo do carrapaticida adotado para cada fazenda, o qual foi estabelecido através do teste do biocarrapaticidograma com os carrapatos de cada propriedade, foi elaborado um quadro para acompanhamento do intervalo entre tratamentos. O intervalo é calculado somando-se o número de dias da fase parasitária do R. microplus (21 dias) com o número de dias da ação residual do produto. Nesse trabalho, constatou-se que a estrutura de Secretaria de Agricultura proporciona os meios para a educação no campo focada no controle estratégico do carrapato dos bovinos. No entanto, esse é um desafio que conta com um longo tempo até atingir o comprometimento efetivo dos técnicos e produtores”, observa.

Ainda segundo ela, os benefícios atingidos na execução do controle estratégico em uma propriedade rural estão na redução do número de tratamentos carrapaticidas por ano, na diminuição da pressão de seleção sobre o aparecimento da resistência dos carrapatos a produtos químicos, na redução dos gastos com a aquisição dos mesmos e contratação de mão de obra e na prevenção de problemas com intoxicação humana, animal e ambiental.

Resistência parasitária

A resistência do carrapato dos bovinos às bases comerciais disponíveis no mercado varia de propriedade para propriedade, segundo relata a pesquisadora Cláudia Cristina Gomes. No Sul, por exemplo, as pesquisas de resistência fornecem um panorama geral. Mas são poucos os trabalhos nessa área. “Não podemos generalizar o problema da resistência sem especificar a qual base química e a qual área/região/propriedade do estado estamos nos referindo. Vivemos sim um momento crítico de escassez de bases químicas que ainda funcionam, especialmente para a pecuária de leite, em que há mais restrições de bases permitidas, devido à liberação de resíduos químicos no leite. Porém, esse panorama é semelhante em todo o país e é uma consequência de diversos fatores”, completa. Entre eles, aponta:

1) Redução de investimento das indústrias químicas em pesquisas para se encontrar novas bases químicas para o controle do carrapato bovino.
2) Práticas/uso inadequados das bases químicas pelos produtores rurais que aceleram a instalação do processo de resistência.
3) Deficiência no conhecimento técnico específico de profissionais de campo (como veterinários e extensionistas) que fornecem assistência técnica aos produtores.
4) Ausência de assistência técnica contínua nas propriedades para planejamento sanitário, seja por restrição financeira do pecuarista, seja pela limitação de capacidade de atendimento do nosso sistema de assistência rural ou por uma visão de profissionais e pecuaristas ainda focada no tratamento curativo e não na prevenção.

“A resistência de R. microplus aos acaricidas comerciais torna-se ainda mais agravante na Região Sul, já que devido às características climáticas particulares (inverno com frio intenso) ocorre uma janela de imunidade dos animais contra a tristeza parasitária bovina (doença transmitida pelo carrapato bovino) em função da redução da infestação por carrapato durante o inverno. Quando se associa esse fato ao descontrole populacional do carrapato nos meses mais quentes do ano, aumenta-se o risco de ocorrência de surtos da doença, além dos prejuízos causados pelo próprio carrapato”, exemplifica a Dra. Cláudia Gomes.

Sobre a forma de diagnóstico de resistência, ela conta que esse estudo pode ser feito em laboratório para os acaricidas de ação por contato, ou seja, os que são usados em banheiros de aspersão, imersão e alguns pour-ons. Os acaricidas de ação sistêmica ainda não possuem ensaio laboratorial difundido entre as instituições para avaliação da resistência. A pesquisadora relata ainda que a frequência de uso de uma base química é o principal fator determinante da instalação do processo de resistência. Ou seja, quanto maior a frequência de uso, mais rápido se nota a resistência ao produto.

“Portanto, todo planejamento para o controle químico do carrapato bovino deve ter como objetivo reduzir, com o tempo, o número de tratamentos por ano. Dessa forma, retardamos o processo de desenvolvimento da resistência. Para que esse objetivo possa ser alcançado, é necessário fazer o uso correto dos produtos, conforme dose indicada pelo fabricante e práticas corretas de uso, além de considerar a dinâmica populacional do parasita na região. O produtor precisa de orientação técnica contínua para adequar o planejamento à realidade do sistema de produção”, define a médica-veterinária, ressaltando ainda que a Embrapa Pecuária Sul tem desenvolvido pesquisa em diversas linhas para encontrar novas formas de controle desse parasita. Em um dos estudos em andamento está sendo avaliado o efeito acaricida de extratos vegetais de plantas do Bioma Pampa, projeto na área de Ecologia Química em que estão sendo identificadas substâncias produzidas pelo hospedeiro com ação repelente e projeto na área de seleção genômica.

Cláudia Gomes também lembra que já foram identificados marcadores moleculares de resistência ao carrapato nas raças Braford e Hereford, sendo possível identificar bovinos dessas raças resistentes ao carrapato para uso em programas de seleção genética.

Tristeza Parasitária

Carrapatos e Tristeza Parasitária dos Bovinos (TPB), literalmente, caminham juntos, pois o primeiro transmite para o gado dois protozoários (Babesia bovis e Babesia bigemina) responsáveis pela doença denominada babesiose, e uma rickettsia (Anaplasma marginale), que causa a anaplasmose. Popularmente, tais doenças são conhecidas como TPB, que se manifesta por febre, anemia, hemoglobinúria (urina cor de sangue), icterícia (mucosas amareladas), falta de apetite, prostração e pelo arrepiado, determinando alta mortalidade em rebanhos sensíveis. A doença pode cursar na forma superaguda, com morte em poucas horas após o aparecimento dos sintomas; aguda, em que o processo leva alguns dias; ou crônica, quando os animais, muitas vezes, recuperam-se espontaneamente. A principal forma de combate a TPB é a vacinação.


RELEMBRE COMO OS PRODUTOS AGEM NO CARRAPATO

Carrapaticidas de contato
Organofosforados

Inibem enzimas que levam ao aumento das contrações musculares e consequente paralisia dos carrapatos.


Amidínicos
Invadem o organismo do carrapato, agem intensamente sobre a postura de ovos e têm ação em todas as fases do parasita.


Piretroides
Afetam o coração do carrapato, provocam descargas espontâneas no sistema nervoso e no músculo, levando a espasmos e convulsões.


Fenilpirazoles
Atuam sobre o sistema nervoso dos carrapatos, bloqueiam e paralisam os impulsos nervosos.


Tetranotriterpenoides
Têm ação repelente, inibidora do crescimento, redutora da fertilidade, além de causar distorções na metamorfose do carrapato. Atóxicas ao homem, não deixam resíduos no meio ambiente.


Carrapaticidas sistêmicos
Lactonas Macrocíclicas
Compreendem a abamectina, a ivermectina, a doramectina e a moxidectina. Atuam da mesma forma que o fenilpirazole, paralisando os carrapatos. São eficientes contra vermes e bernes. Essas são as moléculas cujos produtos de longa ação foram proibidos pela Instrução Normativa nº 13.


Benzofenilureas
Inibem o crescimento e impedem que larvas eclodam dos ovos. Impedem que os carrapatos mudem de fase e cresçam, impossibilitam a eclosão das larvas e controlam a população na pastagem.