Leite

 

Seleção para CASCOS

Aspectos genéticos do melhoramento da qualidade dos cascos em gado de leite

Nilson Milagres Teixeira*

Depois da produção de leite, as características a serem consideradas na seleção em gado de leite poderão variar de um produtor para outro. Há muito tempo discute-se sobre a importância de características de tipo. Existem produtores que se preocupam somente com produção e, em um outro extremo, produtores que só se preocupam com o tipo. Possivelmente, a maioria que explora raças especializadas encontra-se entre esses dois extremos.

Desde o início da década de 1980, nos Estados Unidos, vêm sendo registradas informações detalhadas de características de tipo nas principais raças leiteiras, usando-se um sistema com base em escores ou classificações. Em países da Europa, sistemas semelhantes de avaliação são também utilizados. As características de tipo recebem cada qual um escore em uma escala numérica com amplitude suficiente para permitir, tanto quanto possível, maior precisão nas avaliações, pretendendo-se, com isso, que as filhas dos touros em teste sejam avaliadas sem necessidade de agrupar componentes de tipo. Os escores variam em uma escala contínua entre extremos biológicos, daí a designação “escores lineares”.

Em Minas Gerais, a Associação de Criadores de Gado Holandês vem há anos registrando dados de tipo, e em 1999, foi realizada pela Embrapa Gado de Leite a primeira avaliação para escore final de tipo e composto de úbere.

Dentre as características avaliadas nesses sistemas de classificação visual, incluem-se a forma dos cascos e as pernas posteriores, vistas de lado. Aspectos ligados à locomoção são também contemplados. Por outro lado, alguns trabalhos de pesquisa já foram realizados em rebanhos de instituições públicas em que foram feitas medições nos cascos.

Casqueamento preventivo também é uma ação que promove bem-estar animal

Inicialmente, descrevem-se características do casco mais comuns para definição de qualidade. Em seguida, faz-se uma abordagem sobre o controle genético dessas características e, finalmente, apresentam- se conclusões sobre possibilidades de melhoramento genético.

Características dos cascos

Os problemas com os cascos possuem importantes implicações econômicas diretas, tais como gastos com toalete, pedilúvio, mão de obra e tratamento veterinário; e indiretas, como queda na produção de leite, descarte involuntário, diminuição de fertilidade, da vida útil e do valor do animal para abate.

No Brasil, não existem estatísticas sobre danos causados por problemas de cascos. Em países europeus, em geral, 25% das vacas recebem, anualmente, algum tipo de tratamento por problemas de casco, das quais dois a três por cento são descartadas por problemas de pés e pernas.

Em geral, diz-se que um casco é de boa qualidade quando é pouco suscetível a doenças e dispensa cuidados especiais. A qualidade pode ser definida por características que apresentam correlação alta com problemas e com perdas decorrentes dos mesmos. Para que uma característica de casco seja incluída em um programa de melhoramento, ela deve ser obtida a custos razoáveis e com precisão. Além disso, deverá apresentar variação genética aditiva suficiente e alta correlação com a qualidade. A taxa de mudança pela seleção será tanto maior quanto maior a heritabilidade da característica. Heritabilidade é uma medida da parte da variação das característica sob controle genético. Como regra geral, características com heritabilidade menor do que 10% são consideradas baixas, entre 10 e 30% de heritabilidade, moderada, e maior que 30%, alta.

Quadro 1 - Heritabilidades para medidas do casco

Medidas, propriedades físicas e químicas e estrutura interna dos cascos relacionadas com a qualidade foram descritas por POLITIEK em 1986. Sabe-se que os animais diferem quanto à aparência física dos seus pés e o ambiente desempenha papel importante, razão pela qual se torna difícil por meio de avaliações visuais da conformação dos pés determinar diferenças genéticas. Precisão e repetibilidade das medições são os critérios que definem a conveniência de se adotarem medições do casco, sendo as razões pelas quais o comprimento da parede dorsal (muralha) e seu ângulo com a sola do casco serem as mais frequentemente usadas. Medidas do casco são ilustradas no Quadro 1. O comprimento do casco ou a medida da parede dorsal ou da muralha, entre a linha da coroa e a extremidade frontal do casco, pode ser determinada por meio de um compasso. O ângulo é medido por meio de um aparelho apropriado (medidor de ângulo) e a altura, por meio de uma régua que deverá medir a distância entre a superfície do solo e a linha de cabelos (raízes dos cabelos). A medida da diagonal, da ponta do casco ao calcanhar, é relatada em trabalhos realizados na Holanda.

Controle genético

Heritabilidades para características do casco encontram-se no Quadro 1. Para vacas de primeira lactação, as heritabilidades relatadas para comprimento, ângulo e altura do casco variam de 0,10 a 0,25. Em um sumário dos trabalhos de pesquisa conduzidos na Carolina do Norte, Estados Unidos, a heritabilidade do ângulo do casco foi 0,18, do comprimento, 0,25%, e da altura, 0,07. Uma característica com heritabilidade de 0,18 pode ser modificada pela seleção, embora mais lentamente do que outra como produção de leite, cuja heritabilidade seja 0,25.

Pela heritabilidade do comprimento do casco, conclui-se que ele poderia ser modificado por meio da seleção tão rapidamente quanto a produção de leite, porém, pouco se ganharia selecionando- se para altura do casco. O valor estimado da heritabilidade da diagonal foi alto (0,50) em animais Holandês-Frisio, na Holanda. As unhas internas das patas dianteiras e as externas das patas traseiras parecem apresentar mais variação genética aditiva do que as unhas opostas das patas dianteiras e traseiras. Sugerem, então, que as primeiras sejam preferidas ao se realizarem as medições.

Para Nilson Milagres, é necessário investigar as correlações entre características do casco e as de produção de leite, fertilidade e longevidade

Embora possam ser esperados progressos genéticos pela seleção com base em escores, esses têm demonstrado que a precisão da seleção é baixa e que aspectos mais importantes da saúde dos cascos e distúrbios da locomoção não são eficientemente detectados. Os valores estimados da heritabilidade para ângulo do casco e pernas vistas de lado, na raça Holandesa, usando- -se escores, foram, respectivamente, 0,10 e 0,16. O valor 0,10 permite concluir que o progresso para ângulo será mais lento do que se fossem realizadas medições (Quadro 1). Por outro lado, alguma mudança poderia ser obtida, por meio da seleção de pernas vistas de lado. Havendo justificativa para inclusão dessa característica em um programa de seleção, devem ser usados os valores genéticos dos touros para a mesma somente para identificar fêmeas a serem acasaladas com touros escolhidos pela sua superioridade em outras características como produção de leite, uma vez que é a mais importante.

Quadro 2 - Correlações genéticas entre medidas do casco e outras características de importância econômica

Correlações genéticas

O conhecimento das relações entre características do casco e características de importância econômica como produção de leite, vida útil e fertilidade é importante para os programas de seleção. Comumente, estimam-se correlações genéticas entre medidas do casco e período de serviço, produção de leite e gordura, e vida útil. Pelos valores relatados (Quadro 2), concluiu-se que seleção para aumentar a produção de leite não afeta ângulo do casco, porém, a melhoria na produção de gordura causaria redução do ângulo do casco. Esses resultados surpreenderam, uma vez que produções de leite e gordura são controladas por muitos genes em comum, de modo que não se esperaria que as correlações com ângulo dos pés fossem tão diferentes. O comprimento do casco, por outro lado, deverá aumentar com a seleção para maiores produções e a altura do calcanhar decresceria ligeiramente. Todas essas relações são indesejáveis. Cascos com maior ângulo e mais curtos estavam associados com períodos de serviço mais curtos, maior sobrevivência até cinco anos de idade e mais idade por ocasião do descarte, todos esses são resultados desejáveis.

Maior altura do calcanhar resultou em períodos de serviço mais longos, porém, a duração da vida útil foi maior.

Em muitos estudos sobre vida útil já realizados em gado de leite, de um modo geral, o melhor previsor tem sido a produção. Vacas de baixa produção tendem a permanecer menos tempo no rebanho. Escores baixos para ângulo do casco são atribuídos a ângulos pequenos, sendo os menos desejáveis. Escores baixos para pernas posteriores, vistas de lado, indicam pernas retas e escores altos, pernas muito curvas. As correlações entre características dos cascos (ângulo do casco) e pernas vistas de lado e o lucro durante a vida útil ou número de meses em produção de leite Quadro 2 - Correlações genéticas entre medidas do casco e outras características de importância econômica até 84 meses de idade foram próximos de zero, respectivamente, -0,07 e 0,05, significando que a seleção para melhorar pés ou pernas será frustrante porque o progresso será lento e muito pouco será conseguido com relação à lucratividade durante a vida útil. Se a pressão de seleção da produção de leite for sacrificada para melhoria de pés e pernas, o impacto sobre o lucro seria negativo.

Conclusões

Algumas conclusões sobre questões relacionadas com a qualidade dos cascos são:

1. Fatores de meio ambiente influenciam a frequência e os tipos de problemas de casco, pelo que a melhoria do manejo poderá melhorar a saúde dos cascos das vacas em um rebanho. Dentre esses fatores incluem-se instalações, alimentação, estação do ano, períodos de pastejo, etc.

2. A melhoria das características relacionadas à qualidade dos cascos deverá contribuir para redução do descarte involuntário, aumentar a vida útil e a produção durante a vida útil.

3. As heritabilidades das medições são suficientemente altas e capazes de possibilitar ganhos pela seleção.

4. Em se tratando de testes de progênie, as medidas da diagonal, do ângulo da parede dorsal do casco, do comprimento da parede dorsal, altura do calcanhar e posição das pernas das filhas dos touros são as mais úteis para a melhoria genética da qualidade dos cascos. Além disso, medidas e posição das pernas devem ser combinadas em um índice de seleção.

5. As medições deverão, de preferência, ser realizadas de uma perna dianteira e outra traseira.

6. Seleção de tourinhos com base em medições do casco a um ano de idade, em testes de desempenho, é um procedimento promissor para melhoria da saúde dos cascos das filhas.

7. A seleção de touros a serem usados em um rebanho afetará somente gerações futuras.

*Nilson Milagres é pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite