Caindo na Braquiária

 

Sul do MS, a incubadora de ouro

Alexandre Zadra

Era por volta das 6 horas da manhã quando fui presenteado por uma das mais chocantes auroras que já havia vivenciado. O céu azul de inverno estava salpicado de pequenas e desenhadas nuvens de mesmo tamanho e impressionantemente padronizadas, estendendo-se da linha do horizonte ao alto, refletindo todos os tons de vermelho possíveis em cada uma.

Brindado com essa pintura celestial iniciei minha semana ao Sul do Mato Grosso do Sul com o objetivo de visitar alguns criadores que vêm usando o cruzamento industrial a fim de aumentar a taxa de desfrute e o giro de capital.

Como todos os que percorrem a região sabem, Bataguassu é a porta de entrada dessa incrível incubadora pecuária do Mato Grosso do Sul, tornando-se talvez um dos importantes polos de produção de bezerros de qualidade do Estado, juntamente a outras regiões como Camapuã.

Ladeado pelos ativos veterinários Carlos Vergilio e Débora Santos, pude fazer minha primeira visita nessa importante região com o intuito de analisar lotes de animais meio-sangue Angus/Nelore, bem como filhos de touros Red Brangus e vacas Nelore utilizados no repasse da fazenda.

Essa produtiva fazenda é administrada pelo casal de zootecnistas Bruno e Viviane, os quais têm a responsabilidade de gerenciá-la buscando o desfrute máximo. Para conseguirem esse intento, os mesmos, que possuem matrizes Nelore, vêm utilizando sêmen de touros provados da raça Angus de linhagem americana através da IATF, repassando-as com touros Red Brangus.

O objetivo, que no passado previa venda tanto de machos como de fêmeas cruzadas logo após a desmama a um programa de fomento, sofreu alterações desde a necessidade de reposição de matrizes, utilizando as novilhas precoces ½ Angus. Dessa maneira, afirma Bruno, “aproveitando minhas fêmeas F1, conseguirei aumentar meu rebanho matrizeiro rapidamente, já que a mesma entrará em reprodução no mesmo ano da desmama”. No tocante aos machos, os zootecnistas pretendem lançar mão do semiconfinamento, no qual todos os garrotes serão engordados e vendidos somente no momento do abate. Fiquei muito impressionado com os bezerros cruzados Brangus/Nelore que vi. Chamou muito a atenção a profundidade, o arqueamento de costela, a musculosidade e o peso à desmama, sendo logicamente os bezerros mais pesados os dos lotes dos filhos de Angus americanos, obtendo desmamas acima de 260 kg na média, aos 8 meses de idade. O passo seguinte para o casal foi definir qual raça utilizaria nas fêmeas meio-sangue, escolhendo o Senepol, do qual parte das meio-sangue já se encontra prenhe, lembrando que, caso queiram aproveitar as filhas tricross dessa raça como matrizes, terão o advento da heterose associado a pelo curto, ou seja, podem colher novamente precocidade e fertilidade, além de ótima habilidade materna.

Recomendamos aos técnicos que continuem utilizando sêmen de touros Angus com altas DEPs para Peso ao Ano, associado a DEPs intermediárias para Altura, devendo ainda esses reprodutores serem positivos para DEP de Gordura e leite a fim de terem matrizes cruzadas precoces e machos pesados e bem terminados a pasto ou no semiconfinamento, e quanto às raças a serem usadas nas meio-sangue Angus, recomendamos o Senepol ou Caracu para o caso de aproveitarem as fêmeas tricross como matrizes ou então usarem sêmen de Bonsmara, caso queiram fazer cruzamento terminal. Já para inseminar as meio-sangue Brangus, no sentido de aproveitar as filhas para reposição, recomendamos o Bonsmara, que gerarão filhos meio-sangue europeus, podendo ser usadas como matrizes, além de se gerar heterose máxima com isso.

Caso sigam o cruzamento rotacional como forma de produção, sempre aproveitando as fêmeas de seu próprio cruzamento, os zootecnistas obterão o máximo em desfrute, que se pode conseguir através da genética.

Outra importante visita realizada foi na fazenda gerenciada por Adolfo, experiente administrador, que com muito argumento técnico convenceu os proprietários desse criatório localizado próximo ao município de Santa Rita do Pardo a cruzar com Angus. Mesmo desconfiados, os criadores, que nunca abriram mão de produzir bezerros Nelore, ficaram muito satisfeitos com os excelentes pesos de seus cruzados, autorizarando o aumento do uso de sêmen de Angus.

Durante essa semana, atendemos muitos amigos produtores e técnicos que, com raras exceções, vêm se deparando com a seguinte questão: “Zadra, qual raça uso nas meio-sangue Angus?”.

Sem querer ser o “Vate” da genética nacional, lembro que em 2008 previ nesse mesmo espaço que teríamos, em 2013, milhares de novilhas meio-sangue Angus entrando no cio e que a partir de então essa “rainha da pecuária”, como apelido essa fantástica fêmea, seria utilizada como a principal matriz dos principais programas de carne macia do País.

Pois bem, chegou a hora. Agora devemos usar nessas F1 raças bimestiças e adaptadas, a fim de tornar realidade a produção de carne de qualidade, torcendo para que os frigoríficos possam valorizar ainda mais esse produto.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]