Entrevista

 

Embrapa, o grande legado do Brasil

Há quarenta anos nascia a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que tornaria o País a grande potência mundial do Agronegócio. Um legado que se estendeu pelo mundo e se renova a cada dia. Quem conta mais sobre essas conquistas é Maurício Antônio Lopes, o chefe-geral da instituição.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Como avalia o nível da pesquisa agropecuária realizada no Brasil?

Maurício Lopes - Nos últimos 40 anos, a pesquisa agropecuária brasileira contribuiu de forma fundamental para a diversificação e à inovação de sistemas agropecuários e florestais em todo o País. Hoje, a pesquisa agropecuária e as empresas vinculadas ao agronegócio no Brasil estão na linha de frente da inovação para a agricultura tropical, em âmbito global.

Revista AG - No âmbito tropical, quais países mais recorrem às descobertas brasileiras?

Maurício Lopes - A Empresa atua em projetos de cooperação técnica e transferência tecnológica com diversos países em desenvolvimento no cinturão tropical, dentre os quais destaca-se o ProSavana, uma iniciativa entre Brasil, Japão e Moçambique, que procura desenvolver pesquisas e transferência de tecnologia no corredor de Nacala, em Moçambique. Outro grande projeto é o Cotton 4 + Togo, com transferência tecnológica para a cultura do algodão dos países Benin, Burquina Faso, Chade, Mali e Togo, na África Ocidental. Atualmente, encontram-se em andamento 163 projetos de cooperação técnica da Embrapa em 55 países. São 68 projetos na África, 59 na América Latina e Caribe, 30 na América do Sul e seis na Ásia e Oceania. Entre os países com maior número de projetos estão Etiópia, Uganda, Haiti, Panamá, Cuba, Bolívia, Peru e Colômbia.

Revista AG - A empresa realiza uma intensa procura por pastagens mais produtivas. Já dispomos de cultivares capazes de resistir a uma pressão de pastejo superior a 2UA/ha?

Maurício Lopes - Já estão disponíveis cultivares de Brachiaria brizantha denominadas BRS Xaraés, BRS Piatã e BRS Paiaguás, capins selecionados pela Empresa para manejo com 2 a 3 UA/ha em solos de média fertilidade. A cultivar BRS Xaraés destaca-se pela alta produtividade; a BRS Piatã, pelo elevado valor nutritivo; e a BRS Paiaguás, pela qualidade e capacidade de produção no período seco. Além dessas, a pesquisa desenvolveu materiais para solos de alta fertilidade que trabalham com 3 a 6 UA/ha no verão. São as cultivares do gênero Panicum denominadas Tanzânia, Mombaça e Zuri. O Tanzânia é o capim com melhor valor nutritivo; o Mombaça tem alta produção de forragem; e o Zuri, lançado este ano, além de produtividade e valor nutritivo, tem alta resistência a doenças.

Revista AG - Alguns pesquisadores cobram da Embrapa mais estudos sobre consórcio entre pastagem e leguminosas e sobre o Pastoreio Racional Voisin. A entidade investe nessas linhas de pesquisa?

Maurício Lopes - A Embrapa investe em pesquisa de leguminosas há mais de 30 anos. Por exemplo, lançamos o Estilosantes Campo Grande, um sucesso no Cerrado há 15 anos. O Campo Grande é estável e persistente no consórcio com humidícola, decumbens, andropógon e brizanthas. Aporta nitrogênio equivalente a uma adubação com 120 kg de ureia por hectare, aumentando em 25% a capacidade de suporte das pastagens consorciadas. Além disso, supre proteína na dieta carente no período da seca. Para a região Norte, a pesquisa adaptou o amendoim-forrageiro da Mata Atlântica, oferecendo uma opção para o consórcio em solos mais pesados e até mal drenados. O manejo do pastejo preconizado por Voisin, na década de 1950, baseado em períodos fixos de descanso da pastagem, tornou-se obsoleto. A pesquisa agropecuária brasileira estabeleceu novas orientações de manejo baseadas nas alturas de entrada e saída ideal para cada espécie forrageira. Recentemente, a Embrapa desenvolveu uma régua que indica as alturas de manejo para os oito capins mais utilizados no Brasil.

Revista AG - A agricultura vem tomando muito espaço do gado. Quais são os reflexos na produtividade pecuária?

Maurício Lopes – Apesar de haver essa expansão de área ocupada com agricultura, a produção do rebanho vem crescendo. O rebanho brasileiro, entre os dois últimos censos agropecuários, teve uma ampliação de 3% enquanto que a área de pastagem decresceu 11%. A pecuária ainda tem taxa de lotação muito baixa, até devido à extensão de áreas degradadas no País. A capacidade de suporte atual, em média 1,2 UA/ha, pode ser facilmente elevada para 2,5 UA/ha liberando metade dos 110 milhões de hectares, ocupados pelas pastagens cultivadas, para uso na agricultura, sem impacto no tamanho do rebanho brasileiro. O desempenho dos animais, cerca de 500 g/cabeça/dia, com a melhoria no manejo das pastagens pode elevar-se para 750 g/cabeça/dia.

Revista AG - Esse impulso será suficiente para superarmos nossa atual taxa de desfrute de 20%, atingindo patamares equivalentes aos dos nossos principais concorrentes?

Maurício Lopes - A tecnologia gerada pela pesquisa agropecuária brasileira proporciona taxas de desfrutes em torno de 35% em muitos rebanhos brasileiros. Para aumentar a taxa média do rebanho total, 20%, é necessário um estímulo à adoção das tecnologias de manejo do pastejo, adubação das pastagens e suplementação alimentar no período seco. Com isso, é possível aumentar o ganho de peso individual e reduzir a idade de abate dos animais, elevando a taxa de desfrute sem afetar a competitividade internacional da carne brasileira. A nossa produção de carne baseia-se no uso eficiente das pastagens, enquanto nossos concorrentes dependem do uso maciço de grãos.

Revista AG - Produzir mais em menor área é o novo desafio do Brasil ou este já estaria bem encaminhado e as metas futuras seriam ainda mais desafiadoras?

Maurício Lopes - Nos últimos 40 anos, a agropecuária brasileira dobrou a produtividade das lavouras de grãos e, além de aumentar a das pastagens, reduziu a idade de abate dos bovinos, suínos e aves. Os maiores avanços na genética brasileira continuam sendo pelo emprego de reprodutores selecionados. Porém, o uso de tecnologia de ponta permite a identificação de marcadores moleculares, a seleção genômica e um progresso mais acelerado no melhoramento genético dos rebanhos.

Revista AG - Pensando na potência de agronegócio que o Brasil se tornou, considera que nos falta um plano para lidar com crises? Como a Embrapa se prepara para o futuro?

Maurício Lopes - Apesar dos avanços alcançados, estudos recentes mostram que a nossa agricultura será desafiada por transformações substanciais nos próximos anos. E temos ainda o aumento dos riscos na defesa agropecuária, já que novas pragas, doenças e contaminantes podem pôr em risco a segurança dos nossos produtos e a nossa capacidade competitiva. São inúmeros os avanços científicos que aumentam a nossa capacidade de inovar para enfrentar desafios. Para fazer bom uso desse arsenal de ferramentas e tecnologias, o Brasil precisará investir em processos de inteligência estratégica, que ampliem a nossa capacidade de antecipar e qualificar riscos e oportunidades, e que fortaleçam nossas instituições de pesquisa, com capacitação de recursos humanos e sofisticação de processos, métodos e instrumentação. Foi com essa visão que a Embrapa instituiu, em 2013, uma plataforma de inteligência estratégica dedicada a coleta, organização e análise de informações relevantes que nos permitam produzir conhecimentos que orientem o desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira. Esse sistema opera em rede e busca antecipar tendências e garantir o ajuste permanente das prioridades. Como primeiro trabalho desenvolvido no âmbito desse sistema, podemos citar o documento Visão 2014-2034: o futuro do desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira, concluído em abril último. Esse estudo dará suporte à revisão dos planos e ações estratégicas da Embrapa.

Revista AG - É possível afirmar que a Helicoverpa armigera está sob controle?

Maurício Lopes - O controle da sua expansão tem se dado por meio do Manejo Integrado de Pragas, mais conhecido como MIP, utilizando o controle biológico (que cresceu bastante em vários Estados), o controle cultural e, quando necessário, o químico. Se no começo havia desconhecimento, gerando pânico em muitos agricultores, com excesso de aplicação de inseticidas, hoje verificamos inúmeros insetos inimigos naturais dessa lagarta e que podem ajudar no controle. Mas, para ter esses insetos como aliados, é necessário utilizar produtos químicos de forma racional, do contrário também esses inimigos naturais serão exterminados. A Helicoverpa armigera tem preferência por atacar primeiro a parte reprodutiva de plantas, como flores e frutos de soja, algodão, milho e hortaliças. Só depois ataca folhas e talos. O ataque a pastagens foi pouco registrado no Brasil e ainda não devidamente estudado. No entanto, a pastagem pode funcionar como ponte verde da praga, onde ela encontra alimento para se reproduzir entre uma safra e outra. Isso é muito preocupante.

Revista AG - Para quanto aumentou ou reduziu as estimativas de prejuízos da lagarta?

Maurício Lopes - O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento ainda não divulgou esses dados. Sabemos que, na prática, a população de Helicoverpa diminuiu possivelmente em função de uso intenso de inseticida. No entanto, grande parte dos produtores não adotou o Manejo Integrado de Pragas, preferindo investir em uma só tática, normalmente o controle químico. Isso causou desequilíbrio no sistema produtivo e o que assistimos foi a explosão de uma outra praga secundária, a lagarta falsa-medideira, que passou a gerar mais prejuízos que a própria Helicoverpa. Isso ocorreu em vários pontos do País, desde o Sudoeste da Bahia, em Tocantins, até o Rio Grande do Sul, passando pelo MT e PR. Por isso, preferimos não tratar somente dos prejuízos causados pela Helicoverpa, mas dos prejuízos causados pelo complexo de pragas de lagartas.

Revista AG - No que diz respeito às teorias de conspiração, há a hipótese, mesmo que remota, de que a proliferação da Helicoverpa tenha sido sabotagem?

Maurício Lopes - É pouco provável que o surgimento da Helicoverpa armigera no Brasil esteja relacionado com ação de terrorismo ou sabotagem. O Brasil é muito vulnerável à entrada de pragas exóticas, afinal temos 23.102 km de fronteiras, sendo 15.735 km terrestres e 7.367 km marítimos, segundo informações do IBGE, referentes ao ano de 2012. Boa parte das vias de ingresso dessas pragas continua sendo por meio de plantas ornamentais ou condimentares, flores cortadas, frutos, etc. E a aviação é a rota de maior disseminação de pragas no mundo, pois 73% das interceptações são feitas em carregamentos aéreos. Segundo a Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária, 150 pragas quarentenárias ausentes do Brasil já estão presentes em países da América do Sul. Mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentá-las. Dentre as mais preocupantes, cinco estão sob observação atenta: o pulgão-da-soja, a necrose- letal-do-milho, a ferrugem-do-trigo Ug99, o mosaico-africano-da-mandioca e a mosca-branca da raça Q.

Revista AG - Como o agronegócio brasileiro cresce ano a ano, seria a hora de investir em estratégias que nos ajudassem a lidar com casos como esse hipotético?

Maurício Lopes - Não temos dúvida de que esse é um caminho prioritário e a Embrapa colabora com a Secretaria de Defesa Agropecuária. É de responsabilidade nossa, do setor público, ter essa visão de antever riscos e nos prepararmos de forma inteligente e tempestiva. Por isso, estamos começando agora um grande programa de melhoramento preventivo. A Embrapa está presente em várias partes do mundo - América do Norte, Europa, Ásia, África, América Latina. Por isso, temos condições de fazer um grande monitoramento de pragas, doenças e contaminantes que estão em outras partes do mundo e que podem eventualmente chegar ao Brasil, bem como definir previamente estratégias de controle, se essas ameaças chegarem. Outro caminho é o melhoramento genético de plantas para enfrentar pragas que podem chegar aqui em cinco, dez ou quinze anos.

Revista AG - Há novas pesquisas sobre o controle de carrapatos, especialmente? As vacinas ainda não têm resultado satisfatório?

Maurício Lopes - Acaba de ser publicado o artigo Reassessment of the potential economic impact of cattle parasites in Brazil, na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, que mostra a importância econômica do carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus na cadeia produtiva e a estimativa de perdas anuais para o País da ordem 3,24 bilhões de dólares. A avaliação foi realizada por especialistas da área reunidos na Embrapa, em Campo Grande/MS. O controle do carrapato deve ser uma prioridade em pesquisa tanto no manejo do controle químico devido ao aparecimento de resistência do carrapato aos produtos aprovados para o seu controle, quanto pela preocupação na redução de resíduos químicos no ambiente e nos produtos de origem animal, potencialmente, causados pelo uso desses produtos. É fundamental para o País uma política de uso técnico desses produtos no controle do carrapato por meio da rastreabilidade e pelo uso de prescrição realizada por médico- -veterinário. Atualmente, há limitações no controle e orientação de uso desses produtos, gerando riscos de contaminação. Além disso, é importante preservar o controle químico que, atualmente, é a principal ferramenta, por mais tempo. Outras alternativas de controle devem ser estimuladas por meio da pesquisa e, dentro dessa estratégia, pode-se considerar a vacina contra o carrapato uma boa opção. Já existe tecnologia nacional desenvolvida pela Embrapa com condições de controlar o carrapato no rebanho em até 50% e com potencial para chegar em 85%.