Sanidade

 

CARRAPATO, para combater, é preciso conhecer

A tendência é o produtor não seguir nenhuma receita de bolo e desenvolver para sua propriedade um programa específico de controle

Afonso Celso Villa Dobritz*

Considerado o parasita que causa maiores prejuízos aos rebanhos tropicais, o carrapato do boi, Ripicephalus microplus, é um parasita que acompanha os bovinos desde sua evolução, tanto que seu antigo nome (Boophilus microplus) tem origem grega e significa “amigo do boi”. Com origem provável da Ásia, o carrapato encontrou na região tropical do Globo Terrestre as condições ideais para desenvolvimento. No Brasil, o carrapato é um problema para quase todos os rebanhos.

O carrapato do bovino possui um ciclo de vida dividido em duas fases, uma parasitária e outra de vida livre. A fase parasitária tem uma duração praticamente constante, ao redor de 21 dias e inicia-se quando as larvas infestantes sobem no bovino e termina quando a fêmea adulta repleta de sangue (teleógina ou “jabuticaba”) cai no solo para realizar a oviposição. Já a fase de vida livre inicia- se quando a teleógina cai no solo e termina quando a larva infestante sobe no bovino. Essa fase tem duração variável, muito dependente das condições de temperatura e umidade, podendo variar de 28 a 300 dias. No Brasil Central, de uma forma geral, temos boas condições para o desenvolvimento do carrapato durante todo o ano.

Um ponto que chama a atenção nesse parasita é o potencial biológico da espécie, visto que uma teleógina tem capacidade de colocar algo em torno de 3.000 ovos. Isso nos mostra a necessidade de termos um controle muito bem realizado, pois cada fêmea que completar ciclo poderá gerar mais 3.000 novos carrapatos e, dessa forma, as pastagens vão se tornando cada vez mais infestadas e os prejuízos vão aumentando. Estudos mostram que os carrapatos que vemos nos animais correspondem a apenas 5% do total dos parasitas presentes em uma fazenda. Os outros 95% estão nas pastagens. Vale ainda ressaltar que desses 5% visualizados, o produtor enxerga apenas as teleóginas, sendo que o número de larvas e ninfas é ainda maior, porém, passa despercebido. Por isso, esse é um ponto fundamental quando pensamos em estratégias de tratamento!

E de que vivem esses carrapatos? Bem, todos sabemos que vivem basicamente de sangue, em média 3 ml/ carrapato. Aí já podemos identificar qual o principal prejuízo que ele traz aos bovinos: a retirada de sangue que leva a quadros de anemia, deficiência de nutrientes, com consequente diminuição do potencial produtivo de carne e leite; além de causar irritação na pele e lesões no couro. Porém, na maioria das vezes, esses prejuízos passam despercebidos pelo produtor.

As lesões no couro levam a uma menor valorização, e o produtor quase nunca recebe esse plus. Temos ainda as infecções e miíases predispostas pelas CARRAPATO, Fotos: Divulgação REVISTA AG - 61 lesões causadas, entretanto, ainda assim o produtor dificilmente as vê como problema associado ao carrapato. A infestação dói mais aos olhos do que ao bolso de maneira direta, por isso o controle acaba sendo negligenciado.

De conhecimento e preocupação mais frequente do pecuarista, a Tristeza Parasitária Bovina é um complexo formado por duas doenças: Babesiose e Anaplasmose. Doenças que são, em termos gerais, transmitidas pelos carrapatos enquanto se alimentam dos bovinos. A sintomatologia e lesões causadas por elas são muito semelhantes e podemos resumir em invasão e destruição das células do sangue (hemácias). Com isso, os animais entram em quadros de anemia e comprometimento geral, ficando “tristes”. Podemos destacar que esses quadros de comprometimento geral são agravados pelas lesões que o fígado sofre. Por isso, quando os animais são tratados não podemos nos esquecer desse importante órgão.

Controle

Como foi descrito, a maior parte dos carrapatos está nos pastos, onde é muito difícil conseguirmos uma ação e controle efetivos contra eles. Podemos lançar mão de rodízios de piquetes, consorciar pastagens com lavouras, com o intuito de quebrar o ciclo dos carrapatos, que ficariam sem contato com os bovinos e acabariam por morrer.

Porém, na prática, a opção mais utilizada são os produtos carrapaticidas, aplicados diretamente nos bovinos, em épocas estratégicas, visando ao controle no animal e uma diminuição da infestação das pastagens.

Dos carrapaticidas disponíveis, os mais tradicionais são aqueles à base de Piretroides – Cipermetrina, Organofosforados DDVP, Diclorvós, entre outros – e Amidinas – Amitraz. Esses produtos, em geral, agem por contato, ou seja, vão matar os carrapatos que entrarem em contato direto com o produto. Por se apresentarem, na maioria, na forma de produtos para banho ou pulverização, apenas irão morrer os carrapatos que forem molhados pelos produtos. Assim, se faz necessário molhar o animal em toda a superfície para matar os parasitas que estão nas mais variadas localizações. Por possuírem poder residual baixíssimo, vão atuar contra aqueles presentes no momento da aplicação e sobre as larvas que subirem nos animais em poucos dias após a aplicação, após isso já não surtem mais efeito.

Segundo Afonso Dobritz, associar produtos que agem em diferentes fases do ciclo de vida e com princípios diferentes também traz um melhor resultado

Há cerca de 30 anos surgiram os endectocidas: as Avermectinas – Ivermectina, Doramectina e Abamectina – e Milmebicinas (Moxidectina), produtos que possuem ação eficaz tanto contra os parasitas internos quanto contra os carrapatos. Com a vantagem de serem produtos de ação sistêmica, ou seja, uma vez na circulação sanguínea dos bovinos, vão agir contra carrapatos em qualquer parte do corpo, basta o parasita ingerir sangue contendo o produto. Outra vantagem desses medicamentos é que agem contra os parasitas por um período de tempo maior que os produtos de contato.

Recentemente surgiram os Benzofenilureas (Fluazuron). Esses carrapaticidas têm um modo de ação particular, pois inibem a formação de uma glicoproteína que reveste os carrapatos, a quitina. Para entendermos melhor, é a quitina que forma grande parte da carapaça do carrapato, ou seja, é responsável pela sua sustentação e proteção. De ação sistêmica, o Fluazuron aplicado via pour-on é distribuído por todo o organismo dos bovinos e todos os carrapatos que vierem a ingerir sangue com o produto terão sua produção de quitina prejudicada. Mas aí existe uma dúvida: quando o carrapato forma essa carapaça? Bem, ele já nasce do ovo com uma pronta, e durante sua vida parasitária, faz duas mudas: uma quando se transforma de larva para ninfa e outra quando muda de ninfa para adulta. São nessas fases de mudança que o carrapato que ingeriu Fluazuron vai morrer. Bem, mas e as teleóginas, elas não serão afetadas? Diretamente não, pois não vão mais produzir uma nova carapaça dependente da quitina, porém, os ovos colocados por ela, serão em menor número e menos férteis. Assim a população de carrapatos nos pastos vai diminuir com o tempo. E é nesse caminho que se segue para o controle dos carrapatos...

Por que o tratamento falha?

E se as pesquisas são tão evoluídas e os produtos têm comprovações e testes, sempre nos perguntamos por que há tanto insucesso nos tratamentos? Vamos observar aqui alguns pontos importantes.

Quando falamos dos produtos que agem por contato, uma explicação simplista é que os carrapatos não foram atingidos pelo carrapaticida. E isso se dá principalmente pela aplicação inadequada. De alguma forma, o banho não está molhando os locais onde o carrapato está fixado, talvez devido ao baixo volume aplicado em cada animal ou ainda pela dificuldade de acesso aos principais locais onde os carrapatos se encontram (orelhas, barbela, região ventral, úbere, região escrotal, prepúcio e axilas). Baseado nesses principais erros de manejo segue um resumo feito pela Embrapa:

Mas e os produtos injetáveis? Na maioria das vezes, os erros se dão devido à aplicação de dosagens abaixo daquelas necessárias para matar os parasitas. Já os produtos de aplicação pour-on, geralmente falham quando são aplicados em doses incorretas ou quando logo após sua aplicação “se perdem”, como numa chuva forte por exemplo.

Teleógina, ou jabuticaba, sugando hospedeiro experimental

Ainda que superadas todas as falhas de manejo, já observamos que vários produtos perderam poder de eficácia. É importante deixarmos claro que o processo de resistência dos parasitas aos diferentes produtos é um processo natural que o parasita busca para manter sua existência e que vai ocorrer sempre. E uma vez instalada a resistência dos carrapatos a um determinado produto comercial, todos aqueles que tiverem a mesma formulação ou então forem pertencentes ao mesmo grupo químico, também deixam de ter efeito no controle dessa população. Por este motivo, na hora de utilizar um produto, o pecuarista deve seguir criteriosamente a indicação prevista pelo fabricante, que visa o controle eficaz e a garantia do efeito por longo período. Sempre que o carrapato encontrar os carrapaticidas de maneira diferente daquela tida como ideal, o processo de seleção natural pode se intensificar e a resistência ao carrapaticida ocorrer de maneira mais acentuada.

Novas tendências

Com a necessidade de incremento nas produções de carne e leite, cada vez mais o produtor não pode dar espaço para os carrapatos tirarem o potencial dos animais. Por isso, um bom programa de controle se torna cada vez mais importante. Quando respeitada as indicações de cada produto, há ainda um grande número de produtos a serem utilizados em todas das categorias do setor.

Mas se a pergunta for qual a perspectiva do mercado? A tendência é o produtor não seguir nenhuma receita de bolo e desenvolver para sua propriedade um programa específico de controle de carrapatos. Os produtos de ação sistêmica vêm facilitando o manejo e reduzindo as chances de erro. Associar produtos que agem em diferentes fases do ciclo do carrapato e com princípios diferentes, também trazem um melhor resultado.

Pensando nisso o pecuarista deve contar sempre com o apoio e a orientação de técnicos habilitados e capacitados. Um bom técnico enxerga os problemas já à distância e lhe traz as melhores soluções.

*Afonso Dobritz é médico-veterinário e coordenador Técnico-Comercial na Vallée