Raça do Mês

 

Firme rumo ao Brasil Central

Qualidades produtivas e funcionalidade da raça Angus contribuem para a conquista dos criadores no Brasil Central

Alexandre Franco dos Santos.

Os números comprovam que a raça Angus tornou-se protagonista na pecuária brasileira nos últimos anos. Não são poucas as atribuições dessa raça taurina que, indiscutivelmente, complementa- se muito bem com a genética zebuína na produção de carne de qualidade.

Características produtivas e reprodutivas da raça estão sendo repas- Qualidades produtivas e funcionalidade da raça Angus contribuem para a conquista dos criadores no Brasil Central sadas, ano após ano, para criadores além do eixo do Rio Grande do Sul em fazendas do Sudoeste, Centro- -Oeste e Norte do País. Dessa forma, os benefícios ganham o território nacional e contribuem para multiplicar a genética superior do Angus. O melhor termômetro é o crescente volume de animais comercializados nos últimos Firme rumo ao Brasil Central anos, além da explosiva comercialização de sêmen.

“O pecuarista está convencido de que pode agregar em sua atividade utilizando genética Angus no cruzamento industrial. Isso ocorre não só em virtude do nosso programa de certificação, mas também da própria produtividade, em que ele consegue ter retorno acima da média, em comparação com outras raças, como retorno na conversão alimentar, ganho de peso, acabamento e qualidade da carcaça. Enfim, os ganhos são muitos para o pecuarista”, destaca Paulo de Castro Marques, presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA).

Conforme observa Paulo Marques, a feliz realidade em torno da raça é que depois de ser o dono da ‘praça no Rio Grande do Sul’, a raça Angus vem ampliando participação em novos polos pecuários – mais especificamente em fazendas de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Pará.

“Este é o resultado do trabalho conjunto com os núcleos regionais de criadores, que ajudam a expandir fronteiras no fornecimento de material genético melhorado e adaptado ao clima tropical”, assinala o presidente da ABA.

Ele também destaca o aumento da venda de reprodutores para o Brasil Central e também a crescente comercialização de sêmen – pela primeira vez a raça Angus (3,4 milhões de doses) superou o Nelore (2,9 milhões de doses) em volume, conforme o mais recente ranking da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia).

Renato Ramires, de José Bonifácio/ SP, atual presidente do Núcleo Angus São Paulo, também comprova a migração da raça rumo ao Centro-Oeste. O núcleo existe há mais de 15 anos e reúne atualmente 40 criadores que concentram uma fortíssima base de animais PO aptos para a reprodução de genética Angus adaptada ao clima tropical entre touros, matrizes, doadoras e embriões, além de sêmen.

Renato Ramires, que há 10 anos investe na raça, justifica que a expansão do Angus para outras regiões brasileiras vem ganhando força principalmente porque a raça transfere para suas cruzas alta precocidade, com menor tempo de abate, excelente peso final de acabamento de carcaça e qualidade da carne superior. “Gado Angus está pronto para abate a pasto dez meses mais cedo e com 20% a mais de peso”, endossa o pecuarista.

O Angus com genética adaptada e melhorada tem se encaixado muito bem em outras regiões e contribui para proporcionar ganhos em qualidade e valorização da carne para o pecuarista. Melhor para os produtores participantes do Programa Carne Angus Certificada, cuja arroba tem bonificação de até 10% para animais de sangue Angus. “O Programa dá ao pecuarista a segurança de retorno ao investir na genética Angus e o produto final dá garantia ao consumidor de que ele está adquirindo uma carne de qualidade superior”, complementa Reynaldo Salvador, diretor do Programa Carne Angus Certificada.

Base Nelore ajuda o Angus a conquistar o Centro-Oeste

O presidente do Núcleo Sudeste explica que, com o avanço do Angus para outras regiões, a raça tem enfrentado até falta de touros para servir a campo, permanecendo a demanda maior que a oferta. “Eu mesmo já vendi este ano 80 touros e tenho outros 30 em preparação e praticamente todos com venda antecipada devido à forte demanda para outros eixos pecuários”, diz Ramires, que tem reprodutores fornecidos por ele trabalhando em fazendas do Alto Araguaia, Goiás e Mato Grosso.

Hoje o meio-sangue Angus tem função e vira carne de qualidade diferenciada

Renato Ramires entende que o Brasil é pródigo na pecuária, pois conta com os atributos de rusticidade do Nelore e a produtividade Angus. “A base Nelore é elementar para se trabalhar em conjunto com a raça Angus, como já vem acontecendo na IATF (Inseminação Artificial por Tempo Fixo) com o uso de sêmen Angus em vacada Nelore e, em processo de migração mais gradual, o uso de touros Angus melhoradores e adaptados ao clima tropical com o perfil mais ajustado ao Brasil”, ressalta o criador.

Nesse processo, observam-se melhorias constantes nas novas gerações de touros adaptados às condições brasileiras, caracterizando-se por um perfil de estatura intermediária e também pela adaptabilidade para pelagens mais curtas.

ADAPTADO AO CALOR

Outro bem sucedido projeto pecuário com o uso da genética Angus PO ajustada ao clima tropical é do criador Luis Henrique Campana Rodrigues, da HR Agropecuária (Pontalinda/SP). A propriedade concentra toda a base genética pura Angus adaptada da empresa, formada por 200 animais PO, sendo que 60 matrizes, em média, são trabalhadas para a coleta e produção de embriões para a geração de touros e fêmeas PO de reprodução adaptados e aptos para servirem a pasto.

Além de Pontalinda, a HR Agropecuária possui outras quatro unidades pecuárias entre São Paulo e Goiás, onde são feitas a recria e a terminação. A base zebu da empresa é formada por 1,8 mil matrizes, entre Nelore Padrão e Mocho.

A fazenda do interior de São Paulo é uma referência importante no trabalho de reprodução e repasse da genética Angus porque está em um raio de 100 quilômetros com conexões com três Estados distintos: Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás, todos abastecidos com animais adaptados, oriundos da genética da HR, em franco trabalho nas estações de monta em fazendas dessas regiões.

“Temos um mercado gigantesco no Brasil e é cada vez mais requisitada essa disponibilidade pela genética taurina adaptada aos trópicos, como é o perfil da pecuária brasileira. Por isso, é fundamental que os núcleos de criadores fomentem a produção de uma genética nacional adaptada para atender o Sudeste e o Brasil Central e até mais ao Norte do País. A genética tem de ser cada vez mais ajustada às regiões brasileiras e às suas realidades climáticas e produtivas, sem se descuidar de renovações importantes também nas linhagens de origem importada”, diz Luis Henrique Campana Rodrigues, que há 12 anos trabalha com a raça e reconhece que tudo que procurou em termos de qualidade e melhor remuneração na produção de carne e genética, ele conseguiu com o Angus.

Luis Henrique informa que prepara pelo menos 120 touros para o repasse e comercialização em leilões ou em vendas diretas na fazenda. São animais que, depois de submetidos a apartação, seleção genética fenotípica e genotípica e análises de reprodução, são repassados na média com dois anos de idade e prontos para o serviço de monta natural.

Por ano, a HR Agropecuária, em seu sistema de pecuária de corte, faz a engorda a pasto e terminação em confinamento de 1,5 mil animais de cruza Angus. Os animais são separados em lotes e confinados por 90 dias, sendo que as fêmeas chegam ao final pesando 15 arrobas e os machos, a 18,5 arrobas.

“O rendimento médio de carcaça é de 55% com os animais abatidos aos 18 meses de idade, comprovando toda a precocidade que o cruzamento industrial oferece nos produtos meio-sangue Angus. São animais com qualidade de carne e de carcaça, ajustados perfeitamente na categoria de carne premium, com marmoreio, maciez e acabamento de gordura bem uniforme”, informa.

O pecuarista destaca que a comercialização da genética Angus não só é valorizada em termos de carne produzida, como também a premiação já vem desde a venda do bezerro de cruzamento Angus, sendo na média 25% mais valorizado, por exemplo, na comercialização de um macho desmamado aos oito meses pronto para a recria.

Sobre o Programa Carne Angus Certificada, Luis Henrique reconhece que ele ajuda muito a ampliar pelo País essa procura por animais da raça e fez consolidar no mercado a preferência por essa genética taurina.

“É um programa sério, criado para fomentar a carne de qualidade no Brasil. Ele oferece ao pecuarista um sistema de bonificação muito interessante e incentivador”, celebra Luis Henrique.

PRODUTIVIDADE X QUALIDADE

Como destaca Bruno de Jesus Andrade, gerente executivo da Associação Nacional de Confinadores (Assocon), o crescimento do Angus nos últimos anos em programas de cruzamento industrial em diversas regiões do País é muito favorável para o incremento de produtividade e qualidade dos animais em terminação.

“A pecuária brasileira vem alcançando indiscutíveis avanços nos índices zootécnicos. Entretanto, deixamos de lado algumas características ligadas à qualidade da carcaça. Entendo que o pecuarista, ao promover o cruzamento ou ao utilizar raças que sabidamente oferecem qualidade de carcaça melhor, como é o caso do Angus, contribui para o mercado subir a régua em relação às exigências hoje feitas para a produção de carne de qualidade”, entende Bruno Andrade.

Ele destaca que, historicamente, paga-se mais por um produto superior, que oferece algo diferente dos demais.

“É saudável, portanto, pagar mais por um produto que oferece valor agregado. Assim, estimula-se a oferta de mais bons produtos”. E, assim, tem sido com os produtos de cruza Angus com a comprovação da qualidade de carcaça verificada no gancho pela indústria.

Renato Ramires e Luis Henrique Campana Rodrigues, grandes apostadores do Angus no Centro-Oeste

Bruno Andrade observa que as características principais são ligadas à carcaça do animal e à aceitação pelo mercado. No caso do Angus, trata-se de uma raça que já é reconhecida e cuja acessibilidade da genética vem expandindo entre os pecuaristas brasileiros.

“Constatar o crescente número de pecuaristas fora do eixo da região Sul, especialmente do Rio Grande do Sul, que se utilizam da genética Angus, é muito relevante. Ter o Angus disponível em quase todos os Estados abre as portas para se produzir carne diferenciada, com qualidade superior e que remunerará melhor o produtor”, conclui Andrade.

A Fazenda Paiolão, em Anastácio/ MS, é outro exemplo de propriedade que também vem obtendo resultados superiores com o uso da genética Angus.

“Se por um lado ainda é preciso aumentar a oferta de touros de serviço a campo adaptados na minha região, por outro, é indiscutível a obtenção de ganhos importantes no meu sistema de cruzamento industrial, com o uso específico de genética da raça por IATF. A Paiolão insemina atualmente duas mil vacas Nelore por estação de monta”, explica o pecuarista Carlos Sguissardi Krause.

“Uso especificamente a genética canadense e norte-americana Angus porque pessoalmente percebo nestas linhagens maior qualidade produtiva e maior opção de genética disponível”, destaca Krause, que faz a reprodução e a engorda de animais meio-sangue Angus exclusivamente em sistema a pasto.

Ele diz que há nove anos utiliza essa genética com bons resultados na fazenda do Mato Grosso do Sul, tanto em relação ao aumento da produtividade quanto à qualidade da carne.

Krause abate animais precoces ½ sangue (Nelore x Angus) com peso médio de 20 arrobas aos 24 meses e superprecoces com média de 18 arrobas (15 meses para os machos e de 14 arrobas para as fêmeas) na mesma média de idade.

Esses produtos são comercializados integralmente à unidade da Marfrig, de Bataguassu/MS, onde o pecuarista recebe bonificação superior por arroba, por fazer parte do Programa Carne Angus Certificada, do qual participa desde 2010.

Segundo Paulo de Castro, os ganhos com a genética Angus são muitos para o pecuarista

“Acredito que deve haver incentivo maior nos próximos anos, já que se comparada a outros países nossa carne ainda é barata. Sou a favor de novos investimentos em marketing, para que se consiga vender melhor essa carne e haja o repasse de parte dessa valorização ao produtor, que só assim conseguirá produzir cada vez mais com maior qualidade”, enfatiza Krause.

O pecuarista conta que outro importante ganho no seu sistema de manejo é o avanço da precocidade de suas novilhas meio-sangue. Ele tem feito pressão de seleção para que as fêmeas superprecoces emprenhem já aos 14 meses e trabalhem em pelo menos duas estações de monta, conseguindo dois bezerros por fêmea antes do descarte para engorda e abate.

Com esse objetivo, a fazenda Paiolão, conduzida pela família Krause (o pai Nélson Krause e os filhos Analice e Carlos), reservou 200 novilhas no ano passado e está preparando 500 fêmeas jovens para esta próxima estação de monta.

GANHO DE PESO

Outro projeto bem sucedido com o uso da genética Angus no Centro-Oeste é do Grupo Leopoldino, que tem cinco unidades instaladas no Mato Grosso, nos municípios de Água Boa, Paranatinga e Bom Jesus do Araguaia, no Mato Grosso. O diretor de pecuária do grupo, Gustavo Pires Ribeiro, médico-veterinário e consultor da [email protected] Consultoria em Agronegócio, destaca que há mais de dez anos é um incentivador do uso da raça Angus nos programas de cruzamento industrial na região do Vale do Araguaia. Entre os principais motivos, ele destaca o ganho de heterose que os animais meio-sangue Angus x Nelore imprimem nas novas gerações.

Gustavo informa que há cinco anos o Grupo Leopoldino faz uso da genética Angus por meio da IATF na produção de fêmeas meio-sangue para reprodução. Atualmente, o plantel com essa genética é formado por oito mil matrizes de produção a pasto.

“São animais mais precoces na fertilidade, com ganho entre dez e 12 meses em comparação com fêmeas zebuínas. Na média, as fêmeas meio-sangue Angus ficam prenhes entre os 13 e 15 meses e alcançam o índice de 60% de prenhez. A precocidade no ganho de peso também é outra característica bem evidente: os machos meio-sangue são abatidos com um ano a menos (média de 18 meses e 19 arrobas, com terminação de 90 dias), em confinamento, em relação aos bezerros mais rústicos, cuja média de engorda gira entre os 24 e 30 meses”, destaca Gustavo Ribeiro.

Gustavo Ribeiro. Outra vantagem observada pelo Grupo Leopoldino, que confina 6 mil cabeças por ano, é em relação à rápida Segundo Paulo de Castro, os ganhos com a genética Angus são muitos para o pecuarista Foto: Página Rural REVISTA AG - 51 adaptação dos animais. “Já ao serem colocados no confinamento, os animais de cruza Angus começam a ganhar peso enquanto outros lotes precisam, em média, de 10 dias para a adaptação e início do ganho de peso”, comprova o técnico.

Gustavo relata que, ao final do ciclo de engorda, tem para entregar à indústria animais superiores e com qualidade de carne, produtos terminados de cruza Angus, que apresentam gordura entremeada, carne mais macia e suculenta e, portanto, mais atrativa para a indústria e para o consumidor, ao invés apenas da gordura subcutânea, como é característico em animais com sangue mais rústico.

De acordo com o consultor, a grande expectativa para 2014 é a abertura do Programa Carne Angus Certificada, mais especificamente na região de Barra do Garças/MT, onde existe uma unidade do frigorífico JBS e, já há algum tempo, indústria e pecuaristas trabalham para acelerar o processo de entrega de animais Angus para abate com arroba bonificada.


Programa com mania de qualidade

O Programa Carne Angus Certificada, há mais de uma década, serve de referência para o mercado em termos de fornecimento de carne de qualidade superior comprovada.

É um programa pioneiro no País e que conta, ao longo dos anos de existência, com ações diferenciadas, que objetivam expandir fronteiras para outros Estados e consolidar alianças comerciais relevantes.

Trata-se de iniciativa da Associação Brasileira de Angus que celebra o reconhecimento do valor da carne diferenciada e nobre oriunda da genética Angus como produto de maior valor agregado e que proporciona melhor equilíbrio à cadeia produtiva da carne bovina.

Isso porque o Programa Carne Angus Certificada é bom para a indústria, que passou a oferecer aos seus clientes produtos de melhor qualidade; e, na outra ponta, é excelente para o consumidor final, que pode adquirir carne mais nobre.

Já pelo lado do criador, o que mais interessa é ter a valorização do seu trabalho ao obter bonificação no fornecimento de animais Angus ou cruza Angus.

“É muito importante que, junto com a expansão da genética Angus para outras regiões do País, o programa seja ampliado para proporcionar melhor remuneração ao pecuarista com base na qualidade, produtividade e desempenho obtidos”, conclui o pecuarista Carlos Sguissardi Krause, da Fazenda Paiolão, no Mato Grosso do Sul.