Caprinovinocultura

 

Alta prolificidade: vantagens e cuidados

Os partos múltiplos são importantes para a produtividade dos rebanhos, mas o produtor deve ter atenção especial com a saúde dos animais

Denise Saueressig
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Fator de grande influência para a eficiência produtiva e reprodutiva dos rebanhos, a alta prolificidade é uma característica notável em criatórios de ovinos e caprinos. Entre os ruminantes domesticados, são as espécies mais prolíficas, com destaque para os caprinos e raças como Anglo Nubiana, Saanen, Moxotó e Canindé.

São diversos elementos que exercem ingerência sobre os índices, como raça, genética, condição nutricional, idade, ordem de parto, clima e manejo sanitário. “Em relação à genética, pelo menos para a espécie ovina, já foi relatada e comprovada a existência de mutações em certos genes que estão associados à maior prolificidade”, descreve o zootecnista Kleibe de Moraes Silva, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Essas mutações são conhecidas como Fec., detalha o especialista. “Na raça australiana Merino, variedade Booroola, foi identificada a mutação FecB; na raça Romney, variedade Inverdale, foi descoberta a mutação FecX, e na raça Cambridge foi descoberta a mutação FecG. Todas afetam a taxa de ovulação e prolificidade”, explica.

A Embrapa também mapeou e patenteou a mutação FecGE na raça deslanada Santa Inês. “Essas mutações consistem na troca de um único nucleotídeo na sequência do gene alterando sua expressão”, relata Silva.

Fêmeas bem alimentadas, com escores de condição corporal entre 3 e 4, têm melhores condições de nutrir os embriões durante a gestação. Quanto à idade, matrizes adultas têm seu aparelho reprodutor fisiologicamente mais amadurecido e, portanto, melhores condições de ovulação e nutrição dos embriões. “A ordem de parto também influencia, ou seja, fêmeas multíparas (que já apresentaram mais de um parto) têm mais chances de apresentarem partos múltiplos comparadas com as fêmeas primíparas (de primeiro parto) por possuírem aparelho reprodutor mais desenvolvido”, acrescenta o zootecnista.

A opção por animais mais prolíficos deve estar acompanhada de um manejo sanitário e nutricional adequado

Manejo adequado

Os benefícios da alta prolificidade variam de acordo com o perfil da produção. Em sistemas semi-intensivos ou intensivos, com uso de suplementação e cuidados sanitários adequados, é altamente desejável para o aumento da produtividade e da taxa de desfrute. No entanto, em rebanhos mantidos em sistemas extensivos, os altos índices de nascimento podem significar alguns riscos para os animais. Nesses casos, o plantel é criado solto, o que pode elevar a taxa de mortalidade. “O principal problema com as crias de parto múltiplo é o peso inferior e a fragilidade dos cordeiros, que terão dificuldade de se alimentar, uma vez que podem sofrer competição com as crias maiores e estarão mais sujeitos a pisoteio e ataques de predadores”, alerta o pesquisador da Embrapa.

Silva recomenda que os produtores, ao optarem por animais mais prolíficos, adotem um manejo sanitário e nutricional compatível com o sistema, para que ovelhas e cordeiros recebam alimentação adequada ao longo da gestação, no período da amamentação e após o desmame.

Em média, entre os caprinos, as crias de parto duplo e triplo nascem, respectivamente, 15% e 35% mais leves que os de parto simples. E parte dessa diferença pode perdurar até a idade de abate do animal. “Neste caso, é necessário analisar se rebanhos com maior taxa de partos múltiplos são economicamente viáveis, levando-se em consideração maiores taxas de mortalidade, maior tempo para atingir peso para abate ou idade para a primeira gestação e os custos com cuidados adicionais com as crias e a matriz, quando comparado com rebanho com maior taxa de partos simples”, aconselha.

Nova descoberta

Uma das tecnologias de prolificidade mais conhecidas no Brasil foi introduzida no País pela importação de três carneiros ½ Romney Marsh + ½ Merino Australiano da linhagem prolífica identificada na Austrália, denominada Booroola. Esses animais chegaram à Embrapa Pecuária Sul, em Bagé/RS, em 1980, conta o veterinário José Carlos Ferrugem Moraes, pesquisador da unidade.

De lá para cá, foram realizados vários estudos sobre os aspectos básicos do gene na produção e os efeitos do gene sobre a fisiologia reprodutiva. “Com o foco na produção de carne via exploração da prolificidade, essa mutação foi introduzida nas raças Texel e Corriedale”, cita Moraes, lembrando que a utilização da tecnologia depende de que os sistemas de produção já apresentem um bom desempenho em relação à taxa de cordeiros nascidos e desmamados.

Hoje está em implantação um programa para a consolidação do mercado de carneiros dessas raças portadores do gene Booroola com a colaboração da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul e da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco). Para auxiliar os produtores e técnicos nesse trabalho, a Embrapa lançou em 2010 um guia completo e detalhado com todos os procedimentos que devem ser adotados para o sucesso no uso da tecnologia.

Agora os pesquisadores também avaliam uma nova mutação genética que foi chamada de Vacaria. A característica foi identificada em um projeto que iniciou em 2004 e foi fundamentado na prospecção de genes de efeitos relacionados à prolificidade nas raças ovinas lanadas exploradas comercialmente no Sul do Brasil. Um dos caminhos para a busca foram os registros de ovelhas com partos triplos na Arco. “Nas famílias em que a prolificidade era uma característica constante e os produtores não tinham utilizado hormônios para indução de ovulação, foram colhidas amostras de sangue para extração de DNA”, declara Moraes.

A mutação foi identificada em uma frequência em torno de 10% nas populações avaliadas da raça Ile de France. “O aumento da frequência desse gene principal nas criações viabiliza a introdução ou o incremento rápido da prolificidade para posterior continuidade da seleção das demais características desejadas pelo produtor”, salienta o veterinário.

No futuro, a característica poderá ser introduzida em rebanhos de outras raças quando o objetivo for de incrementar a prolificidade. Entretanto, ressalva o pesquisador, essa possibilidade ainda requer mais estudos.