Feno e Silagem

 

FENO QUALIDADE x QUANTIDADE

André Aguiar*

O uso de feno para suplementação animal ainda é pouco utilizado, isso se deve a alguns fatores, entre eles: alto custo dos maquinários para produção, desconhecimento.

da melhor tecnologia, dificuldade na produção, etc.

Para a utilização no sistema de produção, é necessário fazermos algumas perguntas antes de tomar a decisão final de usar feno no empreendimento. Estas perguntas são:

Segundo André Aguiar, o custo de uma diária de confinamento entre um feno de alta e um de baixa qualidade pode variar em até 40%

1 – A área é passível de mecanização, de acordo com o relevo, tipo de solo, clima, etc.?

2 – Tenho possibilidade de implantar um parque de máquinas do tamanho necessário, levando em consideração manutenção, custo de operação, mão de obra, etc.?

3 – Tenho capacidade de gerenciar um sistema tão complexo e a mão de obra, as máquinas, o clima, o solo?

Caso as respostas sejam todas positivas, a partir deste momento só faltaria o planejamento de produção e o uso do feno.

A grande vantagem da produção de feno está no transporte do produto acabado. Isto é, não transportamos água da área de produção para a área de consumo do alimento, então seu custo de transporte fica mais baixo que o frete de qualquer silagem.

O ponto de colheita deve ser muito bem previsto, pois a qualidade de um determinado volumoso pode cair rapidamente após o ponto ótimo de corte. E esses dados podem ser verificados no quadro abaixo.

Fonte: Laboratório de análise bromatológica da Boviplan

Visualizando o quadro acima, podemos ver uma variação muito grande entre a qualidade do feno entre as áreas nove e 25. Todos esses fenos foram produzidos em terrenos de capim braquiarão. A diferença entre eles foi o ponto de colheita.

Outro problema importante na produção de feno é que a época de maior produção também é aquela de maior incidência de chuvas, então, o produtor rural tem de passar a ser especialista em previsão de tempo, pois se cortar uma área de produção e ocorrer uma chuva forte sobre a massa que está cortada e em processo de secagem, aumenta-se a fermentação (e, por consequência, a perda de qualidade) e também os casos de tempo, pois se cortar uma área de produção e ocorrer uma chuva forte sobre a massa que está cortada e em processo de secagem, aumenta-se a fermentação (e, por consequência, a perda de qualidade) e também os casos de aparecimento de fungos no material enfardado.

Uma diferença muito importante em se utilizar feno ou silagem é a perda de matéria seca no processo de conservação. O maior prejuízo na conservação da silagem é no processo de ensilagem e, na conservação do feno, é na colheita.

O planejamento criterioso é imprescindível para o sucesso da produção de feno, principalmente o planejamento do parque de máquinas. Esse deve estar dimensionado com relação à área que será trabalhada e com o histórico de chuvas da propriedade.

Com isso em mãos, podemos verificar a quantidade de dias perdidos por excesso de chuva (máquinas não podem entrar no campo) e dias que não pode haver material cortado no solo para não receber água.

Depois de 14 anos trabalhando com feno em confinamentos com até 15.000 cabeças, o grande problema inicial foi encontrar máquinas que pudessem processar os fardos de feno (normalmente de grande volume) para utilizarmos o material picado em misturadoras de ração que o iriam distribuir nos cochos. No começo, utilizaram-se máquinas que cortavam um rolo de 400 kg ao meio e depois esse rolo partido era lançado dentro de um vagão misturador vertical para que fosse repicado. O tempo para esse processamento era muito elevado e ficou determinado que, se quiséssemos aumentar o confinamento de 3.000 para 5.000 cabeças, seria necessário buscar outra opção. A procura dessa alternativa terminou na fábrica do “Haybuster” nos Estados Unidos, onde se produzia um moinho de feno para grandes volumes, que seria uma excelente alternativa para o crescimento do projeto.

Após o processamento, foi necessário reidratar o volumoso, para que não ocorresse segregação do concentrado. Então, o projeto do volume de água necessária e como adicionar essa água (volume x tempo) foi um trabalho à parte. Quando se adiciona água em excesso ou muito rápido, ocorre uma perda de efluente muito grande do feno (qualidade perdida: conteúdo celular). Projetou-se um “chuveirão” com o qual foi possível distribuir a água uniformemente em todo o vagão misturador e em uma velocidade que não acontecessem perdas por efluente. Para ficar melhor exemplificado, dependendo do clima de uma determinada região, que pode secar uma ração no cocho mais rapidamente que em outra região, pode ser necessário adicionar mais de 1,5 o peso do feno que está sendo utilizado. Isto é, a cada 1.000 kg de feno, deve-se adicionar por volta de 1.500 litros de água. Com essa relação de água será possível transformar um feno de 90% de matéria seca em um material de 37,5% de matéria seca, ficando possível que o concentrado “grude” nas partes de volumoso e diminua a segregação no cocho.

Outro ponto importante é a cor do feno, pois ela normalmente indica a digestibilidade da proteína e da matéria seca. Um feno de alfafa, por exemplo, pode conter o mesmo nível de proteína, mas com as cores diferentes indicando variação nas digestibilidades, tanto de PB quanto de MS.

Outro ponto que deve ser levado em consideração é a relação entre qualidade do feno e quantidade de proteína e NDT produzido por hectare. Nos quadros a seguir, pode-se observar que nem sempre o feno de melhor qualidade é aquele que produz maior quantidade de nutrientes por hectare.

Segundo a qualidade do feno, o pasto 12 (veja nos quadros), no seu segundo corte, possui a melhor qualidade de proteína e a melhor qualidade de NDT, mas, em produção de nutrientes por hectare, ele continua sendo apenas o melhor para proteína e o 19 torna-se o melhor para NDT.

Na safra 2008, é possível visualizar que o custo de produção da proteína variou de R$ 1.424,50 (área 12, segundo corte) por tonelada até R$ 3.783,97 (área 3) e o custo de produção de NDT variou de R$ 254,05 (área 12, primeiro corte) até R$ 298,90 (área 1). Já na safra de 2010, o custo mais baixo do NDT foi exatamente na área 1 (R$ 235,68).

Um problema importante é que a época de maior produção também é a de maior incidência de chuvas

A variação do custo de produção da proteína no ano de 2010 já foi menor que nos anos de 2008 e 2009, pelo ajuste no parque de máquinas e nos pontos de corte. No ano de 2008, a variação foi de 165,6% e no ano de 2010 foi de 131,7%.

A grande variação da qualidade do feno força a necessidade de formulação de rações diferentes para cada área e para cada corte realizado. Com essa variação, é importante fazer um planejamento do uso das diferentes qualidades de feno, de acordo com o desenvolvimento do confinamento. No início, requer-se uma atenção maior à adaptação dos animais, indicando a necessidade de se utilizar um feno de melhor qualidade, para que ocorra um número menor de animais que “refugam” o cocho.

No final do confinamento, quando se tem animais na curva de maior deposição de gordura e menor deposição de músculo, também é necessária a utilização de feno de melhor qualidade.

O custo de uma diária de confinamento entre um feno de alta e um de baixa qualidade pode variar em aproximadamente 40%.

Sempre que for produzir um volumoso, a meta é conseguir a mais alta qualidade, pois o custo de produção é praticamente o mesmo e o valor da diária final fica bem mais barata.

A utilização do feno em grandes empreendimentos, em todo o mundo, ainda é baixa, mas com as novas tecnologias e máquinas tornou-se possível.

André Aguiar é engenheiro-agrônomo e sócio da Boviplan Consultoria